No alto de um morro esquecido no interior do Brasil, onde a estrada de terra termina e o silêncio começa, uma jovem grávida tenta sobreviver sozinha em uma pequena casa de barro que mal se mantém de pé, sem família, sem marido, sem ninguém, abandonada meses antes pelo homem que prometeu cuidar dela. Tudo o que lhe restou foi aquela casa simples no meio do mato e o filho que crescia dentro de sua barriga. Todos na pequena região diziam a mesma coisa. Ninguém consegue viver ali sozinho. Mas ela não tinha para onde ir. Até que em uma manhã
comum, quando o sol ainda subia por trás das montanhas verdes e a terra estava úmida do sereno da madrugada, um homem desconhecido apareceu caminhando pela trilha de terra. Ele vinha devagar, trazia duas cabras amarradas por uma corda e carregava uma enchada nas costas. No interior, o silêncio tem um peso diferente. Não é como o silêncio da cidade quando acaba a energia. ou quando as ruas ficam vazias de madrugada. Aquele tipo de silêncio que as pessoas procuram nos fones de ouvido que desaparece assim que o tráfego volta. Um silêncio passageiro, frágil que se quebra ao menor
som. O silêncio do interior é mais fundo, muito mais fundo. Ele vem do mato, daquelas árvores que nunca foram cortadas, que crescem tão altas, que às vezes bloqueiam o sol antes que ele chegue ao meio do dia. O silêncio vem do vento passando entre as folhas. Um som que não é bem um som, porque é tão contínuo, tão presente, que a mente acaba não o registrando mais. e vem do canto distante de um galo que parece sempre estar longe demais, em algum lugar além dos morros verdes, onde a grama cresce em tufos selvagens. E naquela
pequena casa de barro perdida entre morros verdes, o silêncio era a única coisa que fazia companhia para Helena. Aquela segunda-feira de setembro de 2019 começava como tantas outras. O sol ainda não tinha chegado completamente ao topo do céu. Estava naquele horário da manhã, onde a luz é morna, levemente prateada, e o ar ainda guarda um pouco do frio da madrugada. Helena havia acordado cedo, como fazia todos os dias, porque o corpo dela não conseguia mais dormir muito. A barriga pesava, as costas doíam e parecia que o bebê acordava mais cedo a cada dia que passava,
como se estivesse tão ansioso para nascer quanto ela estava ansiosa para que ele nascesse. Ela se chamava Helena Cardoso. Tinha 24 anos e estava grávida de 7 meses e duas semanas. A casa onde ela morava não era exatamente uma casa, era mais um resto de casa. As paredes de barro estavam rachadas em vários pontos, não apenas pequenas Trincas, mas fissuras profundas que você podia enfiar um dedo dentro. O barro secava, retraía e depois tentava se reunir novamente quando chegava a chuva, criando aquele padrão de rachaduras que parecia o mapa de um lugar esquecido. O telhado
de telhas vermelhas, que devia ter tido uma cor vibrante em tempos antigos, agora era um tom de barro desbotado, com várias telhas faltando ou soltas. Quando chovia, e chovendo era praticamente uma garantia entre outubro e março, goteiras começavam a cair em pelo menos cinco lugares diferentes. Helena havia colocado baldes, panelas e até um recipiente grande de plástico naqueles pontos para coletar a água. À noite, o barulho daquelas goteiras plique, plique, plique. Era como um metrônomo hipnotizante que a mantinha acordada, contando as quedas de água enquanto esperava pelo sono. A porta de madeira, que servia como
entrada para a casa, rangia toda vez que o vento batia mais forte. Era um som agudo, estridente, que percorria a estrutura inteira da pequena habitação. Helena havia tentado colocar óleo naquela dobradiça semanas antes, mas o óleo havia secado rapidamente com o calor e agora o rangido era pior do que antes, mas era tudo o que ela tinha. E naquele momento da vida era também o único lugar onde ninguém podia mandá-la embora. Helena havia chegado ali seis meses antes. Não era um lugar que ela tivesse escolhido. Na verdade, ela não havia escolhido nada naquele período de
sua vida. As coisas simplesmente aconteceram, uma depois da outra, como peças de dominó caindo sobre uma mesa. Ela havia vindo com uma pequena sacola de roupas, camisetas desmaiadas, uma calça jeans rasgada na coxa, algumas peças de roupa que sua mãe havia deixado e com um segredo crescendo dentro da barriga, um segredo que não era mais segredo quando ela chegou naquele lugar, porque sua barriga denunciava tudo que ela tentava esconder. O pai da criança tinha ido embora. Seu nome era Ricardo. Ele era um homem bonito de 42 anos que havia vindo da cidade para trabalhar em
um projeto de escavação em uma mina de Bauchita que estava sendo aberta a cerca de 15 km dali. Ele estava sozinho, separado de uma mulher que vivia em Brasília. E quando viu Helena, que na época tinha 23 anos, e um rosto ainda suave, ainda cheio daquela inocência que o interior oferecia às meninas que nunca haviam saído dele, ele decidiu que a queria. As primeiras semanas foram mágicas. Ele a levava para passear na cidade de Carolina, em seu carro com ar- condicionado. Pagava por refeições em restaurantes onde ela nunca havia comido. Dizia coisas bonitas. dizia que
a amava, dizia que queria casar com ela, que aquela mina ia durar anos e ele ia ganhar muito dinheiro e eles iam viajar juntos e ela ia ter uma vida melhor do Que a que tinha. Helena acreditou por não acreditaria. Ninguém na vida dela nunca havia mentido daquela forma. Sua mãe era honesta demais. Seu pai, que havia morrido quando ela tinha 10 anos, havia sido um homem de poucas palavras, mas de muita integridade. Ela não tinha referência para desconfiar. Então, ela deitou com Ricardo e ficou grávida. As promessas duraram apenas algumas semanas depois disso. Primeiro
vieram as desculpas. Ele estava muito ocupado na mina. Depois vieram os intervalos maiores entre seus encontros. Agora ele só podia vê-la uma vez a cada semana. Depois vieram as mensagens erradas. Olá, querida, mas tenho que te contar uma coisa difícil e então nada. Silêncio, bloqueio, desaparecimento. Helena havia tentado procurá-lo. Havia ido até a mina, mas lhe dizeram que ele havia sido demitido por não comparecer ao trabalho. Ela procurou a casa onde ele morava, em Carolina, mas a dona não sabia para onde ele havia ido. Seus amigos, aqueles poucos que ele havia deixado na região, também
não sabiam nada. Depois vieram os dias sem notícia. Depois vieram as semanas, depois vieram os meses. Até que um dia Helena percebeu que a verdade era mais simples do que Qualquer desculpa que ela pudesse inventar para si mesma. Ele nunca mais ia voltar. Seu pai havia morrido quando ela era criança. Sua mãe estava em Salvador, casada novamente, com uma nova vida. Seus irmãos, sim, ela tinha dois irmãos, estavam espalhados pelo Brasil. Ninguém ofereceu ajuda. Ninguém ofereceu um teto. Ninguém ofereceu sequer uma palavra de conforto que chegasse além de um lamento, filha, rápido demais para ser
verdadeiro. Então, Helena havia entrado em pânico, puro, genuíno, terrível pânico. E então ela havia ouvido que havia uma casa vazia em um morro no meio do mato. Uma casa que pertencia a um casal antigo que havia morrido e deixado tudo para seus filhos que viviam nas cidades. Uma casa que ninguém queria, uma casa que podia ser sua, não oficialmente, não legalmente, mas de facto. Ela havia caminhado até lá com sua sacola de roupas, havia aberto a porta que não estava trancada e havia entrado naquele lugar que seria seu refúgio pelos próximos meses. E foi assim
que ela começou a viver ali, plantando um pouco de mandioca atrás da casa em um terreno que antes havia sido uma pequena plantação. A mandioca era resistente, não pedia muito e ela sabia como cultivá-la porque sua avó tinha uma pequena plantação quando Helena era criança. Ela buscava água no pequeno córrego que corria a alguns metros dali, Caminhando descalça pela trilha que ela mesma havia criado com seus próprios passos, carregando baldes pesados que machucavam seus ombros e suas mãos, e tentando ignorar o medo que vinha todas as noites quando o mato ficava escuro demais. Um medo
que era ao mesmo tempo vago e muito, muito específico. O medo de estar sozinha, o medo de que algo acontecesse com o bebê e não houvesse ninguém para ajudar. O medo das histórias que as pessoas contavam sobre aquele lugar, histórias sobre pessoas que se perdiam na mata e nunca mais eram encontradas, sobre cobras peçonhentas que atacavam pessoas dormindo, sobre espíritos que saíam do mato depois que o sol se punha. Aquela manhã, porém, algo diferente aconteceu. Helena estava parada perto da cerca de madeira velha que delimitava o que seria seu quintal. tinha em mente tentar consertar
alguns dos postes que estavam começando a apodrecer, mas abandonar a ideia quando o cansaço a venceu. Tudo a deixava cansada. Agora, qualquer movimento minúsculo parecia sugar toda sua energia. estava segurando a barriga com uma das mãos, não porque o bebê estivesse chutando naquele momento específico, mas porque a barriga pesava tanto que segurar em alguma parte dela, distribuir aquele peso entre os braços e as costas, era a única forma de ficar ali de pé mais de alguns minutos, sem Que a dor nas costas se tornasse insuportável. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo despenteado.
Ela usava um vestido de algodão bege que havia sido bonito um dia, mas que agora estava desbotado e tinha manchas de terra que não saíam mais na lavagem. Seus pés estavam descalços. Ela havia aprendido a nunca usar sapatos enquanto estava grávida, porque seus pés inchavam e depois ela não conseguia tirar nada que estivesse muito apertado. Sua pele estava queimada pelo sol, um tom profundo de bronze que parecia permanente agora, e suas mãos estavam calejadas do trabalho no mato. Ela estava olhando para o caminho de terra vermelha que descia o morro quando foi que viu o
movimento. Alguém vinha pela trilha. Primeiro, ela pensou que fosse imaginação. Nos últimos meses, vivendo sozinha, sua mente havia começado a brincar com ela. Às vezes, ela ouviria vozes ou veria pessoas que não estavam ali. Aquilo que os psicólogos chamam de alucinação, mas que Helena simplesmente chamava de a mente ficando louca, mas não era imaginação, era uma figura. Uma figura que se movia, que ficava maior conforme se aproximava, um homem. Ele caminhava devagar, puxando duas cabras presas por uma corda de fibra que parecia muito antiga. As cabras eram pequenas, uma Delas branca, a outra com manchas
pretas e marrons. Elas se movimentavam devagar, também aparentemente acostumadas àquele ritmo de caminhada. nas costas do homem, apoiada sobre o ombro esquerdo de forma casual, como se aquela enchada pesasse nada. Ele carregava uma ferramenta velha de cabo gasto, escurecido pelo tempo e pela utilização. Era uma enchada comum, exatamente o tipo de coisa que alguém usaria para trabalhar a terra, para cavar, para preparar o solo para plantações. Helena sentiu o coração começar a bater mais rápido. Ela havia visto apenas poucos homens nos últimos seis meses. Havia visto o vendedor de frutas que passava a cada duas
semanas. Havia visto o padre que vinha fazer celebrações. Havia visto alguns meninos da comunidade que eventualmente apareciam para pedir água, mas não havia visto ninguém assim, ninguém que simplesmente aparecesse do nada do meio do mato, trazendo consigo aquele aspecto selvagem de alguém que vivia próximo à natureza. Quando o homem chegou a uma distância onde ele podia vê-la claramente, e ela podia vê-lo claramente, os dois ficaram parados por alguns segundos, se olhando ali no meio do silêncio do mato. O homem tinha a pele queimada pelo sol. Seus cabelos eram escuros e compridos, chegando até o Colarinho
de uma camisa jeans desbotada que estava aberta no peito. Ele tinha uma barba de alguns dias, aquele tipo de barba que cresce quando alguém não se raspa por uma semana ou mais. Seus olhos eram escuros também, quase pretos, mas havia algo no olhar dele que não era duro, era observador, calmo, como se ele estivesse acostumado a examinar as coisas antes de fazer julgamentos sobre elas. Ele parou a alguns metros de distância. As cabras também pararam, parecendo da mesma forma que ele pareceu, cautelosas, observadoras. Oi", ele disse. Sua voz era rouca, como se ele não falasse
muito, como se as cordas vocais dele estivessem acostumadas ao silêncio. "Oi, Helena, respondeu. Sua voz saiu mais fina do que ela gostaria. Havia um tom de medo nela que ela não conseguiu esconder. "Você mora aqui?", ele perguntou. Sim". Helena disse. Moro aqui. O homem olhou para a casa, olhou para a cerca, olhou para o pequeno terreno onde Helena havia plantado mandioca. Seu olhar foi sistemático, observador, como se ele estivesse avaliando o lugar. "Sozinha?", ele perguntou. E então, antes que ela pudesse responder, seus olhos caíram sobre a barriga dela e ele viu, viu tudo. A gravidez,
a solidão, o medo que ela estava tentando manter escondido. Helena não respondeu imediatamente. "Sim", ela disse finalmente, "Sozinha." O homem a sentiu com a cabeça lentamente, como se aquela resposta confirmasse algo que ele havia pensado. "Meu nome é Mateus", ele disse. "Eu estou procurando um lugar para trabalhar, para ficar. Eu tenho experiência com terra, com plantação, com" Ele apontou para o terreno dela. Isso tudo. Helena não sabia o que dizer. Seu coração ainda estava acelerado. Parte dela tinha medo. Outra parte, uma parte que ela não reconhecia em si mesma, sentiu algo parecido com alívio. Alívio
de ter companhia, alívio de não estar completamente sozinha no meio do mato. Naquele momento, porém, ela ainda não sabia quem era aquele homem e ele também não sabia quase nada sobre ela. Mas aquele encontro simples, naquela manhã qualquer, no meio do silêncio do mato, iria mudar completamente o rumo da história deles. Porque às vezes a vida não oferece grandes oportunidades em grandes momentos. Às vezes a vida oferece uma enchada e duas cabras e a chance de começar novamente. Mateus não era um homem fácil de conhecer. Havia qualidades nele que as pessoas precisavam de tempo para
compreender. Um silêncio que não era exatamente timidez, uma quietude que não era falta de inteligência, uma solidão que não vinha da incapacidade de se conectar com Outros, mas da experiência de ter perdido tanto que conexões se tornaram um luxo difícil de permitir a si mesmo. Ele tinha 31 anos. Havia nascido em Imperatriz. uma cidade maior que Carolina e havia crescido em uma família de trabalhadores rurais que conhecia cada centímetro da terra onde viviam. Seu pai havia sido agricultor, sua mãe havia sido a mulher de um agricultor. Trabalho tão duro quanto o do próprio marido, apenas
invisível. Mateus tinha um irmão mais velho chamado João, que havia partido para São Paulo quando tinha 18 anos, buscando as promessas de uma vida melhor na cidade grande. Nunca mais havia voltado, nunca havia nem ligado. O trabalho na terra era tudo que Mateus conhecia. Desde criança, antes mesmo de aprender a ler adequadamente, ele aprendia a identificar o tipo de terra, a sentir a humidade, a saber quando era a hora de plantar. E quando era hora de colher, seu pai dizia que essa habilidade não se ensinava em escolas. Era algo que vinha do sangue, da linhagem,
de gerações de antepassados que haviam aprendido a conversar com a Terra através de suas mãos. Até os 22 anos, a vida de Mateus era previsível. Trabalhava, plantava, colhia, ajudava seu pai. Às vezes ia para festas na comunidade onde dançava uma ou duas músicas, bebia uma cerveja, conversava com os amigos sobre colheitas e chuvas e preços de mercado. Era uma vida simples, Mas era uma vida que fazia sentido, uma vida onde as coisas tinham ordem e propósito. Então conheceu Camila. Ela havia vindo de Teresina com seus pais, que estavam visitando parentes na região. Tinha 20 anos,
cabelos longos e pretos, um riso que parecia soar como música. Mateus viu-a em uma festa e nunca mais conseguiu pensar em outra coisa. Ele trabalhou para conseguir coragem de falar com ela. Conseguiu. Eles conversaram por horas. Ela achou suas histórias sobre a Terra interessantes. Ele achou sua inteligência, sua forma de ver o mundo hipnotizante. Ela morava em Teresina. Ele morava em Imperatriz. A distância era de apenas 130 km, mas naquele tempo, sem carro próprio, aquela distância era praticamente a diferença entre dois mundos diferentes. Mateus havia salvado dinheiro por do anos, havia poupado cada real que
ganhava. Seus pais perguntavam para que ele estava economizando tanto e ele não havia contado. Mas depois de dois anos de trabalho duro, de acordar antes do amanhecer, de trabalhar até o sol descer, ele tinha dinheiro suficiente para comprar um carro velho, uma Gol cinza de 1998 que mal funcionava, mas funcionava. Com aquele carro, ele havia dirigido até Teresina toda semana durante 3 anos. 3 anos viajando de madrugada para voltar De madrugada porque precisava estar de volta no trabalho. Três anos de combustível que ia custando a maior parte de seu salário. 3 anos de cansaço que
se acumulava como as camadas de terra em um campo arado. Mas ele o fez porque amava Camila, de um jeito que não tinha palavras, de um jeito que o tornava capaz de suportar qualquer sacrifício. Então, um dia, quando ele tinha 25 anos, ele pediu Camila em casamento. Não foi um pedido formal, elegante. Ele estava dirigindo de volta de Teresina. Ela dormia no banco do passageiro. E quando acordou, ele simplesmente disse: "Quero casar com você. Quero que você venha viver comigo. Quero passar minha vida com você". E ela disse: "Sim". chorou, na verdade, lágrimas de alegria
que correram pelo seu rosto enquanto ela o beijava. Eles se casaram três meses depois, em uma pequena cerimônia na comunidade onde Mateus vivia. Camila havia deixado seu emprego em Teresina, havia deixado sua família, havia vindo para viver com Mateus e seus pais na casa rural onde ele havia nascido. Os primeiros dois anos foram felizes, realmente felizes. Camila aprendeu sobre a vida na roça. Trabalhou na plantação ao lado de Mateus. Cozinhava, ajudava com as tarefas da casa. parecia estar genuinamente contente. E então ela ficou Grávida, uma menina. Eles sabiam que era uma menina pelo ultrassom que
fizeram na cidade. Eles decidiram chamá-la de Sofia. Mateus havia nunca se sentido tão feliz, tão completo, tão certo de que havia tomado a decisão certa ao dedicar sua vida à aquele lugar, aquela mulher, aquele filho que estava a caminho. A gravidez de Camila foi fácil. Ela brilhava, parecia estar mais bonita a cada dia. Mateus construiu um berço de madeira com as próprias mãos, pintou as paredes do quarto da menina, comprou roupinhas e brinquedos. planejou o futuro com uma esperança que parecia quase ingênua. Sofia nasceu em uma noite de chuva, em novembro de 2012. Foi um
parto difícil. Camila sangrou demais. Mas a menina nasceu saudável, com todos os dedos, todos os dentes que ela teria depois e um choro que Mateus havia descrito depois, como o som mais bonito que ele já havia ouvido em sua vida. Nos primeiros meses, tudo foi caos. Mas um caos feliz. Acordadas noturnas, fraldas, choro, mas também sorrisos, risos, momentos onde Mateus seguraria Sofia e olharia para seu rosto pequeno, minúsculo, e sentiria um tipo de amor que ele nunca havia imaginado existir. Quando Sofia tinha três meses, Camila disse que queria voltar a Teresina por uma semana para
visitar sua mãe. Mateus não viu problema. Ele cuidaria de Sofia. suas mãe o ajudaria. Camila partiu. Disse que voltaria em uma semana. Ela nunca voltou. A primeira semana virou duas. Mateus ligava para o número do celular dela e a chamada ia para a caixa de mensagens. Ele dirigiu para Teresina. encontrou a mãe de Camila, que parecia tão confusa e assustada quanto ele. Ela disse que Camila havia partido um dia cedo, que havia deixado uma nota dizendo que precisava sair, que não conseguia mais viver daquele jeito, que precisava de liberdade. Liberdade. A palavra ecoou em Mateus
como um sino batendo em uma igreja vazia. Camila havia ido embora, simplesmente desaparecido, deixado Sofia para trás, deixado Mateus para trás, deixado a vida que eles estavam construindo para trás, como se aquilo tudo tivesse sido apenas um erro temporário que precisava ser corrigido. Os meses que se seguiram foram os piores da vida de Mateus. Ele havia entrado em um tipo de paralisia que não era depressão exatamente, mas algo próximo. Ele continuava acordando, continuava cuidando de Sofia, continuava alimentando-a, limpando-a, segurando-a durante as noites quando ela chorava. Mas por dentro ele estava quebrado de uma forma que
nenhuma quantidade de conserto poderia reparar. Seu pai morreu dois anos depois, um infarto súbito enquanto trabalhava no campo. Mateus havia encontrado o corpo dele caído Entre as plantações de milho. Tinha 28 anos. De repente, ele era apenas um marido abandonado, um pai solo, mas também o homem responsável por toda a propriedade, toda a plantação, toda a vida rural que suas mãe dependia dele para sobreviver. Sua mãe piorou depois da morte do marido. Ela desenvolveu uma doença que os médicos não conseguiam diagnosticar exatamente, algo que a deixava fraca, que a fazia dormir a maior parte do
dia, que roubava dela a vontade de viver. Ela morreu dois anos depois, em novembro de 2016. Sofia tinha apenas 4 anos. Mateus havia ficado sozinho, completamente sozinho. Ele tinha uma filha pequena, uma propriedade que ninguém queria e um coração que havia parado de bater em qualquer ritmo que pudesse ser considerado normal. Ele havia tentado. Deus sabe que ele havia tentado. Ele trabalhou, cuidou de Sofia, a enviou para a escola na pequena comunidade, manteve a propriedade funcionando, mesmo que mal, mesmo que a maior parte do seu trabalho fosse apenas tentar sobreviver dia após dia. Então, quando
Sofia tinha 8 anos, em 2020, sua avó de Teresina apareceu, a mãe de Camila. Ela veio com papéis legais, com documentos que mostravam que Camila queria que Sofia fosse criada por ela, Que aquele havia sido o desejo de Camila o tempo todo, deixar a filha, mas deixá-la preparada para ser criada por sua mãe quando ficasse mais velha. Mateus lutou processos legais, discussões, lágrimas, mas a verdade era que ele mal conseguia se manter vivo. Como poderia oferecer uma vida estável para uma criança? A avó tinha dinheiro, tinha uma casa em Teresina, poderia oferecer educação, oportunidades. Então,
ele deixou Sofia ir. No dia em que ela partiu, ele se sentou embaixo de uma árvore e chorou de um jeito que nunca havia chorado antes, de um jeito que o esvaziou completamente. Depois disso, Mateus vagueou literalmente. Ele não tinha mais razão para ficar naquela propriedade. Vendera-a para um homem que queria expandir suas plantações. Com o dinheiro, ele havia comprado as duas cabras e uma enchada velha que seu pai havia deixado e havia começado a caminhar. Durante 3s anos, ele havia caminhado pelo interior do Brasil. Ele ia de comunidade em comunidade, oferecendo seu trabalho em
troca de comida e um lugar para dormir. Trabalhava em plantações, ajudava a construir casas, fazia o que precisava ser feito. E no final de cada dia, Quando o sol se punha e o silêncio do mato começava, ele se sentava sozinho e pensava em Sofia e em Camila, e em seus pais e em todas as coisas que ele havia perdido, as cabras. eram sua companhia. Ele as havia chamado de esperança e memória. A branca era esperança, a manchada era memória. Elas o acompanhavam em seus caminhos e, às vezes, ele conversava com elas, contava histórias, perguntava se
elas também acreditavam que a vida poderia ser diferente. Quando Mateus apareceu naquele morro no interior de Maranhão, ele havia estado caminhando por quase três anos. Seus cabelos estavam mais longos, sua barba era mais cerrada, seu corpo era mais magro, não exatamente fino, mas enxuto, tenso, como o de alguém que havia aprendido a viver com pouco. Sua pele estava permanentemente queimada pelo sol e seus olhos, aqueles olhos escuros que Helena havia notado, carregavam um tipo de sabedoria que só vem de quem passou por perda muito profunda. Ele havia ouvido sobre a região em uma conversa casual
em uma taberna. Alguém havia dito que havia muita terra boa por cultivar ali, que havia pessoas que precisavam de ajuda, que havia trabalho. Então ele havia decidido vir. Não porque acreditasse que qualquer coisa pudesse mudar, aquele tipo de esperança havia morrido nele há tempos, mas porque precisava estar em algum lugar. E um lugar era tão bom Quanto o outro. quando você tinha perdido tudo que importava. Ele havia estado caminhando pela trilha naquela manhã, seguindo as indicações que alguém havia lhe dado na comunidade próxima quando viu a casa. uma estrutura pequena de barro, com um terreno
ao lado onde havia plantações. Exatamente o tipo de lugar onde ele poderia oferecer seu trabalho. Exatamente o tipo de lugar onde ele poderia desaparecer e não ser incomodado. Então ele viu a mulher grávida, sozinha, com aquele mesmo tipo de medo nos olhos que ele havia visto em seu próprio rosto tantas vezes, quando acordava de pesadelos, quando recebia notícias ruins, quando compreender que não conseguiria salvar sua filha. Algo dentro de Mateus se movimentou naquele momento. Algo que estava morto há tanto tempo que ele havia esquecido que poderia se mover novamente. E ele havia parado e havia
dito seu nome e havia oferecido o que ele tinha, suas mãos, sua experiência, sua solidão. Porque Mateus entendia a solidão. Ele era feito de solidão. E a ideia deixar aquela mulher ali grávida, sozinha, enfrentando o mato e o silêncio, era uma coisa que seu coração, mesmo tão danificado quanto estava, não conseguia suportar. Então ele ficou, não porque acreditasse que Poderia mudar as coisas, mas porque havia um bebê vindo para aquele mundo e ninguém merecia ter que enfrentar aquele tipo de solidão. Ninguém merecia ser deixado para trás como Camila o havia deixado, como a vida o
havia deixado. Ele simplesmente não podia permitir que isso acontecesse novamente, mesmo que fosse apenas em um nível pequeno, em um canto esquecido do mundo. Mesmo que fosse apenas para uma mulher que ele havia encontrado 5 minutos antes. A resposta de Helena havia sido simples: você pode ficar nada mais, nada menos, apenas aquelas quatro palavras que mudaram tudo. Mateus havia sentido com a cabeça, como se tivesse recebido exatamente a resposta que esperava. Ele havia amarrado as duas cabras em um poste no lado da casa e havia começado a trabalhar. Primeiro ele havia consertado a cerca. trabalhou
durante toda aquela primeira manhã, reforçando os postes que estavam apodrecendo, substituindo as madeiras que eram irrecuperáveis, por pedaços de madeira melhor que ele havia retirado de um galpão abandonado a alguns quilômetros dali. Ele trabalhou em silêncio absoluto, aquele tipo de silêncio que não é desconfortável, mas concentrado. O silêncio de alguém que sabe exatamente o que está fazendo. Helena havia ficado observando dele da varanda. Não porque estivesse curiosa especificamente sobre o trabalho dele, Embora estivesse, mas porque tinha medo. Aquele tipo de medo primitivo que vem quando se deixam um estranho em sua propriedade. medo que ela
havia aprendido a conhecer bem nos últimos meses de solidão, quando qualquer barulho diferente a fazia acordar à noite, quando qualquer sombra tinha o potencial de ser uma ameaça. Mas algo naquele homem não era ameaçador. Havia algo em seu rosto cansado, em seus movimentos lentos e determinados, que não deixava espaço para medo. Ele simplesmente trabalhava, como se o trabalho fosse a única linguagem que ele realmente compreendesse. À noite, Helena havia preparado uma refeição. Nada elaborado, arroz, feijão, um pouco de verdura que ela havia plantado. Mateus havia comido em silêncio, sentado do lado de fora da casa,
em um pequeno banquinho de madeira. Quando terminou, ele havia olhado para o prato e então para Helena, e havia dito apenas obrigado ela havia deixado um espaço para ele dormir no galpão, longe da casa. Havia colocado uma rede lá, uma velha manta de tecido e um travesseiro que ela havia preenchido com palha. Ele havia aceito sem fazer perguntas. Naquela primeira noite, ouvindo-o deitar-se no galpão, o rangido da rede, o som de alguém se organizando para dormir, Helena havia sentido algo que ela não sentia há muito tempo. Segurança. Não uma segurança completa, não ainda. Mas a
sensação de que havia outro corpo no terreno, outro par de olhos, que poderia ver coisas que ela não conseguia ver da varanda, outro coração batendo no mesmo espaço que o seu, a segurança de não estar completamente sozinha. Os dias seguintes seguiram um padrão que se tornaria rotineiro. Mateus acordava cedo, às 5 da manhã, quando o primeiro verde do amanhecer começava a se espalhar no horizonte. Helena ouviria a porta do galpão se fechar, ouviria seus passos na terra e então começaria a ver os resultados de seu trabalho. No segundo dia, ele havia reparado o telhado. Aquele
trabalho que Helena havia colocado na lista de coisas que preciso fazer um dia quando tiver coragem havia sido feito em um único dia de trabalho concentrado. Mateus havia subido para o teto descalço, movendo-se com a facilidade de alguém que havia crescido escalando estruturas de madeira e havia recolocado as telhas que faltavam, selando as goteiras que faziam barulho noturno, hipnotizante. Na terceira noite, quando choveu, Helena acordou esperando ouvir aquele som de goteiras e ele nunca veio. O silêncio era diferente agora. Era um silêncio que não trazia medo. Era um silêncio de chuva caindo sobre um telhado
que a Protegia. Ela havia chorado naquela noite, não de tristeza exatamente, mas daquele tipo de choro que vem quando a pressão que alguém acumula finalmente encontra uma saída. Como se todo o peso dos últimos meses, a gravidez solitária, o medo do desconhecido, o abandono de Ricardo pudesse finalmente se dissolver em lágrimas. Na quarta noite, Mateus havia adoecido. Helena o havia encontrado deitado na rede do galpão, tremendo, suado. Ele havia trabalhado o dia inteiro reparando a estrutura de madeira da varanda, um trabalho pesado que o deixava sob o sol quente de setembro. Quando entrou à noite,
ele havia desenvolvido febre, um tipo de febre que fazia seus olhos ficarem vidrados, que o fazia murmurar coisas enquanto dormia. Helena havia hesitado. Por alguns momentos, ela havia ficado parada na porta do galpão, observando-o. Uma parte dela queria se afastar, deixá-lo sozinho. Ele era um estranho, afinal de contas. Ela não o conhecia. Não havia nenhuma obrigação dela de cuidar dele, mas havia outra parte dela, a parte que ainda acreditava em coisas como bondade e compaixão que havia vencido. Ela havia trazido água fresca que havia buscado no córrego, havia molhado um pano em água morna e
havia colocado na testa dele. Havia ficado Acordada a maior parte da noite, mudando o pano cada vez que a febre o aquecia demais. Pela manhã, a febre havia passado. Mateus havia acordado e visto Helena dormindo em uma cadeira ao seu lado, sua cabeça caída para trás de forma desconfortável. Quando ele se moveu, ela acordou. "Como você se sente?", Ela havia perguntado. Melhor, ele havia dito. Sua voz ainda estava rouca, mas havia uma clareza nela que não estava ali na noite anterior. Desculpa, desculpa ter ficado doente. Você não escolhe ficar doente. Helena havia respondido. algo naquele
momento, algo sobre aquela conversa simples, sobre aquela mulher grávida cuidando de um homem que ela havia conhecido apenas três dias antes, havia criado um vínculo entre eles. Pela primeira vez, eles conversaram como seres humanos, não apenas como duas pessoas compartilhando o mesmo espaço. "Quando é o bebê?", Mateus havia perguntado. Ele estava deitado na rede, ainda fraco demais para se mover muito, mas sua mente parecia estar clara agora. Dois meses. Helena havia respondido. Mais ou menos. O médico em Carolina disse que seria em novembro. Primeiro de novembro, possivelmente. Você tem medo? Ele havia perguntado. Helena havia
sido honesta. Tenho. Qual é o nome? Mateus havia continuado. Não decidia ainda. Helena Havia dito: "Estou pensando em Lucas ou talvez Gabriel. Algo que soei forte, algo que Mela havia hesitado, procurando as palavras certas, algo que pareça que ele vai conseguir sobreviver aqui." Mateus havia assentido com a cabeça. "Lucas é um bom nome. Você tem filhos?", Helena havia perguntado. A pergunta havia flutuado no ar da pequena sala do galpão. Mateus havia ficado em silêncio por um tempo tão longo que Helena estava começando a pensar que não receberia uma resposta. Mas então ele havia falado. Tive,
ele havia dito. Sua voz havia ficado tão baixa que Helena havia precisado se inclinar para a frente para ouvi-lo. Uma menina, Sofia, ela tem 10 anos agora. Ele havia pausado. Não tenho mais contato com ela. Helena havia visto a dor passar pelo seu rosto como uma sombra passando sobre a terra. Ela não havia perguntado mais. Havia uma coisa sobre aquele silêncio, uma coisa sagrada nele, que lhe dizia que não deveria fazer mais perguntas. Não naquele momento. Ela havia apenas colocado sua mão no braço dele. E Mateus havia feito algo que ele não havia feito em
anos. havia permitido que alguém o tocasse sem se afastar. Nos dias que se seguiram, a rotina foi se estabelecendo. Mateus se recuperava. Lentamente voltava ao trabalho. E a cada dia a estrutura da propriedade de Helena se transformava. O Galpão foi consertado, a horta foi expandida. Um pequeno sistema de drenagem foi criado para garantir que a água da chuva não ficaria parada nos lugares errados. Mateus havia até construído uma pequena estufa usando plástico e madeira, onde Helena poderia proteger suas plantações mais delicadas. Mas o trabalho mais importante que Mateus fez não foi com as mãos, foi
com as palavras. Durante as noites, quando o trabalho do dia estava terminado, ele e Helena começaram a conversar. Nada planejado, nada forçado, apenas conversas que começavam quando um deles sugeria algo e o outro respondia, e então a conversa se desdobra como uma flor em câmera lenta. Ela lhe contou sobre sua mãe em Salvador, sobre seus irmãos que ela raramente via, sobre como ela havia sempre amado aquela terra, mas como a solidão havia tornado aquele amor em algo perigoso, algo que a estava consumindo de dentro para fora. Ele lhe contou sobre seu pai, que entendia a
linguagem da terra de um jeito que Mateus nunca conseguiria completamente compreender, mas havia passado anos tentando sobre sua mãe, que havia ficado deprimida após a morte do marido, que havia morrido enquanto dorme, tão quietamente que ele apenas percebeu quando a tocou pela manhã. Uma noite, quando estavam sentados na varanda, Helena em uma cadeira, Mateus no chão, apoiado contra a estrutura de madeira. Mateus havia apontado para as estrelas. "Você vê aquela?", ele havia perguntado, apontando para um ponto de luz, entre muitas outras. Camila, minha ex-mulher, ela acreditava que cada pessoa tinha uma estrela no céu, que
quando você morre, você se torna uma estrela e que você pode falar com as pessoas através da luz dela. Helena havia olhado para as estrelas. Você acredita nisso? Não. Mateus havia respondido. Mas às vezes à noite, quando não consigo dormir, vejo uma estrela que brilha mais que as outras e penso que talvez seja Sofia. que talvez ela esteja lá em algum lugar olhando para baixo, me vendo. Talvez ela esteja, Helena havia dito. Talvez esteja vendo o homem bom que você é, mesmo depois de tudo. Mateus havia olhado para ela e, pela primeira vez, seus olhos
escuros havia perdido aquele véu de distância. Havia uma conexão ali, uma coisa que não tinha nome ainda, mas que estava crescendo cada dia que passava. A vida de Helena estava mudando, o medo estava diminuindo, as noites não eram mais tão longas, o trabalho de criar aquela plantação não era mais completamente solitário. E o bebê, ela podia sentir também estava se acalmando, como se aquele bebê dentro dela soubesse que havia alguma coisa diferente acontecendo, que não estava mais sozinho no escuro. Mateus estava mudando também. O trabalho tinha propósito novamente. Havia alguém dependendo dele. Havia uma razão
para acordar cedo, além de apenas ocupar o tempo antes de ele dormir novamente. Havia Helena grávida, sozinha e um bebê vindo e a possibilidade, por mais remota que fosse, de que ele poderia fazer uma diferença, de que ele poderia impedir que aquela criança crescesse com a mesma solidão que Sofia havia crescido. Nenhum deles havia falado sobre o futuro. Não havia promessas, não havia discussões sobre o que aconteceria depois que o bebê nascesse. Mas havia algo que estava sendo construído ali, muito lentamente, com muito cuidado, como alguém construindo uma casa de barro novamente, tijolos após tijolos,
esperando que desta vez a estrutura durasse. Uma noite, quando estava mais frio do que o normal, Helena havia tido cólicas. Contrações de Brexton Hicks, o médico havia chamado quando ela havia ido fazer o ultrassom, falsas contrações, o corpo praticando para o verdadeiro parto. Mas naquela noite ela não sabia que era falso. Ela havia acordado com dor nas costas, nas laterais do corpo, um aperto que vinha e ia. havia gritado sem conseguir se controlar. Mateus havia entrado na casa correndo. Havia encontrado Helena de pé no quarto, Segurando o ventre, seu rosto contorcido. "O quarto?", ele havia
perguntado, entrando em algum tipo de modo de ação. "Não." Helena havia gritado. "É muito cedo, não é hora." Mateus havia feito aquela coisa que ele havia aprendido com seu pai há muitos anos. Ele havia colocado suas mãos na barriga dela, havia sentido a contração e havia começado a falar. "Está bem", ele havia dito. Sua voz calma, controlada. "É apenas o corpo dela. O corpo está se preparando. Você está segura. Você está aqui. Você não está sozinha." E havia algo em aquela voz, algo em aquelas palavras que havia acalmado não apenas Helena, mas também o bebê.
As contrações haviam diminuído. O pânico havia se transformado em respiração controlada. Mateus havia colocado Helena deitada na cama, havia colocado uma mão na sua testa e havia ficado ali a noite inteira acordado, observando-a dormir, garantindo que se algo acontecesse, ela não estaria sozinha. Quando a manhã chegou, Helena havia acordado e visto Mateus dormindo em uma cadeira ao seu lado, sua cabeça caída para o lado, seu rosto finalmente em paz. E ela havia compreendido naquele momento, havia compreendido que havia algo acontecendo entre eles, algo que havia começado naquele primeiro encontro com as duas cabras e a
enchada, mas que havia se transformado em algo muito Diferente, muito mais profundo, muito mais real. Não era amor ainda, ou talvez fosse, mas um tipo de amor que era tão novo, tão frágil, que Helena tinha medo de nomeá-lo. Era algo mais próximo à gratidão, a reconhecimento, a compreensão de que ninguém deveria estar sozinho e que quando duas pessoas sozinhas se encontram, algo sagrado pode nascer dali. Mateus acordou alguns minutos depois, viu Helena acordada, observando-o. "Como você se sente?", ele perguntou. "Melhor, Helena respondeu, graças a você." Mateus havia apenas assentido com a cabeça, mas havia uma
coisa em seus olhos que havia mudado, uma coisa que dizia que ele compreendeu também que aquele encontro casual no caminho tinha significado mais do que qualquer um deles havia imaginado e que talvez, apenas talvez, ambos fossem capazes de salvar um ao outro. Outubro chegou com uma promessa no ar. Literalmente, as pessoas na comunidade próxima falam sobre como você pode sentir a chuva chegando dias antes dela cair, como o ar fica mais pesado, como os pássaros mudam seu canto, como até os insetos parecem se comportar diferente, como se aqueles pequenos organismos soubessem de algo que os
humanos ainda estavam esperando para compreender. Helena podia sentir. Toda a noite quando deitava na cama, ela pressionava suas mãos contra o vidro de uma pequena Janela que havia no lado leste da casa e sentia o ar. Ele era diferente, mais úmido, mais vivo, como se o planeta inteiro estivesse respirando mais fundo, se preparando para algo grande. Mateus também podia sentir. Ele havia passado sua vida inteira lendo os sinais da terra e do céu. Então, uma semana antes da primeira chuva chegar, ele havia começado a trabalhar mais rápido. E Helena faziam equipe agora, não consciente, mas
naturalmente, como se seus corpos tivessem aprendido a se mover em sincronia. Mateus preparava a terra. Helena plantava as sementes em fileiras cuidadosas. Ele construía pequenos canais de drenagem. Ela coletava água em baldes grandes, preparando reservas. Ele reforçava a cobertura do galpão com lona. Ela organizava o interior da casa para garantir que nenhuma goteira pudesse alcançar o que era importante. No final de setembro, quando Helena tinha apenas três semanas até o parto estimado, Mateus havia trazido uma carroça de madeira que ele havia conseguido de um vendedor na comunidade próxima. Com aquela madeira, ele havia ampliado a
varanda, criando um espaço coberto, onde eles poderiam sentar durante as chuvas, observar a tempestade sem se molhar. Por que você está fazendo tudo isso? Helena havia perguntado uma noite quando ouviam Trabalhar a luz fraca de uma vela dentro de casa. Ela estava deitada na cama, seu corpo agora tão pesado que sentar-se tinha se tornado uma tarefa e ele havia vindo de fora para beber água antes de voltar ao trabalho. Mateus havia parado. Havia olhado para ela por um longo tempo antes de responder: "Porque você merece", ele havia dito simplesmente, "Porque aquele bebê merece. Porque ele
havia hesitado, procurando as palavras corretas, porque estava tudo caindo aos pedaços e agora não está mais, disse. Helena não havia respondido imediatamente. Havia algo naquelas palavras que era tão honesto, tão direto, que ela havia sentido lágrimas queimar em seus olhos. Ela havia virado para o lado para que ele não pudesse ver seu rosto. Mas Mateus havia visto. Ele havia sentado na beira da cama e, por um momento, ele havia apenas deixado sua mão repousar sobre o ventre dela, onde o bebê havia começado a chutar em resposta ao toque. "Lucas está crescendo forte", Mateus havia dito.
"Você está cuidando bem dele. Nós estamos", Helena havia corrigido. Nós estamos cuidando bem dele. Você está tanto envolvido nisso quanto eu estou. Mateus havia assentido, mas havia uma coisa em seu rosto que ainda era guardada, ainda era cautelosa, como se ele quisesse acreditar naquelas palavras, mas tivesse medo de deixar a esperança florescer completamente, como Se esperança para ele fosse um perigo tão grande quanto qualquer outro. A primeira chuva chegou em uma terça-feira à noite, logo após o anoitecer. Começou como um murmúrio, apenas algumas gotas caindo nas folhas das árvores, apenas um padrão rítmico em algumas
superfícies, mas depois cresceu. O vento começou a soprar com mais força. O que havia sido um murmúrio se transformou em um roar constante. Helena estava acordada. Dormir estava se tornando cada vez mais difícil conforme a data do parto se aproximava. Ela havia ouvido Mateus sair correndo do galpão. Havia ouvido seus passos rápidos, verificando a cobertura do telhado, garantindo que tudo estava seguro. Ele havia entrado na casa molhado, sua camisa grudada em seu corpo, seu cabelo caindo em mechas molhadas sobre seu rosto. Ele havia caminhado até o quarto dela sem bater. Tinha havido uma familiaridade em
aquele gesto que meses antes teria feito Helena se afastar com medo. Agora fazia seu coração bater mais rápido por uma razão completamente diferente. Tudo bem? Ele havia perguntado. Sim. Helena havia respondido. Estou segura aqui. Totalmente, Mateus havia assegurado. O telhado está forte. Os canais de drenagem estão funcionando. Se chover por dias, você não vai ter uma gota de água indesejada dentro de casa. Prometo. Helena havia acreditado. Havia acreditado porque Mateus tinha aquele tipo de certeza em sua voz que vinha de alguém que havia encarado piores tempestades e havia sobrevivido. Ele havia sentado no chão, encostado
na parede e havia ficado ali enquanto a chuva caía. Eles não haviam conversado, apenas estavam juntos. Helena havia dormido e acordado várias vezes durante aquela noite. E cada vez que havia acordado, ele ainda estava ali acordado, Vigilante, como um protetor. As chuvas continuaram por uma semana, todos os dias, toda a noite. O tipo de chuva que parece que nunca vai parar, que parece que o mundo inteiro está sendo lavado, limpo, começando novamente. Durante aquela semana, a propriedade de Helena se transformou. O que havia sido uma terra seca e ressequida se transformou em algo exuberante. A
mandioca que Mateus havia plantado começou a brilhar com nova vida. Os vegetais na horta explodiram em crescimento. Até as árvores ao redor da casa pareceram mais verdes, mais vivas. E então, no sétimo dia de chuva, ocorreu o conflito. Havia chegado uma carta, não para Helena especificamente, mas para a casa. Alguém da comunidade havia trazido, um homem que ele havia reconhecido do rosto e do nome escrito no envelope. Helena havia aberto e havia visto que era do homem que havia adquirido a propriedade de Mateus anos antes. E a carta era uma oferta de compra. Mateus havia
lido por cima de seu ombro. Helena havia sentido seus músculos ficarem intensos. Ele quer comprar a terra? Helena havia perguntado confusa. Não, Mateus havia respondido. Sua voz havia se tornado aquela coisa que ela não havia ouvido em semanas. Aquela voz Distante, fria, protegida. Ele quer vender. Ele está oferecendo a terra para você, a propriedade onde estamos vivendo. Está dizendo que a comprou anos atrás de mim, mas que há evidência legal que sugere que eu tinha direitos à propriedade que eu talvez não tivesse exercitado completamente. Ele está oferecendo dividir o lucro de uma venda futura com
você, se você quiser fazer uma claim legal. Helena havia olhado para a carta novamente. Havia números lá. Números muito grandes. Números que poderiam mudar a vida dela. Números que poderiam significar que ela nunca mais teria que se preocupar com dinheiro, com segurança, com o futuro de Lucas. Você quer isso? Helena havia perguntado, observando o rosto de Mateus. Não importa o que eu quero, Mateus havia respondido. E aquele tom em sua voz, aquele tom de alguém que havia aprendido há muito tempo que seus desejos não importavam, havia quebrado algo dentro de Helena. Importa sim. Ela havia
dito mais alto do que pretendia. Importa porque você está aqui. Importa porque você trabalhou essa terra. Importa porque ela havia hesitado, porque você é parte disso. Não sou, Mateus, havia respondido. Ele havia se afastado da carta, afastado de Helena e havia caminhado para a janela. A chuva Batia contra o vidro. Sou um vagabundo que apareceu em um caminho. Você é a que tem a propriedade. Você é a que tem o bebê. Você é a que tem uma vida para construir. Se há dinheiro lá, você deveria tomar. E você? Helena havia perguntado. O que você vai
fazer? Mateus havia ficado em silêncio por um tempo tão longo que Helena pensou que ele não responderia. Mas então ele havia falado, ainda olhando para a chuva. Vou fazer o que sempre faço", ele havia dito. "Vou pegar esperança e memória e vou caminhar. Vou encontrar outro lugar que precise de trabalho, outro lugar onde eu possa ocupar espaço útil." Helena havia sentido o pânico subir em seu peito. Havia sentido como se o chão embaixo de seus pés estivesse desaparecendo, como se aquela casa que havia sido um refúgio, estivesse se tornando um vácuo novamente. Não, ela havia
dito. Sua voz havia ficado alto, desesperado. Você não pode simplesmente partir. Você não pode simplesmente desaparecer. Por que não? Mateus havia perguntado, virando para encará-la, e havia dor em seus olhos, tanta dor, que Helena havia compreendido, então compreendido que ele havia passado por isso antes, que ele havia aprendido há muito tempo a deixar as pessoas antes que tivesse que ser deixado. Você estará bem. Você tem dinheiro agora. Você tem segurança. Você não precisa de mim. Não é sobre Precisar. Helena havia gritado e havia lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Agora é sobre querer. É sobre o
fato de que você importa, de que você não é apenas útil. Você é Ela havia procurado as palavras. Você é importante para mim, para Lucas, para ela. Não havia terminado a frase, não havia conseguido dizer as palavras para meu coração, não havia conseguido dizer: "Eu te amo". em alguma forma que fosse verdadeira. Mas Mateus havia compreendido de qualquer forma. Ele havia visto nos seus olhos e algo nele havia quebrado. Aquele muro que ele havia construído ao longo de anos de perdas havia começado a desmoronar. Ele havia caminhado até ela e havia se sentado na cama.
Havia colocado sua testa contra a dela e havia começado a chorar. Não de forma barulhenta ou teatral. Apenas lágrimas silenciosas que caíam de seus olhos para suas bochechas e depois para a cama. "Não consigo fazer isso de novo", ele havia sussurrado. "Não consigo amar alguém e depois perdê-los. Eu não consigo." Camila partiu. Sofia foi levada. Meus pais morreram. Você é, ele havia pausado. Você é a última coisa que eu tenho de esperança. E se eu deixar que isso crescer demais, se eu deixar que isso se torne real? Então, quando você me deixar, quando descobrir que
você merece alguém melhor, algo que não Seja apenas um homem que vagueou pelo Brasil com duas cabras, eu vou morrer. Literalmente vou morrer. Helena havia colocado sua mão em seu rosto, havia sentido aquelas lágrimas ainda quentes. "Você não vai perder", ela havia dito. "Eu prometo. Eu não vou deixá-lo. Não importa o que aconteça, não vou deixá-lo. Você não pode fazer essa promessa? Mateus havia respondido. Ninguém pode. Posso Helena havia insistido. Estou fazendo agora diante de Deus, diante dessa chuva, diante de tudo o que é sagrado neste mundo, eu não vou deixá-lo. Não porque você seja
útil, não porque você tenha consertado meu telhado ou plantado minha comida, mas porque você é você. E porque está vendo que mesmo quando está quebrado, mesmo quando está com medo, você continua aparecendo, você continua escolhendo estar aqui, você continua escolhendo cuidar de mim e de Lucas. E isso ela havia colocado sua mão em seu coração. Isso torna você digno de ser amado. Mateus havia olhado para ela por um longo tempo e então havia a beijado. Não foi um beijo apaixonado ou cinematográfico. Foi um beijo suave, delicado, cheio de todas as coisas que nenhum deles havia
conseguido dizer em palavras. Quando se afastaram, Mateus havia pegado a carta. Diga ao homem que não, ele havia dito. Diga ao homem que essa propriedade é sua, que foi dada para você por circunstâncias maiores que ambos nós. Diga ao homem que você não vai fazer nenhuma clã legal. Diga ao homem que aqui é um lugar onde alguém está começando de novo e que a última coisa que essa pessoa precisa é de dinheiro para complicar tudo. E você? Helena havia perguntado, "Vou ficar." Mateus havia respondido, "Se você me quiser, vou ficar enquanto você quiser que eu
fique. E se um dia você quiser que eu vá, prometo que vou partir sem ressentimento. Mas enquanto puder estar aqui, enquanto puder estar com você e com Lucas, vou estar." Helena havia chorado novamente, mas desta vez era de alívio, de alegria, de esperança. A chuva continuou por mais alguns dias, mas quando ela finalmente parou e o sol voltou a brilhar sobre a terra molhada, algo havia mudado na propriedade. Não era apenas a vegetação que havia crescido, era o próprio ar que parecia diferente, parecia preenchido com a possibilidade, com o futuro. Mateus havia feito um pequeno
berço de madeira talhado à mão, com aquela maneira dele de trabalhar que transformava madeira comum em algo com alma. havia colocado um pequeno lençol dentro, havia colocado ao lado da cama De Helena, bem pertinho, para que o bebê estivesse próximo durante as noites. "Lucas vai estar seguro aqui", ele havia dito. E Helena havia compreendido que ele não estava falando apenas sobre o berço, estava falando sobre a vida, sobre o futuro, sobre a promessa de que desta vez nem ela nem seu filho estariam sozinhos. Restavam apenas duas semanas para o nascimento. E quando Helena dormia à
noite com Mateus dormindo em uma cadeira ao seu lado, esperando estar perto caso algo acontecesse, ela sentia uma coisa que não havia sentido em muito tempo. Paz. O parto começou em uma madrugada de sábado. Helena acordou com uma dor que era diferente das contrações falsas que havia sentido semanas antes. Era uma dor que vinha das profundezas, que se irradiava de forma diferente, que tinha um propósito. O corpo dela sabia, o bebê sabia. Era hora. Ela havia gritado, não conseguiu evitar. Foi um grito que saiu de algum lugar primitivo dentro dela, algum lugar que sabia em
nível celular, que estava prestes a passar pela maior transformação de sua vida. Mateus havia acordado imediatamente. Ele dormia na cadeira ao lado da cama, como havia feito todas as noites nos últimos dois meses. Ele estava acordado em segundos, tocando seu rosto, perguntando: "É agora? É agora?" "Acho que sim. Helena havia gemido, sua voz sendo interrompida por outro espasmo de dor. Preciso do médico. Preciso de ajuda. Não consigo fazer isso sozinha. Você não está sozinha. Mateus havia dito. E havia uma certeza tão inabalável naquela afirmação que Helena, por um breve momento, havia acreditado que tudo seria
bem. Mas havia um problema. O médico mais próximo estava em Carolina há mais de uma hora de carro dali e eles não tinham carro. Mateus tinha cavalo emprestado de um vizinho, um animal velho e lento, que havia comido ração de forma irregular. Eles poderiam tentar, mas a estrada de terra estava ainda enlameada pelas chuvas recentes. Podia levar duas horas ou três. E Helena, pela maneira como o corpo estava se comportando, talvez não tivesse duas ou três horas. Vou buscar a parteira. Mateus havia dito decidido. Dona Benedita, ela nasceu em cinco filhos. Ela sabe como fazer
isso. Você vai me deixar sozinha? Helena havia perguntado pânico, transpirando suas palavras. Por meia hora. Mateus havia respondido. Uma hora no máximo. Você será forte. Você é a mulher mais forte que eu conheço. Você sobreviveu meses sozinha, grávida, com medo. Você consegue sobreviver meia hora sozinha. Ele havia preparado a casa rapidamente, havia trazido água morna, Havia colocado panos limpos sobre a cama, havia colocado velas ao redor do quarto, porque a luz elétrica era intermitente naquela propriedade. Havia colocado um pequeno sino de bronze ao lado da cama. Se algo mudar, se você sentir que está ficando
pior, você toca isto", ele havia dito, colocando o sino em sua mão. O senhor Osvaldo mora em uma propriedade que você consegue ouvir daqui se você tocar com força. Ele virá correndo. "Você volta rápido?", Helena havia perguntado, segurando sua mão. Tão rápido quanto minhas pernas conseguem levar, ele havia prometido e havia abeijado na testa. Lucas está vindo para o mundo e você está pronta. Então ele havia partido no escuro correndo pela trilha que ele conhecia tão bem agora, indo em direção à casa de dona Benedita, deixando Helena sozinha com o filho, que era apenas dele
agora, naquele quarto iluminado por velas, naquela casa de barro, em um morro esquecido. Os próximos 40 minutos foram como viver séculos. As contrações vieram com mais frequência. Helena caminhava de um lado para o outro do quarto, segurando seu ventre, sentindo o bebê se movimentar dentro dela com intensidade que a assustava. Ela havia gritado novamente mais de uma vez. Havia chorado. Havia rezado para coisas que ela não acreditava, pedindo ajuda para Divindades que ela não estava segura que existiam. E então Mateus havia retornado com dona Benedita. Dona Benedita tinha 72 anos, cabelos brancos presos em um
coque aperto e um tipo de calma que só vem de alguém que havia presenciado muitos nascimentos e compreendido que o parto era, na verdade, um processo perfeitamente natural que o corpo das mulheres havia executado por milhares de anos antes de medicina e hospitais existirem. Deixe eu ver", ela havia dito. E havia levantado a saia de Helena. Havia examinado-a com mãos que conheciam exatamente o que procuravam. "Meu Deus, você está aberta demais. Esse bebê vai vir logo, muito logo." "Quanto tempo?", Helena havia perguntado entre gemidos. "Talvez uma hora." Dona Benedita havia respondido. "Talvez menos. Este bebê
está com pressa de nascer." Mateus havia colocado a mão em um canto do quarto, tentando não atrapalhar, mas também claramente não conseguindo deixar. Dona Benedita havia olhado para ele. "Você é o pai?", ela havia perguntado. Havia um silêncio longo. Helena havia sentido o coração dele bater através da mão, que ainda estava segurando a sua. "Sim", Mateus havia respondido. "Eu sou." E naquela simples palavra, ele havia reivindicado Lucas. Havia escolhido ser pai não pelo DNA, mas pela presença, pela escolha, pelo compromisso de estar ali quando mais importava. Dona Benedita havia assentido com a cabeça. Então você
Fica aqui, ela vai precisar de você. A próxima hora foi das contrações ficar mais próximas. Helena começou a respirar da maneira que dona Benedita pediu. Começou a se mover conforme seu corpo pedia e começou a sentir uma pressão que crescia e crescia como se o bebê finalmente estivesse pronto. Pronto para sair, pronto para vir para o mundo. Pode começar a empurrar. Dona Benedita havia dito. Quando a contração vem, você empurra com todo o poder que tem. Helena empurrou. Deus sabe que ela empurrou. Ela havia empurrado como se estivesse tentando transformar sua dor em poder, converter
cada lágrima em força. E Mateus havia estado lá segurando sua mão, colocando água na sua testa, sussurrando palavras de encorajamento que ela não conseguia compreender completamente, mas que reconhecia como amor. "Lucas está vindo", ela havia gritado. "Eu consigo senti-lo. Continue empurrando." Dona Benedita havia instruído. Continue, ele está quase aqui. Então, com um último grito que havia saído do fundo de seu ser, com um último empurrão que havia custado cada grama de força que ela tinha, Lucas nasceu. Ele havia saído para as mãos de dona Benedita, coberto em sangue e fluidos corporais, seu corpo pequeno e
perfeitamente formado. Por um momento, um momento que havia parecido eterno. Ele havia ficado em silêncio. Nenhuma respiração, nenhum choro, apenas Silêncio. Helena havia entrado em pânico. Por que ele não está chorando? Porque e então Lucas havia respirado e havia soltado um choro que havia ecoado através de toda a casa, através de todo o mato ao redor, um som primitivo e perfeito de uma criança anunciando sua chegada ao mundo. Dona Benedita havia rapidamente limpado o bebê, havia cortado o cordão umbilical com uma tesoura que havia esterilizado com fogo. havia embrulhado Lucas em um lençol limpo, aquele
que Mateus havia preparado e havia colocado o bebê no peito de Helena. Aqui está seu filho, dona Benedita havia dito. E havia um sorriso em seu rosto, aquele sorriso que vem de testemunhar um milagre. Helena havia olhado para Lucas, havia olhado para aquele pequeno ser que havia chegado ao mundo, que havia estado apenas dentro dela apenas minutos antes, e agora estava fora. Estava respirando, estava vivo. Seus olhos pequeninos e inchados estavam fechados. Seu rosto era uma mistura de sua mãe e de um bebê universal que todos os recém-nascidos parecem ter. Seus pequenos dedos estavam fechados
em punhos pequeninos. Ela havia começado a chorar. Lágrimas que eram alegria pura, alívio puro e uma quantidade de amor tão grande que era impossível conter em um corpo humano. E Mateus havia chorado também. Ele havia Ficado de pé ao lado da cama, olhando para Lucas, e havia chorado. Não apenas lágrimas, mas soluços silenciosos que chuque através de todo seu corpo. Ele é perfeito. Mateus havia sussurrado. Ele é Helena havia concordado e havia colocado Lucas mais perto de seu coração. E ele havia começado a procurar pelo peito, começado a entender instintivamente o que precisava fazer. Dona
Benedita havia entregado a placenta. Mateus havia ficado surpreso em aprender que havia outra parte que precisava sair e havia limpado Helena. Havia certificado que não havia hemorragia perigosa. Havia certeza de que a mãe e o bebê estavam ambos vitais e saudáveis. Você fez bem", ela havia dito a Helena. "Muito bem. Você é uma mãe forte". Depois ela havia se virado para Mateus e havia colocado uma mão em seu rosto. "E?", ela havia dito. "Você é um homem, um verdadeiro homem que está aqui, que está escolhendo. Isso é raro, muito raro. Parabéns ao novo pai." Mateus
havia sentido, incapaz de falar através das lágrimas. Dona Benedita havia ficado por mais algumas horas certificando que tudo estava bem, ensinando Helena como amamentar. Aquela primeira amamentação havia sido desajeitada, mas funcionava. E certificando que o bebê estava respirando corretamente, estava quente, estava saudável. Ele vai dormir agora, dona Benedita havia dito. E você vai dormir também. Seu corpo precisa de descanso. Você perdeu sangue. Você usou toda a sua energia. Durma. Então, dona Benedita havia partido com Mateus, oferecendo-se para acompanhá-la de volta, e ela recusando, dizendo que ela conhecia o caminho tão bem quanto conhecia seu próprio
rosto. Quando Mateus havia retornado, Helena e Lucas estavam dormindo. Helena havia deitado no lado dela. Lucas descansando contra seu peito. Ambos respirando sincronizados, ambos em paz. Mateus havia deixado uma vela acesa, havia puxado a cadeira mais perto e havia simplesmente observado. Observou Helena enquanto ela dormia. Observou Lucas enquanto ele dormia. Observou os dois existindo juntos agora. Dois seres que dias antes estavam um. Dois seres que ele amava com uma intensidade que o assustava. Na madrugada, quando Lucas acordou com fome, Helena acordou também. Mateus havia trazido água morna, havia ajudado a posicionar o bebê, havia permanecido
ali enquanto amamentava. Ele havia sussurrado histórias para o bebê, histórias sobre a terra, histórias sobre cabras que viajavam para conhecer mulheres grávidas, histórias sobre como A vida quando era dura, às vezes oferecia os presentes mais inesperados. "Ele é nosso", Helena havia sussurrado enquanto Lucas mamava, seus olhos fixados no rosto dele, com aquela concentração que os bebês muito jovens têm. Ele é Mateus havia concordado e havia colocado seu dedo no pequeno punho de Lucas e o bebê havia agarrado e Mateus havia sentido uma conexão atravessar através dele que era tão profunda que o assustou porque agora
ele tinha algo a perder novamente. Agora ele estava ligado a outro ser humano de uma forma que não podia ser desfeita. Agora ele estava vulnerável. Mas quando olhou para Helena, para seu rosto exausto, mas radiante, para seu corpo que havia feito um milagre, para a forma como ela olhava para Lucas, como se ele fosse o milagre mais precioso que o universo tinha a oferecer, Mateus compreendeu algo. compreendeu que aquela vulnerabilidade era, na verdade, a coisa mais valiosa do mundo, porque significava que ele era capaz de amar, que ele não havia morrido por dentro quando Camila
o havia deixado, que ele era capaz de estar presente, que ele era capaz de ser mais do que um homem vagueando pelo Brasil com duas cabras. Ele era capaz de ser pai. Ele era capaz de ser um parceiro. Ele era capaz de ser completo. E enquanto o amanhecer começava a quebrar sobre o horizonte, enquanto os pássaros Começavam a cantar suas canções de boas-vindas para o novo dia, Mateus colocou sua mão no rosto de Lucas, aquele pequeno rosto que estava mudando o mundo, e fez uma promessa silenciosa. Vou estar aqui. Ele havia sussurrado. Para você, para
sua mãe, para qualquer coisa que vocês precisarem, eu vou estar aqui. Eu prometo. E Mateus havia aprendido há muito tempo a não fazer promessas que ele não pudesse manter. Mas esta promessa ele sabia, ele manteria, mesmo que custasse sua vida, mesmo que significasse sacrificar qualquer outra coisa que o mundo pudesse oferecer, porque Lucas havia nascido e com Lucas vinha o futuro. E Mateus havia aprendido finalmente a acreditar novamente em futuros. As primeiras semanas foram um caos organizado. Helena dormia apenas em fragmentos de tempo. Uma hora aqui, meia hora ali, sempre acordando quando Lucas chorava, sempre
se oferecendo para alimentá-lo. Seu corpo, que havia passado pela transformação mais violenta de sua vida, estava se recuperando lentamente. Havia momentos em que ela mal conseguia sair da cama. Havia momentos em que o sangramento não queria parar e ela tinha medo, um medo primitivo que ela não revelava a Mateus, mas que a acordava no Meio da noite com pânico. Mateus havia se tornado tudo. Ele havia se tornado a mãe no sentido de que fazia tudo que uma mãe faria além de amamentar. Ele mudava as fraldas de Lucas, aquelas que ele havia feito com algodão macio
e panos que havia rasgado e costurado nas noites quando Helena dormia. Ele limpava o bebê quando ele tinha aqueles desejos marrom de recém-nascido que pareciam sair de forma infinita. Ele carregava Lucas enquanto caminhava pela casa, balançando-o suavemente, cantando canções que ele não tinha certeza que era exatamente melodia, mas que pareciam acalmar o bebê. Ele cozinhava. Ele havia aprendido com sua mãe décadas antes, mas havia abandonado aquela habilidade quando tudo havia desabado. Agora ele a ressuscitava. fazia sopas com caldo de osso que Helena bebia para recuperar força. Fazia pão em um forno de barro que ele
havia construído do lado de fora da casa. Fazia cada refeição com a intenção de não apenas alimentar, mas de curar. E ele deixava que Helena descansasse. Ele insistia nisso. Havia noites em que Lucas acordava chorando e Mateus carregava o bebê até a cama de Helena para amamentar. e depois o carregava novamente quando terminava, permitindo que Helena voltasse a dormir. "Você precisa descansar", ele insistia. "Seu corpo passou por uma guerra. Deixe-me cuidar de ambos". E ela deixava, porque Ela estava aprendendo lentamente a confiança. Na terceira semana, dona Benedita havia retornado para uma visita de acompanhamento. Ela
havia examinado Helena, havia examinado Lucas e havia assentido com aprovação. Você está se recuperando bem", ela havia dito a Helena, "Seu corpo está cicatrizando e este bebê, pois ela havia levantado Lucas, havia observado seu rosto pequeno. Este bebê é perfeitamente saudável. Você está alimentando bem." Mas havia algo no rosto de dona Benedita quando ela havia observado Mateus cuidando de Lucas, limpando sua boca, acalmando um choro que havia transmitido compreensão, aceitação. Você o ama? Dona Benedita havia dito a Mateus não uma pergunta, mas uma afirmação. Sim, Mateus havia respondido simplesmente isso é bom. Dona Benedita havia
respondido: "Uma criança precisa de amor, de homens que amam e que não tm medo de mostrar isso. O mundo precisa de mais disso." Depois que dona Benedita havia partido, Mateus havia se sentado com Lucas no colo. Helena havia observado dele enquanto ele cantava suavemente para o bebê e havia compreendido completamente que aquele homem havia se transformado em algo sagrado para ela. Não era apenas gratidão, não era apenas admiração, era um tipo de amor que era tão profundo que A assustava. Na quinta semana, a comunidade começou a saber Braz de Jesus era uma comunidade pequena, onde
todos sabiam de todos. E notícias espalhavam mais rápido que as chuvas de outubro. Alguém havia visto Mateus em Carolina comprando fraldas. Alguém havia ouvido o choro de um bebê vindo da propriedade de Helena. Alguém havia notado que Mateus agora morava efetivamente em uma pequena cabana que ele havia construído apenas a alguns metros da casa de Helena, mas que ele passava cada noite nela, não isolado como havia sido antes. As primeiras reações foram mistas. Dona Benedita havia espalhado a verdade, que Helena havia ficado grávida de um homem da cidade que a havia abandonado, que Mateus havia
aparecido apenas dias antes do parto e havia ficado para ajudar, que ele era um homem decente que estava cuidando tanto da mãe quanto do bebê. Aquela história havia conquistado corações, havia romantismo nela, havia redenção, mas havia também julgamentos. E via mulheres que sussurravam que Helena havia dormido com um homem sem ser casada e que isso era um pecado. Havia homens que perguntavam a Mateus se ele realmente ia cuidar de uma criança que não era dele. Havia gente que presumia que Mateus estava apenas esperando sua chance de tomar vantagem da situação, de engravidar Helena novamente ou
de tomar a propriedade quando ela ficasse vulnerável. Uma dessas pessoas era o padre da Comunidade, padre Antônio. Ele havia aparecido um domingo, dois meses após o nascimento de Lucas. Havia entrado na casa sem bater, com aquele tipo de autoridade que padres frequentemente carregam, a autoridade de alguém que acreditava ser enviado por Deus. "Eu vim ver a criança", ele havia dito, "e também falar com você, Helena, sobre o estado de sua alma". Helena havia sentido o pânico. Havia algo no tom dele que a deixava desconfortável. Mateus, que havia estado no galpão, havia aparecido imediatamente, como se
pudesse sentir a mudança na atmosfera. Padre, Mateus havia dito, a sentindo respeitosamente. Você, padre Antônio, havia dito apontando para Mateus. Você é o homem? Sou. Mateus havia respondido: "E você está vivendo aqui?" "Sim, com ela, com a mulher, com ela e com Lucas." Mateus havia respondido. E havia algo em seu tom que era calmo, mas também firme, como se ele estivesse plantando uma bandeira. "Nós somos uma família." Padre Antônio havia caminhado até o berço onde Lucas estava dormindo. Ele havia observado o bebê por um longo tempo. "Este bebê? Ele havia dito finalmente: "Nasceu fora do
casamento. Sua mãe viveu em pecado e agora um homem que não é seu marido está vivendo aqui." Ele havia virado para Helena. Isso não pode continuar. Você precisa se casar imediatamente para salvar sua alma e a alma desta criança. Helena havia sentido Mateus ficar rígido ao seu lado. Com respeito, padre, Mateus havia dito, sua voz ainda calma. Nós vamos nos casar quando for certo. Não porque um homem nos disser que temos que fazer, mas porque nós decidirmos juntos que é a hora correta. Você vai ao inferno. Padre Antônio havia respondido, seu rosto ficando vermelho. Ambos
vão. Esta criança crescerá sem bênção, sem salvação. Esta criança, Mateus havia interrompido, crescerá em um lar onde é amado, onde há comida, onde há segurança, onde há duas pessoas que, apesar de seus pecados, apesar de suas falhas, o amarão com cada fibra de seu ser. Se isso é inferno, então que eu queime eternamente. Mas eu não acredito que seja. Eu acredito que Deus olha para esse menino, para essa mãe e vê exatamente o que eu vejo. Vê amor, vê sacrifício, vê duas pessoas tentando fazer o certo, mesmo quando o mundo está lhes dizendo que eles
estão errados. Havia um silêncio tão profundo que você poderia ouvir o som de Lucas respirando no berço. Padre Antônio havia virado e havia partido sem dizer mais nada, mas Quando ele saiu, ele havia deixado algo para trás, um sentimento de que havia sido confrontado e que talvez, apenas talvez, ele não havia sido a autoridade em aquele quarto. Após aquele dia, as coisas mudaram. Aquela história de Mateus defendendo sua família contra o próprio padre se espalhou pela comunidade e as pessoas começaram a ver a situação diferentemente. Começaram a ver Mateus não como um vagabundo, mas como
um homem que havia feito uma escolha. Uma escolha difícil de amar alguém que não era sua obrigação amar. Uma escolha de construir uma vida em vez de destruir uma. Os primeiros visitantes chegaram semanas depois. Dona Maria, que morava na propriedade vizinha, havia vindo com uma cesta de comida. Havia trazido um presente para Lucas, uma pequena colxa que havia feito à mão. "Isso é para meu afilhado", ela havia dito, olhando para Lucas com olhos que brilhavam. Porque alguém precisa ser o padrinho dele e como ninguém mais ofereceu, vou assumir o trabalho. Outros haviam seguido. Um homem
que vendia gado havia oferecido ajuda com a propriedade, sugerindo que ele e Mateus poderiam trabalhar juntos em projetos maiores. Uma mulher que havia perdido sua filha para a cidade havia frequentemente visitado, trazendo livros para Helena, conversando sobre a vida. oferecendo aquele tipo de amizade que as mulheres precisam. E em um dia de novembro, Exatamente um ano após o encontro inicial, Mateus havia levado Helena até a pequena igreja branca. Ele não havia planejado, ele não havia feito uma proposta elaborada. Ele simplesmente havia colocado Lucas em um sling que ele havia feito, havia pegado na mão de
Helena e havia levado-a até o lugar onde dona Benedita casava seus pais, onde padre Antônio dizia suas missas, mesmo que nenhum deles fosse mais lá. E ali, na frente da comunidade, ele havia pedido. Você quer casar comigo? Ele havia perguntado, sua voz havia tremido, suas mãos haviam tremido. Eu sei que isso não é uma vida perfeita. Eu sei que eu não sou uma pessoa perfeita, mas eu amo você. Amo Lucas e eu quero passar o resto de minha vida cuidando de vocês, amando vocês, sendo a melhor versão de mim mesmo por vocês. Você quer casar
comigo? Helena havia chorado e ela havia dito sim, tão rápido que ele tinha rido, imaginando por um momento que ela estava brincando. O casamento havia acontecido uma semana depois. Nada elaborado, nada caro. Apenas Helena em um vestido simples que ela havia pedido emprestado de uma vizinha, Mateus, em uma camisa limpa e calças que ele havia comprado em Carolina. e Lucas, dois meses de idade, Dormindo nos braços de dona Benedita. Padre Antônio havia realizado a cerimônia. Ele não havia pedido desculpas, mas havia algo em suas palavras, algo sobre como Deus trabalha de maneiras misteriosas, como o
amor resgata as almas, que havia sugerido que ele havia compreendido finalmente que aquele casamento não era um pecado, mas uma redenção. Quando Mateus havia beijado Helena, um beijo que foi delicado, respeitoso, cheio de promessas, a comunidade havia aplaudido. Os meses que se seguiram foram uma transformação tranquila. Lucas crescia. Seus olhos começaram a focar, a seguir o rosto de seu pai quando ele caminhava pela sala. Seu sorriso chegou em uma noite inesperada quando Mateus estava fazendo caretas para ele. Seus risos, aqueles primeiros risos de bebê, faziam Mateus chorar de alegria. Helena se recuperava completamente. Seu corpo
voltava ao normal, sua confiança se reconstruía. E ela começou a cultivar novamente, não apenas por sobrevivência, mas porque ela compreendeu que ela e Mateus estavam construindo algo que duraria. A propriedade floresceu sob suas mãos combinadas. O que havia sido uma estrutura em ruínas se transformou em uma casa real. Mateus havia Construído uma extensão, um quarto maior para Lucas, um local de cozinha melhorado. Helena havia plantado uma floresta de frutas, mangas, goiabas, bananas, que cresceriam por anos vindouros, alimentando sua família. E nas noites, quando Lucas dormia entre eles, Mateus havia insistido que era seguro, que ele
havia pesquisado, que ele queria estar perto de seu filho. Eles conversavam sobre o futuro. Eu quero mais filhos. Helena havia dito uma noite quando Lucas tinha 4 meses. Sim. Mateus havia perguntado tocando seu rosto. Quantos? Três, quatro, talvez. Uma casa cheia. Helena havia respondido. Uma casa cheia de vida, de risadas, de caos. Isso é possível. Mateus havia respondido. Com você tudo parece possível. Eu estava com medo. Helena havia confessado uma outra noite. Quando você apareceu, eu estava com medo de que você fosse uma ilusão, que você desapareceria. Eu não vou desaparecer. Mateus havia prometido. Enquanto
você me quiser, eu estarei aqui. Para sempre. Helena havia perguntado. Para sempre. Mateus havia respondido. E havia uma certeza naquelas palavras que não deixava espaço para dúvida. E assim, aquela história que havia começado com uma mulher grávida, sozinha, no topo de um morro esquecido, Havia se transformado em algo completamente diferente. Havia se transformado em vida, em futuro, em redenção. Mateus não havia procurado por aquela vida quando havia aparecido naquele caminho com duas cabras e uma enchada. Ele havia procurado apenas por um lugar onde morrer lentamente, onde seu coração partido pudesse finalmente parar de bater. Mas
em vez disso, ele havia encontrado Helena, e Helena havia encontrado ele. E Lucas havia chegado para completar algo que nenhum deles havia compreendido que estava quebrado. E agora, naquele silêncio do mato, aquele silêncio que havia sido tão pesado, tão opressivo, havia vozes, havia risos, havia a respiração de um bebê, havia os sons de duas pessoas vivendo, realmente vivendo, em vez de apenas existindo. Na verdade, aquela história não havia terminado. Na verdade, ela estava apenas começando, porque Lucas cresceria e haveria outros filhos. Haveria Amélia, que nasceria dois anos depois, com os olhos de Helena e o
sorriso de Mateus. Haveria Gabriel, seu terceiro filho, que herdaria a habilidade de Mateus com a terra. Haveria Lara, que nasceria ultima sã de tudo, a surpresa alegre que encerraria aquele capítulo de suas vidas. Haveria Sofia, a filha de Mateus, que estava em Teresina, visitando quando tinha 16 anos, vendo seu pai casado, vendo seus meio irmãos e compreendendo finalmente que seu pai não a havia abandonado, que ele havia cuidado dela, mesmo que de longe, mesmo que de forma que ela não pudesse compreender na época. veria Mateus levando Sofia para visitar a propriedade, mostrando-lhe como ele havia
consertado o telhado, onde havia sido goteiras, como havia ampliado a casa, como havia plantado aquela floresta de frutas. E Sofia compreenderia naquele momento que seu pai havia encontrado um novo tipo de paz, um novo tipo de lar. Haveria Helena envelhecendo ao lado de Mateus, ambos trabalhando a terra. Ambos cuidando de seus filhos, ambos vivendo uma vida simples, que era tudo o que eles necessitavam. em algum lugar naquele mato, aquelas duas cabras, esperança e memória, continuariam a viver, símbolo daquele momento quando tudo havia mudado, quando um homem com nada havia chegado e havia oferecido tudo. que
às vezes a vida não oferece grande momentos, oferece enchadas e cabras, oferece homens simples que aparecem em caminhos e mulheres grávidas que estão assustadas. oferece o silêncio do mato e a promessa de que talvez, apenas talvez, aquele silêncio não tenha que ser solitário. Oferece em essência a oportunidade de começar novamente. E se você for corajoso o suficiente para agarrar aquela oportunidade? Se você for honesto o suficiente para admitir que está assustado, se você for destemido o suficiente para amar, apesar de toda a dor que a vida já lhe causou, então talvez você descubra que aquele
silêncio pesado não era uma prisão. Era apenas o espaço antes da música começar. Era apenas o silêncio antes da vida verdadeira finalmente começar. Fim. M.