Vidas Secas romance de Graciliano Ramos diretor de dublagem Gustavo Lisboa Capítulo 7 inverno a família estava reunida em torno do fogo Fabiano sentado no pilão caído sim a vitória de pernas cruzadas as coxas servindo de travesseiros ao S filhos a cachorra baleia com o traseiro no chão e o resto do corpo levantado olhava As Brasas que se cobriam de Cinza estavam frio medonho as goteiras pingavam lá fora o vento sacudia os Ramos das catingueiras e o barulho do rio era como um trovão distante Fabiano esfregou as mãos satisfeito e empurrou este sonhos com a ponta
da alpercata As Brasas instalaram a cinza Caiu um círculo de luz espalhou-se em redor da trempe de pedra clareando vagamente os pés do Vaqueiro o joelho da mulher e os meninos deitados de quando em quando este se mexiam porque o lume era fraco e apenas aquecia deles outros pedaços esfriavam recebendo o ar que entrava pelas rachaduras das paredes e pelas gretas da janela por isso não podiam dormir quando iam pegando no sono arrepiavam-se tinham precisão de virar-se chegavam-se a trempe e ouviam a conversa dos pais não era propriamente conversa eram frases soltas espaçadas com repetições
e incongruências às vezes uma interjeição cultural dava energia ao discurso ambíguo na verdade nenhum deles prestava atenção as palavras do outro e a mexibindo as imagens que eles vinham ao espírito e as imagens sucediam-se deformavam-se não havia meio de dominá-las como os recursos de expressão eram minguados tentavam remediar a deficiência falando alto Fabiano tornou a esfregar as mãos e iniciou uma história bastante confusa mas como só estavam iluminadas dele o gesto Passou despercebido o menino mais velho abriu os ouvidos atento se pudesse ver o rosto do pai compreenderia Talvez uma parte da narração mas assim
no escuro a dificuldade era grande levantou-se foi a um canto da cozinha trouxe de lá uma abraçada de lenha sim a Vitória aprovou este ato com um rugido mas Fabiano condenou a interrupção achou que o procedimento do filho revelava falta de respeito e estirou o braço para castigá-lo o Pequeno escapuliu-se foi enrolar-se na saia da mãe que se pôs francamente do lado dele que brabeza aquele homem era assim mesmo tinha o coração perto da goela estourado remexeu As Brasas com o cabo da de coco arrumou entre as pedras achas de Angico molhado procurou acendê-las Fabiano
ajudou-a Suspendeu a tagarelice de quatro pés e soprou os carvões enchendo muito as bochechas suspirava atiçando o fogo com o cabo da de coco Deus não permitiria desse tal desgraça a casa era forte os esteios de aroeira estavam bem fincados no chão duro se o rio chegasse ali derrubaria apenas os Torrões que formavam o enchimento das paredes de taipa Deus protegeria a família as varas estavam bem amarradas com cipós nos esteios de aroeira o arcabouço da casa resistiria a fúria das águas e quando elas baixassem a família regressaria sim viveriam todos no mato como preás
mas voltariam quando as águas baixassem tirariam do Barreiro terra para vestir o esqueleto da casa tinha Vitória moveu o abano com força para não ouvir o barulho do Rio que se aproximava seria que ele estava como intenção de progredir o abano zumbia e o rumor da enchente era um sopro um sopro que esmorecia para lá do juazeiros Fabiano contava façanhas começaram a moderadamente mas esse cara se pouco a pouco e agora via os acontecimentos como mensageiro e otimismo estava convencido de que praticar efeitos notáveis necessitava esta convicção algum tempo antes acontecer Aquela desgraça o soldado
Amarelo provocara ou na feira deram-lhe uma surra de facão e meter ao na cadeia Fabiano passar a semanas capiongo fantasiando vinganças vendo a criação definhar na Caatinga torrada se a seca chegasse ele abandonaria mulher e filhos correria a facadas o soldado amarelo depois mataria o juízo promotor e o delegado estiveram uns dias assim murcho pensando na seca e roendo a humilhação mas a trovoada com o cara vieram cheia e agora as goteiras pingavam o vento entrava pelos buracos das paredes Fabiano estava contente e esfregava as mãos como o frio era grande aproximou-as das Labaredas relatava
um fuso é terrível esqueci as pancadas e a prisão sentia-se capaz de Atos importantes o rio subia a ladeira estava perto do juazeiros não havia notícia de que os houvesse atingido e Fabiano seguro baseado nas informações dos mais velhos narrava uma briga de que saíra vencedor a briga era sonho mas Fabiano acreditava nela as vacas vinham abrigar-se junto a parede da casa pegada ao Curral a chuva fustigavas os chocalhos batiam iria me engordar com o pasto novo dar crias o pasto cresceria no campo as árvores se enfeitariam o gado se multiplicaria engordariam todos ele Fabiano
a mulher os Dois Filhos e a cachorra baleia Talvez sim a Vitória adquirir-se uma cama de lastro de couro realmente o Girau de varas onde se espichavam era incômodo Fabiano gesticulava sim a Vitória agitava o abano para sustentar as labaredas no Angico molhado os meninos sentindo frio numa banda e calor na outra não podiam dormir e escutavam as lorotas do pai começaram a discutir em voz baixa uma passagem obscura da narrativa não conseguiram entender-se arengaram azedos iam se atracando fabianos zangou-se com a impertinência deles e quis punê-los depois moderou-se repurou o trecho incompreensível utilizando palavras
diferentes o menino mais novo bateu Palmas Olhou as mãos de Fabiano que se agitavam por cima das Labaredas escuras e vermelhas as costas ficavam na sombra mas as palmas estavam iluminadas e cor de sangue era como se Fabiano tivesse esfolado um animal a barba ruiva e emaranhada estava invisível os olhos azulados e Imóveis fixavam-se nos tições a fala dura e rouca entre cortava-se de silêncios sentado no pilão Fabiano guerreava-se feio e bruto com aquele jeito de bicho lerdo que não se aguenta em dois pés o menino mais velho estava descontente não podendo perceber as feições
do pai cerrava os olhos para entender o bem mas surgiram uma dúvida Fabiano modificar a história e isto reduzir ali a verossimilhança um desencanto estirou-se e bocejou Teria sido melhor a repetição das palavras ao tercaria com o irmão procurando interpretá-las brigaria por causa das palavras e a sua convicção incorparia Fabiano devia tê-las repetido não apareceram uma variante o herói tinha se tornado humano e contraditório o menino mais velho recordou-se de um brinquedo antigo presente de seu Tomás da bolandeira fechou os olhos reabriu o sonolento o ar que entrava pelas rochas das paredes esfriava-lhe uma perna
um braço todo o lado direito virou-se os pedaços de Fabiano sumiram o brinquedo se quebrar o pequeno entristecer a vendo as peças inúteis lembrou-se dos currais feitos de seixos Miúdos sobre as catingueiras agora a lagoa estava cheia cobertos currais que ele construirá o Barreiro também se enchera atingia a parede da cozinha as águas dele juntavam-se as da Lagoa para ir ao quintal onde havia craveiros e panelas de losna sim a Vitória saía pela porta da frente descia o copiar e atravessava a porteira da Baraúna atrás da casa a cercas o pede turco e as catingueiras
estavam dentro da água as goteiras pingavam os chocalhos das vacas tinham os sapos cantavam o som dos chocalhos era familiar mas a cantiga dos sapos e o rumor das goteiras causavam estranheza tudo estava mudado chovia o dia inteiro a noite inteira as moitas e capões de matam Onde viviam seres misteriosos tinham sido violados havia lá sapos e a cantiga dele subia e descia uma toada lamentosa enchia os arredores tentou contar as vozes atrapalhou-se eram muitas Com certeza havia uma infinidade de sapos e nos capões estariam fazendo porque gritavam a cantoria gorgolejada e triste nunca viram
deles confundia os com os habitantes invisíveis da Serra e dos bancos de Macambira enrolou-se acomodou-se adormeceu uma banda aquecida pelo fogo a outra banda protegida pelas nádegas de sim a Vitória o abano agitava-se a madeira úmida chiava O Vulto de Fabiano iluminava-se e escurecia baleia imóvel paciente olhava os carvões e esperava que a família se recolhesse em fatiava o barulho que Fabiano fazia no campo seguindo uma vez ele se esgoelava demais natural mas ali à beira do fogo para que tanto grito Fabiano estava se cansando à toa baleia se enjoava cochilava e não podia dormir
sem a Vitória devia retirar os carvões e a cinza varrer o chão deitar-se na cama de várias com Fabiano os meninos se arrumariam na esteira por baixo do caritó na sala Era bom que a deixassem em paz o dia todo espiava os movimentos das pessoas tentando adivinhar coisas incompreensíveis agora precisava dormir livrar-se das Pulgas e daquela vigilância que tinham habituado varrido o chão com Vassourinha escorregaria entre as pedras enroscar seria adormeceria no calor sentindo o cheiro das Cabras molhadas e ouvindo rumores desconhecidos o tic tac das pingueiras a cantiga dos sapos O sopro do Rio
cheio bichos Miúdos e sem dono iriam visitá-la