esse estado de coisas que o Eduardo começou a descrever ele culmina a meu ver na Constituição de 1988 quando ela define a cultura como aquilo que dá testemunho do modo de ser de um povo ora aquilo que dá testemunho do modo de ser de um povo pode ser por exemplo o noticiário policial Diário nós não podemos negar que o narcotráfico seja uma expressão do modo de ser Nacional do presente então narcotráfico é cultura prostituição infantil é cultura e assim por diante este este artigo da constituição ele expressa vamos dizer uma espécie de horror à ideia
qualitativa de Cultura algo que eu creio que isso tem algo a ver com este fundo aí que você eh descreveu Ou seja a cultura não é definida mais nesse sentido nem como cultivo e nem como culto ora a ideia de cultivo pressupõe a ideia de melhoramento Ou seja a cultura não pode ser simplesmente aquilo que dá testemunho do um estado de coisas mas aquilo que melhora e eleva esse estado de coisas Justamente a eh ao contrário de simplesmente dar um testemunho passivo e não valorativo a ideia de Cultura além de tá ligada a cultivo também
está ligada a ideia de culto que é a mesma coisa que devoção Então esta ideia implica necessariamente a ideia de algo que é melhor de algo que merece a nossa atenção merece o nosso amor merece o nosso respeito E esta ideia de valor culmina então naquilo que Platão chamava o Supremo bem or nós sabemos que o Supremo bem não é uma coisa muito muito fácil de você eh definir ou encontrar ou mesmo intuir de longe mas esta dificuldade mesma faz parte da própria dinâmica da cultura onde ao longo dos milênios Nós vemos uma sucessão de
esforços humanos para conceber o que seria o Supremo bem ou a suprema meta da existência a necessidade de ter um Supremo bem ela é tão grande que no século XX um grande psiquiatra Victor Franco diz que a perda da noção do sentido da existência ou da noção do supremo bem está na base de todas as neuroses e psicoses eh e Victor Franco descobriu isto em circunstâncias particularmente dramáticas pois sendo Prisioneiro de um campo de concentração ele desde o primeiro dia ele teve a preocupação de eh se perguntar qual a diferença decisiva que fazia com que
algumas pessoas suportassem aquela provação bravamente e fossem até saíssem até engrandecidos enquanto outras se degradavel e ele descobriu que as pessoas que se saíam melhor daquele desafio eram aquelas que tinham uma meta ou um valor ao qual servir ou como diz ele o sentido da vida então a cultura ao longo dos milênios foi definido como foi definida como um conjunto de atividades e de esforços humanos voltados à descoberta a contemplação do supremo bem ou do sentido da existência a nossa Constituição nos coloca exatamente nos antípodas disto definindo como cultura o que quer que com valor
ou sem valor D testemunho de um modo de existência ora o modo de existência é um simples estado de coisas é um dado empírico e não o um valor de maneira alguma associada a esta é evidente que isso não é só um fenômeno jurídico vamos dizer que a próprio esse próprio artigo da constituição ele dá testemunho do nosso nosso modo de ser existe em toda a vida brasileira em toda a história brasileira uma espécie de inibição intelectual que aos poucos vai se tornando vamos dizer mais do que uma inibição uma rejeição e até um ódio
de tudo aquilo que é elevado Sublime importante isso tudo então sendo compensado por um culto das nossas insignificâncias das nossas misérias se você vê por exemplo o número de de vamos contrastar aqui dois fatos o Brasil teve entre os anos 30 e 60 um dos maiores filósofos do mundo aqui que foi Mário Ferreira dos Santos a obra do Mário é uma coisa de quando nós conhecemos de deixar com orgulho extraordinário eh nunca ninguém prestou a menor atenção no Mário Ferreira até hoje ninguém sabe quem é e os escritos dele estão todos jogados paraas traças até
hoje nunca mais foram reeditados para compensar todo ano você vê uma enxurrada de teses de doutoramento sobre sambistas eh proxenetas eh amantes de de políticos etc etc quer dizer uma boa parte da nossa atividade Universitária né é dedicada ao cultivo né ao culto daquilo que existe de pior ou pelo menos de mais insignificante este amor a insignificância este amor à aninhar né é evidentemente eh ele se torna cada vez mais pronunciado ao longo dos últimos 20 anos e ele culmina nesta ideia do nosso Ministro de fazer com que o samba se torne património da humanidade
eu não sei porque que o samb não maxixe Maracatu ou qualquer outra coisa dessa porque todas elas dão testemunho do nosso modo de ser Aliás quando o o Eduardo assinala que o Brasil já teve um estado organizado Anes mesmo ter população quer dizer quando chega Tomé de Souza já vem com todo o ministério pronto com a constituição pronta para uma uma população que era constituída de tatola minhoca né então do mesmo nós temos hoje a ideia de que o estado deve não só fomentar a cultura mas formá-la ele deve ter a concepção da cultura e
deve dar receita pronta para todos nós a nova legislação de incentivos fiscais paraa cultura é exatamente ISO Tá certo então com infelizmente ele deu o século X eu tô dando a situação de Agora não vai dar para contar tudo que aconteceu no meio mas a situação presente é é mais ou menos esta Então hoje nós entendemos cultura de três maneiras entendemos primeiro pelo seu lado lúdico quer dizer cultura é divertimento cultura é show business cultura é samba e rock and roll em segundo lugar a cultura é um produto comercial quer dizer é um existe a
indústria eh cultural e ela tem que funcionar e da lucro em terceiro lugar cultura é propaganda política você ver A que distância nós fomos parado da ideia do supremo bem ou do sentido da vida Ora eu não sou contra a diversão também não sou contra ganhar dinheiro também não sou contra a propaganda política mas quando você tem tudo isso e você perde o sentido da vida é melhor você estourar os miolos né então quer dizer o tipo da cultura que nós estamos produzindo hoje a nossa concepção de cultura é uma coisa profundamente deprimente feita para
nos isolar do sentido da vida e fazer com que nós nos dispersos cada vez mais numa busca e num cultivo de eh ninharias intimamente associada a esta esta ideia existe uma outra que é de que a cultura é do desenvolvimento de que só os países desenvolvidos T alta cultura então nós temos que alcançar um certo nível de desenvolvimento para ter um certo nível de Cultura em São Paulo TVE até um cidadão chamado Paulo Arantes Paulo Arantes é é um professor de filosofia da Universidade de São Paulo que escreveu um livro interessantíssimo Como interessantíssimo como documento
não pelo seu valor eh chamado um departamento francês de ultramar no qual ele investiga Porque que a faculdade de Filosofia da USP em 50 anos de atividade não conseguiu produzir nenhum filósofo é fantástico e a resposta é que somente quando alcançamos um certo patamar de desenvolvimento é que poderemos ter uma eh filosofia à altura da eh europeia eu acho isso uma coisa extraordinária porque eu estudei um pouquinho da história da filosofia ao ponto de ser autor do de de um livro sobre isso de um curso sobre isso eh eu asseguro para para vocês que nunca
houve nenhum surto de grande criatividade filosófica que fosse posterior a um surto desenvolvimento econômico geralmente o surto cultural Acontece muito antes ou muito antes ou muito depois por exemplo a época Áurea da Filosofia na Grécia era uma época de decadência de Cultura decadência socioeconômica fantástica a inflação subindo nas nuvens uma corrupção generalizada E no meio disso que surge a a academia platônica mais tarde a gente vê um outro grande eh surto de criatividade Justamente na eh na Escolástica e os países que mais contribuem para isso eram países paupérrimos como a irlandia e a Inglaterra na
época a Inglaterra ainda faltaria cinco séculos antes de que ela se projetasse como como grande potência uma outra etapa de grande criatividade evidentemente o idealismo alemão com Kant heger shelling etc nessa época a Alemanha não era sequer um país era um conjunto de de principados educados aliás sob domínio do domínio estrangeiro ainda faltaria meio século mais de meio século para que a Alemanha se constituísse como nação e se tornasse uma uma eh nação rica e assim por diante então nós temos que a própria ideia de que nós precisamos ficar ricos primeiro para ter cultura depois
é uma ideia que me parece muito esquisita porque se a cultura tem algo a ver com o sentido da vida ela tem algo a ver com a orientação da vida e portanto ela tem algo a ver com a sanidade da Inteligência Ora se você tivesse um amigo e ele tivesse com dois problemas ele tem dois problemas primeiro e eh ele está sem emprego e sem dinheiro segundo problema Ele está louco qual dos dois problemas você acha que dá para resolver primeiro primeiro vamos arrumar emprego e gente vai ter um sucesso enorme depois tiver tudo resolvido
ele faz um tratamento psiquiátrico toda a orientação da nossa cultura é essa quer dizer primeiro nós vamos resolver todos os nossos problemas e depois nós trataremos de ficar inteligentes Isto é rigorosamente assim mas desde o tempo do império o tempo da Colô não conheço direito mas tempo do império eu acompanhei quer dizer esta ideia de que nós precisamos produzir muito dinheiro e daí vamos ter uma cultura que servirá para Adorno né da nossa da nossa riqueza então essa noção lúdica ou decorativa da cultura ela já existe aqui há muito tempo mas ainda ela não exe
só socialmente ela existe na alma de cada um Nenhum de Nós vamos dizer pode dizer que está livre deste preconceito e das consequências devastadoras que ele traz não só para a sociedade mas para a formação da Inteligência de cada um de nós o Eu Noto por exemplo com essa coisa de participar muito de debate discussão Eu Noto que No Brasil existe uma Geral de que aquilo que você desconhece não existe ISO aí chamava-se na retórica antiga chamava-se o argumentum ignorância ele diz assim se isso se eu aquilo que você tá dizendo é algo que eu
desconheço então não interessa não pode entrar em linha de conta e não pode ser alegado como argumento dito de outro modo tudo aquilo que eu desconheço inexiste eu asseguro para vocês eu tô nesse negócio de bateboca jornalística 10 anos eu asseguro para você que este é o argumento mais alegado em todas as circunstâncias o sujeito olha para você com ar de desprezo você diz alguma coisa camarada olha para você com ar de desprezo com ar de superioridade formidável e diz eu nunca ouvi falar disso então o Brasil tornou-se o único país do mundo onde a
ignorância é fonte de autoridade intelectual [Risadas] acontece e note bem eu acho que isto foi uma das grandes forças publicitárias na eleição do seu Luiz Inácio da Silva porque ali se associava a ideia do sujeito com o sujeito inculto quer dizer ele era inculto porque era pobre é uma ideia absolutamente cínica Porque toda a cultura brasileira foi feita por pés rapados por pobretões é Machado de Assis é cap de Abreu que ele acabou de citar é Lima Barreto e assim por diante quer dizer o número de pessoas abençoadas pela fortuna que contribuíam em algum modo
PR cultura brasileira é mínimo eu creio que é menos de 5% Claro você encontra de vez em quando jo Nabuco né Eduardo Prado tinha algum dinheiro mas era um entre cada 100 Tá certo Quer dizer a cultura aqui foi sempre feita por gente que veio debaixo Então por que associar a ideia de Cultura com as classes altas