Você se lembra de como tudo começou? Não era sobre o dinheiro. Na faculdade de direito, você era o cara do megafone.
Você liderava as ocupações, pintava o rosto de verde amarelo e gritava contra a velha política. Você olhava pro Jornal Nacional e sentia um ódio físico ao ver aquelas malas de dinheiro encontradas em apartamentos vazios. Você jurou pela memória dos seus pais que se um dia chegasse lá, seria a voz na mudança.
Você começou pequeno, vereador na sua cidade natal. Campanha limpa feita com vaquinha, sola de sapato e vídeo de rede social. No seu primeiro discurso na Câmara Municipal, você rugiu contra a máfia dos ônibus e o superfaturamento da merenda.
Você era o garoto prodígio, a última esperança de uma cidade esquecida. Lembra como era bom dormir com consciência limpa? Mas o poder tem um magnetismo cruel e o seu brilho, infelizmente, chamou a atenção dos tubarões.
A reeleição para vereador custou caro. Marketing, cabos eleitorais, a pressão para não sumir. Você se endividou.
É aí que ele aparece, o doutor, um empresário local que tem contratos com a prefeitura há 30 anos. Ele te convida para uma padaria discreta, longe do centro. Não há câmeras apenas o cheiro de pão fresco e o som baixo do rádio.
"Eu admiro sua coragem", ele diz com uma voz mansa. "Gente como você não pode ficar presa nessa cidadezinha. Você precisa estar em Brasília.
" Ele coloca um envelope pardo sobre a mesa, R$ 50. 000 R$ 1000 para ajudar com os custos operacionais. Sem compromisso, senador, ou melhor, vereador, é um investimento no meu país.
Você hesita, o solar frio desce pela nuca. Você pensa nos boletos, nos acessórios que dependem de você, na sua carreira que mal começou.