Hoje eu quero conversar com vocês sobre as semelhanças e diferenças entre o autismo e o transtorno de personalidade histriônica. Mas, antes disso, eu preciso contar o motivo dessa conversa. Bom, no mês passado, o Centro Americano de Controle e Prevenção de Doenças divulgou a nova prevalência do autismo.
Se antes acreditava-se que uma em cada 44 crianças pudesse receber o diagnóstico de transtorno do espectro autista, hoje o CDC nos diz que uma em cada 36 crianças já está no espectro, e talvez esse número seja ainda mais alto. A questão é que nós temos algumas repercussões a partir dessa estimativa mais elevada de autismo na população. Muitas pessoas acham que esses números são inflacionados e que as crianças têm sido diagnosticadas só porque os critérios ficaram mais flexíveis, e acabam pegando crianças que, na verdade, nem têm autismo.
De verdade, tem um grupo de pessoas que considera o DSM-5-TR até muito rigoroso e pensa que os critérios atuais deixam muitos autistas ainda sem um diagnóstico formal. Ou seja, existe um time que acredita na supernotificação de casos e outros times que têm certeza de que existe a subnotificação. Acontece que existe também um time ao qual esse diagnóstico correto realmente importa, que é o time das pessoas com os traços autísticos.
E esse grupo, às vezes, fica no meio da discussão. E por que eu estou trazendo esse assunto aqui? Porque, principalmente, nós que trabalhamos com adultos precisamos estudar muito psicopatologia também.
E mesmo que você seja um psicopedagogo como eu, não basta estudar só a seção de transtornos do livro de desenvolvimento. Porque, com o aumento da consciência da população, a demanda para o rastreio também aumenta. Chegam mais pessoas ao nosso consultório demandando essas avaliações, e você precisa estar atualizada ou atualizado para enxergar o que realmente é autismo.
Então, de vez em quando, eu quero falar com você sobre algumas condições que podem ter certas semelhanças com o espectro, alguns pontos de contato que às vezes deixam as pessoas confusas. E esse é o caso do transtorno de personalidade histriônica, que tem critérios completamente diferentes do TEA, inclusive nem é um diagnóstico de transtorno do neurodesenvolvimento. Não é realizado na infância, mas você pode receber uma pessoa que fez o seu autodiagnóstico de autismo, às vezes no YouTube ou no Google, e ela procura você para formalizar essa descoberta.
Mas, na verdade, já na anamnese, o profissional pode notar que se trata de uma outra questão. Em alguns casos, os pais se preocupam muito com o desempenho acadêmico ou até profissional do filho ou da filha. Eles percebem que, às vezes, tem um adulto dentro de casa.
Esse adulto tem muita energia para festas, para baladas, futilidades, mas essa pessoa não se aprofunda em algo sério que vai trazer a autonomia que ele precisa. E, para que você saiba, de uma forma bem resumida, o comportamento mais marcante da personalidade histriônica é a busca pela atenção. Inclusive, o termo histriônico, vindo do latim, histrionicos, significa teatralidade, atuação ou ator.
Segundo o DSM-5-TR, esse padrão comportamental mais dramático, mas espalhafatoso, surge lá no início da vida adulta. Os profissionais especializados em personalidade do grupo B dizem que o melhor é ter paciência, ter muita prudência nesses casos e, se possível, não fazer o diagnóstico antes dos 25 anos. Porque, segundo eles, muitos adolescentes tendem a ter naturalmente esse tipo de comportamento.
Eles gostam de chamar atenção e, até por uma questão da construção da identidade, do individualismo, eles podem querer ganhar mais status no grupo. Mas, se não for a personalidade histriônica, isso vai passar com o tempo, ok? Mas, então, nós já sabemos que o transtorno da personalidade histriônica não se caracteriza por atrasos do desenvolvimento.
A pessoa não costuma ter dificuldades para se comunicar, para verbalizar suas emoções, muito menos para iniciar suas interações sociais. Os padrões restritivos e repetitivos de comportamento também não costumam estar presentes. Interesses muito focados, um hiperfoco, não é característico.
Pelo contrário, as pessoas às vezes são até muito fluidas, mudam muito facilmente. Mas se não tem nada a ver com o autismo, por que essa confusão pode acontecer? E aí, para entrar nessa conversa, nós precisamos saber quais são os oito sinais descritos pelo DSM-5 como critérios diagnósticos do transtorno da personalidade histriônica, que tendem a aparecer lá no início da vida adulta, certo?
Então, esses oito sinais: o primeiro, né, é gostar de ser o centro das atenções. O que a gente já falou aqui, as pessoas com a personalidade histriônica podem ser muito divertidas, alegres, entusiasmadas. Elas tendem a ser efusivas, são aquelas pessoas que animam as reuniões onde elas chegam.
As pessoas se animam, só que se os outros perderem o interesse ou se houver alguém mais interessante do que ela, aí aparecem os problemas. Porque ela pode dobrar a aposta e talvez ela tente encontrar artifícios quase sempre desadaptativos para aparecer mais do que os outros. E, às vezes, ela vai querer competir com a filha ou até com as netas.
Seus comportamentos podem ser muito extravagantes, até na velhice, às vezes ficam inadequados, né? Nos casos dos homens, eles não sempre vão destacar os seus atributos físicos, mas podem querer aparecer demais exibindo carros, mulheres, enfim, vão gostar de aparecer. O segundo sinal é ser sedutor demais ou sedutora durante as suas interações.
Ele vai gostar de fazer elogios exagerados, tá? Presente, ficar encostando demais nos outros, talvez ela exagere os sintomas para receber mais atenção dos médicos. E aqui eu já posso dizer que, em geral, a pessoa autista, mesmo que ela seja bastante sensível e que ela tenha várias queixas, isso acontece, né, de descontentamentos, sofrimentos, ansiedade, ela tende a não gostar de dar trabalho e pode até minimizar os seus problemas.
O terceiro sinal é mudar o estado mental muito rapidamente. A pessoa está triste, aí ela vê que alguém chegou com uma bolsa da Gucci e, de repente. .
. Ela fica toda animada para conversar sobre moda, falar sobre estilo, quer dizer, o sentimento tende a ser muito superficiais e muito líquidos. O homem também pode chorar lágrimas de crocodilo para atrair o olhar, a atenção das mulheres, e ele pode ter tanta habilidade emocional quanto as mulheres com esse tipo de personalidade.
Mas é claro que os comportamentos sejam distintos. O quarto sinal é usar elementos externos e a aparência física para causar, para aparecer. No DSM, você vai ver a descrição dos comportamentos como sexualmente provocativos ou sedutores, mas de uma forma inadequada e não apenas voltar para quem a pessoa tem um interesse romântico.
Ela pode ser até casada e querer chamar a atenção dos outros. Essa atitude mais sexy pode aparecer inclusive no trabalho e em contextos sociais completamente inapropriados. Inclusive, mesmo que a pessoa seja casada, como a gente disse, ela não costuma deixar de seduzir os outros.
Tem até uma música da Roberta Sá em que ela canta que a pessoa gosta de ser a protagonista do sonho, e o cônjuge é que lide com esse problema. O quinto sinal é ter um estilo de discurso excessivamente impressionista, mas carente de detalhes. Exemplo: a pessoa diz que vai dominar o mundo, que vai fazer faculdade de medicina, que vai passar num concurso para ser juiz porque conheceu um médico e uma juíza incríveis do passeio de iate que ela fez e no encontro que eles tiveram durante o final de semana.
O psicopedagogo pode receber um aluno assim, que diz que deseja ser rico e famoso, mas que nunca sai do lugar porque essa pessoa está pensando só em futilidades e não se planeja para realizar os seus sonhos, que demandam um trabalho intelectual. No DSM, você vai ver o exemplo da pessoa que faz elogios gerais e muito prematuros ao outro, e ela nem conversou direito com essa pessoa e diz a você que conheceu um ser humano maravilhoso, iluminado. Mas, se você perguntar o significado ou motivo desses adjetivos, a pessoa não consegue dizer.
Ela só sabe que agora eles são melhores amigos de infância e que vão até montar uma lógica porque juntos, e as ideias geralmente são assim: mais superficiais e muito glamourosas. O sexto sinal é a dramatização e a teatralidade, principalmente quando existe uma plateia. A pessoa com a personalidade histriônica pode exagerar nas suas emoções, na expressão dos seus sentimentos, e quem entende mais do assunto disse que muitos artistas tendem a ter uma boa cota de traços mais exagerados.
Nós já conversamos aqui que os traços peculiares podem até ter bastante adaptação, mas o sofrimento para a própria pessoa ou para quem está perto dela geralmente aparece quando a intensidade, né, uma intensidade elevada desses sinais, e uma frequência muito alta também desses sintomas, né, das características. Então, nem toda pessoa extrovertida, dramática, espalhafatosa, nem toda atriz, nem todo ator, tem um transtorno; pelo contrário, eles usam essas características a favor deles. Agora, quando há uma tendência a usar esses comportamentos para controlar o outro, por exemplo, aí nós temos um problema; aí talvez a gente esteja falando de um transtorno porque traz um prejuízo, né.
Então, quando tem prejuízo ao outro ou à própria pessoa, aí já é um sinal de alerta. O sinal número 7 é ser sugestionável, e aqui talvez surja a dificuldade porque a pessoa pode cair em armadilhas de marketing, por exemplo, de eventos super mega chiques que às vezes não acontecem, como a gente já viu alguns aí na mídia. Elas podem entrar em pirâmides porque ficam deslumbradas com os prêmios e a chance de enriquecimento fácil.
Elas entram em seitas ou grupos que prometem elevação espiritual, mas, apesar de serem glamourosos, eles também são muito superficiais. E, de qualquer forma, talvez essa pessoa só esteja lá, também nesses retiros de roupas indianas, em posição de lótus, para postar no Instagram. E aqui eu não estou debochando, não é isso de jeito nenhum; os exemplos são de profissionais experientes na área e eu também tive alunos assim.
Eu tenho um enorme respeito por todo mundo, pelos diferentes cérebros. A questão é que talvez o seu cliente tenha um discurso super focado em conquistas, em alta performance, mas você percebe que o comportamento não é compatível com as metas elevadíssimas que ele tem, as metas que aparecem no discurso. E o último sinal, nosso oitavo aqui, é considerar as suas relações pessoais muito mais do que, na verdade, elas são.
A pessoa vai a uma festa ou chama atenção, recebe elogios às vezes, e ela acha que já pode se considerar a missíssima de quem se divertiu lá com ela, da famosa que posta lá no Instagram como se fossem amigos. Essas coisas. A pessoa pode também querer ter mais intimidade até com seu médico, com seu terapeuta, e isso geralmente causa muito constrangimento.
Mas, segundo o próprio DSM-5, o prejuízo em geral tende a ser menor nesse tipo de transtorno do que nos outros. Os relacionamentos realmente podem ser conturbados; ela pode causar ciúmes no outro, porém a própria pessoa tende a se sentir ótima se estiver no centro do palco, se a luz estiver direcionada para ela. Agora, se não for esse o caso, é claro, existe risco de depressão, de comportamento de risco, mesmo até idealização suicida, e esse gozo pelo glamour também pode deixar a pessoa vulnerável de várias formas.
E só para constar, cinco desses oito comportamentos do DSM já podem levar o médico ou psicólogo a se aprofundarem no processo de investigação a respeito de um transtorno de personalidade. Bem, eu não sei se vocês já perceberam os pontos de contato aqui entre o TEA e o transtorno da personalidade histriônica, mas, embora não haja ligação direta entre essas duas condições, as pessoas autistas podem ser mal interpretadas e a falta, por exemplo, de traquejo social pode acabar passando como uma tentativa de chamar a atenção. Pessoa autista pode usar roupas muito finas, às vezes, para eventos informais.
Fazer perguntas demais acaba fazendo parecer arrogante ou muito crítica. Ela pode usar um vocabulário muito técnico com pessoas mais simples; isso talvez deixe parecendo pedante, mas quase nunca o objetivo é aparecer. Outro possível ponto de confusão é falar muito sobre o seu hiperfoco, e isso pode deixar os outros acreditando que o autista queira roubar a cena; geralmente, não é esse o caso.
O jeito mais infantil, também mais inocente e puro, pode ser confundido com uma certa sedução, mas a pessoa autista pode ficar super desconfortável e até assustada quando os outros acham que ela tem essas segundas intenções, porque geralmente não é isso. A oscilação de humor também pode ser confundida com superficialidade emocional. Se você olhar de longe, a própria camuflagem talvez possa se aproximar dessa vaidade histriônica extrema, mas para o autista, a camuflagem é uma estratégia de sobrevivência; não é uma extravagância.
Ele não faz isso para aparecer, e sim, a ingenuidade também pode levar os autistas a cair em golpes. Só que eles não costumam ser atraídos pelas plumas, pelos paetês nem por honrarias, essas honrarias vazias que deixam convenções lotadas. Enfim, a pessoa de estrelinhas, festas e confetes; eles não se encantam por isso.
Quer dizer, a pessoa leiga realmente pode enxergar semelhanças entre esses dois casos, e o pior é que é muito comum que as mulheres autistas nos procurem se sentindo extremamente culpadas, porque alguém comentou que ela ou que não faz sentido pensar em autismo nessa fase da vida, nessa altura do campeonato, quando ela já é adulta e que isso é só uma forma de aparecer. Claro que as pessoas leigas às vezes vão fazer esse tipo de comentário, mas nós, profissionais, não podemos julgar ninguém de jeito nenhum. O nosso objetivo é sempre ajudar da melhor forma possível quem nos procura, quem vem até nós, e o nosso objetivo também é facilitar o trabalho de outros profissionais para que a pessoa, seja ela autista, tenha o melhor suporte.
Agora, eu quero saber o que você pensa sobre esse tema. Se você também está mais atenta ou atento à importância do diagnóstico diferencial, conte aqui pra gente nos comentários. Aproveite, curta o vídeo e compartilhe com seus amigos para que nós possamos aumentar e expandir cada vez mais a consciência sobre o autismo e outras condições em adultos.
Um grande abraço e até breve!