Olá, pessoal! Sejam bem-vindos a mais um vídeo do Letras na Rede. Nesta série de vídeos estamos tratando das leituras obrigatórias do vestibular da UFRGS de 2021.
Meu nome é Júlia e hoje vamos dar sequência a coletânea de contos "Papéis Avulsos" de Machado de Assis, falando sobre conto "O Anel de Polícrates". Bom, este conto é um conto curto. É um conto simples mas que pode ser um pouco complicado de interpretar.
Ele é escrito no formato de um diálogo. Isso significa que nós não temos neste conto a voz do narrador. Lembram do narrador?
Aquela voz em terceira ou em primeira pessoa que conta a história, descreve as personagens, o ambiente, a partir de sua perspectiva. Ele é muito comum nas obras de Machado mas ele não está presente neste conto. Um texto em formato de diálogo significa que usemos apenas a fala dos personagens.
Um breve parêntesis: são apenas dois contos na coletânea que possuem este formato de diálogo: "A teoria do medalhão" e "O anel de Polícrates". Eles têm em comum um assunto vamos falar um pouco mais sobre isso quando formos analisar o conto. Antes vamos ao seu enredo.
Os dois personagens que dialogam neste conto são intitulados "A" e "Z". A e Z vão conversar sobre Xavier, um amigo que eles descobrem ter em comum. O conto começa assim: A diz "lá vai Xavier".
Z responde "conhece o Xavier? " e assim se desenvolve a conversa. Logo os amigos vão perceber que a opinião deles a respeito de Xavier é completamente oposta, assim como são opostas as letras A e Z no alfabeto.
A lamenta Xavier ter sido um dia um nababo podre de rico porém muito pródigo. "Nababo" aqui significa uma pessoa muito rica. Alguém da realeza, um príncipe.
E "pródigo" significa um gastador. Por ser muito pródigo, ou seja, por usar de sua fortuna, espalhar sua fortuna sem muita consciência, Xavier acabara ficando pobre. Z estranha essa descrição de Xavier.
"Xavier podre de rico? " Para ele, para Z, Xavier era um homem simples, um homem modesto, poupado e de pouca fortuna. Para A, Xavier é o mais maravilhoso dos homens.
Ele usa imagens da literatura clássica da literatura bíblica pra descrever o quão maravilhoso é Xavier. Ele diz por exemplo, que a Aurora, a deusa do amanhecer, que lhe prepara o café da manhã. Ele diz que as colchas de sua cama eram feitas de nuvens, que ele enrolava seus cigarros com papéis de diamante, tão rico, tão grandiosamente rico era Xavier.
Mas Z discorda. Este não é o Xavier que ele conhece. Logo vamos compreender qual é a origem do desentendimento entre os amigos.
A explica que ele fala do Xavier interior, do Xavier das ideias. Este é o Xavier rico. O Xavier é rico em ideias, em imagens.
Mas Z ainda não está convencido. Como pode Xavier ser essa pessoa tão rica em imagens se ele nunca leu nenhum livro que A descreveu. Se ele nunca leu nenhum poema, se ele nunca viu nenhuma pintura, nenhum grande feito que comprovasse essa riqueza toda de Xavier?
A então explica que toda essa riqueza de Xavier infelizmente não se transformava em matéria. Ela não se concretizava, não se transformava em livro. Que jorravam de sua boca capítulos inteiros que ele não era capaz de escrever, porque ele não dava tempo para maturar e que ele não transformava em produtos.
Tão um pouco todas as suas ideias mirabolantes, ele não as levava adiante. Z pergunta se Xavier era louco, mas A discorda. Era um "originalão" apenas.
Alguém muito excêntrico e original. Segundo A, as ideias de Xavier frutificavam. Ele as espalhava ao vento e elas iam parar na boca de outros amigos, repetidas por personagens do teatro, por comentários do jornal.
Mas ele próprio nunca conseguia desenvolve-las. Nunca conseguia vendê-las, nunca conseguia apresentá-las como ideias suas. Elas imediatamente tornavam-se ideias do mundo.
Porém de tanto gastar a sua imaginação, jogando assim ao léu as suas ideias, Xavier acabou por exaurIí-las, por esgotá-las. Não havia mais ideias na cabeça de Xavier de tanto que eles as gastara. E agora, diz A, ele é um homem pobre.
Pobre de ideias, que gasta apenas do lugar comum. A quer contar a Xavier um causo, um causo muito característico da vida de Xavier. A história que A conta para Z sobre Xavier é a de que um dia estava Xavier à sua janela, triste e desiludido, quando ele ver passar um taful a cavalo.
"Taful" é uma espécie de almofadinha, um playboy. Alguém meio ajeitadinho. Andava lá este taful em cima de um cavalo, quando o cavalo resolve empacar no meio da rua.
As pessoas que por ali passavam resolvem observar qual vai ser a reação do cavaleiro. Qual vai ser a reação deste rapaz que não consegue fazer andar seu cavalo. Eu vou ler a passagem.
Xavier ficou muito feliz com esta sua ideia. Achou-a muito original. Ele sentia-se tão triste e tão desiludido com a falta de ideias originais que é apegou-se a esta última ideia.
No dia seguinte ele acorda-se, novamente triste, e lembra da história do anel de Polícrates. Polícrates era um rei muito sortudo. Tão sortudo que um dia, tentando testar a sua sorte, ele resolve jogar ao mar o seu anel do Rei.
Mas a sorte do rei é tão grande que o anel é engolido por um peixe, o peixe pescado, levado a cozinha do castelo e o anel volta ao seu dono. O rei recupera o anel. Inspirado por esta história Xavier decide testar também ele a sua sorte.
Ou melhor, testar o seu caiporismo. Testar o seu azar. Ele sente-se tão desafortunado que decide jogar a sua ideia na boca de um peixe para ver se desta vez ela retorna para ele e ele consegue desenvolver algo a parte dela.
Xavier e sai à rua, encontra-se com um amigo e depois de lhe contar todas as tristezas de sua vida lança-se a ideia genial. "Pois veja, a vida é como um cavalo xucro. Quem não foi Cavaleiro, que o pareça".
O amigo ficou emocionado. Xavier se despede, volta para sua casa e espera pelo dia em que a ideia retornará. E lembrem-se tudo isso quem nos conta é A, que ouviu de Xavier e agora conta para Z.
Xavier reencontra a sua ideia na boca de várias pessoas, como costuma acontecer com suas ideias. Ele a escuta em um baile, ele a escuta em uma homenagem, ele a escuta mesmo em um comentário político no jornal. Mas a ideia nunca retorna para ele.
Ele nunca consegue agarrá-la e desenvolvê-la. O último encontro de Xavier com sua ideia foi o mais fatal. Ele vai ouví-la da boca do mesmo Amigo para quem ele primeiro contara.
O amigo, algumas semanas depois, cai muito doente e no seu leito de morte Xavier vai se despedir. O amigo então, repete para o próprio Xavier a ideia que ele ouvira dele mas sequer se lembra. Ele vai se despedir da família, se despedir do mundo com esta imagem.
"A vida é um cavalo xucro. Quem não for Cavaleiro, que o pareça. " "Espero ter parecido um bom cavaleiro.
" Estas são suas palavras de despedida e Xavier se sente, a partir de então, impossibilitado de continuar a sua ideia. E assim, o conto termina. Z vai a negócios, A se despede de Z.
Fim da história. Parece uma história um pouco sem pé nem cabeça, mas vamos tentar algum sentido pra ela. Primeiro é importante notarmos que na sequência deste conto tem uma nota, chamada "Nota D" de Machado de Assis, do autor do conto, explicando que este conto é uma homenagem a Artur de Oliveira, poeta parnasiano.
Foi um poeta muito rico em imagens mas que não produziu muito. Principalmente, sua obra ainda não é muito reconhecida. Machado explica que este conto é uma homenagem cômica, é uma brincadeira que ele faz em despedida ao seu amigo parnasiano falecido.
O conto não é um retrato de Arthur de Oliveira, mas uma homenagem cômica. Machado se inspira na trajetória de Artur de Oliveira para tecer algumas críticas muito sutis à sociedade. A ironia deste conto, a crítica que Machado faz ela é bastante difícil de ser percebida, mas podemos começar avaliando a ideia de Xavier.
Esta ideia que motiva toda a história. "A vida é como um cavalo xucro e manhoso. Quem não for Cavaleiro, que eu pareça".
O que que significa esta frase? Que o que importa não é se somos ou se não somos bons cavaleiros, mas que pareçamos um bom cavaleiro. Que tudo que importa, na realidade, é a nossa imagem, é a nossa aparência.
É o que parecemos aos outros. Se o Cavaleiro que tentava domar o cavalo xucro era ou não um bom cavaleiro, pouco importa. O importante é que, querendo não cair na frente de tanta gente, ele conseguiu se segurar e conseguiu aparentar ser um bom cavaleiro.
Isso lembra vocês de alguma coisa? Talvez as redes sociais? Talvez a nossa imagem no Instagram?
Todos nós tentamos parecer melhores cavaleiros do que talvez realmente sejamos, porque no fundo a gente sabe que é isso que importa. Isso é uma grande ironia. A gente sabe que isso não é verdade.
Que mais importa sermos felizes do que parecermos felizes. Sermos bons do que parecermos bons. E nisto reside a ironia e a crítica dessa ideia.
Lá no início eu comentei de outro conto: "A teoria do medalhão" que se aproximava um pouco do "Anel de Polícrates", por ser um diálogo mas, também por tratar uma ideia em comum. No conto "A teoria do medalhão", um pai explica para seu filho como se tornar um medalhão. O "Medalhão" é uma espécie de profissão.
Uma carreira. O Medalhão é uma figura pública muito bem quista, muito bem recebida, que tira proveito deste seu sucesso, desta sua popularidade, da sua imagem. Para ser um medalhão, o pai sugere ao filho que ele não tenha ideia alguma, que ele não tenha criatividade.
O Medalhão deve sempre falar o que já foi dito. Deve sempre tentar parecer mais do que ele de fato é. Se observarmos bem, vamos perceber que o Medalhão ele é o completo oposto de Xavier.
Do "originalão". Xavier é quem cria, quem elabora as ideias e jamais é reconhecido por elas enquanto o Medalhão é quem se apropria, quem se aproveita das ideias do Xavier e é reconhecido por elas. Não por as ter criado, mas por saber expressá-las no momento mais oportuno.
Enquanto Xavier apenas espalha suas ideias, não tem nenhum controle sobre elas, não consegue desenvolver-las, não consegue evoluir com elas. Juntos estes dois contos traçam uma crítica bastante sutil ao pensamento nacional. Este pensamento que se importa mais com ideias repetidas, com ideias colocadas no momento propício, mas não com ideias originais.
A uma sociedade em que o que mais interessa são as aparências, são os medalhões do que as ideias originais, do que os "originalões", como Xavier. É isso, pessoal. Espero tê-los ajudado a compreender um pouco melhor este conto.
Façam a leitura e se tiverem dúvidas, podem escrever pra nós aqui nos comentários do vídeo que vamos voltar para respondê-las. Até a próxima! Não esqueça de conferir os outros vídeos da série e de seguir o Letras na Rede aqui no Youtube e também no Instagram, no Twitter e no Facebook pelo @letrasnarede Deixe nos comentários as suas dúvidas e perguntas sobre esse conto ou sobre a obra do Machado de Assis.
Ao final da série sobre "Papéis Avulsos", voltaremos para responder suas perguntas.