Nativos Compartilhados tem o prazer de continuar ouvindo a professora Tânia Boy, que agora vai falar um pouco a respeito da experiência dela no grupo de teatro Catarses da Unisul. É um prazer continuar ouvindo. Então, quando nós começamos o grupo Catarses, foi mais um desejo de continuar fazendo teatro, né?
E eu não tinha essa experiência, então, de fazer teatro no âmbito educacional, era sempre fora desse lugar. E aí foi uma experiência formadora, né? Um momento em que a Uniso não era Uniso ainda, era a FIFA (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras) que abre espaço para o fazer teatral, porque na época a reitora, essa chave, era diretora.
Não era reitor ainda, porque não era universidade, e foi pela criação do grupo. Exato, e ela abre esse espaço para o fazer teatral no universo de uma faculdade. Na época, de Letras, não tinha ainda a arte, nem teatro, no nível universitário na cidade de Sorocaba.
E foi o início. Eu compreendo que aquele foi o primeiro passo para a existência dos cursos de arte hoje. Foi aquele momento em que houve esse outro olhar, essa abertura.
A minha entrada no grupo foi por esse desejo de aprender e fazer, e é um fazer diferenciado. A arte dentro do fazer educacional tem muitas nuances que diferem do fazer artístico fora, em outros âmbitos, como era o que eu estava acostumada. A preocupação acadêmica, o cuidado, a construção do conhecimento pedagógico, sempre essa preocupação era o que permeava todo o trabalho do Catarses.
E foi uma vivência formativa. Durante três anos, eu estive no Catarses; foi onde eu comecei com essa preocupação de formação acadêmica, da necessidade de buscar construir conhecimento, o trabalho artístico. E foi no Catarses que nós fizemos várias montagens, na "Loteria" e "Elogio do Amor", como atriz.
Depois, tive a oportunidade de trabalhar, aprender a parte técnica, como construir a sonoplastia, como utilizar a sonoplastia durante um espetáculo. Aprendi que, naquela época, ainda era fita cassete que nós gravávamos a sonoplastia de uma fita para outra. E para chegar no ponto, era uma tampa da caneta BIC ou a própria caneta BIC aliviando a fita cassete para chegar no ponto nervoso de saber se estava no lugar certo.
Hoje é tão fácil; a gente aperta um botão e a sonoplastia é tão fácil. Mas naquela época, era complicado construir a sonoplastia do espetáculo porque o equipamento era simples, muito rústico, de um gravador para outro. Hoje, nós temos todas as tecnologias, no computador, que cortam, editam a música e ficam com muito mais qualidade, claro.
Naquela época, era mais na força e na coragem de fazer. E também, depois, a possibilidade de aprender o processo de dirigir juntos, né? E mais do que isso, eu compreendo aquela oportunidade, lá no início dos anos 90, de trabalhar já como arte-educadora, porque nós, naquela época, tivemos a oportunidade de fazer a assistência na montagem dos "Saltimbancos".
A Fernanda Maia fazia parte da direção musical, a Neves era diretor, e nós trabalhávamos como as crianças do colégio. Então, era um outro cuidado, que já era diferente das outras experiências, que eram com universitários adultos. E agora, crianças: um outro cuidado, um outro fazer.
E aí foi uma escola, uma experiência maravilhosa. Dessa época, Sônia Chebel também me deu a oportunidade de ter o curso de extensão. Meu primeiro diploma de licenciatura foi do curso de extensão da Faculdade de Ciências e Letras de Sorocaba, que foi pelo Catarses.
A Sônia nos deu aquele curso de extensão, que deu tantas horas, né? Que deu certo. E depois, eu continuei buscando um processo de formação, e em paralelo a isso, eu fazia os cursos da Oficina Grande Otelo, que, naquela época, oferecia, né?
E, infelizmente, hoje, a Oficina Grande Otelo está com suas atividades quase paradas, pelo menos na cidade de Sorocaba. Infelizmente, o prédio em que eu fiz os cursos na Oficina Grande Otelo é o do antigo Fórum Velho, na Praça Frei Baraúna, que é um prédio histórico para a cidade de Sorocaba e que, infelizmente, hoje está fechado. Há pessoas que acham que é melhor derrubar aquele prédio, que é histórico na cidade, porque fica tão cara a reforma que não compensa.
Mas isso mostra uma desvalorização do patrimônio histórico da nossa cidade, né? Seja lá qual for o custo disso, mas terá como patrimônio histórico da cidade, como cultura, né? Dessa nossa história, da cidade toda, aquele centro antigo ali é fundamental.
Eu acredito nisso. Então, nós já tivemos vários momentos de luta dos artistas de Sorocaba de fazer manifestação em frente ao prédio antigo Fórum Velho, antiga Oficina Grande Otelo, para que haja uma recuperação e envolvimento de órgãos, aqui da cidade e do estado, para que se recupere aquele prédio histórico. Atualmente, a oficina está em outro lugar, mas, com os cortes na cultura dos últimos anos, nós temos pouquíssima atividade.
E aí, eu lamento exatamente por isso, foi onde eu tive esse início, essa provocação para a arte, busca de cursos de formação. E hoje, onde é que está? Exatamente onde as pessoas, mas hoje não são muitos cursos, mas muitas apresentações, muita movimentação maravilhosa, né?
E, de repente, nesse momento, o espaço do fazer artístico na cidade quase inexiste. Hoje, então o jovem que hoje quer buscar fazer, até onde ele vai buscar, né? Então, em paralelo a tudo isso, eu me formei como professora no curso de Letras.
Durante o curso, ainda eu fui fazer estágio, fiz estágio com você lá na escola, no ano "Ócio Alvos Biológicos" no Getúlio. Eu colaborei mais como Pedro, o professor Pedro. Isso também já aproveitando o fazer teatral.
E eu fiz estágio, e aí quando eu me apaixonei pelo magistério, pela licenciatura. Eu tinha entrado no curso sem saber muito bem o que eu me tornaria: a professora durante o estágio e essas experiências com o teatro feito artístico com alunos. Eu fui vendo o quanto isso me trazia prazer, o quanto isso era gostoso e o quanto eu podia contribuir com a educação e com a arte no âmbito educacional.
Vivia momentos e tinha tipos de atividades com os alunos, sempre ligadas ao teatro. E não cheguei a montar alguma coisa como professora. Então, antes de me formar, fui tendo essas experiências na direção dos Saltimbancos, e o Pedro me convidou para fazer a direção de uma montagem de poesias lá na Getúlio, nas aulas de literatura.
E aí, quando eu iniciei na escola como professora, sempre procurei, na aula de português, como trazer algo a mais para o meu aluno; claro que era com o teatro. Então, sempre fui buscando oportunidades de permitir que eu criasse momentos para que os alunos experimentassem a linguagem teatral, trabalhando com contos, com poesias e criando momentos em que os alunos pudessem experimentar. Depois, com o passar do tempo e com o apoio da direção, porque o fazer teatral na escola está fora do currículo, ele está fora da grade.
Você tem que ter apoio da direção. Então, ao longo dos anos, você tem que conquistar um espaço; é uma luta diária fazer teatro, fazer arte na escola. Consegui apoio da direção para ter um espaço para o fazer artístico, e isso foi, então, pequenas atividades, pequenas ações mostrando que era bonito, interessante e enriquecedor; que constrói conhecimento, ganhando a confiança da direção.
E aí sim, eu consegui montar um grupo de teatro na escola também. Em paralelo, já não era só fazer nas aulas de português, mas montar o grupo em paralelo. No final de semana, ensaiando à tarde, no sábado ou no domingo, como voluntária, era em paralelo e como voluntário.
E aí, mas a satisfação, né, de poder fazer. E aí sim, montagens teatrais mesmo, de montar um espetáculo para a apresentação. Trabalhei muito com contos para criar narrativas curtas, o grilo aqui é sempre da literatura.
Então trazia contos breves e montava com um grupo uma história, com outro, outra história, e juntava tudo e dava um espetáculo. Isso com os alunos do ensino médio, a maioria alunos que já eram de literatura, mesmo que em português, já estudava literatura. Luís Fernando Veríssimo, isso, né?
Eu queria que as crônicas que conversávamos chegassem a zero durante o processo. É o momento em que você foi aluna da universidade e fez uma montagem para literatura também. Todas as aulas que havia oportunidade durante a universidade, de apresentar um trabalho com teatro, eu fazia com teatro, mesmo quando o professor não pedia.
Quais componentes? Todos que eu fui. Eu me lembro da professora Flávia de literatura portuguesa, que tinha que fazer um trabalho de poesias e contos, mas ela não pedia encenação.
Mas é claro que eu convencia o meu grupo, porque eu acreditava que a linguagem teatral tinha muito a acrescentar na vivência da literatura. Então, sempre que possível, convencia meu grupo de que era legal fazer uma cena, fazer uma moça de vida de pessoas, e os professores aceitavam. Os professores aceitavam, e os alunos também gostavam de ter a experiência do fazer teatral.
Muitos nunca tinham tido antes a oportunidade de fazer teatro. E aí vi ali uma oportunidade de aprender e de experimentar. Então, nunca tive dificuldade em convencer ninguém a fazer cena teatral, de experimentar a linguagem durante a universidade.
Sempre que eu podia, a professora Ana Maria, que foi minha professora de literatura brasileira, ela sim, propunha um sarau no momento em que os alunos criassem alguma coisa a partir do estudado em sala de aula, que criassem uma apresentação teatral. E aí eu me lembro que, numa das primeiras oportunidades, eu escolhi a "Negrinha", de Monteiro Lobato, e nós fizemos a encenação. Foi uma delícia ter a oportunidade de encenar uma poesia tão rica, e foi uma vivência maravilhosa, né?
E foram muitas experiências ao longo da formação, né, na vivência durante o curso de licenciatura, fazendo teatro. Então, em paralelo, catava as aulas e, depois, oportunidades com alunos. A experimentação do fazer teatral que eu não tive como aluna no ensino fundamental e no ensino médio: pouquíssimas oportunidades.
Eu vim aqui, é importante ter esse fazer teatral desde o ensino fundamental. Então, sempre que eu pude como professora levar para os alunos. .
. trabalhei na periferia de São Paulo. Os alunos não tinham acesso a aparelhos culturais.
Onde nos bairros não tinha quase nada, a escola era o centro da cultura do bairro. Então, aí, como professora de português em São Paulo, já com o professor, e aí transformar a escola como um centro de cultura, não só para os alunos, mas para suas famílias. A escola assistia às apresentações dos alunos e se encantavam pessoas que nunca tiveram a oportunidade de ir ao teatro, né?
Naquele momento, até a escola, nós transformávamos o pátio da escola e tentávamos transformar numa caixa-preta para que aquelas pessoas tivessem a experiência do fazer teatral com os recursos de som, de luz, o que conseguimos oferecer. E as famílias também saíam encantadas, porque a maioria nunca teve essa oportunidade na vida de vivenciar o teatro que os mesmos estavam fazendo, nunca tinham ido, nunca tinham ido, não quero. Tua, esses alunos que eram meus alunos na época do ensino médio nunca frequentaram teatro, nunca assistiram, e aí eu conseguiria levá-los até os lugares onde tinha espetáculos gratuitos.
É porque ali no bairro, perto, não tinha. Então, diria que até o centro, na Avenida Paulista, no Teatro do Sesi, tinha espetáculos gratuitos e maravilhosos, montagens fabulosas, com profissionais incríveis. E aí, convencer-los de que é importante assistir teatro para fazer teatro, convencer as famílias de que os deixassem com a professora, né?
E aí, mas sem um custo mínimo, então não dava nem para fretar ônibus, nada; era o ônibus de linha mesmo. Então, já adolescentes, os pais devem ter dado permissão para que nós tomássemos o ônibus circular, o ônibus normal de bairro, e trocássemos de transporte até chegar na Avenida Paulista e assistir ao espetáculo. E o encantamento desses alunos, o brilho nos olhos de ver um espetáculo de verdade, no teatro de verdade, com equipamentos de som e de luz, né?
É fabuloso você poder participar do descobrimento desses alunos. E aí vamos para a encenação; eles fazem encenação, e o bairro todo vem assistir. E aí, de repente, eles ficam famosos do bairro, promovem, e descobrem que são capazes, ganhando confiança e sabendo que são capazes de falar na frente de outras pessoas.
Então, é uma aprendizagem, um aprendizado enorme, um momento de aprendizagem que não fica restrito ao fazer teatral, que vai para outras esferas da vida de cada um desses alunos que pode participar. Porque ele vai com segurança de que consegue fazer uma entrevista de emprego, que consegue falar na frente dos outros, de que é capaz de fazer. Se ele conseguir fazer aquilo, ele é capaz de muito mais.
Então, a autoconfiança desses alunos de bairros de periferia, de pessoas que não tinham acesso a aparelhos de cultura, de repente, começam a vivenciar isso e vão se descobrindo capazes de vivenciar a arte e de fazer. Portanto, se tornam protagonistas da sua própria história. Depois de São Paulo, como acontece o percurso, vamos agora ver logo em seguida o seu percurso após São Paulo.
Então, até já para o próximo bloco com a professora Tânia.