Narrativas compartilhadas tem o enorme prazer de continuar ouvindo um pouco da história de vida do profissional do Vanoc, que agora vai falar um pouco a partir do momento em que ele entra na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba como professor de filosofia. Profissional do Euro, é um prazer continuar ouvindo. Muito obrigado, Roberto.
Era o ano de 1958, eu estava com meus belos 30 anos, dava aula no seminário diocesano. Ali, na Genus, só lembro de aulas de latim e português, quando fui convidado pelo diretor da faculdade da época, padre António Godinho, para lecionar uma disciplina que ele, como diretor, não tinha mais condições de apresentar: a História das Religiões. Aceitei de pronto, tratei de relembrar o que eu sabia, mas estudei bastante e comecei a trabalhar, então, na nossa Faculdade de Filosofia.
Imediatamente, lá também precisei assumir outras disciplinas, como Iniciação Filosófica e Iniciação Tecnológica, um pouco de lote. Também em 58, 59, 60, aquela direção do padre Godinho, que morava em São Paulo e era deputado estadual, era uma direção muito eficiente do aspecto institucional, porque ele conseguiu até um convênio com a Secretaria de Educação Estadual, de tal forma que os alunos não pagariam a faculdade por dez anos, de 58 a 68, e o Estado pagaria professores e funcionários. Uma solução à bilha acima e superoportuna que resolveu uma crise permanente da faculdade com essa direção, praticamente à distância, e o seu vice-diretor também era de São Paulo.
Aconteceu que eu fui nomeado segundo vice-diretor e continuei nessa função, dando aulas e na vice-diretoria, até que houve um momento, um trauma inesperado. O presidente do Centro Acadêmico Jaime Pinsky, hoje aposentado da Unicamp e diretor da editora Contexto, uma figura de conhecimento nacional, e Zagallo, nosso ex-presidente do Centro Acadêmico Santo Tomás de Aquino, a fila era caspas, e a ST a ele um dia resolveu doar à faculdade uma obra de um autor italiano, historiador de Hazare, com vários volumes, que foi entregue ao vice-diretor, que não teve, digamos, a elegância de, mesmo não gostando, não aceitando e achando que aquela obra era superada – e realmente era – simplesmente disse que não aceitava, que aquilo não tinha valor nenhum. O presidente do Centro Acadêmico, de família judia, e o autor era judeu, sentiu-se totalmente afrontado e desrespeitado.
Houve um debate, uma discussão entre ambos, que não acabou nada bem. Por quê? Porque esse vice-diretor resolveu transformar aquele momento no ato de despedida da diretoria, da faixa dele e do diretor, de tal forma que, pouco tempo depois, ele me chama e diz assim: “Olha, aqui estão as chaves da casa”, e jogou na mesa da diretoria.
“Você veja o que vai fazer. ” Eu imediatamente fui até Dom Aguirre para contar o acontecido. Dom falou: “Não há problema, acalma a paternidade.
Sempre você pode subir, procure fazer eleições quanto antes. ” E, de fato, houve eleição um mês, um mês e meio depois, e eu fui eleito e nomeado diretor da Faculdade de Filosofia. Então, eu fui diretor de junho de 63 até junho de 68, totalizando cinco anos.
Porque até junho de 68, nesse meio termo, houve o golpe de 64 e eu fui preso em 15 de abril de 1964, os dias logo depois do golpe cívico-militar, que marcou um tempo de ditadura no Brasil por 21 anos. Como nós estávamos dependendo da Secretaria Estadual de Educação, cujo governador era Adhemar de Barros, ele era totalmente a favor de um primeiro humano. Naquele momento, a ditadura negava de maneira sistemática a entrega do dinheiro, da verba, para que a gente pagasse professores e funcionários.
Então, o atraso foi de um mês, dois meses, três meses. . .
E 65, 66, 67 e 68, com Adhemar de Barros repetindo para explicar esses atrasos: “Enquanto aquele padreco comunista foi diretor, vai ser assim. ” O padre, que era colunista – que era eu – na realidade não era comunista. É que o meu nome era muito citado pelos sindicalistas na cidade, porque, na época, eu tinha um programa diário na rádio K Fike, era diretor e articulista do jornal Folha Popular.
Além de padre, atuando por ser bons na cidade, tudo isso fazia com que o meu nome fosse lembrado. Inclusive, a minha posição de defesa da democracia, que estava totalmente ferida e agredida naquela altura, havia até movimentos, e como eu também era, na época, assistente da Juventude Operária Católica (JOC), trabalhando com jovens operários nos bairros em pequenos grupos, tudo isso dava a impressão para quem quisesse interpretar que era o movimento perigosíssimo de preparação de um grupo contra a Bíblia, como se nós fôssemos capazes de um levante na cidade para acabar todo aquele poder militar dominante na época. Foram dez dias que eu fiquei detido, uma noite na própria cadeia da Generoso General Carneiro.
Depois, dez dias detidos no seminário diocesano, sem poder sair. O desagradável é que a direção da faculdade continuava a funcionar. Mas, depois dos dez dias, voltei e fui homenageado pelos alunos, e a vida seguiu tranquila, até quando eu pude aguentar essa, como diria, uma espécie de perseguição, que era contra a minha presença na faculdade e a dificuldade de levar adiante a própria direção, com o professorado que sentiu o problema dos atrasos, tanto salariais quanto dos funcionários.
Então, eu resolvi conversar com Dom Aguirre, dizendo: “Aqui o meu vice-diretor é muito bom, o professor Augusto Pitarelli, doutor em Geografia, professor da USP. Também eu não tenho receio nenhum de dizer ao senhor que eu gostaria de me afastar, para o bem da faculdade e para o meu bem também interior. Eu ia para Roma para fazer o meu mestrado em filosofia.
” Ele entendeu, aceitou e realmente, em julho, eu fui e voltei a Roma, onde eu tinha estudado de 49 a 52, a minha graduação em filosofia. Essa temporada. Nove Roma foi espetacular para mim.
Imagine alguém que esteve lá com 18 anos de Derby e agora, com 30 e pouco, uma diferença enorme. Já ordenado padre e com bastante experiência de vida, fazendo o mestrado, quer dizer, completando a minha formação filosófica. Terminado o mestrado, voltei e, em agosto de 70, retomei as aulas.
Lembro que me deram matérias novas: fundamento filosófico das ciências humanas e, posteriormente, cultura brasileira. Então, retomei as aulas de 70, 71, 72, 73. Eu lembraria se já o disse na conversa anterior, Roberto, que em 65 eu tinha sido nomeado vigário na Vila Progresso, a paróquia de São José Operário, criada por Dom Melhado a meu pedido, e trabalhei lá há três anos como vigário.
Também, agora em 71, a paróquia de Votorantim ficou vaga; os padres da Consolata que dirigiam Votorantim na Igreja Católica se retiraram da diocese. Aí eu me ofereci de novo a Dom José Melhado Campos, bispo da época, que realmente me nomeou vigário de Votorantim, onde trabalhei. E, de novo em Votorantim, dando aula na faculdade como simples professor e ao mesmo tempo vigário.
Mas, de novo, aparece aquele problema: um certo grupo da elite da cidade não gostava do meu jeito de trabalhar. Qual era o jeito? Privilegiar as periferias.
Fico muito feliz de ver hoje o Papa Francisco batendo nesse povo. Não era algo que só viria com o Papa Francisco; já estava claro nas normas do Concílio Vaticano II (61-65), concílio que eu segui atentamente e procurei cumprir em Votorantim. Isso me agradou a todo mundo e não dava para andar nunca, mesmo porque eu trabalhava de novo na Vila Garcia, no curtume.
É chuvoso. . .
coloca Votocel, Santa Helena, ou seja, aquele núcleo central. É claro que estava lá presente, inclusive a igreja nova, maravilhosa, que estava em fase de finalização. A igreja antiga, pequena mas bonitinha, estava funcionando também ali perto da fábrica de tecidos.
Mas essa pequena elite parece que se mancomunou com o próprio delegado da época. Eu posso até dizer o nome, que também era jovem; se o jovem exagerava, ele também exagerou. O doutor.
. . me foge o nome, mas eu vou lembrar ainda.
E eu vi isso depois, bem depois: ofício dele a São Paulo dizendo que eu estava tendo esses grupos e tudo indicavam que era uma célula comunista. Aqui e ali, para tornar trágica a situação. Em março de 73, aconteceu aquilo que foi o maior trauma da minha vida: o meu sobrinho querido, o filho que ela não tinha, Alexandre Vannucchi Leme, que cresceu ao meu lado, ele morando ali do lado do seminário e eu trabalhando no seminário.
Quantas vezes ele fez estripulias no próprio seminário, conseguindo subir na torre da igreja! E bateu pouco se. .
. ele era então, em 73, formando em geologia da USP, no último ano. Ele tinha 23 anos.
Foi preso, torturado e morto, não entregaram o cadáver. Aquilo agitou totalmente a minha vida, porque aquilo vinha culminar naquela situação íntima que eu já estava vivendo: uma crise tríplice. A crise política, todos os passos seguidos, né?
Tudo que eu fazia era seguido. A crise eclesial, explicando a Igreja que eu sonhava, que era aquela que o Concílio Vaticano II tinha desenhado e eu não via aquilo sendo implementado. Pelo contrário, havia uma força conservadora tradicionalista segurando tudo.
E a crise pessoal íntima de questionamento do próprio celibato, celibato que eu respeitava com toda a seriedade. E que eu ouvia totalmente a campo, o Flá, dos colegas. Lembro de um colega que dizia: "O celibato diz que é proibido casar, mas não diz que é proibido namorar.
" Um cinismo dolorido. E aquela igualdade de tratamento: o padre sério, trabalhador, apostólico, que procurava fazer tudo da melhor forma possível, era nivelado ao outro que "fazia de conta". Essa crise íntima, psíquica, psicológica, junto com a política e a eclesial, me fez voltar a Dom Melhado dizer: "Dom Melhado, eu preciso ir embora; eu não aguento mais essa vida.
" A fim de tanta repressão. Eu nunca fui alguém em um caminho de depressão, mas viver em repressão é realmente algo que não é digno da pessoa humana. Eu seria mentiroso para mim mesmo se eu continuasse fazendo de conta que não havia nenhum problema político, nenhum problema eclesial, nenhum problema íntimo.
Eu preciso sair um pouco para o pessoal na minha vida. Ele não autorizou. Fui para a Europa e os passos de Deus são passos maravilhosos.
Eu me lembro que, quando eu era diretor da faculdade de filosofia, uma vez uma aluna formada em pedagogia veio dizer: "Padre Aldo, eu quero me casar e quero casar na igreja, mas o meu noivo é comunista, é líder comunista, e ele disse que na igreja não posso casar". Aí eu estou pensando: "Seguinte. .
. " Ela me disse: "O senhor faria o meu casamento em algum lugar assim, que não fosse na igreja? " Falei: "Por exemplo, aqui no salão da faculdade, no salão nobre?
" Falei: "Vermelho! " Hoje eu falei: "Vou perguntar para Drghi. " Conversei, e ele autorizou.
O casamento foi feito lá no salão nobre: ele, ela e a família dos dois, apenas. Esse casal foi morar em Genebra porque ele, comunista, quando deu o golpe, imediatamente precisou sair. E como ele era líder comunista no Brasil, tinha muitas ligações com a central comunista da Europa: Roma, Praga, Paris, e foi morar em Genebra.
Quando decidi voltar para a Europa por causa daquela tríplice crise, escrevi a eles e eles me disseram: "Venha ao nosso apartamento, à sua disposição. " E, realmente, fiquei lá uma semana, ao mesmo tempo que procurava emprego. Procurei emprego na representação do Vaticano em Genebra, não deu.
Procurei emprego diretamente em uma paróquia ali no centro de Genebra, também não deu. Aí esse meu colega, meu amigo, dono do apartamento, ele tinha muitas ligações em várias organizações mundiais. Genebra é farta disso, e aí fomos a duas ou três organizações, inclusive da OIT (Organização Internacional do Trabalho), mas também não conseguimos.
Aí vem uma porta aberta maravilhosa: esse meu amigo era amigo de um líder do Conselho Mundial de Igrejas em Genebra. O Conselho Mundial de Igrejas é uma espécie de Vaticano das igrejas protestantes do mundo; naquele tempo, parecia que eram 250 igrejas do mundo todo: metodistas, luteranos, batistas, presbiterianos, e por aí vai. E esse amigo meu me apresentou no Conselho Mundial de Igrejas, e fui aceita.
A Igreja Católica é um membro do Conselho Mundial de Igrejas, mas tem representação lá dentro; não tem voto, mas tem voz. Há uma grande maioria de trabalhadores que não são católicos também. Eu entrei no Conselho Mundial de Igrejas com um pequeno salário que dava para sobreviver, trabalhando inicialmente no setor de relações internacionais.
Foi maravilhoso! Me lembro de uma reunião em Jena, duas ou três em Paris, na Unesco; foi uma temporada boa. Mas eu quero que esse momento em Genebra e na semana mundial de igrejas levante uma pequena pausa, e aí vamos retomar a partir do mesmo perfil.
Estamos ouvindo o professor.