respondendo as perguntas que me viam via WhatsApp. Mestre, sua forma de ver a macumba é incrível. Eu passei a falar que sou macumbeiro com orgulho depois de conhecer suas ideias.
Pode falar mais sobre o poder da palavra macumba? Um zambungo tuulendo te abençoe eternamente. Gratidão.
E eu assim, esse é o foco do meu trabalho, fazer com que a mentalidade colonizadora seja expurgada de nós e tenhamos orgulho do que realmente nós somos. Nós somos macumbeiros. Tentaram nos dividir, nos classificando de outras formas e colocando termos pejorativos para aquilo que nós amávamos.
E assim foi com a macumba. No período antes da tal fundação da Umbanda, nós éramos uma coisa só, macumba. Nós éramos macumbeiros.
Uns eram calunds, outros eram cabulas, outros eram jurema, catimbó, terecô, mas no fim eram só nomes para designar o ritual que você promovia. Mas todos eram macumbeiros, todos se tratavam dessa forma. E até hoje é assim.
Nós eh não achamos legal quando alguém fala que nós somos macumbeiros, mas entre nós nós brincamos que nós somos macumbeiros. Então, é nesse sentido, com o tempo, a Umbanda foi fundada lá em 1908, segundo a história que nos é contada modernamente, coisa que eu não aceito, mas essa ideia de criar uma religião diferente fez com que se fragmentasse essa macumba. E além de terem feito isso, eles ainda colocaram a macumba como termo pejurativo.
Em um outro lado, algumas pessoas tentaram resgatar o termo macumba, tentando deixá-lo mais brando, falando que era um instrumento musical que é derivado da árvore macumba. Até aí é aceito. Isso realmente existe, isso realmente é coerente.
Mas não é somente isso. No Kongo, que é a língua mais falada lá na cultura banto, entre os angoleses, os congoleses, os angolanos, no Kikongo, nós vamos encontrar a palavra ma cumba. Ma é plural, é sufixo para plural.
Cumba seria encantador. Então o macumba são encantadores. E para um contexto nós vamos pegar esse cumba e colocar dentro da cosmologia Bacongo de um ganga.
Então toda vez que osanga se reuniam, eles estavam fazendo macumba. Toda vez que se discutia uma tradição, um ritual, a subida de um novo monarca, a liderança que estava sendo apontada, que iria ser colocada no trono, toda vez que se discutia uma crise, era feita uma reunião. O nome dessa reunião era Macumba coletivo, uma reunião de quem?
Dos encantadores. Quem encanta? um ganga, os sacerdotes.
Então o macumba seria a reunião dos encantadores. No Brasil vai tornar-se a corruptela de macumbeiro, ou seja, seria uma tradução livre para encantadores. E olha que interessante, nós temos a filosofia da linha branca, preta e vermelha, aonde a linha vermelha que representa a cosmologia, o pensamento filosófico de Calunga, e Calunga, ela é a força do tempo, é aquela que tá entre o mundo espiritual e o mundo terreno, um Pembace se quê.
Calunga é aquela que divide as quatro estações do diquenga. Calunga é a senhora, é a força magnética do tempo que sempre está nos empurrando ou nos puxando para avançar no tempo. Por isso que nós somos forçados a crescer, amadurecer, a aprender, ensinar, a morrer e a reencarnar.
O tempo está nos puxando. O cumba, ele é um encantador. Encantador do quê?
Do tempo. Então esse Kumba não é qualquer encantador, ele é o encantador do tempo. E sabe quem fala isso?
Não são as vozes na cabeça do mestre Jesley, não. Quem fala isso é o nosso historiador Antônio Simas no seu livro Umbanda história do Brasil, que é um livro incrível. Ele traz isso para nós.
Macumba, o encantador do tempo. E olha, melhor ainda, vamos nos aprofundar mais um pouquinho. Cumba também pode significar poeta.
Poeta. O que que os nossos sacerdotes, sacerdotisas, pai de santo, mãe de santo, benzedeiras, undoques, um gangangas, quimbandas, feiticeiros, o que que essa galera toda da macumba faz senão cantar? fazer suas ladaainhas, fazer sua benzedoura, fazer a sua oração para encantar um espírito, uma magia, uma oferenda para transformar algo que está no futuro, resolver um problema do presente no futuro.
O que que é isso? senão uma poesia verbal que vai encantar o tempo através de uma reunião entre eu, um ganga, feiticeiro, macumbeiro, com os meus ancestrais. Então, quando eu paro para fazer uma cerimônia, eu estou encantando o tempo verbalmente, através da minha cantaria de música, rezas, promovendo uma ligação entre a minha comunidade carnal e a comunidade espiritual, ligando descendentes e ascendentes, promovendo a alteração do tempo, encantando o tempo, permanecendo no caminho do meio de Calunga.
Então, percebe que a palavra macumba, ela é filosoficamente, cosmologicamente muito mais profunda do que somente um instrumento musical que vem de uma árvore que também se chama macumba. Claro que os nossos ancestrais e muitos dos nossos antepassados não tinham essa gama de conhecimento, mas hoje nós temos. Hoje nós podemos nos debruçar sobre isso e meditar sobre quem realmente somos.
Eu não sou um macumbeiro que faz qualquer coisa por aí. Eu sou um encantador do tempo que se reúne com os meus ancestrais para resolver os problemas da minha comunidade. Logo, eu sou macumbeiro e macumbeiro com muito orgulho, pois eu vivo no caminho do meio, o caminho da sociedade, o caminho da linha vermelha, o caminho que Calunga decidiu que era o melhor caminho para o ser humano.
Mas também devemos entender que historicamente a palavra macumba, além da carga negativa, pejorativa que ela traz, também sempre trouxe orgulho. Os capoeiristas, por exemplo, principalmente na Primeira Federação, lá depois da queda do império, eles mantinham a palavra macumba com muito orgulho, principalmente nas cantigas, porque dizer que você fazia macumba era um alerta para o seu inimigo. Cuidado, eu tenho poderes ocultos que você não sabe como lidar.
E segundo, era uma forma de mostrar para outras pessoas que ali tinha um igual. Ali tinha alguém que também fazia esse tipo de coisas que você poderia ter interesse. Lembrando que naquele período fazer qualquer tipo de tradição ou religião que fosse diferente da católica, você ia ser perseguido, você ia ser morto, exilado, seu corpo ia desaparecer e de fato você nunca mais ia ter a sua história revelada.
Ponto. Então tinha que ter um código. Esse código era macumba.
Então, quando eu cantava ou falava que eu ia a macumba, eu não estava falando que eu ia para um terreiro. Eu não tava falando que eu ia para Umbanda, para Quimbanda, para Jurema, não. Eu estava dizendo que eu estava indo para uma reunião, para uma reunião de macumbeiros.
O que que se faz lá? Tocávamos um uns instrumentos. O que que se faz na capoeira senão tocar, dançar, treinar e lutar?
Na ideia do colonizador, era isso que eles estavam fazendo. Na mente de quem conhecia, sabia que aquela pessoa estava indo para fazer reunião com seus ancestrais. Que que é uma reunião com seus ancestrais?
O que que é uma reunião com seus ancestrais? A umgira. Você ia pra gira, pra gira, pra macumba.
Então tinha esse peso também na palavra macumba naquele período. E é por isso que no passado tempo, que não demorou muito tempo, foi mais ou menos uns 30 para 40 anos, que quando fundaram a tal da Umbanda, a partir de Zélio Fernandinho de Morais com essa com esse mito, eles vão ter que distorcer o termo macumba. Como eu falei, a luta foi para nos dividir.
A estratégia do colonizador é dividir. Dividindo se conquista, fazendo com que eles briguem entre eles. Então, quando separou o a macumba, transformando em Umbanda, Quimbanda, Jorema, tá, tal, especificando caixinhas para cada pessoa, foi aí que começou os conflitos.
E esses conflitos continuam até hoje. Até hoje nós brigamos por causa de dogmas, mas nós não brigamos por causa de um inimigo em comum. Enquanto os pastores estão se atiçando contra nós, nós estamos brigando entre nós.
Então, funcionou. Quando nós deixamos de ser macumbeiros, deixamos de ser coletivo. Passamos a ser individuais.
E como indivíduos, somente a minha luta me importa. a sua luta, não. Mas quando éramos macumbeiros, nós nos reuníamos para resolver o problema de todo mundo.
Você pode observar a história de Aquatun, a história de Ganga Zumba, Zumbi dos Palmares, que foram grandesangas, líderes que cativaram através do coletivo e resolveram o problema da sociedade, das suas pessoas na sua época. Eles eram macumbeiros, encantadores do tempo. Nós perdemos isso.
Por isso que nós devemos voltar. Precisamos fazer uma revolução na macumba para que isso volte. Eu gravei uma música sobre isso.
Eu quero muito lançar para vocês. Eu vou lançar isso, não sei quando, mas é uma música que fala justamente sobre isso. Eu vou dar um trechinho aqui para você ver, para você escutar.
É, como é que isso bate na nossa cabeça? Deixa eu colocar aqui. Vou deixar só um trechinho para vocês escutarem, só até a parte que nos interessa.
[Música] O ladrão era branco e a gente na pista. Zéo foi marionete. Jogaram a isca.
O ladrão era branco e a gente na lista. Salve os espíritas, vem com a gente. Queimem Kardec com seu racismo doente.
Aqui é quem banda. Não tem falso amor. Racista não se cria.
Vira é cinza. Vira cinza. Salve Tatancredo, mãe Zilda e Cilda, mãe é da Diogunda Kim banda é rainha.
Antes do branco, a macumba era uma só. Dividirão os terreiros transformar em pó. Estratégia suja para nos afastar, mas eles têm medo da verdade da semala.
Nem banda nem umbanda. Somos todos macumbeiros. Pode crer, meu irmão.
Macumbeiro não baixa a cabeça. Macumba é força. Macumba é certeza.
Revolução tá no sangue, tá no tambor. Sai dessa mentira. O colonizador te escravizou.
Nem que manda nenhum banda. Somos todos macumbeiros, vai ter revolução. É isso.
A letra é sobre isso. É sobre como nós éramos. A estratégia foi nos dividir e precisamos fazer uma revolução para nos unir novamente.
Então, toma cuidado. É uma estratégia de colonização de escravidão separada. Isso tá em toda a historicidade, não só da escravidão africana, mas de outros fenômenos também do passado e modernos.
Ficamos atentos. Precisamos sim resgatar esse termo macumba e falar que sim, somos macumbeiros com orgulho. E quando aparecer alguém te falar: "Ah, mas macumbeiro é pejorativo".
Senta com ele, tenha paciência de explicar tudo isso aqui que eu tô explicando com vocês também com paciência para que ele entenda que esse pensamento é um pensamento colonizador para nos dividir. Somos macumbeiros também, somos umbandistas também, somos quimbandistas, quimbandeiros, também somos juremeiros. Mas no coletivo, na união de todos nós, todos nós somos macumbeiros e nessa reunião vamos resolver os problemas da nossa sociedade.
Espero ter ajudado. Me sinto muito orgulhoso de você ter entendido a minha mensagem e hoje você ter orgulho de falar que é macumbeiro. Parabéns.
Vamos prosseguir rumo à revolução da macumba. Se você tem alguma dúvida sobre alguma tradição indígena afro-brasileira, mande aqui para mim. Eu tenho o maior prazer de gravar e falar para vocês sobre tudo isso que remete a nossa querida e amada macumba.
Eu sou Jes Alves, eu fico por aqui, mas eu te peço, coloca aqui nos comentários, você tem orgulho de ser macumbeiro ou você ainda está preso no pensamento colonizador? A sua mente ainda está enraizada nesse pensamento escravagista de nos separar para nos enfraquecer. Eu já gravei vários vídeos sobre esse tema, tô deixando aqui do ladinho.
É só você clicar e continuar maratonando no nosso canal. Eu te vejo lá. Até mais.
Ciao. Ciao.