Tudo bem pessoal? Hoje comentário sobre o Agente secreto que é o novo filme dirigido pelo Cléber Mendonça Filho, produção que estreou no festival de can 2025. Aliás, uma estreia muito bonita.
O dia foi de Cléber Mendonça, filho e West Anderson, mas o agente secreto ganhou a maior visibilidade de todas, até porque eu já adianto, o filme do S Anderson acaba se tornando uma decepção e eu vou discutir sobre ele em breve aqui no canal. Mas enfim, quando foi anunciado que o Kéber exploraria a década de 1970 o contexto da ditadura, isso já fez com que muitos colocassem o filme não só dentre os mais aguardados do festival, mas também do ano. E eu acabei fazendo isso de certo modo.
Coloquei na minha lista de mais aguardados do ano, falei muito sobre ele também em transmissões ao vivo. O agente secreto foi exibido na primeira metade da competição oficial de Cany 2025 e sem dúvida é um dos filmes que mais chamam a atenção. tá no top três do começo da competição junto de Siat, uma baita surpresa e dois promotores também.
São filmes que eu comentei na área de membros do canal. É impressionante ver como Cléber conseguiu por méritos desenvolver toda uma estrutura quanto a um trabalho que demanda não só tempo, mas investimento, seja para aproveitar Recife Histórica, como também para situar o seu filme no contexto da ditadura. Nesse sentido, eu noto que existe uma aproximação muito grande de o agente secreto com o projeto anterior do Cléber, Retratos Fantasmas, em que ele esbanja o seu amor por Recife e também pelo cinema.
Isso tá muito conectado. No caso de Recife, o uso da cidade, a maneira como a cidade impulsionada pela trilha sonora, ela se torna palco de tensão, mas também de festa, da fantasia, do cinema fantástico, tão tradicional do diretor. E por outro lado, a paixão pelo cinema, ela é fortíssima.
A partir do momento que o cinema também é um destaque em o agente secreto, a partir do momento que existe a celebração para filmes populares dos anos 70, existe uma ideia quanto a Tubarão, o clássico do Spielberg, que acaba sendo importante do começo ao fim dessa narrativa. Tudo isso acaba sendo colocado numa reflexão da narrativa que tem como pauta principal a identidade. A identidade que pode ser apagada, esquecida, mas também recuperada.
e recuperada graças ao trabalho histórico, a história com metodologia, a história com pesquisa, a história que está sempre viva, a história que sempre está disposta a justamente investigar o passado. Isso tudo é entrelaçado de uma maneira muito especial e que me chama muita atenção também pela facilidade como você tem esse trânsito da história de arquivo e um certo fetiche com objetos como fitas, fichas, mas por outro lado a história popular. E essa história popular é uma história que ela pode ser esquecida, que ela pode não ser registrada, mas que quando você tem uma base para inspiração, rende o fantástico, rende a lenda urbana.
E é a lenda urbana que você brinca na fantasia. é a lenda urbana que você trata com medo e que para esse filme tem um contorno muito surpreendente. Em 1977, no Recife, o pesquisador universitário Marcelo, interpretado por Wagner Moura, está marcado para morrer e ao mesmo tempo que tenta fugir, busca encontrar os arquivos perdidos de sua mãe.
O filme abre com uma situação do Brasil na época de Pirraça, 1977, o contexto da ditadura, em que o filme ele vai analisar situações do passado também e fazer uma exploração do presente. Claro que com todo esse contexto existe um foco no primeiro momento que ela pode te encaminhar para uma análise apenas da repressão estatal, como agentes do estado também usam da sua posição para fazer a coersão, por exemplo, como agentes do estado usam da sua posição para entrar no topo da hierarquia na sociedade. Esse cenário de medo, ele acaba sendo constante.
Você vê alguns crimes, alguns acobertamentos, mas o foco principal é essa jornada do Marcelo e é essa jornada da identidade que passa muito pelo seu personagem e passa muito também por uma noção quanto ao arquivo da sua mãe. Isso explica o desenvolvimento da narrativa em Recife, essa situação, a forma como Recife acaba sendo explorada e como Recife acaba se tornando palco para essa base histórica de desenvolvimento e também pra fantasia. e também pro fantástico, tão tradicional na filmografia do Cléber.
Com a identidade, nós temos algumas noções secundárias, nem todas desenvolvidas com prioridade, mas tem a memória coletiva, a memória popular, essa sim, alvo de um interesse muito grande pelo realizador e resistência. O Wagner Moura, claro que é a grande estrela do filme, só que eu quero fazer aqui uma menção muito especial a uma atriz que eu achei fantástica, a Tânia Maria. Inclusive, deixo os parabéns para quem participou do processo de casting aqui, seleção dela pro elenco, porque é uma personagem maravilhosa pra construção de o agente secreto.
Existe uma ideia, né, de acolhimento, personagens que passam por uma situação semelhante à do Marcelo, né? Personagens que precisam, quem sabe, trocar de nome, estão em fuga. A Tânia Maria interpreta uma personagem, a dona Sebastiana, que cada momento que aparece, ela tem um ensinamento, ela tem uma frase que faz uma quebra muitas vezes bem humorada, mas que é super importante pro desenvolvimento de o agente secreto, porque a questão da resistência e do acolhimento se torna realmente alvo de grande impacto.
Isso tudo dentro desse cinema fantástico do Cléber, né? Dentro da forma como você consegue trazer, ao mesmo tempo que um debate da história acadêmica, da verificação do projeto de pesquisa, você traz a história popular, a história que passa muitas vezes pela lenda urbana, que ela pode ser apagada por um lado, como ela pode virar pauta de registro jornalístico. O agente secreto tem uma organização em capítulos que faz com que o espectador fique justamente procurando mais informações, porque a situação toda envolvendo Marcelo, ela é bem misteriosa.
E eu tô aqui com maior cuidado também para não entrar com spoilers quanto a questão da sua jornada, mas ele tá no Fusco amarelo, ele tá em trânsito, em Recife, muitas coisas acontecem nessa cidade. Existe uma preocupação quanto a família, quanto a identidade dele. Isso me leva para um ponto importante quanto a montagem, tão importante quando existe até uma consideração de perspectiva passado presente do ponto de vista de análise histórica.
Esse é um filme tematicamente rico pelos conceitos. Eu já falei vários, né, mas coloca a noção de redescoberta, redescoberta do passado a partir do arquivo, em alguns casos com um certo fetiche pelo objeto que trata de ser desconstruído simbolicamente pelo diretor, quando ele reconhece que às vezes você pode não ter o registro de papel, às vezes você em um registro de uma fita, por exemplo, as coisas elas podem ser apagadas ou não podem estar totalmente gravadas dentro de determinada situação e contexto. Aí existe uma ideia de embaralhar cronologia.
É um ponto que eu não gostei na experiência de O agente secreto, mas que não tira a força temática do filme. Porque uma das teses principais que tomam um espaço importante do filme é dessa investigação do passado, algo que o próprio diretor fez muito bem em Retratos Fantasmas. É um filme que privilegia a pesquisa histórica, isso é importantíssimo.
É um filme que ele coloca metodologia de pesquisa paraa consideração. É um longa que faz também um discurso forte em defesa de investimento na educação, na universidade pública. E essas pautas são desenvolvidas pelo diretor nesse thriller político em que você vê situações de risco.
E essas situações elas acabam muitas vezes tendo saídas não das mais tradicionais para uma narrativa desse tipo, mas sim pelo cinema do Cléber e o que você pode explorar quanto a brutalidade, violência, soluções criativas aqui com o adendo, como eu disse, da história popular, da lenda urbana, da questão do cinema, que é importante, da cidade de Recife, como o registro jornalístico também pauta difusão de ideias, redescob coberta e em alguns casos a história oficial. A história oficial que pode obviamente ser desmontada. a conexão da repressão com a brutalidade, seja em elementos secundários, no cenário, em coisas que você observa, em situações tensas no contexto da ditadura ou que atingem diretamente o Marcelo no seu emprego, no seu dia a dia, no seu cotidiano, acaba de fato não tendo como não identificar como o típico do cinema do Cléber Mendonça Filho.
Para o agente secreto, nota oito. Apesar de não ser o meu favorito do diretor, ele é um dos filmes mais fortes da competição de CAN 2025 e que com certeza agora com esse holofote que o festival dá, vai ter um circuito complementar de exibições em festivais importante também antes da estreia nos cinemas brasileiros. E quando chegar nos cinemas brasileiros, eu sei que aquela primeira ideia de fazer a comparação direta com Ainda estou aqui porque tem um contexto na ditadura.
São filmes diferentes e o importante é justamente isso, é de celebrar a diferença, como você vai contar a história. A maneira com que o Cléber escolhe para desenvolver a trama em torno do contexto da ditadura é totalmente diferente do que o Walter Sales fazem. ainda estou aqui.
A força do discurso, no entanto, quanto a investigação histórica, a pesquisa, a universidade, temas importantíssimos, o uso da trilha sonora para o agente secreto também para conseguir te levar pelos capítulos, acaba sendo aí motivo de celebração. É um longa que eu acredito que vai ter uma estreia muito boa no circuito comercial, certo pessoal? Muito obrigado pela atenção.