Ela disse que eu era um fracassado quando perdi o emprego. Rio da minha cara, mas o jogo virou. Anos depois, ela me reencontrou no caixa do mercado, o mesmo que agora é meu.
O karma serviu esse prato gelado com direito a troco. Quando perdi meu emprego, ela não me deu apoio. Ela riu.
Disse que eu não tinha futuro, que eu era um fracassado. E aí foi embora, me trocando por um cara cheio de frases motivacionais e tanquinho de Photoshop. Anos depois, ela me reencontrou, mas dessa vez usando o crachá e dizendo: "Desejo a sacola no mercado que eu acabei de comprar.
" "E querer saber o que aconteceu quando ela tentou voltar? " "Ok, eu não costumo escrever por aqui, mas sinceramente tem história que se eu não contar ninguém acredita". Sério, se alguém tivesse me dito há dois anos que eu ia ver minha ex, que me humilhou na pior fase da minha vida, trabalhando no caixa do mercado onde eu sou dono, eu provavelmente teria engasgado de tanto rir.
Mas antes de chegar nesse momento delicioso, quero dizer reflexivo, vamos voltar um pouco no tempo, tipo aquele flashback dramático de filme ruim. Eu sempre fui um cara simples, não um simplão, tipo que não sabe ligar uma máquina de lavar, mas aquele tipo que prefere uma pizza e um bom jogo do que balada e drinks com nomes de peça de carro. Tava tudo relativamente bem.
Tinha um emprego estável como gerente de tin uma empresa de médio porte. Ganhava direitinho. Morava num apesto e pelo menos eu achava, tava num relacionamento sólido com a Letícia, minha então namorada de 3 anos.
Ah, a Letícia. Como posso descrevê-la? Linda, charmosa, inteligente e com um talento absurdo para rir na hora errada, tipo rir da desgraça alheia, no caso a minha.
Mas eu chego lá, a gente se conheceu num curso de inglês e eu me apaixonei logo de cara. Ela era aquele tipo de mulher que tinha resposta para tudo, confiante, decidida, sarcástica. E eu que sempre fui meio na minha, caí feito patinho.
No começo foi tudo maravilhoso. Saíamos, dávamos risada, dormíamos de conchinha, essas coisas de casal de comercial de margarina. Mas depois que começamos a morar juntos, o clima mudou.
Letícia começou a reclamar das minhas roupas. Parece um estagiário com esse moletom. Da minha comida tempero.
Você ouviu falar dos meus hobbies? Sério que você vai gastar sua noite jogando isso? Mas o ponto de virada foi quando eu fui demitido.
Sim, demitido. A empresa onde eu trabalhava resolveu cortar custos e como eu era um dos que tinham o salário mais alto da equipe de tchau e bça. Nem deu tempo de organizar as minhas coisas.
Me mandaram embora numa segunda-feira chuvosa com um guarda-chuva quebrado, uma sacola com meus fones e um aviso: "Mantemos seu plano de saúde por 30 dias". Voltei para casa arrasado. Aquela sensação de inutilidade bateu forte, mas pensei, bom, pelo menos tenho a Letícia, né?
Vai ser difícil, mas a gente vai superar. Ha! Assim que contei para ela, a reação foi um silêncio constrangedor.
Sabe quando alguém abre a boca para falar, mas sai uma risadinha no lugar? Você tá brincando? ", ela perguntou com uma sobrancelha arqueada.
Infelizmente não fui mandado embora hoje. Ela soltou um risinho abafado, tipo aqueles que a gente dá quando vê alguém cair no TikTok, mas com vergonha de admitir que achou engraçado. Meu Deus, amor, você vai virar um desses caras que vendem bolo no semáforo.
Aquilo doeu. Eu ainda tentei rir junto, mas foi aquele riso meio chorado, sabe? A partir dali, tudo virou motivo para me colocar para baixo.
Se eu tentava cozinhar, ela dizia que parecia comida de presidiário. Se eu falava que ia mandar currículo, ela perguntava se eu já tinha atualizado meu perfil no trabalho Brasil dos fracassados. E foi aí que começou o verdadeiro show de horrores.
Letícia passou a sair cada vez mais. Primeiro disse que estava ajudando uma amiga com um projeto da faculdade, depois era networking. Uma vez chegou em casa com o cabelo molhado e disse que caiu uma chuva, mas o céu estava seco.
Comecei a juntar as peças, mas como bom otário apaixonado, fingi que era só paranoia. Um dia, enquanto ela dormia e roncava alto, diga-se de passagem, fui pegar o carregador dela e acabei vendo uma notificação no WhatsApp. Adorei ontem, Deijo.
O contato era salvo como André Pilates. E aí, meu amigo, não precisa ser nenhum Sherlock para entender o que estava rolando. Enchi o peito de coragem e perguntei: "Letícia, quem é o André?
" "Um colega do Pilates. " Ela respondeu sem nem piscar. Você faz pilates?
Faço sim. Só que espiritual é tipo alongamento da alma. Eu juro que fiquei 5 segundos parado tentando entender se aquilo era uma piada.
Depois entendi que ela realmente achava que eu era burro. Decidi terminar ali mesmo. Ela nem tentou impedir.
Na verdade, parecia aliviada. "Você vai me agradecer depois? ", ela disse.
"Precisa de alguém que te inspire. E eu, bom, eu preciso de alguém que me leve para jantares caros. Foi embora levando metade dos talheres e o meu edredon favorito.
Nunca entendi esse apego com o edredon. Fiquei sozinho, desempregado, devendo no cartão de crédito e sem minha coberta quentinha. Mas quer saber?
Às vezes é do fundo do poço que a gente tem a melhor visão do céu. Comecei a me virar. Vendi umas coisas, fiz uns bicos, estudei como um louco.
Um amigo me indicou para uma vaga numa startup pequena e com o tempo fui crescendo. De programador virei coordenador. Depois entrei em sociedade com esse amigo.
A empresa cresceu tanto que dois anos depois compramos uma rede local de mercados que estava falindo. E foi aí que o universo resolveu me dar um presentinho. No meu primeiro dia, como novo dono do supermercado principal da rede, resolvi ir até a loja pessoalmente.
Queria conhecer os funcionários, ver o espaço, aquela coisa toda. Estava caminhando entre as gondolas quando a gerente me chamou para apresentar uma funcionária nova. Essa aqui é a Letícia.
Entrou na semana passada. Está no Caixa da Tarde. Ah, meus caros.
Ela estava ali. Uniforme azul, crachá torto e uma expressão de choque que daria inveja em qualquer atriz de novela mexicana. Não disse nada, só sorri.
Um sorriso educado, claro, profissional. Mas por dentro, por dentro eu tava rindo igual criança, vendo o pinguim do Madagascar escorregar. Atualização um.
Confesso que quando a gerente me apresentou a Letícia como nova funcionária do mercado que eu acabará de comprar, eu quase quebrei o personagem. Foi por pouco que não soltei um bem-vinda ao meu império do pão francês e da promoção de sabão em pó, querida. Mas segurei porque veja bem, meus caros, vingança é um prato que se come frio, ou no caso escaneado no caixa três com etiqueta de desconto.
Eu apenas balancei a cabeça e disse: "Ah, prazer, boa sorte novo trabalho. " Ela ficou paralisada, segurando uma sacola plástica como se fosse um escudo de proteção contra o karma materializado em forma de ex-namorado. Depois desse reencontro, voltei pra sala da gerência e pedi para conferir o histórico de contratação.
Sim, confesso que fui meio fofoqueiro investigativo e o que descobri só deixou tudo melhor. A Letícia tinha sido contratada por um gerente antigo que nem sabia da minha história com ela. Coincidência pura ou destino ou a vida fazendo standup.
Ela precisava do emprego. Foi contratada como temporária, mas com chance de efetivação. E sim, estava no caixa, o mesmo caixa onde agora ela via minha cara estampada no mural com o título Nossos sócios.
Nas semanas seguintes, fiz questão de ser um bom patrão, sem sarcasmo, sem indiretas. Eu realmente acreditava que seguir em frente significava não jogar na cara de ninguém o passado. Mas claro, isso não significa que eu deixei de observar.
Letícia, que antes me chamava de enfracassado, agora sorria forçadamente cada vez que eu passava pelos caixas. Tinha aquela expressão de quem comeu pão de forma mofado e não pode cuspir porque o chefe tá olhando. O mais interessante foi perceber que ela parecia me evitar.
E eu, bom, eu fazia questão de circular entre os setores. Auditorias de rotina, eu dizia. Uma passadinha ali, uma olhadinha nos relatórios e vez ou outra, um bom dia com a mesma simpatia que ela usava quando dizia que minha comida tinha gosto de papelão, mas a melhor parte ainda estava por vir.
Lá pelo fim do mês, precisei participar de uma reunião com os supervisores. Estavam discutindo cortes de gastos, mudanças de equipe e avaliações de desempenho. Até aí nada demais.
Mas um dos supervisores comentou: "Ah, e tem uma funcionária nova no caixa que tem dado uns probleminhas. Letícia parece que chega atrasada", responde os clientes. E já teve dois conflitos com colegas.
Estamos de olho. Senhoras e senhores, o destino não falha. Não precisei dizer nada, apenas anotei.
Continuei ouvindo, interagindo normalmente, mas no fundo eu já sabia se ela queria dar aula de humildade antes. Agora ela estava matriculada de volta na escola da realidade. Na semana seguinte, ela finalmente me abordou.
me pegou no estacionamento da loja, meio sem jeito, segurando o crachá com as duas mãos, como se fosse um terço. "Oi, posso falar com você um minuto? " "Claro,", respondi, já esperando uma desculpa ou um pedido ou um drama.
Ela respirou fundo e mandou: "Eu sei que deve estar sendo estranho para você ver a gente assim. Eu aqui, você, dono disso tudo. Eu não disse nada, só deixei o silêncio preencher.
Técnica milenar de causar desconforto, o silêncio bem colocado. Ela continuou. Eu queria dizer que me arrependo de como as coisas terminaram.
Naquela época eu estava confusa. Achei que você tinha acomodado, que não tinha ambição, mas vejo agora que estava errada. errada era pouco, mas continuei apenas ouvindo.
E eu, bom, queria saber se a gente podia sair um dia, conversar melhor, sem mágoas, sabe? A audácia, não é que ela quis voltar? A mesma pessoa que riu quando perdi o emprego, que me trocou por um coach de lifestyle com Instagram lotado de frases motivacionais e tanquinho editado.
Minha vontade era responder com um claro: "Vamos sair sim, você e o código de barras do sabão em pó no caixa quatro". Mas respirei fundo. Falei o seguinte: "Letícia, fico feliz que você esteja trabalhando, buscando o seu caminho.
Isso já é admirável. Mas sobre a gente não tem mais a gente, só tem você e sua jornada e eu com a minha. Ela mordeu o lábio inferior, meio frustrada, meio envergonhada.
Disse que entendia, deu um sorrisinho amarelo e foi embora. No mesmo dia, descobri que ela tinha sido advertida de novo por tratar mal um cliente. Três advertências em menos de 40 dias.
E segundo as normas da empresa, isso bastava para reavaliação do contrato temporário. Eu não interferi. Não precisei mover um dedo.
O sistema é impessoal. O gerente de loja aplicou a política padrão. Dois dias depois, a Letícia não apareceu mais no trabalho.
O gerente apenas me disse. Ela pediu desligamento, disse que não se adaptou ao ritmo. E eu, bom, voltei para minha sala, tomei um café e fui verificar o estoque de chocolate, porque ninguém é de ferro.
Mas antes de encerrar essa atualização, quero compartilhar algo curioso. Recebi uma mensagem dela pelo Instagram. Não respondi, mas a mensagem estava lá.
Você parece estar bem. Me desculpa de novo por tudo. Espero que você seja feliz de verdade.
Eu não senti ódio, nem raiva, nem superioridade. O que eu senti foi paz e um leve impulso de rir. Porque, convenhamos, ser chamado de sem ambição e depois virar patrão da pessoa que te chamou assim?
Isso não tem preço. Atualização dois. Depois que a Letícia pediu desligamento e sumiu do mercado, achei que a história tinha finalmente terminado.
Pensei que ela seguiria a vida, talvez com um novo coach de propósito de vida, ou sei lá, virando influenciadora de suco detox no Instagram. E eu, bom, eu continuei na minha. O mercado cresceu.
Reformamos a fachada, modernizamos o sistema de autoatendimento e inauguramos uma outra unidade do outro lado da cidade. E adivinha quem coordenou tudo? Este que vos fala.
O ex-demitido, sem ambição agora estava supervisionando outras unidades, liderando mais de 50 funcionários e, o mais importante, dormindo em paz. Mas claro, o universo adora dar aquele plot twist, né? Num belo sábado de manhã, eu estava na loja principal ajudando a organizar a nova sessão de importados.
Nossa, queridinha entre os clientes com gosto chique e bolso fundo, quando escuto uma voz familiar perto da padaria. Moço, tem pão francês saindo agora? Eu congelei.
Não pelo pão, claro, mas pela voz. Virei devagar, como que em checa se viu um fantasma. E lá estava ela, Letícia.
Vestido simples, maquiagem leve, cabelo preso num coque meio torto e empurrando um carrinho com alguns produtos básicos. Parecia que tinha voltado no tempo, só que agora com menos salto alto e mais boletos. Ela me viu e por um segundo pensei que fosse fingir que não reconheceu.
Mas aí ela sorriu, um sorriso estranho, meio culpado, meio aliviado. Daqueles que a gente dá quando encontra um ex no dentista e tenta parecer casual, mesmo com uma ventosa na boca. "Oi, ela disse.
Que coincidência. Coincidência? Claro.
Tipo esbarrar no próprio karma ao lado dos biscoitos recheados. Oi, Letícia, respondi mantendo o tom educado. Tudo bem?
Sim, sim. Só vim comprar umas coisas. Nada demais.
Dei uma olhada no carrinho. Pão, leite, papel higiênico e um shampoo de marca genérica. Sim, eu reparei.
Me julguei. Ela olhou em volta como se estivesse em outro planeta. A loja tá linda.
Você realmente transformou o lugar. Obrigado, respondi. Foi um processo.
Muito trabalho, muitos erros, muito aprendizado. Ela balançou a cabeça. Imagino.
Aliás, vi no Instagram que você abriu uma nova unidade. Parabéns. Eu sorri.
Ela também. E foi aí que, sem aviso, ela mandou. Eu tô procurando emprego de novo na área administrativa, sabe?
Tentei algumas coisas, mas tá difícil. Se você souber de alguma vaga. Sim.
Ela pediu indicação. A mesma mulher que riu quando eu fui demitido agora me pedi ajuda para voltar ao mercado de trabalho. E o melhor, literalmente dentro do meu mercado.
Respirei fundo. Pensei em todas as respostas espiritualmente evoluídas que eu poderia dar, tipo a vida da voltas. Ou claro, todos merecem uma segunda chance.
Mas fui sincero, Letícia, olha, desejo que você encontre algo bom, mas aqui na empresa a gente tem um processo bem específico. Seleção rígida com base em desempenho, histórico e fit com a equipe. E bem, você conhece a política interna.
Ela sentiu de novo, sem expressão, só um leve tremor no canto da boca. pegou o carrinho e disse: "Claro, imagina. " Só comentei mesmo.
Obrigada. E sério, parabéns por tudo. Se afastou devagar, olhando pro chão, empurrando o carrinho mais devagar que o Wi-Fi de elevador.
Pensei que fosse o fim, mas a Letícia não ia desistir tão fácil. Duas semanas depois, recebo um e-mail do setor de RH. Assunto: candidatura Letícia M.
Sim. Ela tinha se inscrito oficialmente para uma vaga no administrativo da unidade nova. Mandou currículo, portfólio e até uma cartinha de apresentação, dizendo que um busca um ambiente de trabalho acolhedor com oportunidades de crescimento e respeito mútuo.
Fiquei em silêncio por uns bons minutos. Pensei em apagar o e-mail. Pensei em rir.
Pensei em responder com o link do LinkedIn e um boa sorte. Mas no fim encaminhei o e-mail pro gerente da nova unidade com uma observação objetiva. Segue candidata.
Já trabalhou na loja anterior. Teve dificuldade de adaptação e três advertências formais. Avaliação final negativa.
Deixa a decisão com você. Simples, profissional, sem ironia, sem sarcasmo, sem revanches. O gerente respondeu no dia seguinte: avaliação não compatível com o perfil atual da equipe.
Processo encerrado. E assim, mais uma porta se fechou. Não porque eu bati, mas porque ela mesma largou a maçaneta lá atrás.
Curiosamente, uma semana depois, vi que ela me bloqueou no Instagram. Talvez tenha sido raiva ou vergonha ou os dois. Não importa.
Por que a essa altura da história eu já tinha entendido algo importante. A verdadeira vitória não é se vingar, é seguir tão bem que a pessoa nem consegue te alcançar. Atualização três.
Depois do e-mail negando a candidatura da Letícia, achei que tudo tinha, enfim, se encerrado. A vida seguiu. Continuei trabalhando, expandindo os negócios, indo na academia, OK?
tentando e até conhecia uma pessoa interessante, mas isso é papo para outro momento. Só que Letícia aparentemente não entendeu a mensagem do universo ou entendeu e resolveu ignorar. Cerca de dois meses após a última tentativa dela entrar na empresa, recebo uma ligação do RH num final de tarde.
Achei que fosse algum problema com folha de pagamento ou algo burocrático, mas não. Oi, tudo bem? É só para te avisar que tivemos um pequeno incidente hoje com uma visitante.
Visitante? Eu perguntei o que tinha acontecido e a resposta me fez dar aquela pausa dramática com a testa franzida. Era uma mulher chamada Letícia.
Disse que conhecia você, que tinha uma reunião agendada com você na unidade nova, mas não havia nada no sistema. Sim. Ela tentou entrar dizendo que tinha uma reunião comigo.
Inventou. Disse para segurança que era uma conversa pessoal que eu não estava sabendo ainda, mas iria querer vê-la. e até tentou se sentar na recepção como se fosse só uma questão de tempo até eu aparecer com um sorriso e um convite para um cargo executivo.
A recepcionista, educada como sempre, disse que não poderia autorizar a entrada sem confirmação. E Letícia insistiu. Falou alto, criou uma situação.
Foi só quando o gerente geral saiu da sala e a reconheceu. Sim, ele já sabia da fama dela, que ela se calou e saiu rapidamente, sem dizer mais nada. Não sem antes soltar um.
Vocês vão se arrepender de tratar uma mulher como lixo. Sinceramente, foi triste. Não no sentido, coitada, mas no sentido de perceber o quanto orgulho pode afundar uma pessoa que se recusa a aceitar as consequências das próprias escolhas.
Depois disso, ninguém mais a viu por ali. Mas como a vida tem aquele senso de ironia fiado, o próximo capítulo aconteceu fora das minhas lojas. Estava num evento empresarial local.
Palestras, networking, cafés aguados, aquelas coisas. Estava conversando com uma galera da área de logística quando uma mulher se aproxima da mesa de credenciamento com cara de perdida. Demorei uns segundos para reconhecer, mas era ela, Letícia.
vestida de forma mais simples, cabelo preso com uma presilha velha e visivelmente desconfortável naquele ambiente, ela me viu e, pela primeira vez desviou o olhar. Fingiu que não me reconheceu. Conversou com a atendente do evento, mostrou o celular e a moça respondeu algo que eu consegui ouvir de longe.
Ah, não, moça, esse evento é só para convidados da Bog. Você se inscreveu no formulário errado. Esse aqui é fechado só para quem já tem empresa ou está registrado no sistema, ela insistiu.
A atendente foi educada, mas firme. Letícia deu meia volta e saiu com pressa, andando rápido como quem foge de uma loja após derrubar um vaso caro. Aquilo me pegou não por pena, mas por um misto de dejavu com lição de vida acontecendo em tempo real.
Ali estava a mesma mulher que dizia que homem que perde emprego não tem futuro, tentando se encaixar em um ambiente que anos atrás ela teria dito que era coisa de gente careta. E eu, que já tinha me sentido humilhado por ela, agora me sentia indiferente. Sim, indiferente.
A verdade é que tem um momento em que a gente para de querer provar algo, por mais. Você olha para trás, vê o caminho que percorreu e simplesmente percebe que não há nada a ser dito. Só seguido, mas a cereja no bolo viria algumas semanas depois.
Estava na minha cafeteria favorita, tomando meu ritualístico cappuccino duplo com pão de queijo. Sim, sou esse tipo de clichê. Quando abro o LinkedIn e vejo algo que quase me fez cuspir o café na tela.
Letícia havia me adicionado. Sim, no LinkedIn. O título do perfil dela, consultora de imagem e desenvolvimento pessoal, seguido por uma descrição maravilhosa.
Transformo vidas com empatia, escuta ativo e foco em resultados. Todos temos um potencial adormecido. Minha missão é acordá-lo.
O mesmo potencial adormecido que ela zombava quando eu falava dos meus planos para empreender. Vi que ela tinha feito alguns cursos online, publicado frases motivacionais com selfies e tinha até começado um canal no YouTube que, por curiosidade, fui fuçar 43 inscritos e um vídeo chamado Cinco Passos para superar um ex-narcisista. Ri?
Sim, ri. Alto, não descárneo, mas daquele riso que você solta quando tudo se encaixa de um jeito tão absurdo que parece roteiro de comédia. Não aceitei a solicitação, nem bloqueei, só deixei ali flutuando como um lembrete de que o tempo é o melhor roteirista que existe.
E para deixar claro, eu não desejo mal a Letícia, de verdade. Espero que ela se encontre, que evolua. que vire a melhor versão de si mesma, bem longe de mim.
Por se tem uma coisa que essa história me ensinou, é que vingança nunca é o caminho. Mais sucesso silencioso. Ah, esse sim é uma sinfonia.
Atualização final. Essa é a última vez que falo da Letícia. Prometo, não porque ainda mexe comigo longe disso, mas porque, honestamente, não tem mais nada a aprender com essa história.
A não ser que você esteja escrevendo um manual de como afundar sua vida com ego e escolhas ruins. Se você acompanhou tudo até aqui, já sabe do básico. Fui demitido.
Ela riu, me humilhou, me trocou por um figurante de vídeo motivacional. E anos depois eu era dono do mercado onde ela virou caixa temporária. Depois disso, ela tentou voltar, tentou me reencontrar, tentou até virar guru do LinkedIn e falhou em tudo.
Mas o que eu não contei porque só aconteceu agora, foi a última virada dessa montanha russa. Tudo começou com um convite. Estava eu vivendo minha rotina, agora com uma empresa de três unidades funcionando bem e mais uma sociedade num app de delivery local.
A vida estava tranquila, estável. Até comecei a sair com alguém de verdade, a Júlia, uma das contadoras da firma onde terceirizamos a parte fiscal. Inteligente, pé no chão, riso fácil, totalmente oposto da Letícia.
Ou seja, perfeita. Um dia, a Júlia me chamou para um jantar beneficente organizado por um grupo de mulheres empreendedoras. Era uma daquelas noites em que você tem que usar blazer, apertar a mão de gente que fala networking a cada três frases e elogiar o buffet mesmo quando risoto parece papa de hospital.
Mas fui por ela. Estávamos conversando com um casal simpático sobre o mercado de alimentos sustentáveis, quando no canto do salão vejo uma figura conhecida. Sim, Letícia, mas não do jeito que você imagina.
Ela não estava como convidada. Ela era recepcionista do evento. Estava com uma blusa preta social, prancheta na mão e um olhar vazio.
Desses que já viram mais portas se fechando do que abrindo. Ela me viu e o olhar dela congelou. A Júlia, sem saber de nada, ainda comentou: "Amor, aquela moça ali tá te encarando com uma cara estranha.
Você conhece? " Conheço", respondi tomando um gole de vinho. "É só alguém do passado.
" Letícia desviou o olhar e voltou a anotar coisas na prancheta como se estivesse preenchendo o formulário da própria redenção. E aqui vem o detalhe mais absurdo de todos. Ela estava trabalhando como freelancer, contratada por uma empresa terceirizada de eventos, uma das que presta serviço para minha empresa.
Sim, eu mesmo tinha assinado o contrato com essa prestadora meses antes. Era um contrato padrão com pagamento por hora de serviço. E ela era uma entre várias funcionárias que faziam atendimento em feiras, eventos e convenções.
Na prática, Letícia trabalhava indiretamente para mim, sem nem saber. No final do evento, como mando o protocolo, agradeci a equipe de recepção. Apertei a mão de todos, inclusive a dela.
Ela me olhou nos olhos e disse: "Você mudou muito", respondi com um sorriso leve. Você também. E fui embora.
No carro, com a Júlia ao meu lado, pensei em tudo, em como a vida realmente sabe brincar com o roteiro, em como às vezes não é preciso desejar mal para ninguém. Basta deixar o tempo fazer o trabalho sujo. Mas o verdadeiro fechamento veio semanas depois.
Estava no escritório terminando uns papéis quando a coordenadora de contratos veio me mostrar um novo relatório de desempenho dos freelancers. Havia uma planilha com notas internas, avaliações e comentários. Letícia estava na lista.
Comentário geral, desmotivada, pouco comunicativa, atrasos recorrentes. Perfil não recomendado para futuras convocações. Sem eu dizer nada, a empresa prestadora simplesmente cortou ela da lista de freelanceres ativos.
E foi isso. Não precisei levantar a voz, não precisei humilhar, não precisei postar em direta, apenas segui minha vida. Hoje quando lembro de tudo, não sinto raiva, não mesmo.
Sinto uma paz quase engraçada, tipo quando você assiste um filme que parece que vai dar tudo errado pro mocinho, mas no final ele vence, não com soco ou grito, mas com um simples não preciso mais disso. Letícia riu da minha demissão. Hoje eu sorrio com minha liberdade.
E quanto a ela, bom, digamos que o caixa do mercado ficou grande demais para quem achava que eu não tinha futuro. Comentário eredit. Senhoras e senhores, essa foi uma daquelas histórias em que o OP não precisou levantar um dedo.
Quem cavou a própria cova foi quem tropeçou nela depois. E a Letícia, ela riu do fracasso, mas esqueceu que o mundo dá voltas e às vezes gira até demais. Que ela encontre um novo emprego e, se possível, uma nova noção também.
Até a próxima. Se curtiu essa história, já sabe, deixa o like, compartilha com quem vai adorar esse enredo e se inscreve no canal para não perder os próximos capítulos. Ah, e tem duas outras histórias cheias de reviravolta esperando por você aqui na tela.
Te vejo na próxima. M.