Boa noite, Dom. Meu nome é Alana. Agora estou com 45 anos, mas quando tudo isso aconteceu, eu tinha 16. E tudo o que vou contar pode até parecer invenção para quem escuta de fora, mas se você estiver disposto a me ouvir de verdade, acredito que vai perceber o quanto cada detalhe ainda me dói. Não vou dar muitos nomes, nem dizer onde moro, porque não quero reviver tudo isso com pessoas conhecidas batendo aqui na minha porta, perguntando se estou bem. Vou só tentar explicar passo a passo como as coisas aconteceram para ver se alivia um pouco
a culpa que carrego. A cada vez que relembro, sinto um aperto no peito e um gosto amargo na boca, como se as palavras fossem se misturando a um cheiro de vela que não sai mais da minha memória. Eu tinha recém-chegado a uma escola particular religiosa. Na época eu morava com meu pai e minha mãe numa casa térrea, sem quintal grande, mas com um pequeno corredor lateral, onde a gente pendurava as roupas molhadas. O motivo da mudança de escola nem era tão simples. Meu pai recebeu uma proposta de emprego e, por conta disso, tive de largar
o colégio público de sempre e ir para essa nova instituição que seguia regras rigorosas e mantinha uma rotina quase militar. Era década de 90 e eu estava me sentindo deslocada. Você que me escuta deve saber como é difícil ter 15, 16 anos e precisar recomeçar do zero entre pessoas que já se conhecem e têm seus grupos definidos. No meu antigo colégio, eu já era considerada meio estranha. Gostava de desenhar, ouvia bandas que ninguém conhecia e preferia escrever no meu diário a sair para baladas. Só que ali, nesse novo lugar, a sensação foi ainda pior. Logo
no meu primeiro dia, percebi que os grupos já estavam formados. Eram pequenos grupos de garotas preocupadas com o corte de cabelo da moda ou meninos que brigavam para ver quem seria titular do time de vôlei da escola. Também havia quem só quisesse se sentar e trocar fitas cassete de bandas consagradas, mas de alguma forma nem com eles eu me encaixei. E o mais estranho é que mesmo sem me conhecer, já me tratavam como se eu fosse um ser esquisito. Quando eu passava, eles falavam baixo, riam e eu tinha certeza de que o assunto era eu.
Para ser sincera, no começo eu não entendia porque eu era vista como a diferente. Não usava nada muito chamativo. Meu cabelo era normal, meus tênis estavam de acordo com as regras de uniformes e ainda assim eu sentia que havia algo em mim que incomodava. Um dos poucos lugares onde eu podia ficar sozinha sem ser encarada era a biblioteca. Gostava de ficar entre as estantes, fingindo que procurava algum livro de literatura, enquanto, na verdade, tentava me esconder das risadas. Lá eu passava um tempo foliando revistas antigas, olhando reportagens sobre gente famosa ou dicas de culinária e
me distraía um pouco. Com o passar dos dias, notei uma particularidade intrigante. Os corredores dessa escola eram impecavelmente limpos. Não que a limpeza fosse um problema, mas era tudo tão silencioso e brilhante que chegava a dar calafrios. Parecia que as paredes eram lavadas todo dia e o saguão principal tinha aquele aspecto estéril, quase sem pegadas de alunos. Não tinha nem cheiro de merenda. Para quem vinha de uma escola em que o refeitório vivia impregnado de temperos, fritura e risadas, aquilo era bastante esquisito. De vez em quando, eu pensava: "Será que ninguém aqui sua, corre, esbarra
nos outros?" Até os funcionários pareciam andar sem pisar no chão, mas esse era apenas o começo. Vou tentar seguir exatamente como as coisas foram se desenrolando, porque talvez você encontre alguma lógica que eu não consegui enxergar na época. Eu acordava cedo, tomava um café com leite e um pão com manteiga. Minha mãe me levava de carro até a escola. Lá eu assistia aulas de religião, matemática, português, tudo bem dentro dos padrões. Na hora do recreio, eu ficava encostada no muro, esperando o tempo passar até que o sinal tocasse de novo. Era uma sequência enfadonha de
ações, uma repetição diária que não me trazia nenhum alívio. Eu só queria que as pessoas me aceitassem ou no mínimo me deixassem em paz. Então, passei a sentir um algo inesperado. Começava com um cheiro bizarro que surgia na minha mochila. Parecia uma mistura de vela queimada com roupa úmida. No início, achei que fosse culpa da capa de chuva que eu guardava amassada, mas não fazia sentido porque aquela capa estava seca havia dias. E quanto ao cheiro de vela, não tinha a menor explicação. Eu podia trocar o estojo, lavar a mochila, passar perfume, mas pouco tempo
depois lá vinha o mesmo odor. Foi aí que comecei a perceber olhares ainda mais estranhos dos colegas. Muitos diziam: "A Lana, sua mochila Fed". Às vezes eu respondia com um sorriso sem graça. Deve ser alguma coisa que esqueci aqui dentro. Mas quando eu procurava, não encontrava nada suspeito. Esse cheiro me deixava incomodada, ao ponto de eu ficar paranoica, tentando cheirar meu próprio uniforme, meus cadernos, tudo. Outra coisa que elevou meu nível de estranhamento foi ter visto uma garota usando um uniforme muito antigo, diferente do nosso. A saia dela tinha um comprimento fora do padrão atual,
e o broche no bolso do blusão exibia o emblema do colégio, mais em um estilo que eu nunca tinha visto nas camisetas oficiais. Ela tinha cabelos presos em duas tranças e eu só a vi de relance pelo reflexo de uma janela. Parecia ter minha idade, mas quando virei para falar algo, ela não estava mais lá. No momento, pensei que talvez fosse algum evento especial que exigisse uniforme de época ou uma cena de teatro. Fiquei agitada porque senti que, de certa forma, ela me observava antes de sumir no corredor. Poucos dias depois aconteceu um lance que
chamo de minha prova particular, a próxima etapa do que se tornou meu pesadelo pessoal. Havia uma capela dentro do terreno do colégio. Ela ficava ao lado de um pátio onde quase ninguém circulava, pois diziam que aquele espaço estava em reforma ou desativado havia semanas. Eu não era de desrespeitar as normas, mas num fim de tarde, depois de uma aula de reforço, decidi passar perto daquela área sem avisar ninguém. Sabe quando você sente uma curiosidade que não consegue explicar? Uma força estranha me empurrava para lá. De repente, notei que a porta dupla de vidro da capela
estava entreaberta. Apesar de a escola inteira repetir que a capela estava fechada até aviso, eu vi a brecha e escutei algo como um pequeno gemido ou sussurro. Entrei devagar e vi uma pessoa ajoelhada de costas para mim, perto do que seria o altar. Parecia um rapaz, mas sua silhueta estava tão estática que fiquei confusa. Ele vestia um uniforme também antigo, uma calça de tecido grosso e um blusão cheio de manchas escuras. Tudo estava na penumbra, pois as luzes não funcionavam. O que mais me atingiu naquele instante foi sentir ainda mais forte o cheiro de vela
queimada, como se houvesse inúmeras velas derretidas ali dentro. Aproximei-me uns passos, mas me arrepiei quando percebi que o lugar tinha bancos todos empilhados no canto, cobertos por panos brancos e janelas com tábuas pregadas. Não era possível que houvesse alguém ali rezando como se estivesse em um dia normal de missa. Cheguei a abrir a boca, mas não falei nada. Só fiquei assistindo àela figura imóvel que emitia um ruído que não consegui decifrar se era choro ou uma espécie de murmúrio. Quando me dei conta, recuei e corri para fora. No dia seguinte, reuni coragem e contei para
um grupo de colegas que tinha visto alguém na capela. Eles caíram na gargalhada e disseram: "Essa capela está fechada há quase dois meses. Ninguém entra ali. Você está inventando história para ganhar atenção? Alguns me chamaram de maluca, outros ficaram me olhando como se eu fosse um fantoche. Fui até uma das freiras responsáveis pela administração e perguntei: "Irmã, alguém andou abrindo a capela para alguma atividade?" Ela me olhou com surpresa e um certo receio. De modo algum, Alana. Estamos sem manutenção elétrica naquele espaço. É perigoso entrar. Por que a pergunta? Houve algo anormal? Balancei a cabeça
e não soube o que responder. Falei algo sobre ter visto um vulto no vidro, mas ela me interrompeu pedindo que eu não me aproximasse de lá. Quando saí, senti que todos me julgavam ainda mais estranha. Eu era a nova que via gente onde não existia. A garota estranha que sentia cheiro de vela sem ter vela nenhuma por perto. Meu isolamento ficou ainda mais doloroso. Deixei de tentar fazer amizade. Em vez de me aproximar de alguém, preferia me encolher num canto do pátio, mexer nos meus cadernos e contar as horas para ir embora. Passei a ver
mais pessoas usando trajes antigos pelos corredores, sempre de passagem rápida, como um vulto que some na curva. Não era apenas a garota de tranças. Às vezes vi meninos de calça social e gravata fina carregando livros cujos títulos não reconhecia. Outras vezes, ouvi barulho de passos numa sala de aula vazia. E o mais estranho, eu sentia que essas pessoas me olhavam e queriam se aproximar, mas havia algo que as impedia. Quase ninguém parecia notá-las, embora às vezes eu visse olhares intrigados que logo eram abafados. Ainda assim, os colegas continuavam seu cotidiano perfeito, provas, recreio, grupos. Só
eu via aqueles estudantes deslocados no tempo. Teve um dia em que eu estava voltando do banheiro durante uma aula de matemática e me deparei com uma jovem encostada no bebedouro. O uniforme dela era diferente de tudo o que se usava agora na escola. Ela me olhou com um olhar de quem está pedindo socorro. Minha respiração travou, mas arrisquei um cumprimento. Oi, você está bem? Ela tentou dizer alguma coisa, porém os lábios pareciam não se mover no mesmo ritmo do som. Senti uma onda de desespero, como se ela tentasse passar uma mensagem e não conseguisse. Não
tive coragem de prolongar aquilo. Afastei-me aos tropeços, quase caí e derrubei um estojo no chão fazendo barulho. Quando olhei para trás de novo, ela não estava mais lá. Naquele momento me bateu uma certeza absurda. Essas pessoas eram fantasmas, ex-alunos que, por alguma razão, ainda vagavam pela escola. Eu nunca tinha sido religiosa e nem crente nesse tipo de fenômeno. Para falar a verdade, eu achava que histórias de assombração eram coisa de folclore ou imaginação, mas ver com os próprios olhos é diferente de ouvir lendas. E pensar nisso me aterrorizou, pois passei a acreditar que não estava
apenas com a mochila fedendo a mofo e vela. Eu estava envolvida em algo muito maior que meu mero sentimento de exclusão. Só que o que veio em seguida consolidou a última fase, a consequência mais assustadora, mas que, de alguma forma virou a única maneira de eu seguir em frente. Uma noite permaneci na escola porque teria um trabalho de literatura em grupo. Mesmo que me ignorassem, eu tentava cumprir as tarefas. Acabamos ficando até um pouco depois das aulas. Quando já não tinha quase ninguém, percebi que havia uma presença perto de mim no corredor. Era aquele mesmo
rapaz que eu vira ajoelhado na capela. Estava parado, cabis baixo, como se esperasse algo. Nesse instante, eu me senti estranhamente calma. Era como se eu finalmente entendesse que esses espíritos me notavam tanto quanto eu os notava. Dei uns passos à frente e ele levantou o rosto. Os olhos dele estavam vazios, sem o reflexo típico de uma pessoa viva, mas ainda assim transmitiam melancolia. Senti um nó na garganta. Percebi que eu não era apenas uma espectadora. Por alguma razão, eu tinha sido escolhida para fazer contato com eles. Passei a lembrar de todos os episódios em que
percebi que aqueles vultos tentavam falar comigo e não conseguiam. Ao mesmo tempo, a minha dor de ser excluída, de não pertencer a ninguém naquele colégio, começou a se misturar com a dor que eu via naqueles que estavam presos naquele espaço. Era como se me dissessem: "Você nos vê? Então ajude a curar isso". E por mais bizarro que pareça, foi exatamente o que comecei a fazer. No início, apenas trocava algumas palavras sussurradas ao vê-los pelos corredores vazios. Sabe quando você fala sozinha, meio sem saber se vai receber resposta? Eu me arriscava. Você está perdido? Quer que
eu faça algo? E aos poucos fui percebendo reações, às vezes piscar de olhos, às vezes um pequeno movimento de cabeça. Cheguei a passar a mão em um dos armários do corredor, onde vi marcas de mão infantil, como se fosse uma criança que circulava ali à noite. Passei a dormir mal, sonhando com esses estudantes me pedindo ajuda, chorando sem fazer barulho. Eu acordava banhada de suor e minha mochila continuava com aquele cheiro insuportável de roupa encharcada e vela velha. Minha mãe nem percebia, pois trabalhava muito e confiava que eu estava bem. Um certo dia, tomando coragem,
retornei até a capela quando não havia ninguém para me impedir. Tudo continuava da mesma forma. Bancos amontoados, janelas com tábuas. Mas dessa vez fui sem medo e falei em voz alta, tentando não tremer. Eu sei que você está aqui. O que posso fazer? Desta vez não vi uma pessoa ajoelhada, mas senti uma presença me envolvendo. O silêncio pesado da capela parecia conter sussurros que me imploravam para rezar ou para acender uma vela. Só que não havia nada ali pó e tábuas. Então me dei conta de que eu devia de alguma maneira carregar esses fantasmas comigo
para que eles encontrassem paz. E como fazer isso? Eu realmente não sei, mas senti que o único jeito era reconhecer que eles precisavam de um lugar onde fossem ouvidos. Talvez eu fosse esse lugar. De forma gradativa, eu me transformei numa espécie de guia. Passei a caminhar pelos cantos vazios depois das aulas, tentando conversar com qualquer um que se apresentasse. Sentia uma energia diferente a cada vez que via um novo vulto. Alguns estavam confusos, sem saber porque ainda caminhavam pelos corredores. Outros pareciam presas fáceis de uma rotina que eles não largaram em vida. Eram obsecados por
notas ou tinham medo de exames finais. E havia aqueles que choravam por solidão. O que mais me intrigava era a semelhança da dor deles com a minha. Todos sentiam que não se encaixavam, que tinham sido ignorados ou injustiçados, como se a falta de compreensão em vida tivesse os prendido ali. Eu me via cada vez mais isolada do mundo dos vivos, porque nenhum aluno se aproximava de mim. O pessoal da turma achava que eu era uma lunática ou que eu escutava vozes. Eu, por outro lado, me contentava em ajudar os fantasmas, mesmo sem entender direito como.
Só sentia que quando eu olhava nos olhos deles, em algum momento, um breve sorriso, um suspiro, ou mesmo um fechar de olhos aliviado, surgia como se eles estivessem aceitando seguir adiante. Porém, sempre surgiam novos. Era como um ciclo. Chegou um ponto em que entendi que eu não podia fugir. Aquilo era real ou no mínimo era real para mim. A rotina mecânica do colégio continuava. Todo mundo se preocupava apenas com provas, atividades e suas próprias turminhas. Ninguém parecia perceber que o lugar estava povoado de histórias não resolvidas. Talvez essa incongruência, uma escola tão limpa, tão silenciosa,
fosse justamente um tipo de fachada que de alguma forma atraía ou aprisionava essas almas. Fui então confrontada pelo padre que gerenciava as aulas de religião. Certo dia, ele me chamou na sala e perguntou se estava tudo bem comigo. Eu tinha faltado a uma missa obrigatória para todos os alunos. Respondi: "Desculpe, padre, eu ando me sentindo cansada. Ele ergueu a sobrancelha e comentou: "Ouvi boatos de que você anda por aí falando sozinha e entrando em lugares proibidos como a capela. Quero que saiba que estamos preocupados. Nessa hora eu percebi que não havia espaço para eu contar
a verdade. Ele provavelmente iria me achar louca ou possuída, então apenas concordei. Não se preocupe. Estou só pensativa sobre algumas questões pessoais." Ele me olhou com cuidado e encerrou o assunto. Quando saí, quase me bati com um vulto de um menino que segurava o próprio braço como se tivesse se machucado. Não hesitei. Passei ao lado dele e coxixei. Tudo bem, eu estou aqui. O menino me olhou com o rosto cheio de pavor e no instante seguinte sumiu. Foi quando descobri que a única coisa que eu podia fazer era reafirmar para cada um deles que não
estavam mais sozinhos. Parecia pouco, mas era algo que lhes proporcionava algum consolo. Esse processo foi me desgastando. Eu comecei a ter pesadelos incessantes. Acordava com dores pelo corpo. Parecia que minha respiração estava pesada e meus olhos viviam irritados. Eu chorava trancada no banheiro de casa, pois sentia que não tinha para quem contar tudo aquilo. Meu pai e minha mãe só diziam: "Esa escola é ótima. Tente se adaptar, minha filha". Mas no fundo, eu já entendia que a escola era mais do que aquilo. Ela me escolheu ou eu a escolhi, não sei. Com o passar dos
dias, a sensação de exclusão foi dando lugar a algo quase profético. Eu sabia que eu era a intermediária entre vivos e mortos. Sabia que, mesmo sem querer, eu servia de ponte para que eles sentissem uma fagulha de amor. E isso me dava sentido num lugar onde ninguém me queria por perto. Semanas mais tarde, ocorreu meu maior teste. Uma das funcionárias da escola foi encontrada desmaiada na área próxima à capela, completamente assustada. Disseram que ela avistou um fantasma andando ali. Logo começou uma conversa de corredor falando que o prédio era mal assombrado. Alguns me apontaram como
se eu fosse a culpada por aquela história de fantasmas ter ganhado força. A direção tentou abafar o caso, dizendo que foi apenas um mal-estar. Fizeram mais uma vez questão de trancar a capela e cercar a área com fitas de obras em andamento. Ainda assim, as coisas persistiam. Eu continuava vendo as aparições circulando e elas continuavam me encontrando. Foi nesse clima que concluí. Eu não poderia escapar do meu papel. Por mais que eu desejasse viver uma adolescência comum sem ser chamada de maluca, eu tinha uma missão ali. Nem que fosse apenas para dar um abraço mental
naqueles que se sentiam tão rejeitados quanto eu. Curiosamente, desse modo, deixei de ligar para as piadas dos colegas. Eu ignorava as fofocas, os coxichos e o isolamento começou a doer menos, porque havia um propósito maior me ocupando. Aqueles espíritos eram mais reais para mim do que qualquer amizade falsa. No fim daquele ano letivo, a escola recebeu um aluno novo, um menino de 14 anos que se transferiu de outra região. Eu não acompanhei muito a chegada dele, pois estava absorta nos meus próprios dramas, mas me chamou atenção a forma como ele me olhou no corredor certo
dia. Estava encostado num pilar, segurando a mochila com força. Tinha os olhos arregalados, como se estivesse vendo algo perturbador no fim do corredor. Quando tentei seguir o rastro do olhar dele, não vi nada, mas pelo medo no rosto do garoto, eu sabia bem o que era. Aquele olhar me relembrou a mim mesma meses antes. Reconheci nele a descoberta de algum vulto, algum fantasma. Ele olhou para mim com uma expressão que dizia: "Você também vê isso, né?" Nessa hora me veio a certeza. Por mais que eu tivesse ajudado tantas almas presas àquela escola, esse fenômeno não
pararia. Quando eu me formasse, alguém mais ocuparia esse lugar de mediador. Com o tempo, seria a vez de outra pessoa sofrer a dor do isolamento, mas ao mesmo tempo aprender a lidar com aquilo que está esquecido ou perdido nos corredores. Viver essa experiência traz peso, mas também abre os olhos para a empatia. Fazendo esse relato, sinto de novo o cheiro de vela e tecido molhado, uma lembrança que sempre me acompanha. Talvez as velas simbolizem as orações jamais concluídas e a humidade, as lágrimas que nunca se secaram. Não tenho como provar nada do que vi. Minhas
anotações e desenhos de época podem até servir de testemunho, mas a maioria das pessoas acha que eu invento ou que sou muito impressionável. Ainda assim, há aquela parte de mim que sabe ser considerada estranha foi o preço que paguei por ter sido escolhida para enxergar o que ninguém queria ver. Hoje em dia, penso que tudo isso serviu para me ensinar o quanto a solidão pode ser devastadora, tanto para os vivos quanto para os mortos. Na hora em que me vi excluída, sem saber o porquê, comecei a entender a dor de estar gritando por socorro e
não ser ouvida. Talvez seja esse o destino de quem tem mais empatia. Quando você aprende a reconhecer a dor alheia, ela passa a te ver também. E não há mais como fechar os olhos. De todo modo, se você está me ouvindo até aqui, espero que pense duas vezes antes de ignorar alguém que se senta sozinho no pátio. Às vezes, aquela pessoa pode ser a única que enxerga algo que você se recusa a ver. Antes de irmos para o próximo relato, verifique se você já está inscrito aqui no canal e se já ativou o sino de
notificação para receber as próximas histórias. Aprecio sua companhia e seu apoio faz toda a diferença. Bem, vamos continuar. Boa noite, Dom. Meu nome é Arlindo, tenho 32 anos agora e o que vou contar aconteceu quando eu tinha 17. Juro que não é fácil relembrar cada detalhe, mas quero que você, Dom, e qualquer pessoa que ouça esta história, entenda de onde veio o meu medo e como ele se transformou em algo que até hoje me deixa sem dormir. Vou tentar ser o mais honesto e claro possível e espero que isso ajude outras pessoas a perceberem que
às vezes o que acreditamos estar ouvindo pode não ser o que pensamos. Quando eu era criança, meus pais sempre me ensinaram a orar antes de dormir, a orar ao acordar e a agradecer no almoço e no jantar. Minha mãe, Cláudia me vestia com roupas simples e sempre reforçava a importância de ler a Bíblia toda a noite, mesmo que eu estivesse com sono ou quisesse muito ficar brincando no quintal. Meu pai Dário trabalhava como pedreiro e depois que chegava do serviço só queria descansar na poltrona da sala, ouvindo um louvor em um aparelho de som antigo,
enquanto minha mãe preparava algo para comermos, geralmente sopa ou arroz com feijão e um bife simples. Às vezes, ela fazia um bolinho de chuva nos dias mais frios e eu amava o cheiro de canela que tomava a casa. Morávamos em um bairro que não tinha muito luxo, mas quase todo mundo frequentava a mesma igreja evangélica na avenida principal. As calçadas ficavam cheias de poças depois de qualquer chuva forte. As casas eram bem grudadas umas às outras e eu me acostumei à aquele clima quente e úmido, com ventilador girando na sala para espantar os mosquitos. Nos
anos 2000, naquela época em que nem todos tinham celular, o que me distraía era um radinho velho e algumas revistinhas de histórias, mas eu sempre me envolvia mais com o devocional diário que minha mãe deixava em cima da mesinha de centro. Ela dizia que aqueles livrinhos traziam pequenas meditações e eram ótima companhia para quem buscava aproximar-se de Deus. Era normal depois do café da manhã, tirarmos 5 ou 10 minutos para refletir em alguma passagem bíblica. Costumávamos sentar na sala para esse momento sagrado. Minha irmã mais nova, Nelly, não gostava muito de ficar parada e vivia
inquieta, mas fazia o que chamávamos de sacrifício de obediência. Ela esperava de olhos fechados até todos terminarem. Eu, por outro lado, me dedicava com gosto. Desde pequeno sentia como se Deus realmente me escutasse. Talvez fosse imaginação de criança, mas eu tinha certeza de que existia uma voz serena que me dava sinais de que eu não estava falando sozinho. E para ser honesto, essa percepção me deu muita força nos momentos difíceis. Porém, quando completei 17 anos, as coisas começaram a mudar. Vou explicar melhor, Dom. Até aquele momento, eu seguia a rotina certinha, estudava de manhã, voltava
para casa, almoçava com meus pais, tirava um cochilo ou assistia a algum programa de culinária que passava depois do almoço, fazia os deveres da escola, tomava banho, jantava e, por volta das 9 horas da noite, lia o devocional antes de dormir. Era um ambiente familiar clássico, de gente simples, com muito respeito e uma fé bem firme. A questão é que perto do meu aniversário de 17 anos, senti como se Deus, que sempre esteve comigo, de repente tivesse ficado em silêncio. Não foi gradual, foi estranho. Em um dia eu orava e sentia aquela paz interior. No
outro comecei a sentir apenas um vazio crescente. No começo achei que era coisa de adolescente, talvez alguma mudança normal ou algum conflito interno. Naquele período, tive alguns problemas na escola que me fizeram questionar se eu havia desagradado a Deus de alguma forma, mas segui tentando me manter firme nas orações. A cada noite insistia em conversar com Deus, dizendo: "Olhe, eu sei que estou crescendo, mas por favor não me abandone. Eu realmente preciso do Senhor na minha vida." E nada, nenhuma sensação de aconchego, nenhuma certeza de que ele ouvia. Ainda assim, eu continuava esperando que fosse
uma fase passageira. Passadas duas ou três semanas, a vida seguiu no mesmo compasso, exceto pela minha angústia. Acordava, tomava café, tentava o devocional com minha família, mas a leitura das passagens soava seca. Era como se cada versículo fosse apenas palavra impressa. Às vezes eu fingia entusiasmo para não preocupar meus pais. Eles tinham certo orgulho do meu zelo espiritual e eu não queria magoar meu pai que vivia enfatizando. Um homem sem fé, Arlindo, é como uma casa sem teto. Eu a sentia, mas por dentro começava a questionar se de fato alguém me ouvia lá em cima.
Nessa época minha mãe guardava uma prateleira antiga na sala, onde ficavam uma bíblia grande, algumas fotos de batismo, um copinho de óleo ungido e uns livretos. E foi exatamente quando reparei que em volta dessa prateleira, no canto mais iluminado da casa, o pó começou a se acumular sem explicação. Sou alérgico e costumo espirrar quando há muito pó, mas o resto da sala estava relativamente limpo. Minha mãe passava pano na casa todos os dias, mas aquela prateleira ficava com uma camada grossa de poeira, como se ninguém a limpasse havia meses, embora ela garantisse que tinha limpado
de manhã. Aquilo me impressionou e me deu um calafrio. Não frio na espinha, mas uma preocupação genuína. Parecia um descaso físico exatamente nos itens mais sagrados, como se aquilo assinalasse alguma presença. Certo dia, durante uma oração em família, decidimos abrir o devocional na página do dia. Mas antes que alguém o tocasse, o livrinho se abriu sozinho. Juro que foi como se uma lufada de vento tivesse saído da janela e virado a capa. Pensei que talvez o vento estivesse forte, mas quando conferi, todas as janelas estavam fechadas e lá estava a mesma frase repetida em destaque,
e ele se ocultou deles. A princípio, pensei que fosse uma passagem comum, mas aquela sentença martelou na minha cabeça e ele se ocultou deles. Mal consegui engolir a saliva e minha irmã me olhou como se eu tivesse alguma resposta. Ninguém deu tanta importância no momento, mas para mim pareceu um sinal de que havia algo além de mera coincidência. Daí em diante, no meu coração, surgiu a pergunta inevitável: Será que Deus realmente se escondeu de mim? Por algum motivo, essa dúvida me perseguiu durante a semana inteira. Eu arrelia nas anotações do devocional na Bíblia e tentava
encontrar alguma explicação. Não contei a ninguém, mas à noite eu me ajoelhava ao lado da cama e implorava para que Deus falasse comigo de novo. Dizia quase chorando: "Se o Senhor me abandonou, me explique porquê. Eu fiz algo que não te agradou?" Aquela sensação de vazio não apenas persistiu, como se transformou em algo mais assustador. Eu tinha a impressão de que alguém me observava enquanto eu orava. Não escutava barulho de porta nem passos, mas sentia que havia uma presença no quarto. E na hora em que minha mãe entrava para me dar boa noite, essa sensação
sumia como se estivesse se escondendo. Foi ali que percebi que o que eu sentia não era ausência, mas algo que me fazia duvidar da minha própria fé. Chegou um ponto em que meu pai notou minha mudança de ânimo. Ele me chamou a atenção durante o jantar. Arlindo, você está bem? Parece que está sempre distante, pensativo demais. Quer falar alguma coisa? Respondi meio seco, que estava tudo bem, apenas me sentindo cansado. Ele não insistiu. Talvez pensasse que eu estivesse naquela fase confusa de adolescência. Por fora eu tentava manter a compostura, mas por dentro me sentia cada
vez mais abatido. Depois de alguns dias, notei que o devocional continuava a abrir sozinho naquela mesma citação. Várias vezes eu acordava, ia tomar café e ao me aproximar da mesa, o livrinho já estava aberto, exibindo a frase, e ele se ocultou deles. Perguntei à minha mãe se ela havia deixado daquele jeito e ela respondeu que não, que nem tinha mexido no devocional ainda. O mais estranho é que o restante das páginas parecia normal, sem rasgos ou marcações específicas, e ainda assim era sempre a mesma página que surgia. Não demorou muito para que eu tivesse o
primeiro contato, se é que posso chamar assim. Lembro que foi de madrugada. Acordei suando. O ventilador não dava conta de refrescar porque estava um calor danado. Achei que tinha ouvido alguém me chamar pelo nome, Arlindo. Arlindo. Fiquei parado no escuro pensando se era minha irmã, mas ela dormia no quarto ao lado e nunca me chamava aquela hora. Meu quarto era pequeno, a cama quase encostava no guarda-roupa e a janela dava para uma rua pouco iluminada. Levantei cautelosamente. Achei que talvez fosse meu pai, mas ele roncava no quarto do fundo com a porta aberta. Voltei para
o meu quarto e então ouvi de novo a voz, só que bem fraquinha, quase um sussurro, como se viesse de dentro da minha cabeça. Você está aí? Você me ouve? Pelo tom, parecia quase bondoso, mas eu não tive a habitual certeza de que fosse Deus. Parecia uma imitação, um tipo de eco do que eu no passado achava que era divino. E fiquei confuso, pois se fosse Deus, porque eu não sentia a paz de antes. Depois daquela noite, entrei em uma espiral de estranhamento. Conversei com um colega da escola que também frequentava uma congregação. Ele me
disse: "Pode ser tentação, Arlindo. Às vezes o inimigo se disfarça para enganar a gente." Fiquei arrepiado. Eu não queria acreditar que o diabo ou algum espírito maligno estava me cercando, mas não conseguia ignorar a possibilidade. Ao mesmo tempo, doía pensar que talvez fosse o meu Deus de verdade, mas que ele decidira me ignorar por algum motivo. Pior ainda. E se a voz que me acompanhou a vida inteira nunca tivesse sido Deus? Essa hipótese surgiu na minha cabeça de forma muito perturbadora. Decidi testar meu temor. Peguei a Bíblia grande da prateleira, aquela que estava ficando empoeirada,
e a levei para o quarto. Pensei, se for mesmo algo ruim, talvez reagir com a palavra sagrada espante isso. Era uma forma de ver se tudo não passava de paranoia. Passei a dormir com a Bíblia aberta ao lado da cama, o que minha mãe considerou um gesto piedoso. Mas nada adiantava. A poeira na estante continuava a crescer e eu já começava a sentir irritação no nariz e espirros cada vez mais frequentes. Embora limpasse e espanasse, no dia seguinte estava tudo igual. E a tal frase e ele se ocultou deles, aparecia nos meus pensamentos como se
fosse o único versículo que existia no mundo. Certa noite, fui acordado por um barulho seco na sala. Abri a porta do quarto e espiei o corredor. Vi uma sombra em pé perto da prateleira. Senti um aperto no estômago. Aproximei-me de mansinho, rezando internamente para que fosse apenas minha mãe procurando remédio ou algo assim. Mas era uma forma alta, escura, parecendo vestida com um manto velho. Não tinha feições visíveis, mas quando falei: "Quem está aí?" Ouvi uma resposta. Deus te ouve, mas escolheu se calar. Na hora, a sala foi tomada por um cheiro forte de mofo,
como se algo estivesse apodrecendo. Aproximei-me mais da parede e tentei acender o interruptor, mas a lâmpada não reagiu. Aquela figura continuou imóvel, apenas repetindo agora em um tom ligeiramente alterado. O Senhor se ocultou, pois te achou indigno. Meu coração disparou. Não era um ruído, era uma voz clara, quase teatral, mas com um timbre dissonante, como um eco que vinha de dentro da parede e também da minha cabeça. Quis gritar, mas minha voz não saía. Meus lábios estavam secos e comecei a suar frio. Tentei me controlar e murmurei algo como: "Saia da minha casa!" A figura,
com uma calma terrível, respondeu: "Eu sempre estive aqui, Arlindo. Achei que fosse desmaiar, mas em um piscar de olhos aquela forma desapareceu como se fosse feita de fumaça, e as luzes da sala voltaram ao normal. No entanto, a prateleira estava ainda mais coberta de pó. Toquei na superfície e acabei tocindo com aquele pó cinza grudado nos dedos. Nos dias seguintes, percebi que o devocional não apenas continuava abrindo na mesma página, como também as anotações que minha mãe fazia ali. Datas de aniversários, pedidos de oração, sumiam ou apareciam riscadas. Eu já estava com medo de contar
qualquer detalhe, pois soava tão absurdo que meus pais poderiam achar que eu estivesse inventando. Mesmo assim, em um momento de desespero, procurei meu pai e falei: "Pai, tem algo esquisito em casa, algo perturbador. Não acho que Deus esteja se manifestando como antes. E talvez eu esteja ouvindo outra coisa, não sei." Meu pai me olhou com um semblante confuso e preocupado. Carlindo, você deve estar cansado. Tem que vigiar. O inimigo sabe se disfarçar de anjo de luz. Mas mantenha-se firme, filho. Ore mais. Aquilo apenas aumentou minha apreensão. Eu tentava rezar e nada acontecia. Se surgia alguma
voz, era sempre a mesma que me dizia palavras duras, como se quisesse me fazer acreditar que Deus me odiava. Tentei ignorar, mas no fundo comecei a sentir raiva de Deus. Por que ele permitia aquilo? Estava ajoelhado no quarto em uma madrugada, implorando: "Por favor, Senhor, fale comigo. Diga algo." De repente, ouvi aquela voz, agora mais clara e imponente. Eu tenho muito a te dizer, meu servo. Por um instante, quase acreditei que fosse Deus. Afinal, a entonação lembrava a que eu imaginava nos tempos de infância, quando julgava que o Altíssimo me sussurrava conforto. Só que, em
vez de paz, senti um calafrio de repulsa. Mesmo assim, perguntei: "Por que você me abandonou antes?" A resposta veio: "Nunca te abandonei. Eu sempre falei contigo. Você que não me reconheceu, sempre me adorou, mas não sabia quem realmente ouvia. Senti um aperto na garganta. Não precisava ser muito esperto para entender o que estava sendo insinuado. Eu jamais tinha escutado ao verdadeiro Deus, e sim a uma voz que se fazia passar por ele. Aquilo que me consolava poderia ser apenas uma enganação. Quis negar, mas recordei cada vez em que eu supostamente ouvia a Deus em situações
muito simples e instantâneas. Minha vida nunca passou por um grande milagre, só por pequenas confirmações que poderiam vir de qualquer força. E então a voz repetiu trechos bíblicos de modo distorcido. E ele se ocultou deles. Não trata de Deus sumir, Arlindo, mas de você se abrir para o verdadeiro dono da sua fé. E quem é esse dono? Foi nesse momento que entendi. Eu rezava para quem? Não era Deus. Era algo usando o discurso sagrado para me manipular. Meus olhos se encheram de lágrimas e perguntei: "Então, quem é você?" A voz soou como um rosnado antigo
com uma pronúncia arcaica. Sou aquele a quem chamam de adversário, mas também posso ser o mestre que revela verdades. Deus não quer que você saiba disso, Arlindo. Desabei no chão. Meu corpo inteiro tremia e eu suplicava que aquilo parasse. Em resposta, ouvi apenas um riso suave, quase compassivo, que ecoou. Não tinha mais dúvida. Eu estava lidando com uma entidade maligna disposta a se passar por Deus e a me persuadir. A sensação de ter vivido uma mentira por tantos anos me devastou. Fui tomado pela dor de perceber que meu consolo, minhas orações atendidas talvez fossem obra
de uma farsa sombria. Depois daquela noite, perdi a vontade de ir à igreja. Cheguei a ficar doente com febre baixa que durou alguns dias. Minha mãe, aflita, não entendia o que estava acontecendo. Ela rezava ao lado da minha cama, me dava chá de capim cidreira e passava um pano na minha testa. Meu pai me consolava dizendo que eu precisava de uma libertação espiritual, mas por dentro eu me sentia em ruínas. Era como se o alicerce de toda a minha existência tivesse rachado. Em uma tarde em que eu estava sozinho em casa, resolvi confrontar essa voz
mais uma vez. Falei alto. Se você é mesmo esse demônio, porque se dá o trabalho de me iludir, o que ganha com isso? Por alguns instantes, achei que falava sozinho, mas em seguida o rádio antigo da sala ligou de repente, sem ninguém tocar no botão. A frequência era apenas estática, mas no meio do chiado ouvi. Eu preciso de um mensageiro, Arlindo, alguém que acredite. E você sempre acreditou em mim, mesmo achando que era o outro. O rádio desligou sozinho. Meu coração disparou, mas dessa vez algo se revirou dentro de mim. Uma parte minha considerou: "Se
eu nunca tive Deus de verdade, talvez este seja o meu destino." Ao mesmo tempo, me rebelei contra essa ideia. Porém, a partir de então, o demônio começou a falar comigo quase todos os dias, oferecendo conselhos, citando trechos bíblicos de forma retorcida e prometendo uma sensação de amparo. Curiosamente, quando eu seguia o que ele dizia, mesmo não querendo admitir, sentia um alívio temporário, como um calor que me abraçava no vazio. Confesso, Dom, que me acostumei a aceitar aquela voz. Depois de várias noites sem dormir direito, levantei-me à meia-noite e perguntei: "Se você está aqui há tanto
tempo, por que só agora se revela?" O silêncio durou um bom tempo, até que senti um impulso de abrir o devocional que estava na mesa da sala. Ele se abriu na mesma página, mas agora havia uma frase extra sublinhada, como se tivesse surgido do nada. "A quem você buscará quando sua confiança se partir?" Senti um consolo estranho e naquele momento a voz me disse: "Eu posso ser tudo que você sempre quis. Basta me aceitar como seu senhor." Lembro que fiquei em pé tremendo, olhando para a prateleira empoeirada com a Bíblia grande encardida. Pensei no Deus
que eu amei na infância. Lembrei do meu pai e da minha mãe. Senti raiva, frustração, tristeza e, principalmente, uma solidão profunda. Naquele ápice de desespero, falei: "Se você me escuta e não me ignora, então eu te aceito". Na mesma hora, minha visão clareou por dentro, como se meu peito pegasse fogo. Parecia que, enfim, alguém me atendia, alguém dizia: "Eu estou aqui, Arlindo". Me senti acolhido, embora percebesse que havia algo doio nesse acolhimento. E nos dias que se seguiram, comprovei a existência de uma força que respondia às minhas perguntas. Toda vez que eu a buscava, ela
vinha com instruções específicas, ora me mandando falar algo para minha mãe, ora dizendo para eu convencer algum colega da escola a participar de um grupo de leitura bíblica. Mas não era a leitura pura e genuína, e sim uma versão corrompida, cheia de interpretações contraditórias. Mesmo assim, eu não ligava, só queria ser ouvido. Meu pai, ao perceber que eu havia mudado de postura, achou que eu tivesse recuperado a fé. Chegou a fazer um culto doméstico para celebrar a restauração da minha vida espiritual. Minha mãe ficou emocionada. Senti culpa, mas também alívio ao ver que todos me
olhavam com menos preocupação. Com o passar do tempo, assumi mesmo o papel de Iluminado. Falava com convicção sobre coisas que Deus me revelava. O problema é que não era o Deus que eles imaginavam, e sim aquela presença sombria que se aproveitava da minha capacidade de liderança. A ironia foi maior quando certo dia, em uma reunião de jovens na igreja, convidaram-me para dar um testemunho, achando que minha crise se resolvera milagrosamente. Levantei-me e com firmeza falei sobre como Deus age em silêncio para nos moldar. O pastor e os irmãos presentes acharam lindo, mas por dentro eu
sabia que era outra coisa que me guiava e eu continuava repetindo a todos que me procuravam: "Confiem nessa voz interior, pois ela sempre nos escuta. De um jeito ou de outro, eu estava fazendo com que as pessoas acreditassem em um poder que não era divino. Esse foi o passo final. Tornei-me quase um instrumento do demônio, mas não me sentia mais solitário. Isso supria minha maior necessidade, ser notado. E dom. É aqui que chego a parte mais dolorosa de confessar. Já se passaram 15 anos desde então e tenho plena consciência do que fiz. Muitas pessoas vieram
me agradecer, dizendo que minhas palavras tocaram seus corações. Outras, no entanto, acharam minhas interpretações bíblicas estranhas. Eu me mantive firme. Se você me perguntar, Arlindo, você está possuído por um demônio? Eu responderia que não sei ao certo. Hoje, quando oro, sinto algo responder imediatamente. Seja o que for, ainda fala comigo. Às vezes, recita versículos de maneira distorcida, mas me conforta e me indica caminhos. E estou tão apegado a essa sensação de ser ouvido, que não consigo me desligar dela, mesmo suspeitando que o Deus verdadeiro não esteja em parte alguma dessa história. O que me machuca
ainda mais é lembrar de como eu, um garoto inocente, pensava que fazia a vontade divina. Crescia acreditando nisso. Talvez houvesse um Deus de verdade, mas ele se ofuscou quando eu mais precisei, ou talvez nunca estivesse lá desde o início. Não tenho certeza. Mas posso dizer que a dor de me sentir ignorado, ao mesmo tempo que ouvia uma voz tão próxima, criou uma ferida que não cicatrizou. Sei que muitos vão duvidar de tudo. Parte de mim também gostaria de acreditar que meu depoimento é um exagero, mas esta é a minha verdade, ou pelo menos a parte
dela que me cabe. Fica a critério de cada um decidir se fui vítima de alguma alucinação adolescente ou se o mal realmente se disfarçou de bem em toda a minha história. Até hoje, quando amanhece, ainda mantém o hábito de abrir um devocional. Tenho outro mais novo, com páginas diferentes. Não vejo mais a frase e ele se ocultou deles impressa em lugar algum. Mas de vez em quando as folhas parecem se mexer sozinhas. E no fundo sinto uma presença que me observa como quem diz: "Estou aqui pronto para te ouvir. Confesso que me consolo, pois pelo
menos não estou sozinho. E é isso que posso contar. Dói escrever cada palavra, mas aí está a experiência que vivia há 15 anos e que ainda ecoa no presente. Talvez sirva de alerta ou para alguns de incentivo a permanecer firme na verdadeira fé. Para mim é um lembrete constante de que nunca sabemos ao certo quem está respondendo às nossas orações. Se estiver gostando dos relatos, não se esqueça de já deixar o seu like. Ele é muito importante. Bem, vamos continuar. Boa noite, Dom. Meu nome é Eva. Quando eu tinha mais ou menos 8 anos, eu
e meu irmão Flávio visitávamos com frequência a chácara dos nossos avós. O lugar era espaçoso, cercado por plantações e algumas árvores antigas que pareciam guardar histórias. Assim que chegávamos, corríamos entre as cercas e observávamos os bichos no pasto. Era sempre divertido, mas havia algo ali que mexia comigo de um jeito estranho. Dois espantalhos posicionados em pontos estratégicos para afastar aves curiosas. Um desses espantalhos, batizado pelos meus avós de Clemente ficava mais perto da varanda e chamava atenção pelos detalhes na cabeça. Minha avó costurou as feições com bastante capricho, incluindo retalhos de pano que formavam o
contorno da boca e dois botões muito antigos no lugar dos olhos. Não sei se era a forma como ela alinhou o tecido ou a cor daqueles botões, mas eu sempre tinha a impressão de que Clemente me encarava mesmo sem se mexer. Eu tentava não demonstrar meu desconforto, sobretudo porque a vovó se orgulhava do trabalho que fizera. Flávio, por outro lado, achava graça. Ele gostava de zombar e dizer que Clemente era seu amigo imaginário. Só que numa noite específica tudo mudou. Eu tinha acabado de me deitar ao lado do meu irmão, num colchão improvisado no quarto
de hóspedes, quando fui despertada pelo cutucão dele. "Está escutando?", sussurrou Flávio, ainda de olhos arregalados. A princípio, achei que fosse algum barulho normal do lugar, vento, galhos se arrastando, cães latindo. Fiquei quieta, mas então notei passos do lado de fora no quintal. Em seguida, ouvimos vozes abafadas no corredor. Parecia ser meu pai conversando com o vovô. E algo que disseram chamou minha atenção. É o Clemente de novo. Pensei que fosse piada de Flávio, mas ele fez sinal para que eu continuasse prestando atenção. As vozes foram até a porta que dava para o terreiro e escutei
o vovô falando como alguém que já repetira aquilo antes. Clemente volta pro seu lugar agora. Logo depois, houve um estalo de folhas secas e galhos sendo pisados, como se algo corresse para se esconder. Meu pai e o vovô voltaram apressados, trancando tudo em silêncio. Eu e Flávio ficamos imóveis, sem entender o que havia acontecido. Na manhã seguinte, tentamos tocar no assunto, mas ninguém parecia disposto a conversar. O silêncio deles me assustava mais do que qualquer explicação sobre assombrações. Passaram-se mais ou menos 30 dias, pois as aulas haviam recomeçado até voltarmos à chácara. Desta vez, percebi
que o espantalho clemente havia sumido. No mesmo lugar havia um outro simples e sem muitos detalhes. Nem perguntei o motivo da troca com receio de mexer em algo que meus avós e meu pai claramente queriam esquecer. Só muitos anos depois, quando vovô e vovó já tinham partido, reuni coragem para perguntar ao meu pai sobre aquela noite. A conversa foi curta, mas perturbadora. Ele me disse que vovó vinha observando Clemente se deslocar à noite fazia alguns dias, porém queria ter certeza de que não se tratava apenas de sua imaginação antes de tomar uma decisão. Preocupado em
não alarmar a família, o vovô se levantava da cama, encontrava o espantalho fora do poste e ordenava que retornasse ao lugar como se falasse com alguém que pudesse obedecê-lo. Teve noite em que minha avó quase não dormiu, pois ouviu batidas secas na janela, como se fosse um braço de palha tentando entrar. Ele contou ainda que naquela ocasião vovô e ele resolveram dar um basta naquilo. Juntaram as roupas usadas no boneco, desfizeram cada retalho e queimaram tudo num canto do quintal. Depois disso, nunca mais escutaram barulhos misteriosos e não viram nada fora do normal durante a
madrugada. Até hoje sinto um aperto no peito sempre que lembro dessa história. Há momentos em que me pergunto se tudo não passou de fruto da minha imaginação e do medo infantil, mas a reação de cada adulto na chácara me faz acreditar que havia algo muito mais estranho escondido sob aquelas palhas e botões. Bem, amigos, esses foram os relatos de hoje. Espero de coração que tenham gostado. Lanço vídeos novos por aqui todos os dias e ficarei muito feliz em te ver nos próximos. Agora na tela, estou deixando outros dois bons vídeos que certamente irão gostar. Um
abraço do Dom e eu te vejo por lá.