Então, por exemplo, minha mãe lavava roupa com sabão que ela fazia em casa. Então, eu senti o cheiro da roupa dos meus colegas e dizia: "Nossa, deve ser muito bom ter uma roupa com cheiro de amaciante". Hoje ostentar para mim é amaciante a minha [limpando a garganta] funcionária fala: "Gente, para de comprar amaciante, não tem mais explicação tanto que tem amaciante nessa casa".
Então, perceba que a minha falta gerou em mim uma perspectiva. Então, são sempre a relação com o dinheiro, ela nunca é gratuita. Nunca é gratuita.
Ela é uma inscrição psíquica. Agora, o que que eu preciso fazer com isso? Porque eu acho muito importante nesse momento da fala dizer que existe uma solução para isso, porque existe uma história que foi inscrita lá atrás.
Eu, por exemplo, passei por muita necessidade, passei por muita falta, muita vontade, mas eu não posso ser refém dessa história. >> É isso que eu ia perguntar. Tipo, tem solução, dá para corrigir isso?
>> Tem. Por isso que o Freud escreveu recordar, repetir e elaborar. Se eu não elaboro, eu repito sempre há de eterno.
Seja em relacionamentos, seja com dinheiro, seja em todas as escolhas da minha vida. Quando a gente não elabora, a gente repete. Então, tem gente que diz assim: "Nossa, eu tenho dedo podre".
Eu sempre arrumo o mesmo tipo de pessoa. Não é que você tem o dedo podre, você tá repetindo até você resolver isso. O dia que você resolver essa questão, você para de repetir, [limpando a garganta] você começa a escolher pessoas diferentes.
A minha relação com dinheiro, ela não é muito diferente disso. O dia que eu elaborar essa relação, eu paro de repetir. Que que eu costumo dizer?
Que que eu eu faço? Como eu passei por muita dificuldade [limpando a garganta] financeira, por muita vontade, quando eu vou fazer alguma aquisição, eu chamo a minha criança, eu ponho ela no colo e eu converso com ela. Então, por exemplo, eu vou comprar um carro, aí eu coloco a minha criança no colo e eu digo: "Deixa eu te contar um negócio.
Sei que você tá com vontade de comprar um super carro para mostrar pras pessoas, mostrar marca, mostrar status, mostrar isso. Mas eu acolho o que você passou, eu acolho o que você viveu, eu valido o seu sentimento de necessidade, de pobreza. Mas quem está na sala do controle agora é adulta e é a adulta que precisa decidir.
Eu preciso de um carro que seja seguro, que me leve pros lugares onde eu preciso estar, que seja confortável, mas que não seja um carro para curar as minhas dores da infância. E aí a adulta escolhe o carro e não a criança. Então, como que a gente refaz essa nossa relação?
É você pegar o seu menino e sentar no colo e dizer: "O dinheiro não vai embora mais, querido". Então você não precisa controlar. Você pode viver uma vida mais tranquila, mas sem controle.
Quando eu controlo, eu vivo tenso, porque eu estou segurando. >> Uhum. >> Então é sentar esse menino no colo, validar os sentimentos dele.
Eu sei o que você passou, foi [limpando a garganta] difícil. Eu eu vi as suas necessidades, eu valido o seu medo. Talvez lá atrás alguém validou, eu valido.
Mas quem toma as decisões agora é o adulto. Deixa eu te contar, o adulto ele é bem-sucedido, ele pode ganhar mais e ele não precisa controlar tanto. E aí você começa a elaborar essas questões.
>> E o contrário, porque a gente tá falando muito do da pessoa bem-sucedida. E a pessoa que não foi bem-sucedida por causa dos traumas da infância, >> a pessoa que não foi bem-sucedida é exatamente a pessoa que não elaborou. A gente não é bem-sucedido por n coisas.
Primeiro porque a gente não elaborou. Segundo por talvez uma fidelidade à nossa história. Tem gente que tem necessidade de ser fiel à sua história ou a sua família ou a sua herança familiar.
Como meu pai não foi bem-sucedido, eu não me permito ser. Como os meus irmãos não são bem-sucedidos, se eu for bem-sucedido, talvez eu me destaque, tenha que me afastar dos meus irmãos. Então, eu prefiro não ser bem-sucedida para que nós nos possamos nos relacionar no mesmo nível.
Percebe que existe uma fidelidade com a minha própria história, uma fidelidade que eu preciso romper. Hoje, por exemplo, eh, nossas redes [limpando a garganta] sociais, nós temos mais de 15 milhões de seguidores, somando todas as redes. Hoje o nosso Instagram tem uma visualização diária de 29 milhões de pessoas dia, 320 milhões mês.
Você imagina que a minha vida virou em um ano. Você imagine quantas pessoas eu precisei me afastar, o quanto minha vida precisou se transformar, eh, as abordagens, a minha segurança, a minha individualidade, que hoje ela não existe mais. Eu tinha duas opções.
Ou eu aceitava isso e mudava de vida. Ou eu dizia: "Eu vou ser fiel à minha história, a minha história de escassez, a minha história de ostracismo e eu não vou viver isso. " Andréia, você teve perdas com essa nova história?
Óbvio que eu tive, inclusive de pessoas, mas eu prefiro ser fiel ao meu futuro do que fiel à minha história de escassez. Pessoas que não crescem vivem uma fidelidade com a sua própria história, uma fidelidade com seus próprios afetos e uma falta de de elaboração. Dinheiro não é sobre moeda, dinheiro é sobre energia psíquica.
Todo mundo que não é bem-sucedido financeiramente, se fizerapia, eu consigo te provar onde está o gap. Eu te provo aonde que tá o a questão. >> Cara, isso que você falou linca muito com o que a galera fala de trocar de ambiente, né?
>> Exatamente. >> Que é basicamente abandonar o que tá te puxando para baixo. >> Exatamente.
Eu falo que a minha virada de vida não foi agora. Minha virada de vida foi aos 7 anos. Minha mãe me matriculou numa escola do bairro.
Todos os meus irmãos, os seis, estudavam na escola do bairro. E minha mãe me matricula nessa escola do bairro. A diretora diz: "Nossa, ela é muito inteligente, é uma dó ela estudar aqui.
A senhora poderia matriculá-la na escola do centro da cidade, que é uma escola melhor? " Tinha isso, né? As escolas do centro.
E aí minha mãe me matricula na na escola do centro. Eu falo que ali ocorre a mudança de vida, ali tudo muda para mim, porque ali eu entendo. Até então eu achei, porque quando a gente vive no mesmo ambiente, você não abre perspectiva, você tem uma visão milp da vida.
Quando eu vou para uma outra realidade, eu percebo a minha realidade. Quando eu entro pra escola do centro, eu falo que ali foi a foi a metanoia. A primeira coisa que eu descobri naquela escola, eu era pobre.
Eu não sabia que eu era pobre. Eu achava que a minha vida era >> deve ser chocante, né? Você descobri, >> cara.
É, é, é real isso, porque isso aconteceu comigo também. Porque quando meu pai, eu morava em Guarulhos, bairro dos Pimentas, e quando meu pai morreu, >> eu fui morar, minha mãe trabalhava mais pr pra cidade e a gente foi morar no Tatuapé. E a gente morava em dois comodos no Tatuapé.
Lá minha mãe já sufocava para o alugal, mas era um bairro melhor e era perto do final do ano e eu tava brincando com meus amigos e a gente era era véspera de Natal e naquela época tinha aquele negócio tipo assim se trocar para voltar para brincar na rua. Então na véspera de Natal você ia para casa, se trocava. E eu fui para casa, coloquei a mesma roupa, tipo, coloquei uma roupa do dia a dia porque, tipo, eu tinha, acho que era 13 anos, não tinha essa coisa de, tipo, não sabia que era marca, não sabia que era Nike, que era roupa nova, não tinha essa coisa.
Aí eu voltei pra rua. Aí um um dos amigos que não tava lá, aí todo mundo tava trocado, tênis novo e tudo mais, um amigo falou assim: "Cão não vai se trocar? " Ali eu percebi que, tipo assim, caramba, eu tô diferente de todo mundo.
Eu tô com o mesmo tênis, eu tô com a mesma camiseta. >> É isso >> aí. Descobri que eu era pobre.
>> É isso. >> Foi aí que eu descobri que eu era pobre. >> Falei assim: "Caramba, eu sou pobre".
Aí, tipo assim, aí você aí você muda um pouco realmente a perspectiva. >> E é isso que você falou. Provavelmente se eu tivesse continuar no bairro do Pimentas, >> todo mundo tinha a mesma realidade que eu.
Então eu não ia perceber que, tipo assim, tinha mais coisa naquele mundo. Faz sentido. >> E aí que o grego chama de metanoia.
Metanoia não é uma mudança de pensamento. Metanoia é uma revolução mental. É uma mudança de mente, é uma transformação.
Ali ocorre uma metanoia porque eu descobro que eu sou pobre por comparação. Quando você muda de ambiente, você começa a perceber por comparação. Então eu vejo que os meus amigos tinham mobilete, eu não tinha mobilete.
Os pais dos meus amigos buscavam eles de carro na porta da escola, eu tinha que ir embora a pé com 7 anos. Eles viajavam final do ano praia, eu ficava na cidade. Ali eu entendi, ali eu tinha duas perspectivas.
ou eu me revoltava ou eu desejava aquilo para mim e dizia: "Existe dois [limpando a garganta] modelos aqui ou eu começo a acreditar nisso que os meus pais e e os pais não são culpados, não. A gente tem que parar desse mimimi também. A psicanálise ela não ela não nasceu para fazer com que a gente olhe pros nossos pais e diz: "Ah, eles provocaram isso em mim".
Não, eles fizeram o que eles tinham, o que eles podiam com que eles tinham. Agora o adulto é você e é você que precisa pegar a criança no colo e resolver com ela. Os meus pais fizeram o que eles conseguiam.
Os meus pais acreditavam que dinheiro era algo muito difícil, que ganhar dinheiro era algo muito maldito, porque as pessoas ricas elas eram metidas, elas passavam as pessoas para trás. Quando você ganha dinheiro, você começa a humilhar as pessoas. Então, a gente tem que ser mais humilde, uma origem muito cristã.
E aí no cristão, daquela perspectiva do do franciscanismo, de voto de pobreza, o bom é ser pobre, é mais difícil um rico passar no buraco de uma agulha do que ir pro céu, sabe? Essas perspectivas todas. E aquilo a gente acreditava piamente.
Então eu tinha duas perspectivas. Ou eu traía essa história, ou eu saía dessa história, ou eu me revoltava com aquela história que eu tava vendo. Então ali eu tomei uma decisão ainda muito pequena.
Eu dizia: [limpando a garganta] "Gente, isso daqui é muito legal e é isso que eu quero paraa minha vida e é isso que eu quero pros meus filhos quando eles crescerem. Ali eu começo, ali começa o problema, porque aí eu começo a conviver com os meus amigos e algo dentro de mim começa a se transformar e aí eu começo a ter um problema com os meus irmãos, porque aí os meus irmãos começam a ficar muito diferente de mim ou eu muito diferente deles. " Então a gente catava sucata.
Eu cresci catando sucata para reciclagem, para comprar objeto, material escolar. Os meus irmãos vendiam a sucata, davam dinheiro para minha mãe comprar pão, café da manhã, café da tarde. Eu catava o meu dinheirinho e comprava CD do pavarote.
Mas meus irmãos diziam: "Essa menina é louca. Essa menina houve ópera com 8 anos". A minha mãe dizia: "Tem que levar no psiquiatra.
Os irmãos estão preocupados com pão, ela tá preocupada com caruzo. Percebe como eu vivi? " Eu posso dizer e e isso é até muito chocante, até agora eu tô tendo esse insight, [limpando a garganta] ainda não tinha pensado isso.
Eu vivi até os 48 anos, que agora foram nos últimos anos. Talvez só agora os meus irmãos tenham me aceitado. Eu vivi 48 anos com os meus irmãos achando que eu era errada por ser tão diferente.
E só agora que os resultados vieram é que eles se orgulham e dizem: "No fundo, você estava certo".