[Música] Oi gente tudo bem com vocês hoje eu tô aqui para falar sobre um conto do Machado de Assis esse escritor que não conhecido de todos nós é o orgulho nacional é um dos melhores nomes da literatura brasileira aqui já falei sobre o conto dele um esqueleto por exemplo um conto Fantástico mas o lado B do escritor mas o conto sobre o qual eu vou falar hoje é um conto que inclusive esteve na lista de leituras obrigatórias do paso UnB é um texto muito importante que foi publicado no ano de 1884 no livro História sem
data e foi publicado Ali pela primeira vez eu não vou utilizar este livro eu vou utilizar essa antologia da companhia das Letras 50 contos de Machado de Assis alguns dos textos mais importantes desse escritor estão aqui e um deles é a igreja do diabo a igreja do diabo é um texto que mobiliza bastante as nossas reflexões é um texto do Machado de Assis em que a ironia não não é tão escancarado e evidente assim ela é bem mais Sutil algo muito que se apresenta na superfície do texto que nos envolve que às vezes pode até
nos enganar pode até nos levar para nos conduzir para um caminho mas existe um outro caminho ali por trás ali por baixo né nas Entrelinhas do texto que merecem a nossa atenção Além disso também é um dos textos mais pessimistas do escritor ali a gente percebe que o olhar que ele deposita sobre a humanidade é um olhar cético é um olhar desconfiado questionador crítico e sem grandes esperanças de mudança de melhoras a igreja do diabo é um texto de vídeo tem quatro capítulos é um daqueles contos do Machado que é dividido em capítulos O Alienista
é um conto bem longo que tem vários capítulos mas aquele grande do diabo é um texto até relativamente curto possui quatro capítulos cada um com subtítulo e ele basicamente gira em torno de uma anedota né de uma fábula que acontece Deus e o diabo o diabo esse anjo perverso o anjo da desobediência o anjo da confusão se cansa e decide se organizar e vai comunicar a Deus o seu novo empreendimento o seu novo plano Qual é o plano do diabo fundar a sua igreja fundar a sua instituição a instituição da Revolta e organizá-la muito bem
a ponto de conseguir ampliar o seu sexo né de aumentar o número de seguidores em relação a Deus e vai comunicar isso com pomba com toda uma solenidade a qual Deus ria um pouco zomba um pouco e Deus fala para ele né Mas o que você quer com isso afinal de contas Deus na sua máxima sabedoria uma figura Uma personagem que aparecem em alguns textos do Machado de Assis como esse realmente portador não só de todo esse poder de todo esse conhecimento que o ocidente já atribui a ele mas também de um senso crítico que
o Machado de Assis sempre utiliza de forma alegórica a mostrar o seu próprio senso crítico em relação a condição humana e aí o diabo fala Existem várias formas de afirmar mas apenas uma forma de negar e a forma de negar que eu tô trazendo é essa vai ser da igreja eu vou fundar minha igreja todos os pecados as perversidades inclusive eles cita os sete pecados capitais todos os pecados serão permitidos e todo mundo vai se seduzir vai se atrair acabou a virtude e Deus fala vai ele vai fundo a sua igreja começa com seu discurso
de sedução aqui gente tudo é tudo é permitido né nas igrejas nas religiões que servem a Deus tudo é proibido é tudo é permitido você pode fazer o que você quiser na hora que você quiser o mal se sobrepõe ao bem o pecado você sobrepõe a salvação né então tudo aquilo que nós fazemos as escondidas porque o nosso senso moral nosso condenamos é muito enaltecido e exaltado na igreja do diabo entretanto isso vira uma imposição dentro da igreja do diabo os seus fiéis os seus seguidores precisam ser maus eles precisam na verdade afrontar deliberadamente todas
as leis toda moral imposta pelas religiões que seguem a Deus tudo aquilo que é pertinente ao Universo de Deus no universo judaico cristão no universo ocidental E aí com isso e que ele descobre com o passar do tempo que as pessoas agora estão cometendo atos de bondade atos de Redenção estão buscando se redimistam praticando virtudes as escondidas os seus seguidores da sua igreja aqueles que são conhecidos por fazer as coisas mais atrozes as piores coisas estão fazendo coisas maravilhosas escondidas E aí ele fica confuso afinal de contas deus o que que tá acontecendo porque isso
e vai procurar Deus vai tirar satisfação vai questionar não entendo e ele explica tudo que tá acontecendo ele cita alguns casos para ilustrar e Deus só responde para ele Ó meu caro Essa é eterna contradição humana então nós temos um texto aí em que nós temos essas duas figuras de caráterista dentro da nossa cultura uma que representa bem a sua plenitude o outro mal na sua plenitude e no meio de tudo isso a humanidade nós que transitamos entre os dois lugares Porque nós não somos feitos 100% nem de uma coisa nem de uma essência nem
de outra essência e é aí que tá A grande questão aí que tá o grande problema eu costumo dizer que quem lê muito Machado de Assis meio que vai esperando qualquer coisa das pessoas de qualquer pessoa né que às vezes a gente tem algumas experiências na vida que a gente fica Nossa como é que Fulano foi capaz de fazer uma coisa dessa comigo para quando você vai lendo muito Machado de Assis e quando você ler reler a igreja do diabo tudo é esperado né Essas polarizações essas nesses extremos esses radicalismo é pessoas que são muito
enfáticas que defendem às vezes coisas muito hediondos conveniência tá tudo previsto tá tudo na conta aí dessa história dessa contradição então a princípio nós vemos aí uma crítica de caráter filosófico né uma questão existencial né que vai falar da existência humana da composição do ser humano o que que é o ser humano né E aí muito na linha machadiana Machado foi um grande leitor de Shakespeare e consequentemente então numa linha muito shakesperiana eu penso muito quando eu leio profundamente alguns contos do Machado eu sempre lembro dos textos do Shakespeare E aí eu lembro muito do
ramolat quando fala do Ser ou não ser né do que é ser do que é parecer é do mundo das aparências que se opõe ao mundo das Essências e esse texto vai muito nesse caminho né de falar mesmo da condição humana o que que nós somos nós somos contradição nós somos feitos de extremos não dá para falar que a humanidade é 100% boa 100% mar né que nós somos 100% cruéis ou perverso 100% benevolentes e virtuosos a gente transita em diferentes lugares nas nossas relações a gente percebe que às vezes num determinado contexto a gente
funciona de uma maneira mais satisfatória e outra de uma maneira completamente insatisfatória então a condição humana é essa reflexão que o Machado de Assis deposita sobre a condição humana é que não vai mudar a nossa natureza é não vai mudar nós somos assim é o que traz também de certo modo esse tom mais pessimista mais cético do texto né de que a gente toca a vida a gente segue e a gente é luz e sombra a gente é a afirmação e negação mas também vem uma reflexão de caráter muito de natureza muito política e sociológica
né No que diz respeito mesmo da organização do mundo da sociedade que vai ao encontro de reflexões do âmbito cultural que é quando ele vai falar que ele vai tratar das religiões a questão das religiões Qual é o mecanismo né estrutura de funcionamento de boa parte das religiões né que se amparam num discurso extremamente moralista dogmático a doutrina tem forte caráter moralizante Mas isso não muda o caráter das pessoas as pessoas são que são né determinado caráter não vai mudar porque eu ouvi uma palavra x ou Y é as experiências talvez tenha um poder muito
maior de mudar a condição do pensamento de uma de eu sou de um indivíduo né de um sujeito mas o discurso ele vem para proibir para cercear para impedir não pode fazer isso mas isso não acontece necessariamente e este não é o único conto do Machado de Assis que vai falar do mecanismo de funcionamento das religiões mas aqui a gente vê a criação a crítica muito mais forte muito mais enfática porque são as próprias figuras Sobrenaturais né as figuras supremas em relação à condição humana que estão é discutindo isso um que já sabe porque é
onipotente o outro que está descobrindo e tá questionando isso até então não tinha analisado a fundo a natureza humana então não dá conta de dominar ela não vai dominar porque ela é mesmo a natureza humana é transgressora o ser humano transgride não vai obedecer a toda lei todas as regras né sempre vai provocar mudança transgressão revolução Então a gente tem aí a discussão né de caráter sociológico sobre cultural inclusive sobre a estrutura das religiões de de maneira o discurso religioso fala o que pode o que não pode e muitas vezes boa parte de indivíduos é
praticam atos de transgressão justamente pelo prazer de desobedecer as certas imposições que é uma coisa também que ele chama atenção aqui que ele vai colocar ele fica fazendo essas provocações dando essas alfinetadas então nós temos esse olhar muito crítico de novo né O Machado de Assis foi um realista um escritor dentro cronologicamente falando inserido no realismo brasileiro mas como boa parte dos seus grandes estudiosos né dos estudiosos que realmente reconhece a complexidade a profundidade da Obra do Machado de Assis reconhecem que a sua obra não fica naquele naquela cartilha não fica fechada não se prende
a cartilha do Realismo né de às vezes ficar atendendo a certas demandas do cientificismo da objetividade do racionalismo ele vai muito além ele tem o seu Realismo muito próprio em que ele mobiliza figura Sobrenaturais figuras extraordinário poético religioso do mundo ocidental para discutir de novo a natureza humana a condição humana então é um Realismo que se preocupa muito com o ser humano porque nós como pessoas enquanto pessoas vivendo no mundo nós temos as nossas vidas muito organizadas guiadas e decididas por seres humanos sendo nós mesmos ou alteridade outras pessoas e isso é o que de
fato vem a interessar Machado de Assis em alguns dos seus textos ai Além disso por que que o Diabo se dá mal porque que ele ele não é bem sucedido né No começo funciona muito bem a sua estratégia de confrontar Deus mas depois dá ruim para ele porque ele lança a mão dos da mesma estratégia do mesmo poder de imposição de dominação cultural né dos indivíduos do sujeitos que as religiões costumam fazer né que a estrutura das religiões Principalmente quando estão assentadas em perspectivas mais antiquadas a gente percebe que existe esse sistema de dizer o
que pode e o que não pode e é o vai fazer e as coisas não dão certo para ele porque ele lança mão da mesma estratégia porque no final das contas ele não estava se atentando justamente para esse jogo que é um jogo muito ramletiano né um jogo muito shakespeariano dessas ambiguidades humanas né do do da essência e da aparência do ser e do parecer né uma coisa é você tá ali falando colocando um discurso apregoando certos valores de virtudes mas nos Bastidores como é que isso funciona e ele só inverte o jogo né para
negar essa esse discurso da igreja esse discurso religioso pautado na lógica Cristã Mais um mecanismo acaba sendo o mesmo e aí no final das contas o que esse título tem de assustador porque a gente vê né o título da igreja do diabo a gente já pensa o que vem a seguir o que que é para aqueles mais sensíveis talvez mais temerosos o que é que vem a seguir poderia sugerir aí uma uma narrativa que envolvesse de fato o cenário relig né me discutir mesmo a questão do mundo Sobrenatural espiritual não é uma discussão de caráter
realista novamente né de analisar questões culturais sociológicas políticas questões existenciais a partir dessa desse diálogo entre essas duas figuras e novamente colocando a questão da humanidade a questão da condição humana como esta como essa condição começa a natureza que passa por valores muito contraditórios e muito ambíguos Nós não somos nenhuma coisa nem outra e aí tá o grande Talvez o grande pessimismo né que eu falei lá no início o grande pessimismo do Machado em relação a isso é porque a gente sai do texto realmente com essa sensação de que a humanidade é capaz de tudo
se disser que uma coisa é certa hoje vai estar fazendo o errado amanhã E aí se o errado viro certo aí vai voltar a fazer o certo então isso tudo é muito curioso porque nos leva a pensar em que medida certos discursos que estão postos que estão colocados são mesmo genuínos ritmos ou estão a serviço né ou por outro lado estariam na verdade a serviço de um de um certo controle de um certo poder de uma manutenção de um determinado poder a medida que se diz 100 dizendo uma coisa levaria as pessoas a fazer outras
Então vem fica reflexão sobre Machado sobre como ele analisou a natureza humana e fica também uma deixa para utilizar isso aqui como ferramenta inclusive de forma psicanalítica terapêutica de autoanálise muito melhor muito mais eficaz do que auto ajuda do que discurso de Coaching é a possibilidade de olhar para a gente com objetividade com racionalidade e com algum senso crítico para entender o que somos o que gostaríamos de ser e o que não poderemos ser eu agradeço a atenção de vocês eu vou ficando por aqui até a próxima [Música]