Existe um jeito de você passar a vida inteira sem nunca descobrir quem você é. E o pior é que você nem percebe. Você já ouviu uma antiga história islâmica sobre um homem que tá no meio da noite agachado, embaixo de um poste de luz?
Policial passa e pergunta para ele o que que ele tá fazendo. Ele responde que ele tá procurando as chaves que ele perdeu. Policial meio sem nada para fazer ajuda ele a procurar.
E eles ficam nessa por um tempo. Até que o policial fala: "Caramba, você tem certeza que você perdeu a chave aqui mesmo? " E o homem responde: "Não, eu perdi lá no parque, mas é aqui tava mais iluminado.
Pensei em começar por aqui. E bom, essa é uma piada, mas é uma piada tão boa, né? Aposto que você tá esbafurido de tanto gargalhar, que ela deu origem a um termo importante na psicologia, o efeito poste de luz, que se refere a uma tendência que todo mundo tem de sempre procurar por algo nos lugares onde é mais fácil de olhar.
Talvez nos lugares que você já conhece. Ninguém gosta de tatiar no escuro, mas isso é um problema, porque no escuro, no desconhecido, é onde se encontram os maiores tesouros. E esse vídeo trata da busca pelo maior desses tesouros.
A busca por você, RS. O que eu quero te mostrar é que não dá para descobrir quem você é nos lugares que você já está. É preciso ir além, é preciso fugir.
Do contrário, você pode assistir a sua vida inteira, escoar como um filme de outra pessoa, sem nunca ter percebido onde é que tava a sua própria história, onde tá. Ela tá aqui, ela tá diante de você. É preciso encontrá-la e para isso você tem que se perder.
Mas eu tô contigo. Me acompanhe. Porque tudo começa com o fato de que você é e sempre foi um herói.
Se o negócio é encontrar a sua história, faz sentido a gente começar falando um pouco sobre histórias. Para que que serve? É de comer?
Hum. Todos nós somos contadores de histórias. Faz parte da nossa natureza enquanto espécie se reunir em torno da fogueira cantando com baiá e contar causos e mais causos da nossa vida, da vida alheia, de vidas imaginárias.
Ah, como é que foi lá no dentista? Ah, cheguei lá, tava meio cheio, pimba, senta que lá vem a história. Ah, mas e e o seu irmão?
Ele casou mesmo? É verdade. Nossa, nem te conto.
A noiva. Pimba. Hum.
Senta que lá vem história. Ah, mas e o curso? Vinícius, você já se formou?
Bom, na verdade, eu acho que eu prefiro não falar sobre isso. Hum. A verdade, meu amigo, é que nós somos descendentes de um bando de fofoqueiro.
Tá no nosso sangue, na nossa pele, lamentável. Só que não, porque tem um bom motivo para isso. Contar histórias permite que a gente compartilhe entre si conhecimento e opiniões e valores e moral.
E se a gente consegue compartilhar isso, meu caro, a gente consegue criar uma sociedade. Então, histórias servem para muito mais do que passar o tempo. E investigar as histórias que não seram é uma forma de investigar a nós mesmos.
Que que a gente acredita, que que a gente valoriza, o que que a gente quer. E nesse contexto surge o herói de mil faces de 1949. Nele, o mitlogo Joseph Campbell identifica que ao longo de todas as eras, todas as culturas tem um tipo de história que é muito persistente, sempre aparece.
E esse é o mito do herói. A figura do herói, aquele que enfrenta o desconhecido, supera inimigos, adquire poderes e traz consigo a salvação mediante o próprio sacrifício. Parece que tá enraizada dentro da nossa mente.
Independente do lugar, da época, da religião, a ideia do herói sempre volta. E pro Campbell, isso tem um motivo. Essa figura para ele representa a capacidade humana de transformação, de se metamorfosear em algo maior e nesse processo se encontrar, se salvar e ao se salvar salvar o mundo.
Como essa transformação acontece? É isso que você quer saber. como encontrar o herói dentro de você.
E bom, é uma longa história. [risadas] Vamos focar no primeiro passo. A famosa jornada do herói que o Campbell identifica [música] nesses mitos tem três grandes partes.
A primeira delas é a separação, também conhecida como o chamado do desconhecido ou o chamado da aventura, envolve sobretudo uma ruptura. Qual a ordem das coisas? Em outras palavras, a vida vira de cabeça para baixo.
Alguma coisa muda drasticamente e o herói é colocado numa nova situação. Mas isso não é inevitável. Pelo menos não costuma ser nessas histórias.
O chamado do desconhecido tem que ser atendido e o herói pode só não atender, ignorar, dar um ghost. Em Alice, no Pai das Maravilhas, por exemplo, o chamado da aventura é um simples coelhinho branco, curiosamente vestido de smoking, que ali se vê correndo pelo jardim e ela fala: "Carambolas, isso aí é meio esquisito". E segue esse coelho até ele entrar na toca.
E aí ela tem a opção imediata com uma garotinha comportada de falar: "Ah, fiz, não vou entrar numa toca escura, fedida, cheia de bicho. Eu não vou ficar aqui no meu piquenique com as florzinhas onde eu conheço, onde me é familiar. Hoje não, Faro.
Mas se ela fizesse isso, ela nunca conheceria o País das Maravilhas, nunca viveria a sua aventura e nunca se transformaria por meio dela. Essa recusa ao chamado é algo extremamente humano. É o caso de Jonas na Bíblia, que recebe literalmente um chamado dos céus, dizendo para ele ir pregar numa cidade inimiga.
E ele fala: "Pô, quer saber? Tô suave. " E pega um navio na direção oposta.
a cidade, tamanho o seu medo do que pode acontecer com ele naquele lugar. É só depois de passar três dias dentro de uma baleia que representa uma espécie de limbo existencial, né? Um lugar entre a vida e a morte, entre o ser [música] e o não ser, que ele aceita ser, ele aceita o seu próprio destino.
Outro exemplo clássico é o Hobbit. Quando o Gendolf aparece no começo e convida o Bilbo para uma aventura, a resposta dele é: e abro aspas, somos gente simples e quieta e não queremos saber de aventuras. Coisas desagradáveis, perturbadoras e desconfortáveis fazem o sujeito se atrasar pro jantar, que é um caso interessante, né?
Porque ainda que o Bilbu sinta medo do desconhecido, a maior motivação para ele recusar parece, na verdade o apego ao que ele já tem. É uma certa acomodação, o que toca num ponto crucial da questão. O primeiro passo da jornada é dois passos em um.
Você precisa vencer o medo do desconhecido e vencer o apego ao conhecido. A ruptura não é só um subproduto chato de você aceitar o chamado, um preço a se pagar, não. Ela faz parte do chamado e ela é tão importante quanto você vai de encontro ao desconhecido e ao mesmo tempo foge do conhecido.
Por quê? Bom, por causa de como o seu cérebro funciona. Mas antes eu tenho algo muito importante para te dizer, algo, relaxa que não é propaganda, não é patrocínio da Insider.
[risadas] Eu fiz um canal, um novo canal, mas de certa forma não é o mesmo canal, mas é a versão em inglês desse mesmo canal. Isso foi o que eu planejava fazer há um tempo, mas eu tô esperando o momento certo e eu acho que que é que é agora, né? senão agora quando?
E é isso, né? Os vídeos novos daqui para frente eu vou postar primeiro lá com uma semana de antecedência e depois aqui em português. Isso é uma forma que eu pensei de retribuir, né, o pessoal que for lá.
Então, se você já acompanha conteúdos em inglês, eh, vai lá, dá uma força. Você você provavelmente vai gostar se você gosta disso aqui, porque vai ser só eu, mas em inglês, né? Mas se você não consome coisa em inglês, tá suave, tá tranquilo, não precisa, continua somente aqui, muito bem-vindo.
Pode entrar, pode pegar, quer um biscoito, quer um biscoitinho? E é isso. Agora volta pro vídeo.
[música] Existem duas coisas no seu cérebro que tornam qualquer tipo de transformação bem mais difícil do que talvez deveria. A primeira é que o seu cérebro funciona de forma associativa. Primeira lei da neuroplasticidade é neurônios que se ativam ao mesmo tempo se conectam.
Quando você ouve muito uma música, as redes neurais que se ativam durante acabam se conectando com outras redes que também estão ativas. E por isso, se você volta a ouvir essa música anos depois e reativa essas redes, você reinvoca sentimentos e lembranças daquela época. A segunda é que o cérebro é completamente obsecado por poupar energia.
Ele é tipo o Júlios da energia psíquica. ele já gasta em média 20% de todas as calorias que você ingere e ele não quer passar disso de jeito nenhum. Problema é que o córtex pré-frontal, que tá ligado à atividade consciente, né, você conscientemente pensando e agindo, gasta muita energia.
Mas no então pro cérebro, quanto menos tempo você passar em atividade consciente e mais tempo no piloto automático, melhor. E para isso ele é especialista em criar pilotos automáticos, hábitos, scripts que ficam gravados principalmente na região dos núcleos da base e funcionam como se fosse arquivos comprimidos no seu PC, que ocupam bem menos espaço e gastam muito menos energia para se ativar. É assim que pensamentos e comportamentos complexos que se repetem são convertidos em scripts, em hábitos mentais que se tornam inconscientes e deixam de exigir o córtex pré-frontal.
Quanto é 2 + 2? Você sabe que é quatro. Não adianta fazer graça.
Você não faz essa conta conscientemente. O cérebro só roda o script. 2 mais 2 4.
Quando você levantar para ir tomar água daqui a pouco, você não vai ficar controlando o movimento de cada músculo nas suas pernas, não é? É até estranho falar que é você que tá andando, é só o script rodando automaticamente e você tá meio que indo junto. Isso libera espaço pra consciência fazer outras coisas, pensar nas contas, pensar naquela mensagem do WhatsApp, pensar na vida, no universo e tudo mais.
Show de bola, maravilha. Só que lembra, o cérebro é o Júlios. Ele não quer gastar nada.
Enquanto ele puder fazer script para impedir a consciência de ter que fazer qualquer coisa, ele vai fazer. Isso vai muito além da coordenação motora e de aprender matemática. Ele vai criar scripts pro que você sente, para como você vê a si mesmo, vê o mundo, pro jeito que você fala, age paraas suas personalidades.
Dá para dizer que é assim que se forma uma personalidade, um conjunto de scripts que o seu cérebro assimilou. E como ele funciona por associação, quando você vê o 2 mais 2, ele já roda o script e fala quatro. E quando você tá no mesmo lugar que você tantas vezes já teve, fazendo a mesma coisa, do mesmo jeito que tantas vezes já fez e tantas vezes já se sentiu assim, pensou assim, ele também vai rodar esses scripts automaticamente.
É assim que você fica preso no passado. O cérebro automatiza o máximo de coisas que ele consegue. E enquanto você tiver sobrevivendo, comendo e não correndo nenhum risco claro de vida, ele entende que tá tudo bem e que não há motivo para fazer coisas diferentes para mudar.
Mudar gasta energia. Mas meu Deus, sem mudar não dá para crescer, não dá para construir o seu próprio caminho e descobrir quem você é. Para fazer essas coisas, só tem um jeito.
Tem uma passagem que aparece mais de uma vez nos textos budistas que eu acho muito poderosa. Uma delas é nosa mahakaa, quando o Buda tá explicando sobre o que levou ele a abandonar a vida no palácio e começar a sua jornada em busca da iluminação. Ele diz: "Antes do meu despertar, eu já pensava que a vida doméstica é um lugar estreito e empoerado.
[música] A vida de renúncia é aberta como ar livre. Algum tempo depois, ainda que meus pais desejassem o contrário e lágrimas escorressem nos seus rostos, eu raspei meu cabelo e minha barba, me vesti como monge e dei início à minha vida de nômade. A vida doméstica, a sua casa é um lugar estreito, apertado, onde não existem muitos caminhos possíveis.
As paredes já foram erguidas, [música] os caminhos estão fechados. Mas fora de casa, o ar circula livremente e os caminhos se ofertam por todos os lados. Eu tô falando em termos simbólicos aqui.
Eu não tô dizendo que você precisa juntar suas trouxas e literalmente fugir de casa amanhã cedo. A casa aqui simboliza o familiar. Isso vai muito além da sua localização geográfica.
Você talvez já tenha ouvido falar dos estudos que mostram que pessoas bilíngues exibem diferentes personalidades a depender do idioma e nada faz mais sentido. O cérebro funciona por associação e os scripts que definem aquela personalidade estão associados àquela língua. Falar uma língua nova é um dos jeitos de fugir de casa.
Vestir roupas diferentes das que você costuma usar. mudar o seu cabelo, redecorar os lugares que você fica, fazer outra coisa no seu tempo livre, falar com outras pessoas, mudar de rota na hora de ir para casa, mudar alguma coisa e mudar não no sentido de mudar para algo melhor, mudar o cabelo para ficar mais bonito, fazer isso porque é melhor, não. Como se tivesse algo errado no jeito que as coisas já são.
Não tem. Eu quero que você busque a diferença em nome da diferença, sem julgamento. Ultimamente eu tô me forçando a usar o garfo na mão esquerda para comer, mas eu não me importo com as regras de etiqueta.
Eu nunca me importei. Eu tô fazendo isso para mim. Quando eu faço isso, eu sinto a minha mente se aquiietar, parece mágica.
à medida que a consciência reassume o controle. E é divertido, é um desafio que exige que eu me torne algo novo enquanto meu cérebro grita no fundo para eu usar a mão direita, para eu voltar pro familiar, mas eu não volto, eu fujo. Fugir é se colocar numa posição em que o cérebro não tem escolha, a não ser interromper esse monte de scripts que você acha que é você.
e ceder o controle paraa consciência que é e sempre foi livre para criar, para viver, trazer à tona partes de você que jazem dormentes. Precias pedras brilhantes escondidas nas profundezas da sua alma. No herói de mil faces, o Campbell diz que o herói tem fome de ser.
Fome de ser. E por isso, cedo ou tarde, ele sempre vai responder ao chamado, porque no fundo ele sente dentro de si essa chama que clama por existir. Existe dentro de cada um de nós essa promessa de que há algo mais.
Há algo além a ser revelado. Se você permitir, se você tiver coragem de renunciar à sua casa e subir aquela montanha desconhecida, o que você vai finalmente encontrar lá no topo é o maior de todos os tesouros.