Finalmente chegamos a um dos vídeos mais importantes aqui do Alimente o Cérebro. O vídeo em que vamos conhecer o pensamento do filósofo que serviu de base para a toda a nossa filosofia ocidental. Sócrates.
E gente, não é por menos, ele foi responsável por nada menos do que colocar a razão no centro da nossa sociedade. Ele foi responsável por nos fazer acreditar na nossa inteligência como a solução para sermos humanos melhores, mais justos e felizes. Pode parecer óbvio para você isso, mas isso era tão absurdo esses seus ensinamentos o levaram à morte.
Para muitos hoje em dia as suas as ideias de Sócrates podem até parecer inofensivas, mas para os contemporâneos dele, ele era um perigo, e a solução encontrada foi condená-lo à morte. Nesse vídeo eu quero mostrar pra vocês que ideias eram essas que fizeram um dos maiores pensadores da nossa história ser condenado e morrer por causa de suas ideias. Antes de começar eu gostaria de fazer um agradecimento aos membros do canal.
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Eu quero começar a falar de Sócrates falando de um problemão que ele nos causou. Obviamente não vivemos no mesmo tempo de Sócrates, então tudo que sabemos dele é o que foi escrito, registrado. O grande problema era que Sócrates não curtia muito escrever.
Ele fazia filosofia saindo no meio da rua, abordando pessoas aleatória, praticando que ele chamava de oralidade dialética, que vamos aprender já já o que é. Então o que acontece é que o que sabemos de Sócrates hoje foi nos passado por meio dos seus discípulos. E aqui entra o problema: há muitas divergências sobre quem foi realmente Sócrates e o que ele pensava.
Se a gente for falar do Platão, por exemplo, que é o seu maior discípulo, a gente vai conhecer um Sócrates meio idealizado, com todas as doutrinas todas certinhas e muito claras. Mas se a gente for analisar os escritos de Xenofonte, nossa temos um Sócrates muito bobo, inofensivo, que nunca diríamos que é o mesmo Sócrates que foi condenado em Atenas por conta de suas ideias. Esse é o problema Sócrates, um problema muito parecido com o que Jesus passou algumas centenas de séculos depois.
Lembrando que Sócrates viveu em Atenas entre 470 a 399 antes de Cristo. O livro que eu tô utilizando de base aqui no canal, que é o História da Filosofia do Giovani Realle, chegou na seguinte conclusão: não há como saber de fato quem foi o Sócrates, vamos aceitar isso. .
. Mas nós sabemos que alguma coisa aconteceu na literatura e na filosofia naquela época. Aconteceu algo.
Existe um antes e depois em toda a filosofia justamente nesse período em que Sócrates viveu, portanto, podemos dizer que ele provavelmente foi o responsável por essas novidades. Levando em consideração esse critério, é inegável e irrefutável a tese de que Sócrates fez uma verdadeira revolução no pensamento ocidental como um todo, com consequências até hoje. Sócrates fez uma verdadeira revolução espiritual, não é à toa que ele foi condenado com as acusações de corromper os jovens e de não crer nos Deuses da cidade.
Mas que Deus diferente de Sócrates é esse que o levou à condenação? Uma coisa curiosa sobre os deuses dos gregos antigos é que eles eram sim, poderosos, mas eles tinham características humanas. Eles acreditavam que, por exemplo, Zeus comandava os raios e relâmpagos.
Que os deuses são forças naturais personificadas em formas humanas idealizadas. Isso significa que os deuses não eram perfeitos como o Deus cristão, eles eram cheio de falhas. Eles eram um pouco mais que os humanos, mas menos que um Deus perfeito, onisciente, onipotente e onipresente.
Isso fazia com que a religião pública da Grécia fosse muito mais "liberal", se podemos usar esse termo. O que nos faz questionar porque diabos Sócrates foi condenado? Eu vou responder isso já já, e a razão não é exatamente o que você pensa.
A grande inovação de Sócrates nesse questão sobre Deus foi pegar a noção que existia dos filósofos naturalistas que vieram antes dele, e tirar a parte "natural" de Deus. Isso significa que Sócrates estava introduzindo um Deus mais poderoso, mais parecido com o do cristianismo. Mas não só isso, ele criou a primeira prova racional para a existência de Deus.
Uma vez eu estava conversando com um amigo evangélico, e essa questão da prova da existência de Deus se tornou um debate. Eu contei sobre como é estranho que hoje em dia, poucos se importam em comprovar a existência de Deus de uma forma racional, porque desde o romantismo, ou mesmo antes, Deus se tornou uma coisa que nós sentimos. Não é algo que nós vemos, provamos, empiricamente ou racionalmente, é algo que vem da fé.
Isso não era que era feito antigamente. Não mesmo. Grandes filósofos, até pouco tempo atrás, todos eles acreditavam em algum tipo de Deus e tentavam provar a sua existência com argumentos racionais.
Deus era menos algo de fé, do coração, de sentimento, e mais algo do raciocínio, do cérebro. E essa tradição de provar a existência de Deus com a razão começou com Sócrates. Pra isso, ele vai nos dar um argumento clássico, com duas premissas e uma conclusão.
Inclusive vou aproveitar aqui para fazer propaganda do curso de Introdução à Lógica aqui do canal em que você aprende tudo sobre argumentação, desde a definição básica até as principais falácias. Entra aí na home do canal e procura a playlist de Introdução à Lógica. Mas vamos lá, a primeira premissa de Sócrates é que aquilo que não é simples obra do acaso, mas constituído para alcançar um objetivo e um fim, pressupõe uma inteligência que o produziu por razões evidentes.
O que que ele tá dizendo aqui? Eu não sei se vocês já viram, mas é parecido com o argumento do relojoeiro. Você vê um relógio e percebe que ele tem um objetivo, ele tem um fim, que é mostrar as horas.
Isso quer dizer que ele não é obra do acaso, ele não surgiu do nada. Ele foi obra de uma inteligência, de um relojoeiro que criou o relógio. Ou seja, ele tá dizendo que tudo que não é obra do acaso, foi criado por uma inteligência.
Então ele continua dizendo que o humano, todos os seus órgãos e complexidade, não podem ser explicados como obra do acaso, mas apenas como obra de uma inteligência, que idealizou expressamente isso que nós somos. Aqui Sócrates acreditava que o ser humano era algo muito perfeito e complexo, não era obra do acaso. A consequência lógica desse argumento é que o ser humano não é obra do acaso, portanto, foi criado por uma inteligência superior que cuidou especificamente de nós, criou a nossa estrutura física perfeita, a nossa alma e a nossa inteligência.
A segunda premissa é talvez onde resida a principal fraqueza do argumento de Sócrates, porque cai no que Richard Dawkins hoje chamaria de "Deus da lacunas". Na época de Sócrates era impensável ver o ser humano como obra do acaso, portanto, só Deus poderia ter criado. Esse argumento era usado para raios e relâmpagos.
Não sabemos de onde eles veem e como funcionam, portanto, só pode ser obra de Zeus. Hoje em dia nós sabemos que o corpo humano não é perfeito, tem falhas, e somos frutos de um longo processo de evolução biológica, que criou toda a diversidade na Terra. Uma coisa que nós aprendemos quando estudamos a evolução é que ela não é teleológica, ou seja, ela não tem um objetivo.
Evolução não significa se tornar mais forte, mais inteligente, e resultar no ser humano. Evolução significa adaptação, eu posso estar mais adaptado sendo mais fraco ou menos inteligente. Mas, voltando para a época de Sócrates, o Deus dele era a inteligência que conhece todas as coisas sem exceção, é uma atividade ordenadora e Providência, ou seja, o Deus de Sócrates interferia nas coisas humanas.
Não era um Deus que deixava a gente sozinho tudo de boa, ele criou o ser humano. Muito parecido com o cristianismo, né? Mas tem uma diferença, o Deus cristão se preocupa com cada indivíduo, o Deus de Sócrates se preocupa com o mundo e com os humanos no geral, e ele se preocupa especialmente com o humano bom, o humano virtuoso.
Os humanos maus, o que tenho a ver? Mas poxa, você pode pensar, o que tem de mal nessa visão de Deus socrático a ponto das pessoas ficarem com raiva e condená-lo a morte? Pra ser sincero com vocês, não foi exatamente isso que o levou à morte.
Hoje em dia acredita-se que é mais provável que eles estavam preocupados com o suposto messianismo de Sócrates. Com a possibilidade dele criar um culto de seguidores que ameaçariam Atenas. Sócrates, por exemplo, dizia ouvir uma voz dentro dele desde que era menino, e que sempre o impedia de fazer aquilo que ele estava prestes a fazer, uma voz que sempre o salvava de perigos.
Essa voz a gente chama hoje em dia de demônio socrático. Aqui não entendam demônio como o ser do mal que entendemos hoje em dia. Esse deamon era mais uma entidade, não necessariamente má.
Os místicos aproveitam e pegam carona na genialidade de Sócrates para dizer que existia uma entidade sobrenatural que o guiava, que essa é uma prova da existência de um mundo místico. Mas uma visão mais científica poderia simplesmente dizer que Sócrates era portador de alguma doença neuronal que o fazia ouvir vozes, algo bem documentado pela ciência de hoje em dia e que não tem nada de sobrenatural. Os místicos iriam contra-argumentar que esse ser místico guiou Sócrates, que a ele foi dado essa sabedoria.
Pode ser, mas um outro argumento é que existiram, provavelmente, muitas pessoas que também ouviam vozes na época de Sócrates e não foram tão geniais assim. Que ele era um ser humano funcional, inteligente, mas que tinha uma doença neuronal, bola pra frente. E o próprio Sócrates dizia que a sabedoria dele derivava do logos, da razão, e não de uma revelação divina.
O demônio não ensinava, não ordenava, ele só vetava. O próprio Sócrates fazia questão de separar as duas coisas, então assim devemos fazer. E Sócrates, vamos combinar, era meio doidinho mesmo.
Ele era conhecido por simplesmente parar no meio do nada e entrar em meditação profunda. Você vai ler relatos de pessoas chegando em festas e ele parado no meio do nada, enquanto todo mundo se diverte. Esse foi um motivo muito importante da acusação.
As pessoas tinham medo de que Sócrates fosse um messias, que iria reunir uma multidão de jovens seguidores e desafiar as autoridades políticas. Essa é a verdadeira raiz da acusação contra Sócrates. Mas antes de chegarmos lá, vamos falar da maior descoberta de Sócrates, que não foi Deus, e sim a Alma.
Os naturalistas, os filósofos que vieram antes de Sócrates, buscavam descobrir o que era a natureza última das coisas. Tales, Anaximandro, Heráclito e outros olhavam para o universo. A cabeça deles era sempre pro que existia lá em cima que ordenava tudo que víamos ao nosso redor.
Só que essa é uma questão tão complexa que eles chegaram a defender coisas contraditórias. Um dizia que a natureza última era o fogo, outro a água, diziam que o ser é uno, que o ser é múltiplo, nada se gera e tudo se destrói, nada se destrói e tudo se gera. Sócrates não tava satisfeito com isso.
Antes dele vieram os sofistas, e aqui eu recomendo o vídeo deles aqui do Alimente o Cérebro que tá bem completo. Os sofistas olharam para o ser humano, em vez de olhar pro universo. E Sócrates fez a mesma coisa.
Só que enquanto os sofistas vieram destruir as nossas noções, Sócrates veio construir. Os sofistas destruíram as velhas estruturas do pensamento, que permitiu que Sócrates construísse uma nova fundação do zero. Sócrates fez um questionamento simples: qual que é a natureza ou a realidade último do ser humano?
O que ele tá questionando aqui, gente, é o que nos define? O que nos diferencia do resto os animais, do universo? A resposta dele foi simples: a nossa alma.
O ser humano é a sua alma, e como alma, entenda aqui, a nossa razão, a nossa atividade pensante, a nossa consciência, a nossa personalidade intelectual e moral. Essa noção meus amigos, é extremamente poderosa e impactou profundamente a nossa civilização. Há quem odeie essa conclusão, há quem ame.
Mas ela é a base de tudo, especialmente na nossa sociedade ocidental. É inevitável não relacionar com Nietzsche, que é outro filósofo que eu tenho lido bastante ultimamente, mas que vai ter um vídeo específico sobre isso. Nietzsche odeia Sócrates, justamente por essa conclusão, porque quando nós concluímos que a alma é o que nós somos, nós fazemos uma distinção com o nosso corpo.
Para Sócrates, nós deveríamos cuidar mais da nossa alma do que do nosso corpo. E ele colocava isso como o principal objetivo da filosofia dele, persuadir, convencer os jovens e os velhos de que não devemos cuidar do corpo, nem das riquezas, nem que qualquer outra coisa antes da alma. E o objetivo é que a nossa alma se torne ótimo e virtuosíssima.
Mais uma vez vemos aqui, não sei se vocês percebem, a relação com o cristianismo, por isso que se isso diz tanto que o cristianismo se baseou na filosofia grega para criar seus dogmas. Mas beleza, temos a nossa alma, e o nosso corpo? O corpo é só um instrumento da alma.
O corpo não nos define, a nossa riqueza não nos define, a fama não nos define, o que nos define é isso daqui ó, a nossa inteligência. A nossa virtude. Isso não quer dizer que cuidar do corpo, do vigor, da saúde física, da beleza sejam desvalores.
Ou seja, Sócrates não condena isso, e muitos que o criticam acham que ele condena. Sócrates só tá criando uma hierarquia, e o que é mais importante é a nossa alma, ser um ser humano melhor, com mais caráter, mais bondade, mais próximo da verdade. Isso é mais importante do que ser um ser humano que ignora esses valores da alma e só se preocupa com futilidades do corpo.
E a melhor forma de melhorar a nós mesmos é seguindo a doutrina do Conhece a ti mesmo. Sócrates acredita que nós precisamos passar por um processo de purificação, olha só. Essa melhoria do ser humano por meio da razão nos coloca mais próximo da sabedoria, da justiça, da temperança, do conhecimento, e nos afasta dos vícios e da ignorância.
Por meio da razão conseguimos o autodomínio, temos o domínio dos nossos estados de prazer, dor e cansaço, conseguimos dominar nossas paixões e nossos impulsos. Ele dizia que esse autodomínio racionalizava a nossa animalidade. O que ele tá dizendo é basicamente que a razão nos faz controlar o animal que há dentro de nós.
Para ele isso é liberdade, quando a nossa alma manda no nosso corpo. O verdadeiro humano livre é aquele que não é escravo dos seus instintos. Ah, mas Sócrates tá dizendo que eu não posso ser feliz?
Aí que tá, para Sócrates a felicidade não vem das coisas exteriores do corpo, a felicidade só vem da alma. E se a tua alma tá podre, meu amigo, você não vai ser feliz. Se você precisa de prazeres momentâneos para ser feliz, você não vai ter felicidade, você vai ter prazer.
Mas quando chegar em casa e você fica só com você mesmo, com sua alma, com seu cérebro aí você descobre se é feliz. Podemos constatar isso nesse tempo de pandemia. As pessoas foram forçadas a ficar mais com elas mesmo, e muitas delas odiaram.
É aquele dilema da solidão que eu já falei aqui uma vez. E durante essa pandemia do coronavírus que estou vivendo enquanto faço esse vídeo, nós vemos que existem muitas pessoas que não conseguem controlar seus próprios instintos, elas precisam dos prazeres do corpo, sair para beber, socializar, e isso para Sócrates é a vitória do corpo sobre a alma, que é a razão. Entendam alma como razão sempre.
A razão nos diz que deveríamos nos abster desses prazeres carnais por enquanto, mas muitos não tem autodomínio, muitos não conseguem controlar eles mesmos. Um problema talvez aqui nesse pensamento de Sócrates é que ele acredita que basta saber, ter o conhecimento, que automaticamente vamos ser bons, vamos ser justos. .
. Mas isso não é exatamente verdade. Você pode saber o que é a coisa certa a se fazer, e mesmo assim não fazer.
É aqui que entra o conceito da Vontade que os gregos ainda não sabiam. Mas Sócrates acreditava demais na razão, e esse talvez tenha sido seu defeito, e é exatamente isso que os seus críticos usam para atacá-lo. E atacam várias outras coisas.
Mas eu vou abordar isso num vídeo sobre Nietzsche, que acho que ele é um contraste muito claro à filosofia de Sócrates. Então se inscreva aqui no Alimente o Cérebro e fica de olho nos novos vídeos que você vai entender porque Nieztsche odiava Sócrates. Mas agora que sabemos que Sócrates descobriu a alma e seus vícios e virtudes.
Vamos saber qual o método que ele usava para curar essa alma. Vou começar lendo um testemunho platônico: Quem quer que esteja próximo de Sócrates e em contato com ele para raciocinar, qualquer que seja o assunto tratado, é arrastado pelas espirais do discurso e inevitavelmente forçado a seguir adiante, dizendo inclusive de que modo vive de que modo viveu. E, uma vez que se viu assim, Sócrates não mais o deixa.
Isso é o que diziam aqueles que viviam com Sócrates. E vamos parar para pensar sobre esse modo de vida dele. Ao mesmo tempo que ele pode ser chato pra caramba, vamos combinar.
Ele é alguém que vale a pena ter por perto. Ele nos tira do marasmo intelectual, ele nos questiona, ele nos faz seguir nossos argumentos até suas consequências últimas. Ele fazia isso por meio do método dialético, que significava justamente isso: fazer a gente prestar conta sobre nossa própria vida.
Desnudar a alma. Esse, dizem algumas pessoas, foi mais um motivo pela condenação. Calar alguém que fazia muitos questionamentos, calar alguém que faria os poderosos se questionarem sobre si mesmo.
Será que eles estavam fazendo as coisas certas? Justas? Eu vou aproveitar esse momento para fazer um desabafo pessoal.
Por que eu sempre eu falo aqui que a filosofia é viva, a filosofia está nos meus ossos, ou como diria Sócrates, na minha alma. Eu me considero um pouco como o Sócrates. Não chato como ele parecia ser, eu sei que há momentos para futilidades e relaxar.
Mas eu gosto de questionar tudo, especialmente a vida. Isso faz algumas pessoas se afastarem, mas aproxima outras. E eu não entendo muito isso, às vezes eu vejo pessoas tão mergulhadas em um mundo de futilidade que perguntas simples sobre a nossa própria vida assusta elas.
Se criou uma barreira que impede que a dialética surja nos dias de hoje. E é estranho, porque a dialética de Sócrates coincide com o próprio dialogar. É como se perdêssemos a capacidade de termos diálogos.
Estamos todos imersos no nosso próprio egoísmo que qualquer questionamento gera uma repulsa. Enfim. .
. chega de desabafo. Vocês já ouviram a famosa frase de Sócrates: "só sei que nada sei".
Esse pensamento dele é a base da dialética. Isso significa que para Sócrates nós devemos abandonar a soberba atitude de achar que sabemos tudo (que era relacionada com os Sofistas), e se colocar diante das pessoas como se não soubéssemos de nada e estivéssemos ali para aprender. Isso era a centelha necessária para que o diálogo acontecesse.
Eu não estou aqui para te ensinar, eu estou aqui para aprender, para questionar. Mas nesse diálogo da dialética acontecia algo que muitos tinham muito medo: a ironia socrática. É óbvio que Sócrates sabia de algumas coisas, mas ele era irônico, no sentido que ele simulava algumas coisas para fazer você se dar conta de si mesmo.
Ele levava isso a sério e apesar de se chamar ironia, não era um deboche. Era um método para fazer as pessoas entenderem as próprias contradições ou as consequências lógicas dos seus pensamentos. Depois dele preparar o terreno com a dialética e a ironia, ele entrava com a refutação.
Que era fazer o interlocutor ter consciência da própria ignorância. É claro, no momento que você consegue provar para alguém que se acha sabichão ou é medíocre que ele está errado, ele fica com raiva, irritado e diversas outras reações. Só que para Sócrates aquele era momento de purificação.
Se questionar, argumentar, buscar contra-exemplos, buscar contradições, tudo isso era um momento que estamos limpando a nossa alma das impurezas. Só que, interessante notar uma analogia que ele fazia: apenas pode alcançar a verdade quem dela estiver grávida, e depois de passar pela dialética, pela ironia e pela refutação chegou o momento do parto, da maiêutica, de sentir as dores do parto da verdade. Mas se eu não tiver nenhum apreço pela verdade, se eu não sentir que ela está aqui dentro apenas esperando o momento para se revelar, não adianta, eu vou continuar ignorante para sempre.
Foram esses ignorantes que levaram Sócrates à morte. Em 399 antes de Cristo, Sócrates era condenado à morte com seus 71 anos. Eram quinhentos e um cidadãos que se reuniram no tribunal.
Os acusadores eram Ânito, Meleto e Lícon. Ânito era um político que se queixava que o filho dele ria dos deuses dos pais porque ele passava um tempo com Sócrates. Meleto era um poeta trágico e Lícon era um retórico mais desconhecido.
Meleto era o acusador oficial e acusou Sócrates de ser culpado do crime de não reconhecer os deuses reconhecidos pelo Estado e de introduzir divindades novas, ele também era culpado de corromper a juventude. Castigo pedido: a morte! Nós vimos nesse vídeo que os motivos reais iam além dessa acusação.
Sócrates era um questionador, com pinta de messias, ele tinha poder por causa da sua sabedoria. E isso assustava os poderosos. Quando chegou o momento, Sócrates foi condenado por 281 votos contra 220.
Os próprios cidadãos o condenaram à morte. Ele então quis fazer uma última exposição, e disse o seguinte: "Eu digo que vocês, juízes, que me condenam à morte, vão sofrer logo após a minha morte um castigo muito pior do que o que me inflige. Vocês me condenaram na esperança de ficarem livres das vossas vidas, ora, é exatamente o contrário que acontecerá.
Pois se vocês pensam que matando as pessoas isso os impedirá de viverem mal, estão errados. " Ele dizia basicamente: eu sei porque vocês estão me condenando. Mas a minha mensagem é maior que a minha vida.
A alma, a consciência de vocês vai pesar. Depois da condenação ele foi levado à prisão e ficou esperando a morte por quase um mês. Nesse período um discípulo preparou uma fuga para Sócrates, mas ele recusou, porque ele não queria desobedecer as leis da pátria.
Perto da morte ele falou muito sobre a imortalidade da alma, basicamente uma forma de confortar os seus amigos, que estavam todos eles com Sócrates durante esse período. Quando chegou o dia ele pediu o veneno, uma taça de cicuta, e com uma mão firme bebeu sem desgosto nem hesitação até o fundo. Nesse momento, meus amigos, todo mundo se desabou de chorar, tô até emocionado aqui, mas Sócrates o encorajou: "Estejam calmos, tenham firmeza".
Assim que ele começou a sentir as pernas pesadas ele se deitou. Então ele falou: "Críton, (um de seus discípulos), somos devedores de um galo a Asclépio, pois bem, pagai a minha dívida, pensai nisso". Críton ainda perguntou se não tinha mais nada a dizer, mas essas foram as últimas palavras de Sócrates.
Sócrates morreu. Muitos falam sobre essa atitude de Sócrates. Sobre a injustiça da cidade.
Platão dizia nunca entender como uma pessoa como Sócrates, que sempre levou uma vida exemplar, que sempre defendeu a cidade quando ela estava em perigoso, que levou os atenienses a refletirem e serem melhores, pudesse ter sido assassinado pela sua própria cidade. Como pode Atenas ter sido tão ingrata com Sócrates que sempre discursou pela verdade? Mas nós vimos como Sócrates tem muitas ideias que foram a base do cristianismo.
E sua vida, pelo que vimos, tem paralelos com a de Jesus Cristo. Ambos eram carismáticos e enigmáticos, ambos não deixaram nada escrito e só sabemos dele por causa dos discípulos, ambos eram mestres da retórica e arrebatavam multidões de ouvintes. Ambos acreditavam em algo maior do que eles mesmos.
Para Sócrates era a razão, para Jesus era Deus. Ambos desafiavam as autoridades da sociedade, e foi justamente por causa disso que ambos morreram. Ambos morreram para provar a verdade dos seus próprios ensinamentos.
Mas há uma diferença crucial, Sócrates morreu com seus amigos e sem sofrimento. Jesus morreu depois de muito sofrimento, no meio de muito tormento e ferimentos. Este é Sócrates, um mártir em sua vida, um grande filósofo que colocou as bases da filosofia Ocidental.
Mas, obviamente, ele não foi perfeito. Ele deixou muitas perguntas, por exemplo, a alma de Sócrates. Ela é outra coisa que não o corpo?
O que ela é? Qual é o ser da alma? Qual sua diferença em relação ao corpo?
Sócrates se resumiu a dizer que a alma é aquilo que nos faz ser bons ou maus. A mesma coisa em relação ao seu Deus. O que ele é exatamente?
E talvez a maior crítica, a sua extrema confiança no logos, na razão. Ele dizia quer era preciso estar grávido da razão, mas quem fecunda a alma? Quem engravida?
Isso está no cerne do paradoxo que surge da sua confiança na razão. Existem pessoas que sabem o que fazer, mas não fazem. Por que a razão não faz essa pessoa ser boa e justa?
A imagem da gravidez, da maiêutica é bonita, mas não resolve esse paradoxo. Mas é inevitável dizer que Sócrates é o grande nome da filosofia Ocidental. Foi por causa dele que tivemos Platão.
Foi por causa dele que estabelecemos como base da sociedade a razão, e não qualquer outra coisa. Mas os desdobramentos desse pensamento nós vamos aprender nos próximos vídeos aqui da série. Então se inscrevam no Alimente o Cérebro, compartilhem essa mensagem para mais pessoas e não se esqueçam, esse canal existe graças aos membros do canal.
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