Uma pesquisa inédita concluiu que o Brasil é o país mais missigenado do mundo. Quem nasce aqui hoje é quase sempre uma mistura grande de ancestralidades, mesmo que a gente não saiba sempre explicar exatamente quais. A Thaí até sabe, os bisavós são espanhóis.
Já Wendel sabe que a família do pai é portuguesa, mas não de onde veio a família da mãe. A bisavó do Luiz Antônio era de Moçambique. A família da mãe é um mistério para ele.
A Karen lembra da bisavó materna italiana, mas da família do pai sabe só que veio do Maranhão mesmo. Eu também tô nesse time, não sei ancestralidade de mais da metade da minha família, mas o que os cientistas da USP fizeram agora foi deixar de lado essa incerteza dos nossos conhecimentos pessoais para ouvir a certeza dos nossos genes. Fizeram a maior pesquisa científica da história para identificar o DNA do Brasil.
O primeiro achado é um retrato geral. Geneticamente, o Brasil tem 60% de ancestralidade europeia, 27% de africana e 13% de indígena. uma herança dos povos nativos maior do que se imaginava.
A europeia predomina no Sul e no Sudeste, africana no Nordeste, indígena no norte e Centro-Oeste. Mas cada um desses três grupos tem centenas de divisões. Para entender os detalhes do nosso DNA, foi preciso sequenciar o genoma de mais de 2700 pessoas de capitais a comunidades ribeirinhas.
O estudo faz parte do projeto DNA do Brasil do Ministério da Saúde e foi publicado hoje na Science, uma das mais importantes revistas científicas do mundo, com resultados nunca vistos antes. Por exemplo, as combinações de genomas africanos que não se tem notícia nem na África. Resultado da chegada aqui de pessoas retiradas à força de partes diferentes do continente africano.
Os pesquisadores da equipe da Lígia Pereira também encontraram mais de 8 milhões de variações genéticas nunca antes registradas. Nós estamos sequenciando genomas de ancestralidade africana e indígena que ninguém tá estudando. Os bancos de dados são todos de DNA de populações brancas.
Ao todo, o estudo definiu 18 perfis genéticos. Cada cor nas barras representa uma ancestralidade diferente. E são mais comuns os perfis genéticos misturados, que podem ter mais de uma dezena de ancestralidades.
Mas a missigenação de hoje não começou de forma bonita. No Brasil, 71% da herança genética masculina veio de europeus e 77% da herança genética feminina veio de africanas ou indígenas. O que a outra líder da pesquisa classifica como uma violência histórica marcada no nosso DNA.
Muitas mulheres indígenas e africanas tendo filho com homens europeus, né? Isso conta uma história de violência, seja ela qual for, porque é pouco provável que 80% das mulheres africanas quisessem ficar só com homens europeus e os homens indígenas somem da população. Entenderam esse passado e o nosso presente é um avanço pro futuro.
Os cientistas identificaram centenas de genes ligados a doenças que vão de pressão alta a tipos de câncer. O Antônio participou da pesquisa, descobriu que tem predisposição a uma doença renal crônica. A chance de ter é grande.
É, mas se eu fizer tudo, digamos assim, direitinho, me cuidar e fazer, pode ser que tem, pode ser que não tem. E é aí que pode estar a maior importância dessa pesquisa. Conhecendo o genoma brasileiro, dá para prever doenças, planejar tratamentos, encontrar remédios, revolucionar a saúde.
No futuro, a gente pode, em vez de todo mundo fazer mamografia a partir dos 40 anos, eu vou poder separar quem são aquelas mulheres que têm um risco muito mais alto e tinham que ter começado com 20 anos. E quais são aquelas que não têm risco genético nenhum e podem começar muito mais tarde? Eu vou ter uma diminuição dramática nos custos de saúde, conhecendo melhor os nossos genomas.
Yeah.