E para que eu passei por isso? Essa é a pergunta exata que precisa ser feito. Um profissional da ajuda nunca pergunta o porquê.
O porquê vai sempre levar ele pro racional e pro entendimento e não vai ajudar ele a conectar com os sentimentos e com as emoções. Então a pergunta adequada é: que eu passei por isso? Gente, essa pergunta ela é fundamental porque quando o profissional ajuda o cliente a entrar nessa dimensão do paraqu, vai ficar muito evidente um ponto incrível dos relacionamentos.
Nada é por acaso. Tudo é pela força do inconsciente. A gente tem o parceiro na mesma medida que a gente.
A gente tem um superior imediato na mesma medida que a gente. Toda forma de união, compaixão, eh assim como de prejuízo, de perdas, tem a ver com a nossa história. Gabriela, o que que você quer dizer?
A minha história atrai a história do meu marido. A história do meu marido me atrai por tudo aquilo que eu vivi. É como se as pessoas tivessem a mesma medida.
Então, o encontro de um agressor com agredido também tem dimensões inconscientes das duas partes para que isso aconteça. E quando a pessoa que foi agredida, a pessoa que foi eh vítima daquela situação, consegue enxergar que o outro também estava eh sobre efeito de influências difíceis, quando ela começa a enxergar a humanidade do outro que agrediu, que a agressão, quem agrdeve uma dor que é muito profunda. É, é como se ela pudesse então agora deixá-lo livre.
Mirela, isso tá muito teórico. Como assim? Que história é essa?
Tá teórico demais. Eu não vou conseguir fazer isso que você tá falando. Então, vamos para um exemplo muito claro.
Eh, eu atendi uma vez uma senhora em que a filha dela tinha sido assassinada por um cara que na época ele recebeu o o apelido de maníaco, né? Eh, serial killer. Na verdade, esse cara era um jovem de 22, 23 anos.
que tinha um transtorno de personalidade antisocial, né, e tinha a prática, um padrão inconsciente de tirar a vida das pessoas. Eu lembro bem que quando essa cliente chegou no consultório, ela chegou a estado de choque, uma situação extremamente desafiante. Eh, eu não consegui imaginar como que eu conseguiria ajudar aquela senhora naquela dor, porque afinal de contas uma filha com 21 anos de idade.
E eu acredito que não tem palavras que traga conforto numa situação dessa. Simplesmente não tem, né? Que que você fala para uma mãe numa situação dessa?
Mas a filha que trouxe, a filha mais velha, ela trouxe com a seguinte fala: "Mirela, você é a nossa última esperança porque ela não tá reagindo a nenhum tipo de tratamento. " Essa senhora sentou na minha frente, ela parecia uma boneca de cera. Ela não conseguia falar comigo, ela simplesmente ficou calada.
Visivelmente a raiva estampada no rosto dela, visivelmente ela num estado de muita tensão. E eu podia olhar nos olhos dela, ela dizendo assim: "Quem você pensa que é para saber o que eu tô passando? Quem você pensa que é para achar que pode me ajudar?
" E à medida que eu ia sentindo o que podia estar passando no coração dela, eu pensava assim: "O que que eu faço agora? né? E aí naturalmente para abrir uma conversa, entender qual era a visão dela, porque dos filhos já estavam claro em relação à aquele contexto, eu comecei a fazer algumas perguntas e ela não me respondia.
Então eu disse para ela assim: "Olha, deixa eu explicar uma coisa pra senhora. Eu não tenho a mínima noção de como eu vou te ajudar. Eu não passei na minha história toda de vida nem um pouco perto de tamanha dor.
Eu nunca passei por isso e nem gosto de me imaginar passando. Mas uma coisa eu sei, eu tô disposta a fazer o essencial para te ajudar nessa dor que a senhora tá sentindo. Só que aqui a senhora não vai ter uma cúmplice para ficar na mesma situação, para fingir que tá tentando.
Nenhuma pessoa para reforçar que a sua vida tá muito difícil e que isso é muito complicado. Porque de fato é. Mas você não precisa que eu te diga isso.
A vida já tá te mostrando. Então, para que eu possa te ajudar, você vai precisar reagir. E se você não tiver disposta, você pode levantar e ir embora.
E aí ela assustou e aí ela caiu numa crise de choro. Ela começou a chorar, chorar, chorar, chorar, chorar, chorar, chorar, chorar. E eu fiquei calada, né, internamente chorando junto, porque é uma dor muito profunda, né?
E diante desse contexto, quando ela começou a falar, então ela começou a dizer tudo que ela não tinha dito nesse nesses seis meses em silêncio. Ela começou a falar da dor, da revolta e eu comecei a suportar, ouvi mesmo ela falar, ela falando da indignação dela com Deus e etc. e foi desabafando, desabafando, falando, falando, falando, que ela não conseguia eh se conformar com aquilo.
E eu deixei ela falar, eu deixei ela desabafar. Foi uma sessão bem longa, aliás, uma sessão acima da média de horário. Eu já tinha reservado isso porque eu sabia que precisaria, né?
né? Ultrapassou a 1 hora20, que geralmente eu recomendo. Eu já sabia a história antes dela chegar, então eu coloquei essa cliente no final da sessão do do expediente.
E aí depois que ela falou tudo, ela falou assim: "Me e eu não tenho nem ideia do que que eu vou fazer com tudo isso". E eu disse para ela, eu também não tenho, mas eu quero te fazer uma proposta. Ela falou: "O quê?
Vamos simular um exercício. É só uma simulação. Se por acaso tiver difícil paraa senhora, a senhora peça para mim que eu paro.
OK. Pode ser, pode ser. Eu vou usar aquelas almofadas e era presencial na época.
Eu mostrei as almofadas que tinha no consultório. E aí eu usei uma técnica do psicodrama que chama inversão de papéis. a gente utiliza as almofadas ou às vezes objetos, às vezes folhas para representar um contexto.
E aí eu falei assim para ela, a primeira coisa que a gente vai fazer é: "Eu vou não faz de conta, eu vou colocar como se a sua filha tivesse aqui antes dela morrer. " Antes dela morrer. É como se você pudesse então perceber o que você não percebeu naquela época.
Quando eu coloquei aquela filha dela lá, aquela almofada, gente, é uma simples almofada, é só um objeto para marcar uma um sentimento, uma emoção, uma relação. Quando eu coloquei aquele aquele objeto ali e diz: "Essa almofada vai representar a sua filha". Entenda bem, aqui nós não falamos de representação de um morto.
Nós não estamos representando um morto jamais. Aqui a gente vai trabalhar com essas coisas de espírito ou etc e tal. Eu estava falando os sentimentos, as emoções, a história dela com essa filha.
Eu coloquei ali um representante daquela história. Quando ela começou a olhar para aquela história, como se aquilo ali levasse ela pra relação anterior, ela começou a lembrar que a filha dela tava bem triste. E ela começou a lembrar de uma conversa que a filha dela iniciou com ela há mais ou menos dois meses antes do assassinato.
E aí, como que num lampejo ela ela lembrou de várias conversas que elas tiveram. E nessa conversa a filha dela falava assim: "Mãe, se eu morrer, você vai dar minhas botas? " Ela tinha uma coleção de botas.
E aí ela começou a dizer: "A bota tal para fulana, a bota tal para Beutrana". E começou a a a definir a vida dela a partir da morte. Só que a mãe, a mãe falava assim: "Ai, que assunto bobo, menina, não fica falando isso não".
Só que a mãe não percebia que inconscientemente ela estava realmente cansada da vida, apesar de ser uma jovem. E nesse dia a mãe ficou tão abalada em perceber a semirela. Agora que eu percebo que ela estava se despedindo, é como se ela realmente estivesse buscando aquilo para ela.
E foi incrível essa experiência, porque quando ela percebeu isso, que a filha, na verdade, estava cansada, estava buscando alívio, ela também identificou que a filha não se colocou em risco por acaso. E aí voltou para ela toda a cena do dia do crime, ela pedindo pra filha não sair, ela dizendo pra filha que o pai ia levar, ela orientando a filha do risco da filha sair sozinha aquele horário. E aí ela começou a observar que a filha tava se colocando em risco, não só na rua, mas praticando esportes eh perigosos, dirigindo em alta velocidade, vários outros fatores.
Resumindo, essa mãe identificou que a filha, na verdade, estava em busca da morte. E a hora que a mãe identificou isso, então ela também se abriu para perceber mais sobre o agressor. E o que que ela percebeu sobre o agressor?
que de fato ele estava em busca de uma forma inconsciente. Eu vou repetir de novo, tudo aqui é sobre o inconsciente, de repetir algo que tinha a ver com a história dele, com a história de agressão dos pais dele. É como se ele não tivesse livre para fazer diferente.
E quando a mulher, essa mulher começou a compreender essa história dessa maneira, ela começou então dentro dela reorganizar os sentimentos, porque aí ela começou a compreender assim, a vida não foi injusta, a vida garantiu pra minha filha aquilo que ela estava buscando. Compreende, gente? Não é sobre dar um novo significado para essa história, é sobre reorganizar essa história no tempo.
E aí ela começou a observar que a filha dela não suportava mesmo, que a vida era pesada, que ela tava sempre queixosa, que ela tava sempre reclamando, que ela inclusive expressava o desejo dela de estar com Jesus. Ela inclusive falava que ela não ficaria por muito tempo, só que a mãe, isso é uma dor tão grande para uma mãe ouvir, que um dos mecanismo de defesa inconsciente é negar o que tá sendo dito. Então, eu sei que nós fomos bem profundos nessa explicação, mas ela é importante para você entender que todas as pessoas que nós encontramos, não me importa se essa pessoa gerou alegria ou dor, ela veio pelo nosso padrão inconsciente.
Nós a encontramos também pelo nosso padrão inconsciente. Pessoas que inconscientemente estão se movendo para o menos, elas vão encontrar pessoas para levá-las para o menos. Pessoa que inconscientemente está se movendo para o mais, ela vai encontrar pessoas que vão impulsioná-la para o mais.
Pessoas que estão mais próximas da vida vai sempre encontrar oportunidades que geram vida. Pessoas que estão mais próximas da morte vai sempre encontrar oportunidades que a deixam mais próxima da morte. Isso significa o quê?
que de forma consciente ou inconsciente, não importa, todos nós somos autores da nossa própria história. Você precisa ser um profissional que vai ajudar a pessoa a compreender a autoria e a responsabilidade que ele tem sobre a própria história e o quanto é necessário que ele reordene, ele reorganize tudo aquilo que foi possível até aquele momento para que ele possa ficar livre para viver uma vida com mais força, com mais êxito, com mais prosperidade do que ele alcançou até aqui. Não existe possibilidade de mudança de história ao tentar negar, disfarçar, subestimar, resolver na mente, interpretar de outra forma.
Gente, ressignificar é interpretar de outra forma. Dor emocional a gente não interpreta de outra forma. a gente interpreta da forma que é e lida com as emoções e com os sentimentos até que eles se transformem em uma cicatriz e eles não doam mais, mas eles não serão esquecidos.
E não esquecer também faz parte dessa história. Toda a história é válida exatamente do jeito que ela é. Um dos principais disserviços que a psicologia e o desenvolvimento humano já fez até hoje é tentar ir contra isso.
Tentar ir contra isso é tentar garantir uma perfeição, uma condição que não é humana. Isso é desumano. Então, resumindo, qual é a nossa tarefa?
reconhecer a nossa humanidade para que a gente possa ter força suficiente para ajudar o cliente a suportar a humanidade dele. E isso é uma postura, não é sobre técnica. M.