Narrativas compartilhadas. Então, continua ouvindo a professora Tânia Boy, agora saindo de São Paulo com toda aquela experiência dela dentro do teatro-escola como professora de Literatura e Língua Portuguesa. Vendo agora chegando a Sorocaba, então Tânia, com você, a continuidade dessa linda história.
Então, quando eu venho para ser o cabo, é uma decisão pessoal de voltar para a cidade, a morar em Sorocaba. Estava morando em São Paulo e aí eu começo a trabalhar na escola Jeu Ageu Pereira. E aí, lá de novo como professora de Português, logo já proponho fazer teatro.
Tive muito apoio da direção; na época, o diretor se mostrava bastante favorável. Eu vou fazendo pequenos exercícios e movimentos porque, de novo, tem que ganhar a confiança da direção, mostrar o resultado, mostrar que é possível montar um grupo de teatro na escola. Porque se você chega e já propõe, as pessoas desconfiam: “Se acabou de chegar, quem é você?
”. Então, o primeiro passo é fazer nas aulas de Português, mostrar o resultado e aí sim propor a criação de um grupo. E novamente o comércio nas aulas de Português, criando esses fazeres ali no cotidiano, sempre mostrando, convidando a direção, convidando outros alunos, e vivenciando o teatro, dando oportunidade para aqueles alunos vivenciarem.
E aí, há uma retomada de oficina cultural, não é? Que eu tinha me afastado da cidade a buscar e, nesse percurso de fazer teatro com os alunos e de buscar, vou reencontrando pessoas daqui que fizeram teatro comigo antes e durante a universidade. Essa reaproximação.
E depois eu me mudo de escola; eu tive que pedir transferência para a escola do bairro do Éden. E lá eu vou permanecer durante 17 anos, até a minha aposentadoria, que ocorreu este ano. Eu vou permanecer na Cola no Gualberto Moreira do Éden.
E quando eu chego no Gualberto, de novo tem que recomeçar. Cada vez que você muda de escola, precisa ganhar a confiança, criar um ambiente propício para poder criar o teatro, conseguir fazer esse percurso, mostrando meu fazer quanto o teatro acrescentava para a escola. O diretor me deu apoio para criar um grupo e aí eu criei um grupo de nenéns no cotidiano escolar, também saindo aos sábados.
Então, em paralelo às aulas de Português, onde eu faço momentos de fazer teatral, em paralelo tem um grupo com os alunos do ensino fundamental e no ensino médio. Alguns do fundamental, mas basicamente do ensino médio, para participar de festivais. O diretor, quando eu falei que eu fazia teatro, teve a intenção de participar de concursos e festivais, mesmo do estado.
Naquele momento, o governo do estado de São Paulo, o secretário da cultura, o Chalita, e eles estavam promovendo vários festivais e incentivos do fazer artístico, principalmente de teatro. E aí o diretor ficou muito interessado e eu comecei a fazer o grupo de teatro para montar o espetáculo e participar de festivais. E aí foi um trabalho árduo, de muita dedicação, muito envolvimento, mas com muito apoio da comunidade, o envolvimento dos pais, de pessoas e artesãos da comunidade que ajudavam a fazer o cenário, figurino, envolvimento de toda a escola participando, apoio da direção.
Eu criei o grupo “Já Teresa e Companhia”. Já Teresa porque foi uma professora que cedeu roupas antigas, bem velhas, com as quais nós usamos os primeiros figurinos do grupo. Nós montamos vários espetáculos, todos os anos um espetáculo novo para participar.
E foram muitos festivais: festival do Sesi, festival da Secretaria da Cultura da cidade de Sorocaba e muitos prêmios, várias instâncias, né? E oportunidade de divulgar o trabalho desse grupo que eu tive na escola. Vários se tornaram atores, artistas, mesmo que vivem do teatro, do fazer artístico.
Hoje tenho muito orgulho e convivência com eles até hoje. Já são meus filhos, seriam seus netos, Roberto. E com muita vivência, né?
E fazer cada vez mais envolvente na cidade me levou à intenção de fazer algo mais, né? Então eu fui buscar fazer o mestrado e cheguei no mestrado com a proposta de compreender a contribuição do fazer teatral na escola, o teatro estudantil. E aí, com esse tema, eu desenvolvi a minha dissertação de mestrado sobre o teatro estudantil e o quanto isso contribuiria para a constituição de cada pessoa que participava do grupo.
Eu usei Fukuyama e as tecnologias dele para falar da subjetivação, da constituição dessas experiências que são diversas, do cotidiano escolar, que o teatro traz para cada pessoa que participa e como ele pode se constituir de forma diferente de outras vivências que a escola traz, né? E foi um trabalho que me trouxe muita realização, muita alegria, né? E foi um trabalho bem escrito e bem orientado.
A professora Maria Lúcia Amorim foi minha orientadora e na banca minha orientadora foi a professora Ingrid, que já era professora da Unisul nessa época; ela era professora do curso de teatro. Ela era professora da USP já e era professora do curso de teatro da Universidade de Sorocaba. Ela foi da minha banca e, durante a defesa, ela chamou a minha atenção: “Este parágrafo aqui do seu trabalho”, o seu doutorado, que era um momento em que eu falava sobre o protocolo, que é um exercício de escrita no processo de formação daquele grupo.
Nós usávamos o protocolo e essa prática da escrita vem de Brecht, esse teatro alemão, que usava. Ele tinha o hábito de escrever diários e pede aos seus atores esse processo de escrita. E aí ela fala: “O seu doutorado aqui na ordem”, nem entendi o que era exatamente, mas ela me convidou para fazer o doutorado na Universidade de São Paulo como sua orientanda.
E eu fiz. O processo. Escrevi o projeto inspirado ali, ainda nessa Intouch.
Ando por onde eu ia trilhar, e realmente eu entrei no doutorado sendo orientando da professora Ingrid. Com ela, fiz o meu doutorado pesquisando exatamente o protocolo. Então, a contribuição desse exercício da escrita na formação do professor de teatro é o quanto esse exercício da escrita.
Desse, aí eu vou usar essa escrita para a formação do professor. Foi o meu trabalho defendido na tese que traz a fundamentação do protocolo como gênero discursivo. Ele é híbrido; ele tem um gênero textual que o seu autor quiser: pode ser uma poesia, pode ser uma narração, uma descrição, uma carta.
É a vivência da prática teatral. Então, esse gênero, o protocolo, é o que eu defendo no meu trabalho de doutorado. E aí eu comecei a trabalhar, ao convite, para começar a trabalhar aqui na universidade, no curso de teatro.
Meu começo foi no ano de 2010. Aliás, em 2007, eu acompanhei a professora, lembro como assistente, professor assistente, e de lá para cá, depois, em 2010, eu me tornei professora do curso, já assumindo as aulas, já como teatro infantojuvenil, além das aulas de intertextualidade nas artes, até no curso de Letras. E aí eu vou acompanhar a história do curso de teatro na universidade.
Em 2010, a Uniso abre, expande o curso de teatro, que nasceu em 2004. Então, em 2010, nós temos a ampliação, iniciam os cursos de artes visuais, dança, teatro e música, junto com o teatro. Temos os quatro cursos juntos, parte da grade é conjunta, porque todos eles formam um professor de arte e específicos para as aulas, específicas para trabalhar aquela linguagem.
E de lá para cá, em 2012, me tornei coordenadora dos cursos de artes visuais, dança, teatro e música. Era o professor Cadmo; eu me tornei coordenadora e professora do curso de teatro. E de lá para cá, fizemos muitas modificações, foram muitas alterações na grade, no currículo, focando exatamente que nosso curso não é bacharelado; nosso curso é licenciatura.
Então, tivemos no início do curso uma tentativa de transformá-lo em bacharelado, mas que exige questões muito específicas técnicas. Depois, fizemos a opção de focar na formação do professor de arte. E houve uma transformação do que o curso da Uniso fez na cidade de Sorocaba.
Eu fui da comissão da LINC de aprovar o projeto, analisar projetos para aprovar a Lei de Incentivo à Cultura LINC de Sorocaba. Recebi projetos antes do curso de teatro da Uniso; os trabalhos têm uma qualidade, quando a entrada do curso de teatro formando — um grupo de pessoas, pressa para essa área — aprendendo a fazer projetos. A transformação da qualidade dos projetos apresentados à LINC é impressionante; é um salto completo, porque a qualidade dos trabalhos que vão sendo aprovados, projetos de teatro oferecidos à cidade, é enorme.
Hoje, nós temos gerações inteiras formadas pelo curso de teatro da Uniso, e que já contribuem para a formação artística na cidade. Muitos já são professores, estão na rede como professores de arte, fazendo teatro. A Anara, na LDB de 1996, passou a ser componente curricular obrigatório.
Desde 1996, a arte passou a ser um componente curricular obrigatório; antes disso, era apenas uma atividade. Então, a arte, de 1996 para cá, se tornou um componente curricular obrigatório. E, desde 1996, ela tem que trabalhar com as quatro linguagens: o professor de arte tem que trabalhar com artes visuais, dança, música e teatro.
A Uniso traz essa formação para o seu aluno, da vivência das quatro linguagens durante o processo de formação, que, como temos os quatro cursos, cada aluno tem um pouco de cada linguagem no seu processo de formação. Então, eles saem professores completos. E aí, nesses anos todos, já são 14, quase 15 anos de professores formando professores de arte na cidade e na região, com essa formação nas quatro linguagens.
Então, hoje, os alunos desta cidade e das cidades da região também têm professores de arte com formação para possibilitar a experiência acadêmica lá no ensino fundamental e no ensino médio, nas quatro linguagens. Eu não tive como aluna, eu não tive o teatro na minha experiência como aluna de arte, e hoje, com essa formação que o professor de arte aqui na universidade recebe, sabemos que eles estão nas redes municipal, estadual e particular, fazendo arte, dando aula de arte, do componente curricular arte, trabalhando com as quatro linguagens. Então, hoje eu sei que o aluno que está na escola tem a vivência do teatro, assim como tem da dança, música e das artes visuais, que era o que eu gostaria de ter tido como aluna.
Eles experimentam desde cedo. Hoje, nossos professores têm esse conhecimento e capacidade técnica de experimentar com seus alunos as várias linguagens e os fazeres artísticos. E também, os grupos na cidade de Sorocaba, que hoje são muitos, têm pessoas formadas pela universidade que já buscam o mestrado.
São diversos grupos, como o grupo Troteatro, Pé Nativos, Terra Rasgada, que são ex-alunos do curso de teatro e que são profissionais hoje; vivem do fazer teatral na cidade, trabalham também com a educação. Pessoas que estão lá, que buscam um mestrado e especialização, são pesquisadores. Então, o fazer artístico deles é de pesquisa.
Isso mudou todo o panorama teatral da cidade de Sorocaba. Hoje temos grupos que fazem teatro, buscando a linguagem, buscando o contemporâneo, buscando descobrir novas propostas e fazeres no teatro. Então, são muitas pessoas, como Carlos Doles, como Flávio Mello, muitas pessoas nesta cidade que buscam no teatro a sua forma de expressão e construção de consciência da sociedade, a luta de fazer pela arte, que é uma luta de resistência.
Nós lutamos a cada dia para ter espaço e apoio do fazer artístico e também de conscientização de toda a sociedade. Né? O ProAC, por exemplo, que é uma lei de incentivo à cultura do estado de São Paulo, há dois anos atrás ofereceu para todo o interior do estado de São Paulo apenas 66 espetáculos teatrais.
É uma quantidade irrisória para um estado que tem milhões de pessoas oferecer apenas seis. Então, esses artistas todos lutam para que haja mais incentivo à cultura tanto na cidade de Sorocaba quanto no estado de São Paulo, que haja busca de mecanismos e que nós possamos fazer o teatro levar a arte para todas as instâncias da sociedade, como o apoio sim governamental, que tem ONGs, que tenham aparelhos culturais do estado que permitam que a arte chegue a todos. Que haja essa situação em que todos tenham acesso à cultura e não apenas quem tem condições de pagar o ingresso.
Né? Em Sorocaba, nós temos o SESC e o SESI, que oferecem cursos e espetáculos a baixo custo ou de graça, nem correndo riscos. Pois o código, exatamente, o político é exatamente neste momento.
Agora, eu acabei de saber esta semana que 20% será cortado no SESI. O SESC também vai ter que fazê-lo. Então, é uma tristeza viver esse momento, mas nós não desistimos e não desistiremos.
Faremos a luta de que a arte é um direito humano; todos os humanos têm direito a ter a arte e a sua vida, porque é uma linguagem, é uma forma de expressão humana. Desde os primórdios, o homem se comunica através da arte. Lá nas cavernas, se dançava, se pintava, se faziam rituais de dança e de representação, porque é uma necessidade humana e nada mudou.
Isso não faz artístico, artístico ou mesmo a condição, a necessidade humana é a mesma. Então, a sociedade tem que olhar pra isso e ver que nós temos que manter os aparelhos culturais funcionando na cidade e no estado, para que todos tenham acesso e não apenas quem tem dinheiro e pode pagar um curso, uma formação à parte. Que haja oportunidade para todos de vivenciar, descobrir e usar a arte como forma de expressão e de comunicação, porque a arte é uma linguagem.
É uma luta que nós travamos diariamente e não vamos desistir. Fazendo uma pergunta a você nesse processo todo de informação, né, alunos, você percebe que, ao saírem, eles se tornam professores, né? A maioria, mesmo um número bem significativo, história nos mostra.
Como que você vê nesse acompanhamento? Porque você falou: "Eu encontro, às vezes, alunos também nos teatros da praça, rua. " E vencem para 115, que muitos exemplos daquilo.
É? E fazendo caminho em São Paulo também, com toda essa dificuldade, né? Mas como que é?
E se enveredar? É porque há muita dificuldade neste começo. Então, uma pequena visão recente: o curso da Uniso forma licenciatura, então ele informa professor, mas ao experienciar técnicas diversas, de fazeres da linguagem teatral em muitas instâncias.
E cada aluno pode buscar o seu interesse. Então, nós temos pessoas que saíram do curso e trabalham no teatro de animação, outros foram para o Teatro dos Satyros em São Paulo, a peça Roswell, que buscava aquela forma de fazer teatral. Outros se tornam artistas na cidade e fazem o teatro, têm a sua luta na nossa cidade e que mudam o panorama da cidade.
E outros decidem ficar no ambiente da escola, ser professor de arte e fazer a sua contribuição fundamental na formação das crianças no cotidiano do ambiente escolar. O curso possibilita essas várias escolhas, então depende do desejo de cada um. Cada um busca o seu sonho, se quer se especializar como ator, como diretor ou como professor.
Então, o aluno da nossa graduação pode tirar o TRT, o registro profissional, e trabalhar como ator e diretor profissional. Ele pode também atuar como artista, mas uma grande maioria, Roberto, trabalha nos dois. Na nossa cidade, ele é artista, tem o seu grupo, faz o seu espetáculo e também é professor.
Por isso, o arte-educador, o professor de artes é, com certeza, então, logicamente, ele percebe. Você, com essa paixão toda por aquilo que você faz, é uma pessoa muito feliz também com o que faz, o que é evidente. Você é uma grande educadora.
Nós acompanhamos. Uma pena que eu não consegui ver muitas coisas que você fez por causa do trabalho do dia a dia, mas ficava feliz vendo-a fazendo isso. Mas, infelizmente, não consegui ficar lá, mas algumas coisas consegui ver.
Mas eu queria que você falasse agora: eu quero ser professora, ser professor, é construir junto com os alunos o conhecimento e a vivência, mas é principalmente continuar aprendendo. O professor é um eterno aprendiz. Ele continua guiando o aluno por aqueles conteúdos que ele já domina, mas a cada geração.
. . Eu, nos meus 30 anos como professora, fui aprendendo e me modificando, com cada aluno pude aprender coisas novas.
O que a nova geração vem trazendo, os novos desafios, e continuar sempre nesse caminho de ser aprendiz. Eu acho que o professor nunca pode desistir de se constituir como um professor, mas sempre tendo esse lado de continuar aprendendo, porque ninguém é um ponto final. Nós somos sempre uma reticência; sempre tem algo a mais para vir, para descobrir e aprender.
Então, um eterno aprendiz. Daniela, é muito obrigado pela sua participação. Eu fico muito feliz em ver toda essa sua história belíssima e que você continue fazendo essas coisas.
Parabéns pelos 30 anos da sua aposentadoria! Em nome de todos os seus alunos que você formou, eu quero que você sinta a energia e a beleza dessa profissão. Bem, muito obrigado!
Deus abençoe você. Obrigado por essa história, e nós, aqui do Narrativas Compartilhadas, agradecemos. Até a próxima história contada com tanta beleza!