Cem anos atrás, em setembro de 1922, o Brasil comemorava seu primeiro século como país independente. A República, instituída por um golpe militar em 1889, tinha pouco mais de três décadas. Era um período em que as cidades brasileiras começavam a ter saneamento básico - deixando para trás décadas de epidemias que fizeram o país ser conhecido lá fora como cemitério de estrangeiros - e que a capital do país, o Rio de Janeiro, depois de uma grande reforma urbana passou a se apresentar ao mundo como a Paris dos trópicos.
Olhando de fora, parecia que tudo ia bem. Mas o clima entre os brasileiros era de certo pessimismo. Sou Camilla Veras Mota, da BBC News Brasil, e falo nesse vídeo sobre o Brasil do primeiro centenário da independência.
Um período turbulento, que marcou a transição da Primeira República para o início da era Vargas. Para entender melhor o Brasil dessa época, eu conversei com a historiadora Cláudia Viscardi, professora do departamento de História da UFJF e pesquisadora do período da Primeira República É porque a época do centenário, como é agora a época do bicentenário, deve ser o momento de reavaliação da nação, né. Da mesma forma como a gente faz aniversário, a gente pensa no que foi a vida até completar lá 30 40 50 anos, né?
No momento em que a nação faz aniversário ela também tem que se repensar - e não deu outra né? O Brasil começa a se repensar nos anos 20 e não gostou do que viu, né? Quando olhou para trás, não gostou do que viu Porque as grandes promessas da República não foram cumpridas, as propostas de soberania popular, de extensão da cidadania, de educação plena que fazia parte do discurso republicano não foi realizada Então começa um período de crítica à república em si e a busca de novos modelos, modelos esses que remetem inclusive a uma saudade do passado.
‘Quem sabe a monarquia não era melhor do que a república? ’ Aí começam a ter saudades do Imperador… Por quê? Porque toda vez que o presente tá ruim, a gente idealiza o passado, a gente quer que o passado volte - é o mito da idade do Ouro.
Você acha que o passado é sempre melhor que o presente Claro que a gente não pode ignorar o contexto internacional. Nós estávamos vivendo no período entre guerras, Mussolini já havia marchado sobre Roma em 1922, então é um período em que as ideias nacionalistas e autoritárias estão invadindo a Europa e também os Estados Unidos No Brasil, o nacionalismo e o autoritarismo vão se manifestar de diversas formas, pavimentando o caminho para o golpe de Estado que em 1930 vai colocar Getúlio Vargas no poder. Os militares, que participaram do golpe que instituiu a república em 1889, também estavam entre os insatisfeitos que tinham um projeto próprio de mudança.
Projeto esse que se expressa por meio da força e toma forma com o movimento tenentista, que em 1922 tentou impedir a posse do presidente eleito Artur Bernardes. Os militares querem participar da política, querem exercer o seu poder moderador. Toda vez que você tem um clima de desordem, o Exército se sente erroneamente obrigado a colocar ordem, e ele pode colocar ordem porque tem a força, ele tem o monopólio da violência.
Então ele acha que a função dele é ordenar o caos, e nos anos 20 todo mundo achava que o Brasil estava vivendo no caos, que a crise era muito profunda, aí os militares se arvoram em serem os resolutores deste caos - então o movimento tenentista é expressão desse exercício, dessa tentativa de intervenção do Exército na política, como a gente vê várias vezes na história republicana O ano do centenário da independência foi movimentado. Teve a insurreição tenentista, e alguns meses antes, a Semana de Arte Moderna, que também bebeu na fonte do nacionalismo que marcou esse período A gente vê os links, né? A Semana de Arte Moderna tinha como pressuposto a valorização da mestiçagem, do brasileiro do interior, da inocência, das crenças rurais, né?
E a valorização dos símbolos nacionais “Ela também expressava esse tipo de mudança, do Brasil totalmente antenado com as mudanças que ocorriam na Europa também no campo artístico. Esse processo de modernização mostra um outro Brasil, né? Não queremos ser mais esse Brasil oligárquico, de famílias tradicionais, queremos ser um Brasil industrializado, um Brasil moderno 1922 foi também o ano em que o Brasil organizou uma grande exposição internacional - justamente pra comemorar o centenário da independência.
Uma festa que começou a ser organizada em 1916. O Rio de Janeiro, então capital do país, passa por uma série de intervenções urbanas. São pavilhões e palácios que seriam usados pra tentar passar pro mundo essa imagem do Brasil moderno.
Entre os prédios, quatro sobreviveram ao tempo: a atual sede do Museu dasa Imagem e do Som, da Academia Brasileira de Letras, o Museu Histórico Nacional e o Centro Cultural do Ministério da Saúde. A avenida das Nações foi aberta especialmente pra exposição. O hotel Copacabana Palace também começou a ser construído em 1919 para o evento - mas não ficou pronto a tempo.
Foi inaugurado em 1923. A exposição foi um sucesso de público, mas, como muitas vezes na história do Brasil, a imagem que o país tentou passar nem sempre coincidiu com a percepção de quem estava do outro lado. O Brasil recebe 13 delegações estrangeiras.
Recebe a visita dos reis da Bélgica… e engraçado, quando os reis da Bélgica chegam aqui, eles ficam um pouco decepcionados, porque a ideia deles era encontrar aquele paraíso idílico, com aquela mata descrita pelos próprios literatos brasileiros, que enalteciam as nossas grandezas, né. Eles chegam aqui, eles veem a miséria, os ambulantes, as prostitutas, os pobres, né? É meio que uma decepção Essa ideia de que a gente quer mostrar para o mundo que a gente é cordial, que a gente miscigenado, que a gente faz festa, que as nossas festas são lindas, que a gente tá de braços abertos para o mundo é um mito sobre si mesmo, uma construção que não tem nada a ver com o Brasil, né?
Quem vive o Brasil sabe que o Brasil é um país extremamente racista, extremamente machista, extremamente violento e muito conservador e autoritário. Porque se você for contar na história da nossa república, nós tivemos mais tempo como ditaduras do que como democracia. Então o país autoritário, quando o contexto internacional favorece a emergência de líderes autoritários, como aconteceu no entreguerras, como aconteceu na época da ditadura militar após 64 e como acontece recentemente com esses adventos do neopopulismo, a gente vê que o Brasil imediatamente se soma a esse conjunto autoritário sem nenhum problema.
É isso, eu fico por aqui. Espero que você tenha gostado do vídeo. Não se esquece de se inscrever no nosso canal no YouTube para saber toda vez que a gente publicar um vídeo novo.
Obrigada e até a próxima!