Cíntia, eh, você teve um episódio de violência doméstica e como é que você viu o apoio dos setores da esquerda ao seu caso? >> Eu fui muito, muito bem acolhida pela >> Mais do que pela direita, >> infelizmente, mais. Não que eu não tenha recebido apoio da direita, eu recebi apoio de muitas seguidoras, abraços em palestras.
Até quando eu fui palestrar em Portugal, em três palestras que fiz lá, eu recebi muito apoio, sim. Mas as críticas vorazes que teceram contra mim vieram de de mulheres de direita, mas eu não me sinto ressentida, eu não tenho ressentimento porque eu fui uma delas. Essa é a questão.
Houve um episódio durante o meu casamento em que o meu ex-marido lançou uma faca contra mim. estar no boletim de ocorrência que foi vazado. E eu me lembro de que no dia subsequente a essa agressão, eu fui para os meus stories e acabei com a raça das feministas e falei que falei aquilo tudo que eu já falei, que eu não gostaria de repetir aqui.
Falei, falei, falei e eu entendo, sabe? Criança, criança que pratica bullying na escola é justamente a criança que sofreu >> violência, que sofre violência em casa. Então, eu olho para trás, agora talvez mais madura, eu olho para trás e vejo que a raiva que eu tinha das feministas vinha da raiva que eu tinha daquilo que eu vivia na minha casa, no meu casamento.
Então, eu precisava externar isso. um processo de negação, porque a partir do momento em que essas mulheres tocavam naquele assunto, aquele assunto que que a minha mãe desconhecia, que os meus amigos desconheciam, que todos desconheciam, até porque eu o tempo todo falava bem do meu casamento para que eu mesma acreditasse que eu havia dado certo. Porque o que que a mulher conservadora quer?
Ela quer dar certo na família, ela quer dar certo no casamento. Então eu me lembro disso. A os piores vídeos que eu fiz contra as feministas foram justamente em dias subsequentes a agressões mais graves que eu sofri.
Então, quando eu vejo uma parcela da direita acabando com a minha raça, eu não me sinto, eu não quero me vingar, o meu sentimento não é de raiva, o meu sentimento não é de ódio. E eu peço que a Deus que em algum momento elas entendam que elas estão agindo contra elas mesmas. Logo, concluindo, eu não tenho ressentimento, eu tenho, eu tento consertar o que eu fiz hoje.
Manuela, passando pra discussão agora de a linguagem neutra, por que que você considera a linguagem neutra inclusiva? >> Porque incluía todas as pessoas da maneira que elas gostariam ou gostam de ser chamadas. Mas se tu me permite, Júlia, na não na condição de mediadora, mas eu queria dialogar com o que a Cíntia trouxe, porque eu acredito que ela trouxe muitas coisas importantes para nós mulheres.
Talvez eh a coragem da Cíntia ter exposto a situação de violência doméstica e de ter reconhecido o suporte de mulheres de esquerda, como as bancadas da Assembleia Legislativa, que defenderam a cassação do seu agressor, né, de um deputado agressor que segue desfilando como se tudo tivesse correto, mesmo que agrida a uma mulher, >> mesmo após o indiciamento. >> Mesmo após o indiciamento. A coragem da Cíntia é talvez o fato mais importante que tem acontecido pra gente debater violência doméstica no Brasil nesse ano que passou.
Primeiro porque ela conecta aqui uma dimensão que nós temos, nós mulheres públicas, temos nos esforçado muito para fazer as pessoas compreenderem. A violência, o ódio, o discurso de ódio está relacionado ao aumento dos feminicídios. Não é casual que nós tenhamos organizações de extrema direita que estruturam os seus discursos a partir de postagens falsas, por exemplo, com a presidente Dilma de Pernas Abertas ou comigo, com meu corpo mutilado, ou que se organizem a partir de ameaças de estupro a mim e à filhas das parlamentares, e que isso não resulte numa autorização desse comportamento violento por todos aqueles que acham que eh isso pode fazer parte da sua vida.
Então esse é um é um aspecto muito importante. Existe um segundo, Cíntia, todas nós mulheres queremos que tudo dê certo. Eu também quero que o meu casamento dê certo.
Eu também quero ver minha filha feliz. O que eu acho que tá em debate entre nós é qual é o preço para isso, né? Para mim é visível como uma parte dessa felicidade, não minha, das mulheres do Brasil, da imensa maioria das mulheres que não tem a condição que eu e tu temos, né?
está na possibilidade de políticas para as mulheres serem construídas. Ter a creche faz uma mãe feliz. Ter com quem deixar as crianças depois das 5:30, enquanto se desloca do trabalho para chegar na comunidade, é, é ser feliz.
Não ter o filho morto pela violência do estado é ser feliz, né? E eu falo só esses temas corriqueiros para que a gente conecte a pauta das mulheres com os grandes temas do país. Não ficar no posto de saúde esperando a ficha e perder aquele dia de trabalho.
Então, eh, quando tu falas isso, eu entendo as mulheres conservadoras, porque há uma construção social de que a nossa felicidade se dará dentro de um relacionamento. O que nós feministas afirmamos, não é que essa não é uma possibilidade, mas é que existem outras possibilidades, né, e que é preciso explorá-las e que elas passam sobretudo pelo reconhecimento de que um conjunto de políticas públicas são imprescindíveis para que as mulheres vivam melhor no nosso país. Então eu particular, eu te falei isso nos bastidores, né?
Eu preferia mil vezes não ter visto o teu vídeo, porque o teu vídeo é fruto de algo que eu luto a minha vida inteira para que nenhuma mulher passe, que é uma violência brutal, a violência mais brutal que pode haver, que é da pessoa a quem nós dedicamos amor, >> né? Eh, essa é a violência que acomete as mulheres, mas eu eh fico muito feliz, não é a palavra, né? Sentir me ajuda com vocabulário, satisfeita.
Muito obrigada. Que tu tenhas transformado essa violência com tanta coragem. eh, em uma denúncia, mas também no reconhecimento de que foram outras mulheres que te ampararam.
Eu, por exemplo, tô acompanhando o pedido de cassação dessas mulheres na assembleia, né? Porque vê vê como é que funciona a engrenagem do ódio à mulheres. A Cint é agredida, pedem a cassação do parlamentar, o que é óbvio que deveria acontecer.
Imagina um país que não quer ter mulheres agredidas, manter um deputado agressor. É uma insanidade, né? É uma máquina de matar mulheres, né?
E de autorizar essa essa violência. ato contínuo, absolvo, Júlia, o que ele faz? Ele pede a cassação dos mandatos, por exemplo, da bancada feminista e de outras bancadas que o colocaram no Conselho de Ética, como quem diz, aqui nós controlamos, eu não controlei essa que trouxe a denúncia público.
Vocês que a estão que a estão respaldando aqui dentro sofrerão as consequências. >> Vai controlar, >> né? Nem vai controlar.
Agora, uma coisa interessante, na minha opinião, eu não sou uma estudiosa do feminismo. Eu nunca li um livro sobre o feminismo. A minha vivência é uma vivência de quem sentiu na pele, na carne e fisicamente, psicologicamente as dores de do do das consequências do machismo.
E eu gostaria muito, muito, muito, muito que as mulheres conservadoras conversassem mais sobre violência contra as mulheres. E é uma opinião, eu posso estar completamente errada, mas eu tenho a seguinte opinião. A feminista tem menor chance de sofrer agressão porque está mais preparada para lidar com um com o agressor.
Por quê? Porque a feminista discute, ela fala com a amiga, ela sabe o que é o que o que é o o a punição por silenciamento. Ela sabe todos os passos de uma de da violência, da violência psicológica.
Ela entende. A conservadora, de um modo geral, não discute isso. Ela considera que que é tudo mimimi, que é tudo bobagem.
E eu entendo, eu entendo porque a conservadora pensa assim. Ela pensa assim, de um modo geral, porque existe um um estereótipo, uma caricatura atrelada a a a feminista. E essa e essa caricatura faz com que a conservadora não queira tratar de nenhuma pauta feminista.
E nesse jogo todo nós perdemos. E aí fica a minha pergunta para você, Manuela. Não seria o caso de as feministas terem uma comunicação eh eh um pouco mais empática com as conservadoras para que vocês consigam atrair cada vez mais mulheres?
Porque conforme eu disse no início, o movimento precisa ser suprapartidário. Vou te contar uma coisa curiosa. Assim tia, quando eu comecei a fazer política, eu já era uma mulher de esquerda e eu não me dizia feminista porque eu achava que debater as coisas das mulheres me faria uma política menor, que eu precisava debater os grandes temas, economia, infraestrutura, soberania nacional, geopolítica.
Eu achava que aquilo me daria, digamos, essa condição do status da política, né? E foi a política e foi a vida institucional que fez eu me dar conta que nada disso valia. Porque quando eu cheguei na Câmara de Vereadores ou no Congresso Nacional com 25 anos, foram às vezes até mulheres e a Júlia se lembra um pouco disso, que me menosprezavam e diziam que eu era bonitinha.
E então não não adiantava eu fazer dois cursos, eu estudar, eu me preparar, porque eu sempre era rebaixada pela minha condição. E foi no Congresso Nacional que eu tive contato, então, com essa urgência de me tornar uma mulher que enxergava o mundo a partir do fato de ser uma mulher. E eu sei se nós temos que ser mais empáticas, se é essa a expressão, mas eu acho que nós temos que ter mais compromisso e mais generosidade pedagógica uns com os outros.
Por que eu trago? Entende? >> Uma generosidade.
>> É uma expressão do professor Paulo Freire. Eu te dou um exemplo. Meu avô, >> o meu avô era um homem bom.
Eu sei, eu convivi com ele a minha vida inteira, mas o meu avô era incapaz de imaginar que um neto dele poderia brincar de boneca. Eu poderia olhar pro meu avô, que já faleceu, infelizmente, e dizer: "Tu é um idiota. Não é óbvio que a boneca reprodução de um bebê e não é óbvio que um homem tem que ajudar a cuidar do bebê.
" Ou eu poderia dizer, vô, tu já parou para pensar que o a boneca é meramente a cópia do que acontece num ambiente familiar e que vocês não são treinados para isso e a gente é. Então, eu acredito na ideia de que nós devemos conversar com as pessoas sobre a realidade para que as pessoas percebam as camadas, né, que são naturalizadas de violências contra elas. Eu, eh, quando eu escrevi o meu primeiro livro sobre feminismo, eu optei fazer um livro justamente sobre isso.
Ele chama Porque lutamos um livro sobre amor e liberdade. E as pessoas me diziam: "Nossa, tu estuda tanto, não é um livro um pouco pueril? " Um um comentarista de literatura me disse, falei: "Não, eu quero conversar com as mulheres que não entendem quem eu sou".
Sabe como eu escrevi, Cíntia? Eu pedi pras minhas amigas comentarem as frases mais absurdas que elas tinham ouvido enquanto feministas. Então, o feminismo é o oposto do machismo.
As feministas são aquelas que querem a destruição da família. As feministas são são as feias, as feministas. E eu fui respondendo isso, tentando fazer com que as pessoas enxergassem que não, nós não somos contra a família.
Nós somos contra famílias que matam mulheres. Nós somos contra famílias que violentam meninas. As meninas são estupradas nas suas casas no nosso país, sob um silêncio da ideia da conservação de uma família que às vezes é um núcleo de violência, né?
Então eu tô, eu concordo contigo.