Na medida em que você determina uma ligação entre a frustração e o uso de tela, você cria um ciclo de dependência. A gente tem que fazer um exame da forma como a gente lida a tela, para que a gente possa ajudar mais a criança a enfrentar o tédio e crescer. Acho que todo mundo sabe que a gente, como homo sapiens, não foi codificado geneticamente para ter acesso à tela.
Quando a gente acrescenta um elemento novo na estruturação de todos nós, ele tem repercussões. Se você me perguntar, a quantidade mais recomendada de tela para uma criança pequena de 0 a 2 anos é praticamente nada. Mas tem uma exceção.
A exceção é que você use para comunicação. Se o pai está longe, você poder fazer uma chamada em que veja o pai e ouça a voz do pai e tenha uma interação. E faz curta, não precisa passar mais de um minuto ou dois nessa interação.
A partir de 2 anos até 5 anos, é tolerável 1 hora de tela, sempre monitorado por um adulto. De forma a que a tela seja uma parte da interação. É claro que a tela pode ter uma riqueza, mas ela tem que ser limitada e ela tem que ter sentido na relação com o adulto.
Existe tela mais apropriada? E eu costumo responder: a tela mais apropriada é nenhuma tela. Mas existe sim, é melhor que ela seja grande, evitar o uso de celular e de tablet.
Uma tela grande dá uma certa distância também para olhar para essa tela. A curta distância entre o olho e a tela faz com que você mude o formato do olho ao longo do seu desenvolvimento. Isso tem causado uma epidemia de miopia.
Se eu foco a curta distância por grande quantidade de tempo, o olho se adapta a só ver de perto. Ele não aprende a ver de longe. Então, alguém que só vê tela e está sempre em ambientes fechados, perde a capacidade de enxergar o longe.
Isso faz com que você tenha mais miopia. Como é que a gente lida com isso? Não só com exposição de tela maior e com maior distância, mas principalmente convivendo em espaços abertos, com a natureza e fora da sala de aula ou do apartamento.
Tem uma outra coisa que é chave, é que o celular pequeno e também o tablet, eles são portáteis. E isso é um perigo. Por quê?
Porque a cada momento você pode expor a criança ao celular e ao tablet. Influencia toda a dinâmica familiar. Por quê?
É como se a gente carregasse a chupeta do bebê virando o tablet. E a gente acha que aquilo está acalmando e ajudando a criança a lidar com a experiência de estar esperando, estar com raiva e tal. Mas na verdade a gente está atrapalhando.
Alguns conteúdos desenvolvidos para crianças menores são melhores, porque eles entendem os estímulos, eles têm um tempo um pouco melhor. Conteúdos passivos com hiperestimulação e conteúdos agressivos, eles são extremamente deletérios. Buscar conteúdos educacionais e planejados para essa faixa etária.
A gente tem sempre que pensar que a interação com a tela não deve ser para criar um ritual associado à rotina. Então a gente não usa a tela para fazer com que a criança durma, mesmo porque não é um estímulo bom para dormir. Ou fazer com que ela almoce ou deixe de almoçar.
Ela tem que ser um estímulo isolado na rotina da criança, que seja interessante, que seja gostoso, mas que tenha um começo, meio e fim. De zero a cinco anos é um momento muito rico no neurodesenvolvimento. O humano não nasce pronto como grande parte dos animais.
Parte do desenvolvimento da criança para se tornar adulto se dá ao longo de anos e supervisionado por um adulto. Quando a gente pensa nisso, a gente tem que saber que o ambiente influencia muito esse neurodesenvolvimento. Ele é muito potente, determinando a forma como a gente vai existir.
E aí as telas vêm nesse contexto. Qual é o problema? Elas são uma novidade na nossa sociedade.
Agora a gente tem conhecimento suficiente para saber da influência das telas no neurodesenvolvimento e em saber que elas devem ser extremamente limitadas. Então não tem como você dizer que tela é nociva se você não expôs e viu as consequências. E a partir do momento que você faz bons estudos.
Tem um recentemente publicado, agora em 2024, demonstrando que a exposição à tela precoce em 3 anos e meio determina uma dificuldade de autorregulação. São crianças que quando expostas à frustração têm crises de raiva, não conseguem lidar com os diferentes estímulos. Outra coisa que também está clara é que o uso de tela está associado a uma dificuldade de aprendizado em linguagem, além de disfunções executivas.
É a capacidade de entender o ambiente, pensar, guardar na memória, planejar e executar uma tarefa. O que acontece? Numa relação passiva com o estímulo como a tela, você não desenvolve a habilidade de planejar, interagir, se frustrar para executar as coisas.
A passividade das telas determina um prejuízo claro já demonstrado em crianças muito jovens. Tem uma coisa que eu acho que atualmente todos nós compreendemos, principalmente quem já foi pai, é que a tela acaba sendo usada de uma forma frequente para acalmar a frustração da criança. E, na medida em que você determina uma ligação entre a frustração e o uso de tela, você cria um ciclo de dependência.
As crianças ficam dependentes e os pais ficam dependentes. Isso é muito ruim, porque, na verdade, a criança teria que aprender a lidar com a frustração e se autoregular emocionalmente. Quando a gente tem o desafio de limitar a tela para criança de 2 a 5 anos, uma das dificuldades é a forma como a gente, como adultos, usa a tela.
E, atualmente, a gente usa a tela para distrair e para evitar o tédio. Então, eu estou na sala de espera do médico. Melhor coisa é usar a tela para não ver o tempo passar.
Isso é muito ruim para uma criança pequena, porque ele tem que aprender a lidar com o tédio, a não-estimulação, para que ele crie alguma estratégia de brincadeira e lide com aquela situação. Então, a gente tem que fazer um exame da forma como a gente lida a tela, para que a gente possa ajudar mais a criança a enfrentar o tédio e crescer, criar, brincar, em vez de passivamente ficar olhando para a tela. Quando a gente fala em prejuízos associados às telas, a gente também tem que pensar em quais seriam os benefícios.
Populações que têm menos acesso a conteúdo da educação tradicional. . .
Vocabulário, exposição a texto e tal, pode ter aspectos positivos na educação. Isso, claramente, se você tem uma exposição a conteúdos pensados para aquela faixa etária. Mas, para ficar claro, quando a gente diz que tem algo positivo, não significa que a gente tem que pensar que tem que expor mais as crianças a isso.
É importante lembrar que, entre 2 e 5 anos, a gente tem que restringir o uso de tela a uma hora por dia e sempre assistida por um adulto.