O suor ainda escorria da minha testa quando entrei na minha garagem às 11:30 daquela noite de terça-feira. Mais uma corrida tarde da noite pela área industrial da cidade, passando pela antiga usina abandonada e pelos bairros onde os postes piscavam como velas prestes a pagar. Eu estava precisando dessas corridas mais do que nunca ultimamente. Tinha alguma coisa no ritmo dos meus pés batendo no asfalto rachado que ajudava a calar o barulho dentro da minha cabeça. Mas naquela noite, esse silêncio acabou no instante em que eu vi o Honda Civic surrado do Bruno parado torto em frente
de casa. Bruno Moreira, o namorado da minha filha de 19 anos, a Emília. Um moleque metido, daqueles que fazem meia dúzia de aulas de administração na faculdade e já se acham empresários. O tipo de garoto que sempre olhava para mim como se eu fosse alguma coisa grudada na sola do tênis dele, só porque eu era dono de uma oficina mecânica e não usava terno para trabalhar. Eu estava prestes a entrar quando ouvi a voz dele cortando o ar da noite. Bruno estava encostado no carro, com celular no ouvido, falando alto bastante para acordar a vizinhança
inteira. "Cara, você não vai acreditar no que aconteceu hoje", ele dizia com aquela satisfação arrogante na voz que eu tinha aprendido a odiar. Finalmente consegui deixar as duas exatamente onde eu queria. A mãe e a filha no mesmo cômodo e eu gravei tudo. Mano, isso vai ser lendário. Meu sangue gelou na mesma hora. Eu me aproximei devagar, ficando nas sombras entre a cerca viva do vizinho e a minha entrada. Bruno continuava ali, sem perceber minha presença, falando demais, como sempre. Eu tô falando. Foi tipo manhã de Natal. A esposa já tava bêbada e a filha
tentando pagar de inocente, mas as duas estavam praticamente implorando. Gravei coisa que faria atriz por não ficar sem graça. Esse vídeo vai valer uma fortuna. O mundo pareceu tombar. Minha esposa Carla, minha filha Emília. Aquele desgraçado estava falando da minha família como se elas fossem objeto, como se fossem diversão particular dele. Eu saí das sombras. Bruno, o garoto pulou quase um metro, por pouco não derrubando o celular. Quando me viu, o rosto dele passou por umas seis expressões diferentes antes de parar numa falsa casualidade. Ah, oi, seu Nicolas. Eu tava só só indo embora. Me
mostra o vídeo. Que vídeo? Eu não sei do que o senhor tá. Me mostra a [ __ ] do vídeo, Bruno. Ou eu pego esse celular e enfio tão fundo na sua garganta que você vai mandar mensagem pelo intestino. Minha voz saiu calma, quase fria. Mas devia ter alguma coisa no meu tom que convenceu o moleque de que eu não estava blefando. As mãos dele tremiam enquanto abria o celular. Olha, não é o que o senhor tá pensando, tá? Foi só uma brincadeira. A gente estava só zoando. Mostra. Ele se atrapalhou todo com a tela.
Por fim, estendeu o aparelho na minha direção e eu vi meu pior pesadelo se confirmar. Lá estava minha esposa Carla, Jogada no sofá da sala com sua camisola de seda, uma taça de vinho na mão e aquele sorriso frouxo que ela dava quando já tinha passado da conta. E lá estava Emília sentada no chão, ao lado do sofá, visivelmente desconfortável, mas sem ir embora. Só que não era o que eu pensei num primeiro instante. Enquanto eu olhava, a voz do Bruno saía detrás da câmera, fazendo comentários nojentos, sugestões imundas. Mas nem Carla nem Emília estavam
fazendo nada sexual, nada. Elas só estavam ali cada vez mais desconfortáveis enquanto aquele lixo continuava filmando e falando porcaria. "Desliga", eu disse. Bruno fechou o vídeo na hora, mas o estrago já estava feito. Aquele moleque doente tinha entrado na minha casa, filmado minha família, falado com elas como se fossem prostitutas e feito as duas se sentirem desconfortáveis dentro da própria casa. "Seu Nicolas, eu posso explicar?" Eu agarrei à frente da camisa dele e o joguei contra o carro. O som das costas batendo na lataria coou pela rua silenciosa. Escuta muito bem, seu pedaço de lixo.
Se eu te vir perto da minha casa de novo, se eu te vir perto da minha filha de novo, se eu sequer ouvir seu nome sendo citado junto da minha família, eu acabo com você. Entendeu? Você não pode me ameaçar. Eu vou chamar a polícia. Eu ri. E não foi uma risada bonita. Vai lá. Chama, explica para eles como você estava filmando mulheres escondido dentro da casa delas, fazendo comentário sexual e produzindo conteúdo que qualquer promotor decente chamaria de abuso e exploração. Vamos ver no que dá. Eu soltei a camisa dele e dei um passo
para trás, mas ainda não tinha terminado. Tirei minha chave e arrastei pela lateral do carro dele, da porta dianteira até o para-choque traseiro, deixando um risco fundo. A boca dele caiu aberta. Você riscou o meu carro. prova. Dei a volta, agachei perto do pneu dianteiro e enfiei a chave na válvula. O ar começou a escapar num chiado comprido. Você é louco, completamente maluco. E você tá invadindo propriedade particular. Sai do meu terreno. Bruno se enfiou no carro e tentou arrancar com o pneu murcho. O Ronda saiu mancando do meio fio, soltando um som ridículo enquanto
a roda raspava no asfalto. Eu fiquei parado na garagem, vendo as lanternas traseiras sumirem na esquina, e foi aí que percebi dona Dalva da casa da frente, parada atrás da janela, com o celular na mão, provavelmente gravando tudo perfeito. Até a manhã seguinte, metade da rua já ia saber que Nicolas Tavares tinha surtado e partido para cima do namorado da filha. Entrei em casa e senti na mesma hora que tinha alguma coisa errada. A sala cheirava vinho e outra coisa. Colônia cara. Colônia cara que definitivamente não era minha. Havia duas taças vazias em cima da
mesa de centro e uma caixa de Pizza com alguns pedaços frios lá dentro. Carla, chamei. Na cozinha veio a voz dela. Encontrei minha esposa de 22 anos em frente à pia, lavando a louça com entusiasmo bem estranho para alguém que claramente tinha bebido. Ela ainda estava usando a camisola de seda do vídeo do Bruno e o cabelo estava bagunçado, como se tivesse passado um tempo deitada. Onde tá a Emília? Subiu tem mais ou menos uma hora. Disse que precisava estudar. Carla não olhou para mim enquanto falava. continuou esfregando o mesmo prato várias vezes. E o
Bruno? Aí ela me olhou e eu vi uma coisa nos olhos dela que fez meu estômago se fechar. Culpa ou medo? Ele foi embora faz um tempo. Por quê? Só tô curioso para saber porque o namorado da minha filha estava na minha casa às 11:30 da noite filmando você de camisola. O prato escapou da mão dela e se despedaçou dentro da pia. Eu não sei do que você tá falando. Ele me mostrou o vídeo. Carla, você e a Emília sentadas na nossa sala enquanto aquele pervertido fazia comentário nojento e filmava as duas. Ela se virou
devagar e pela primeira vez em muitos anos, eu vi minha esposa parecer genuinamente assustada. Nicolas não era o que parecia. Ele só queria mostrar um vídeo que tinha feito para um trabalho da faculdade. Aí começou a agir estranho, fazendo aqueles comentários. A gente não sabia que ele estava gravando. E por que vocês não colocaram ele para fora? Eu eu tava bêbada, não tava pensando direito. E a Emília, ela tava tentando lidar com isso sozinha. Você conhece ela? Não gosta de fazer cena. Eu queria acreditar nela. Meu Deus, como eu queria acreditar. Mas tinha alguma coisa
naquela história que não fechava. A Emília podia ser muita coisa mais tímida para mandar alguém se ferrar quando estava incomodando ela. Nunca. Onde tá seu celular? O quê? Seu celular? Onde ele tá? Carla hesitou por tempo demais. Lá em cima, carregando. Passei por ela ignorando os protestos e subi as escadas de dois em dois degraus. Nosso quarto ficava no fim do corredor e lá estava o celular dela plugado na tomada em cima do criado mudo. Só que tinha uma coisa errada, não estava bloqueado. Carla sempre bloqueava o celular. Sempre. Em 22 anos de casamento, eu
nunca tinha visto ela deixar aquilo desbloqueado e sozinho. Peguei o aparelho, a tela acendeu. E o que apareceu fez meu sangue gelar. Era uma conversa por mensagem com alguém salvo como Sandro. As mensagens eram explícitas, gráficas, detalhadas, descrições de atos sexuais, planos de encontro, reclamações sobre ter que lidar comigo e com as minhas suspeitas. Rolei a tela para cima e encontrei semanas de conversa. Cada mensagem era pior que a anterior. Fotos, vídeos, promessas de me deixar assim que o divórcio saísse e ela conseguisse levar metade de tudo pelo que eu tinha trabalhado. Na parte de
baixo da tela havia uma mensagem enviada fazia 20 minutos. Precisei dar um jeito no Bruno. O moleque estava ficando ousado demais. Te vejo amanhã no lugar de sempre. Minhas mãos tremiam enquanto eu voltava à conversa, procurando pistas sobre quem era aquele Sandro. Não demorou muito. Sandro Moreira, o irmão mais velho do Bruno, o dono da academia nova no centro, aquele lugar que tinha virado febre entre as mulheres da cidade. O cara 15 anos mais novo que a minha esposa. Ouvi passos na escada e devolvi o celular exatamente onde estava. Carla apareceu na porta, ainda nervosa.
Nícolas, o que você tá fazendo aqui em cima? Só vim ver a Emília. Passei por ela e bati na porta da Emília. Nenhuma resposta. Bati de novo, mais forte. M, você tá bem aí? Nada. Girei a maçaneta. A porta abriu. O quarto estava vazio. A janela aberta e havia marcas na soleira mostrando que ela tinha saído pelo telhado da varanda dos fundos. Ela foi embora. Eu disse. Carla surgiu ao meu lado e olhou pro quarto vazio. Ela deve ter ido encontrar uns amigos. Você sabe como jovem é meia-noite em dia de semana? Ela tem 19
anos, Nicolas. É adulta. Eu virei para olhar para minha esposa. Essa mulher com quem eu tinha dividido a cama por mais de duas décadas. A mulher que tinha dado à luz minha filha. A mulher que prometeu me amar e respeitar até que a morte nos separasse. Há quanto tempo isso tá acontecendo, Carla? Eu não sei do que você tá falando, Sandro Moreira. Há quanto tempo? A cor saiu do rosto dela e ali eu tive a resposta. Nicolas, eu posso explicar há quanto tempo? Seis meses, ela sussurrou. Seis meses. Meio ano de mentiras. de chegar tarde
do trabalho, de começar a se arrumar mais, de ficar distante, distraída nas conversas, seis meses comigo fazendo papel de idiota, sem perceber o que estava acontecendo dentro da minha própria casa. Eu quero você fora daqui. O quê? Arruma uma mala. Sai da minha casa hoje, Nicolas, por favor, me deixe explicar. Não é o que você pensa. Eu e o Sandro. Não é só físico. A gente tem uma conexão, uma coisa real. Eu fiquei olhando para ela, impressionado com a capacidade que aquela mulher tinha de Falar sobre a conexão com outro homem enquanto vestia a camisola
que eu tinha dado no nosso aniversário. Você tem até eu terminar meu banho para sumir. Se ainda estiver aqui quando eu sair, eu chamo a polícia e mando te tirarem daqui. Você não pode fazer isso. Essa casa também é minha. Na verdade, não é. Olha a escritura. Só tem meu nome. Comprei essa casa com o seguro de vida do meu pai antes da gente casar. Você não tem direito nenhum. Era mentira. Mas Carla nunca prestou atenção em documento nenhum. E eu estava apostando que naquela hora ela também não saberia a diferença. O rosto dela desabou
por um segundo e eu vi a jovem por quem me apaixonei tantos anos atrás. Por favor, Nicolas, não faz isso. A gente pode superar terapia de casal, qualquer coisa. Eu termino com o Sandro, eu prometo. A única coisa que eu quero é que você tenha sumido quando eu sair do banheiro. Entrei no banheiro, abri o chuveiro e deixei a água quente subir até embaçar o espelho. Quando olhei meu reflexo, mal reconheci o homem do outro lado. 22 anos de casamento e tudo mentira. Meu celular vibrou com uma mensagem de um número desconhecido. A abri e
foi ali que meu mundo desabou de vez. Era um vídeo, um vídeo de verdade. Nada parecido com aquela tentativa patética de chantagem do Bruno. Nesse vídeo, minha esposa e Sandro Moreira estavam claramente num quarto de hotel, fazendo coisas que Faziam os comentários nojentos do Bruno parecerem brincadeira de criança. Embaixo havia só uma linha de texto. Achei que você devia saber que tipo de mulher você se casou. Eu não dormi naquela noite. Como dormiria? Toda vez que eu fechava os olhos, viagens daquele vídeo. Ouvi a voz da Carla dizendo para outro homem coisas que nunca tinha
dito para mim. Quando saí do banheiro, ela já tinha ido embora. O carro dela não estava mais na garagem. Notei que tinha levado uma mala e algumas roupas, mas deixado a maior parte das coisas. Como se esperasse voltar assim que eu esfriasse a cabeça. A Emília não voltou para casa. Na manhã seguinte, liguei na oficina e disse que não iria. Foi a primeira vez em 5 anos que faltei por qualquer coisa que não fosse gripe. Passei o dia sentado na cozinha, tomando café e encarando meu celular, esperando ele tocar. Tocou perto do meio-dia. Pai, Emília,
graças a Deus. Onde você tá? Na casa do Bruno. Pai, que inferno foi aquilo ontem? O Bruno estava dentro da nossa casa filmando você e sua mãe, fazendo comentário sexual. O que você queria que eu fizesse? Houve uma pausa longa. Pai, não foi assim. Então, como foi? O Bruno só tava, sei lá, tentando impressionar a gente. Ficou falando de uma ideia de negócio, de vídeo viral, alguma coisa assim. Ele não queria machucar ninguém. Emília, ele tava planejando vender aquela gravação. Eu ouvi ele falando. Você deve ter entendido errado. Eu não entendi nada errado. E onde
tá sua mãe? Outra pausa. Ela tá aqui também. Claro que estava. Minha esposa escondida na casa do irmão do amante, com minha filha servindo de cobertura, quase brilhante, de um jeito doente. Emília, eu preciso que você volte para casa. A gente precisa conversar. Eu não acho que seja uma boa ideia agora. Bruno disse que você falou que eu ameacei matar ele. O Bruno é um mentiroso. E o resto das pessoas que viram você riscar o carro e furar o pneu também estão mentindo. Em cidade pequena, notícia voa. A essa altura, metade da cidade já devia
saber do meu barraco com o Bruno. E a história com certeza já estava ficando mais dramática a cada repetição. Volta para casa, Emília, por favor. Só quando você pedir desculpas pro Bruno e prometer pagar o prejuízo do carro. A ligação caiu. Fiquei encarando o celular por muito tempo, tentando entender como minha vida tinha saído do normal pro completo caos em menos de 12 horas. Foi então que eu lembrei da mensagem anônima com o vídeo. Alguém sabia do caso da Carla com o Sandro? E essa pessoa queria que eu soubesse também. Mas quem? Rolei meus contatos
tentando achar alguém em quem eu pudesse confiar para conversar sobre aquela bagunça. A lista era ridiculamente curta. No fim, liguei pro Davi Barros, meu advogado e um dos poucos homens da cidade, que me conheciam desde o ensino médio. Davi tinha feito toda a parte jurídica quando comprei a oficina e ainda era padrinho da Emília, da época em que a gente ainda acreditava nessas coisas. Nicolas, meu Deus, eu tava justamente para te ligar. Você precisa vir para cá agora. Por quê? O que aconteceu? O Bruno Moreira registrou o boletim de ocorrência hoje cedo. Agressão, dano ao
patrimônio. Ameaça. A polícia tá te procurando. Meu estômago afundou. Davi, aquele moleque tava não pelo telefone. Vem pro meu escritório agora. E Nícolas não fala com ninguém no caminho. Nem polícia, nem vizinho, nem ninguém. O escritório do Davi ficava na parte antiga do centro, num prédio de tijolo que devia estar ali desde a fundação da cidade. Estai nos fundos e entrei pela porta de trás, tentando ser visto. Davi me esperava na sala dele com uma cara péssima. Era um sujeito grande, ex-jogador universitário, daqueles que ganharam barriga depois dos 50. Mas a cabeça continuava afiada. Sentem-me
conta tudo. Contei. Falei do Bruno na porta de casa do vídeo da descoberta do caso da Carla. Davi ouviu tudo sem me interromper, anotando num bloco. Tá, ele disse quando terminei. A boa notícia é que a história do Bruno Não para em pé. Ele afirma que você atacou ele do nada, mas dona Dalva da casa em frente viu a cena toda e contou pra polícia que ele já estava agindo de maneira suspeita antes mesmo de você chegar. Dona Dalva falou com a polícia. Foi ela que chamou. Disse que estava observando Bruno fazia uns 20 minutos.
Segundo ela, ele estava olhando pelas janelas da sua casa, tentando ver lá dentro. Isso reforça a tua versão de que ele estava filmando tua família. Eu senti um pingo de alívio. Então, essas acusações não vão colar. A agressão não. Mas o dano ao carro é problema. Múltiplas testemunhas viram você estragar o veículo. Isso é contravenção, provavelmente multa e ressarcimento. Eu aguento. Davi se recostou na cadeira e me encarou. Nicolas, eu preciso te perguntar uma coisa e preciso que você seja sincero. Até onde você pretende levar isso com a Carla? O que você quer dizer? Quero
dizer, em você quer divórcio? Porque sequer tem que tomar muito cuidado com o que fizer nas próximas semanas. Aqui o divórcio pode até ser sem culpa, mas adultério ainda pesa na divisão de bens em certas questões familiares. Questões familiares? A Emília já é maior de idade, mas isso não impede a outra parte de tentar te pintar como Agressivo, estável ou vingativo. E tem mais uma coisa. Ele puxou o celular e me mostrou uma publicação nas redes sociais. Era da Carla, publicada naquela manhã. Feliz em compartilhar uma notícia maravilhosa com amigos e família, o bebê Tavares
chega no começo da primavera. A postagem tinha dezenas de curtidas e comentários. Gente dando parabéns pela nossa nova fase, dizendo que era lindo recomeçar a ser pai e mãe depois dos 40. Ela tá grávida? Eu falei segundo isso. Sim. E Nicolas, se esse caso já dura seis meses, como você acha, tem uma boa chance desse bebê não ser seu. A sala começou a girar. Um bebê. Carla estava grávida e anunciando isso em rede social sem nem ter me contado antes. Davi, eu preciso que você faça uma coisa para mim. O quê? Descobre tudo sobre o
Sandro Moreira. Ficha criminal, processo cível, situação financeira, tudo. Nicolas e contrata um investigador particular. Alguém discreto. Eu quero saber onde a Carla vai, com quem fala, cada passo que ela dá. Davi balançou a cabeça. Isso não é uma boa ideia. Se isso for pro tribunal, vai parecer perseguição. Eu não me importo com a aparência. Minha esposa tá carregando o filho de outro homem, anunciando pro mundo como se fosse meu. Eu quero saber exatamente com o que eu tô lidando. E o que você Pretende fazer com essa informação? Eu olhei pro meu amigo mais antigo, o
homem que tinha estado comigo desde a adolescência, o cara que tinha sido meu padrinho de casamento e segurado minha filha no colo quando ela era bebê. Eu vou destruir eles, Davi, todos. Vou tomar tudo que eles amam e reduzir as cinzas. Davi ficou em silêncio por um tempo, depois assentiu devagar. Vou fazer umas ligações. Naquela tarde eu fui até a academia do Sandro. Ficava num centro comercial da zona leste, entre um salão de beleza e uma loja de vape. O estacionamento estava cheio de carros caros. BMW, Audi, Mercedes. A academia em si era impressionante, admito.
Equipamentos novos, parede espelhada, um balcão vendendo suco e shake, onde várias mulheres de Legop se juntavam ao redor de um sujeito que só podia ser o Sandro Moreira. Ele era exatamente o que eu esperava. Alto, forte, com aquela barba, por fazer milimetricamente calculada, que devia levar 20 minutos toda manhã para ficar natural. Usava camiseta preta justa e tinha confiança fácil de homem jovem, bonito e acostumado a ter mulher se jogando em cima. Fiquei observando por alguns minutos. Ele conversava com as clientes, flertando na medida exata. O suficiente para manter as mulheres interessadas, Sem parecer vulgar.
Ele era bom no que fazia. Tenho que reconhecer. então me viu. Observei a expressão dele mudar quando me reconheceu, provavelmente por alguma foto que a Carla tinha mostrado. O sorriso fácil desapareceu e deu lugar a uma cautela tensa. Ele falou alguma coisa para as mulheres no balcão e veio até mim. Você deve ser o Nicolas, disse estendendo a mão. Sandro Moreira, ouvi muito sobre você. Eu olhei pra mão dele e não apertei. Aposto que ouviu. Ele baixou a mão ainda sorrindo, mas os olhos estavam tensos. "Olha, eu sei que isso é desconfortável", ele disse. "Mas
quero que você saiba que não tenho nada além de respeito por você". A Carla fala de você o tempo todo. É mesmo? Ela diz que você é um bom homem, trabalhador, um cara que merece mais do que tá acontecendo agora. Eu quase ri. O sujeito estava ali dormindo com a minha esposa e falando como se estivesse me fazendo um favor. E o que exatamente tá acontecendo agora, Sandro? Ele olhou em volta, conferindo se ninguém estava ouvindo. Talvez fosse melhor conversar em particular. Eu tô muito bem aqui. Sandro mudou o peso de um pé pro outro.
Eu dava para ver que ele estava calculando as possibilidades. Era mais novo que eu, maior, mais forte, mas estava no próprio negócio, rodeado de clientes. Não podia fazer escândalo. Nicolas, eu sei que você tá com raiva e tem todo o direito. Mas eu e a Carla, o que existe entre nós não foi planejado, só aconteceu. Que romântico. Ela não é feliz, Nicolas, faz muito tempo que não é. Ela me disse que vocês dois estão vivendo como colegas de quarto há anos. Era verdade. Mas ouvir aquilo da boca dele fez meu peito apertar de raiva. E
aí você resolveu ajudar? Eu decidi estar perto de alguém que precisava de um amigo. É assim que a gente chama agora? O sorriso falso dele começou a rachar. Olha, eu entendo que você esteja puto, mas isso não é sobre mim. É sobre você e a Carla, sobre os problemas que vocês já vinham tendo. Você tem razão. Isso é sobre mim e a Carla. Então, talvez você devesse ficar fora disso. Eu ficaria, mas ela tá grávida do meu filho. As palavras me acertaram como um soco. Eu já desconfiava, mas ouvir em voz alta era outra coisa.
Parabéns, consegui dizer. Obrigado. E Nicolas, eu quero que você saiba que vou Cuidar delas. Das duas, da Carla e do bebê. Agora eles são minha família. E a Emília? Sandro deu de ombros. A Emília já é adulta, pode fazer as próprias escolhas. E o Bruno? Seu irmão, parece ter uns hobbies interessantes. Pela primeira vez, Sandro ficou realmente desconfortável. O Bruno é só um garoto. Às vezes faz besteira. Como filmar mulheres escondido dentro da casa delas. Ele me contou sobre isso. Disse que foi um malentendido. Então ele mentiu para você. Sandro deu um passo mais perto
e sentiu o perfume caro. O mesmo cheiro que estava na minha sala na noite anterior. Nicolas, eu tô tentando ser razoável, mas se você continuar mexendo com a minha família, se continuar ameaçando o Bruno, aí a gente vai ter um problema. A gente já tem um problema. Não igual ao que você vai ter se não recuar. Olhei ao redor. Toda aquela academia reluzente, aquelas clientes bonitas, os aparelhos novos, os cartazes motivacionais. Sandro tinha construído um pequeno reino ali e estava acostumado a ser rei. "Lugar bonito, eu falei. Deve ter custado uma fortuna montar isso tudo.
Custou, mas eu trabalho duro e imagino" Um monte de madame cheia de dinheiro querendo ficar em forma e disposta a pagar caro por atenção personalizada. Os olhos dele estreitaram. O que você quer dizer com isso? Nada. Tô só puxando conversa. Virei para sair, mas parei e olhei por cima do ombro. Ah, e Sandro, esse bebê que a Carla tá esperando. Talvez seja bom fazer exame de DNA. Minha esposa anda meio confusa com essas coisas. Saí da academia me sentindo melhor do que tinha me sentido o dia inteiro. Foi uma vitória pequena, mas eu tinha abalado
ele. E numa guerra dessas, toda a pequena vitória contava. Meu telefone tocou quando eu já estava entrando na caminhonete. Número desconhecido. Alô. Você não devia ter ido lá. A voz estava distorcida eletronicamente, como se a pessoa estivesse usando o aplicativo. Quem é alguém tentando te ajudar? Mas você precisa ser mais inteligente que isso, ir até a academia dele, confrontar em público. Isso não vai te dar o que você quer e o que eu quero. Vingança. Vingança de verdade. Daquelas que destróem vidas. A ligação caiu. Fiquei sentado no volante por um bom tempo, olhando pro celular,
tentando entender quem diabos estava brincando comigo e por quê. Mas eu começava a perceber que não me importava. Se alguém queria me ajudar a destruir as pessoas que tinham traído minha família, eu estava pronto para ouvir. Na manhã seguinte, vieram mais notícias ruins. Cheguei na oficina e encontrei três clientes antigos me esperando no estacionamento, com aquele ar desconfortável de quem preferia estar em qualquer outro lugar. "Ô, Nicolas", disse o seu Jaime, "Um cuja família levava carro para minha oficina fazia 15 anos. A gente precisa conversar." Abri a oficina e conduzi os três para dentro, já
sabendo que vinha. Olha, isso é chato. Ele continuou. Mas a gente ouviu falar da história com tua esposa, aquele personal e o negócio com o Bruno Moreira. E minha mulher malha na academia do Sandro. Ela diz que ele é um cara bom e que o Bruno só é um garoto que errou. Ela acha que talvez você tenha exagerado. Olhei pros outros dois homens. Os dois pareciam profundamente interessados no próprio sapato. Então vocês vão levar os carros em outro lugar? Não é pessoal, Nicolas. Só complicado. Você entende? Eu entendia perfeitamente. Em cidade pequena, tomar partido num
divórcio escandaloso era como entrar em areia movediça. A maioria preferia manter distância para não ser engolida junto. Sem problema, eu disse. Os carros ficam prontos à tarde. Depois que eles saíram, liguei pro Davi. Conseguiu o investigador. Consegui, ex-policial civil. discreto. Mas, Nicolas, isso vai sair caro. Quanto? 500 por dia. Mais despesas. Era mais do que eu podia gastar com tranquilidade, mas não tinha escolha. Fechado. Tem mais uma coisa. Dei uma cavada na vida do Sandro Moreira, como você pediu. O sujeito tá alavancado até o pescoço. Academia, casa, carro, tudo financiado. Ele paga as parcelas, mas
no limite. Se o negócio dele levar uma pancada, ele afunda. Isso me interessou. Que tipo de pancada? Perda de clientes, publicidade ruim, fiscalização, qualquer coisa que afete a reputação ou o fluxo de caixa. Uma ideia começou a se formar. Davi, preciso de outra coisa. O que foi agora? Descobre quem me mandou aquele vídeo da Carla com o Sandro. Para quê? Por que essa pessoa não terminou de brincar comigo? Ela me ligou ontem, disse que quer me ajudar a conseguir vingança. Davi ficou em silêncio. Nicolas, talvez você devesse considerar que essa pessoa pode não querer o
seu bem. Agora eu não tô nem aí pro que ela quer. Eu me importo com o que eu quero. Naquela tarde, a Emília finalmente voltou para casa. Eu estava na garagem mexendo no ronda da dona Mei quando ouvi o carro dela parar na entrada. Ela entrou com uma cara horrível. Olhos inchados, vermelhos. a mesma roupa de dois dias antes. Pai. Eu larguei a chave de roda e olhei para ela. Minha menina, a Garotinha que me trazia desenho feito no jardim de infância, que dormia no meu colo vendo desenho sábado de manhã. "Me desculpa", ela disse
e começou a chorar. Eu a puxei para um abraço e, por um instante, todo o resto desapareceu. Essa era minha filha. E acontecesse o que acontecesse, ela continuava sendo a coisa mais importante da minha vida. Tá tudo bem, meu amor? Vai ficar tudo bem? Não vai não. Tá tudo um caos? A mamãe tá grávida e disse que o bebê não é seu. E o Bruno tá agindo igual o maluco e todo mundo tá escolhendo o lado. O que você quer dizer com o Bruno estar agindo igual um maluco? Emília se afastou um pouco e limpou
o rosto. Ele tá mostrando aquele vídeo pras pessoas. Acho engraçado. Como se fosse piada. Não entende que tá humilhando eu e a mamãe. Você mandou ele parar. Eu tentei, mas ele diz que o vídeo é dele e faz o que quiser. E o Sandro? O Sandro sorre e fala que o Bruno é novo, que vai amadurecer. Aquela raiva familiar voltou a subir pelo meu peito. Em, eu preciso que você faça uma coisa por mim. O quê? Eu preciso de uma cópia daquele vídeo. Pai, não. Eu não quero ver, filha. Eu já vi, mas preciso ter
uma cópia por motivos legais. Aquilo era só metade, verdade. Eu precisava, sim, por motivo legal, mas também tinha outros planos. Emília hesitou, depois assentiu. Tá, mas promete que não vai fazer nenhuma loucura. Define loucura. Promete que não Vai machucar ninguém. Eu olhei para minha filha, essa jovem mulher que ainda acreditava que problema podia ser resolvido com promessas e boa vontade. Eu prometo que não vou machucar ninguém que não mereça. Naquela noite, Emília me encaminhou o vídeo do Bruno. Ver de novo foi tão doloroso quanto na primeira vez, mas agora eu olhava com outros olhos. Bruno
tinha sido descuidado. O vídeo mostrava não só a Carla e a Emília, mas também partes da nossa casa, inclusive fotos de família em cima da estante. Mais importante ainda, aindava para ouvir claramente o Bruno fazendo ameaças sobre o que pretendia fazer com aquele material filmar pessoas sem consentimento dentro de uma residência particular era crime grave. Bruno tinha acabado de me entregar a prova que eu precisava para destruir a vida dele, mas antes disso eu precisava fazer uma ligação. Disquei o número que tinha me telefonado no dia anterior, sem esperar que alguém atendesse. Atenderam no segundo
toque. Eu estava me perguntando quando você ia ligar de volta, disse a mesma voz distorcida. Quem é você? Alguém que sabe exatamente o que é ser traído por pessoas em quem confiava? Isso não é resposta. é a única que você vai ter. Mas eu tenho uma informação que você precisa. Que informação? Aquela que vai te dar exatamente o que você quer. Mas precisamos nos encontrar pessoalmente. Onde você conhece a antiga usina na estrada do rio? Eu conhecia. A usina tinha fechado fazia 10 anos. O prédio estava condenado, esperando demolição. Lugar perfeito para uma reunião que
ninguém deveria saber que aconteceu quando? Hoje, meia-noite. Vá sozinho e não conte para ninguém. A ligação caiu. Fiquei olhando o celular por um longo tempo, tentando decidir se eu estava prestes a cometer um erro gigantesco. Encontrar um estranho num prédio abandonado no meio da noite era exatamente o tipo de coisa que fazia a gente sumir em filme. Mas eu já tinha passado do ponto de me preocupar com minha segurança. Eu queria a resposta e queria a vingança. Se esse misterioso contato podia me dar os dois, eu estava disposto a correr o risco. Às 11:30 dirigi
até a antiga usina. O prédio se erguia contra o seu escuro como um monumento aos tempos melhores, quando a cidade tinha emprego, esperança e futuro. Estai perto da entrada principal e entrei iluminando o caminho com a lanterna do celular, desviando de entulho, ferrugem e pichações. "Você veio?", disse uma voz vinda das sombras. Eu me virei na direção do som e vi uma silhueta sentada sobre uma pilha de maquinário velho. Na luz fraca, não dava para ver direito, mas a voz era claramente feminina. "Você é mulher? muito observador. Ela se levantou e se aproximou um pouco,
mas continuou fora do alcance da luz do meu celular. Quer saber quem eu sou? Sou alguém que observa Sandro Moreira há muito tempo. Alguém que sabe exatamente que tipo de homem ele é e que tipo? O tipo que destrói famílias por diversão. O tipo que enjoda as conquistas e parte pra próxima vítima. O tipo que deixa um rastro de corações partidos e vidas arruinadas por onde passa. Parece pessoal. É, pessoal. Sandro Moreira destruiu meu casamento também. Um arrepio passou por mim que não tinha nada a ver com o frio do lugar. Como? Do mesmo jeito
que tá destruindo o seu. Seduziu meu marido. Convenceu ele de que eu era o problema, de que merecia algo melhor. Quando percebi o que estava acontecendo, já era tarde. Seu marido, Sandro, não escorhe. Homem, mulher, casado, solteiro. Ele gosta do desafio de tomar aquilo que pertence à outra pessoa. Aquilo foi uma reviravolta que eu não esperava. Então, você também quer vingança? Eu já tive a minha, mas estou disposta a ajudar você a conseguir a sua. Por quê? Porque o Sandro tá ficando descuidado, assumindo riscos maiores, cometendo erros maiores. Sua esposa é só o projeto mais
recente dele. Não vai ser o último, a menos que alguém empeça. Ela se aproximou mais um pouco e eu consegui ver parte do rosto refletido na pouca luz ambiente. Devia ter uns 40 e poucos anos. Bonita, mas com aquela expressão cansada de quem já foi decepcionada demais. Eu tenho fotos, ela disse, Vídeos, registros financeiros, histórico de ligações, tudo que você precisa para provar que o Sandro Moreira é um predador que caça gente casada por esporte. O que você quer em troca? Eu quero que você destrua ele de um jeito tão completo que nunca mais se
recupere. Quero que ele perca o negócio, a reputação, a liberdade. Quero que ele saiba como é ter alguém arrancando tudo que importa. Ela estendeu um pen drive. Tudo está aqui. Mas, Nicolas, depois que você entrar nesse caminho, não tem volta. Você vai virar outra pessoa, mais dura, mais fria. Alguém capaz de fazer coisas que nunca imaginou. Peguei o pen drive e guardei no bolso. Eu já sou outra pessoa. Ela sorriu. E não foi um sorriso agradável. Ótimo. Então vamos começar. O pen drive era uma mina de informação tão absurda que minha cabeça quase não conseguiu
acompanhar. Tinha registro bancário mostrando depósitos suspeitos em dinheiro na conta da academia do Sandro. Fotos dele com pelo menos uma dúzeia de homens e mulheres casados ao longo dos últimos três anos. Capturas de conversas ainda mais explícitas do que as que eu tinha encontrado no celular da Carla. Mas o pior de tudo era uma série de gravações que aquela mulher misteriosa tinha conseguido. Sabe-se lá como? Sandro falando ao telefone sobre a coleção dele de conquistas casadas. Sandro se gabando de como era fácil manipular mulheres solitárias e maridos negligenciados. Sandro explicando estratégias específicas para afastar as
vítimas da própria família. Era doentio e era exatamente o que eu precisava. Na manhã seguinte, liguei pro Davi Barros logo cedo. Preciso te ver agora. O que houve? Eu tenho prova de que o Sandro Moreira tá tocando uma espécie de esquema organizado de sedução, mirando gente casada na cidade. Do outro lado, silêncio. Nicolas, de onde saiu isso? Importa? Se você quiser usar isso em tribunal, importa. Se foi obtido de forma ilegal, a situação muda. Não foi. Alguém me entregou voluntariamente. Quem não posso dizer? Davi soltou um suspiro cansado. Traz. Eu vou ver. Uma hora depois,
eu estava sentado no escritório dele, vendo meu advogado abrir arquivo atrás de arquivo. A expressão dele ia ficando pior a cada item. Meu Deus, Nicolas, isso aqui é muito grande. Dá para usar parte disso. Sim. Os registros financeiros talvez sejam aceitos se conseguirmos estabelecer a origem. As fotos são circunstanciais, mais danosas. As gravações, ele balançou a cabeça, Provavelmente não entram em juízo, mas podem servir para outros fins. Que outros fins? Davi me olhou com cuidado. Nicolas, eu vou te perguntar uma coisa e preciso de sinceridade. Você tá planejando chantagear o Sandro Moreira? Eu tô planejando
destruir ele. Isso não é resposta. É a única que você vai ter. Davi fechou o notebook e se recostou na cadeira. Eu não posso participar de nada ilegal, você sabe. Não tô pedindo isso. Tô pedindo que você entre com divórcio por adultério e use o que for possível para garantir que eu fique com tudo que me cabe. E o resto, o material que não dá para usar em juízo. Eu me levantei, peguei o pen drive de volta e guardei no bolso. Esse resto deixa comigo. Naquela tarde dirigi até a redação do jornal local. O Gazeta
de Santa Helena era um jornal semanal que normalmente só falava de campeonato estudantil, política da prefeitura e festa junina de bairro, mas também tinha uma coluna de fofoca chamada Giro da Cidade, que o povo lia religiosamente. A editora era Janete Pires, uma mulher de uns 60 anos que trabalhava com notícia antes mesmo de eu nascer. Conhecia todo mundo e tinha fama de justa e cruel na mesma medida. Nicolas Tavares ela disse quando entrei na sala dela. Ouvi dizer que você tá passando por um probleminha conjugal. Nesta cidade, notícia corre rápido. Corre na velocidade da luz.
O que você quer? Entreguei um envelope pardo. Tenho uma história para você. Janette abriu o Envelope e examinou o conteúdo. Fotos e documentos selecionados do pen drive. Nada que levasse diretamente até minha aliada misteriosa. As sobrancelhas dela subiram enquanto foliava. Isso aqui é pesado. De onde veio? de várias fontes, todas legítimas. E você quer que eu publique isso como notícia? Quero que publique como investigação sobre comportamento predatório contra pessoas casadas da nossa comunidade. Acho que a população tem o direito de saber se existe alguém destruindo famílias por esporte. Janette observou as fotos com mais atenção.
Eu conheço algumas dessas pessoas, gente influente, o que torna tudo mais relevante, não menos. Ela ficou em silêncio por um longo momento. Eu via claramente a batalha entre o faro jornalístico e a cautela ética. Nicolas, eu preciso te perguntar uma coisa. Você tá fazendo isso pelo bem público ou por vingança? Importa se a informação for verdadeira? Para mim importa. Olhei para aquela mulher que me conhecia desde adolescente, que cobriu meus jogos do colégio, meu casamento e a formatura da Emília. Janete, o Sandro Moreira destruiu pelo menos uma dúzia de casamentos nesta cidade. Ele é um
predador que escolhe gente vulnerável e convence essas pessoas a trair a própria família. Seja por vingança ou não, você não acha que a cidade merece saber quem ele realmente É? Janete assentiu devagar. Me dá uma semana para verificar tudo e contatar os envolvidos. Se eu confirmar, público. Obrigado. Não agradece ainda. Isso vai ficar feio, Nicolas. para todo mundo, inclusive para você. É exatamente disso que eu tô precisando. Naquela noite, Emília me ligou. Pai, aconteceu uma coisa estranha hoje. Que tipo de coisa? Eu tava na cafeteria do centro e a dona Helena veio falar comigo. Disse
que ouviu que a mamãe estava passando por problemas e que se eu precisasse conversar, ela estava ali. Dona Helena era a maior fofoqueira da cidade. E se ela já estava se aproximando da minha filha com cara de solidariedade, então a história já tinha começado a circular. O que você respondeu? Falei que tava bem, mas pai, ela sabia de coisas, coisas específicas sobre a mamãe e o Sandro que eu nunca contei para ninguém. Tipo o quê? Ela sabia do bebê, sabia do hotel onde eles estavam se encontrando, sabia até do vídeo do Bruno. Aquilo estava andando
mais rápido do que eu esperava. M, você tá bem? Não sei. Parte de mim tá feliz que as pessoas saibam a verdade sobre o que a mamãe fez, mas outra parte tá morrendo De vergonha. Todo mundo olha para mim como se eu fosse uma coitada. Você é uma vítima, filha. Nós dois somos. Mas eu não quero ser. Eu quero revidar. Senti uma pontada de orgulho. A Emília era minha filha, afinal. Tá. E o que você quer fazer? Quero que o Bruno pague por ter me humilhado e quero que o Sandro pague por destruir nossa família.
M, você precisa tomar cuidado. Não faz nada que possa te colocar em problema. Olha quem tá falando. Ela tinha razão. Só me avisa antes de fazer qualquer coisa. Vamos alinhar o que for preciso, tá? Mas eu não vou ficar parada vendo eles saírem impunes. Depois que ela desligou, fiquei sozinho na cozinha pensando no quanto minha vida tinha mudado em poucos dias. Uma semana antes, eu era um homem casado, dono de uma oficina razoavelmente bem-sucedida, orgulhoso da filha que tinha criado. Agora eu estava planejando vingança contra o amante da minha esposa e, de quebra, ensinando minha
filha a lutar sujo. Meu telefone tocou. Número desconhecido de novo. Como foi com o jornal? Perguntou a voz distorcida. Bem, a matéria deve sair na semana que vem. Ótimo. Mas isso é só o começo. Você tá pronto pra próxima fase? E qual é a próxima fase? A gente vai atingir o Sandro onde dói de verdade no negócio dele. Como me encontra amanhã à noite? Mesmo lugar, mesma hora. e traz sua filha. O quê? Por quê? Porque ela tem acesso a uma coisa de que a gente precisa. Uma coisa que vai destruir o Sandro Moreira de
uma vez por todas. A Ligação caiu. Fiquei encarando o celular, tentando entender no que eu estava prestes a meter minha filha, mas eu já tinha ido longe demais para recuar. Sandro Moreira tinha declarado guerra à minha família e eu faria questão de garantir que ele se arrependesse disso, mesmo que na história contada pelos outros eu acabasse virando o vilão. Na noite seguinte, eu e Emília fomos juntos até a antiga usina. Ela ficou em silêncio durante quase todo o trajeto. Dava para sentir o nervosismo. Pai, você tem certeza disso? Não, mas tenho certeza de que quero
fazer o Sandro e o Bruno pagarem pelo que fizeram. E se essa pessoa for maluca? E se isso for uma armadilha? A gente lida juntos com o que vier. A mulher já estava nos esperando no mesmo lugar, mas dessa vez saiu pra luz para que Emília visse seu rosto. Oi, Emília. Meu nome é Raquel. Minha filha estreitou os olhos. Eu te conheço. A gente nunca se encontrou. Mas eu sei bastante sobre você. Sei que você é uma jovem inteligente que foi machucada por pessoas em quem confiava e sei que quer reagir. O que você quer
de mim? Raquel sorriu. Quero que você me ajude a destruir a academia do Sandro Moreira e acho que você sabe exatamente como. Emília franziu a testa. Eu não sei nada sobre a academia dele, mas sabe sobre a coleção de vídeos do Bruno. O rosto da Emília perdeu a cor. Que coleção de vídeos? Aquela que ele guarda no notebook, com dezenas de gravações de mulheres na academia, trocando de roupa no vestiário, treinando em posições comprometedoras, a mesma que ele vem vendendo na internet para tarados. Parecia que alguém tinha me acertado no estômago. "O Bruno tá filmando
mulheres na academia do Sandro há meses." Raquel continuou. O Sandro sabe e não se importa porque o Bruno divide o lucro com ele. Eles ganharam milhares vendendo vídeos voiistas das clientes. Emília estava tremendo. Isso. Isso é crime. Isso é nojento? É sim. E se esses vídeos forem expostos junto com prova de que o Sandro era cúmplice, a academia dele acaba de um dia pro outro. Olhei para Raquel com atenção. Como você sabe disso? Porque minha filha foi uma das meninas filmadas pelo Bruno. Ela tem 17 anos e esses porcos estão vendendo vídeo dela trocando de
roupa para estranho na internet. Aí as peças se encaixaram. Raquel não era só uma ex-esposa traída, era uma mãe querendo justiça pela própria filha. O que você precisa da Emília? O Bruno confia nela. Se ela conseguir acesso ao notebook dele, nem que seja por alguns minutos, eu consigo copiar tudo e entregar pra polícia. Emília ficou em silêncio por um bom tempo. Se eu fizer isso, ela disse por fim, o que acontece com o Bruno? Ele vai paraa prisão, respondeu Raquel. Por muito tempo. Produção e distribuição de pornografia infantil é crime federal. Ótimo, disse Emília. E
eu fiquei chocado com o veneno na voz dela. Ele merece. Em, você tem certeza disso? Depois que a gente cruzar essa linha, pai, ele me filmou. filmou a mamãe e vem filmando meninas e vendendo isso para pervertidos. Como isso ainda é uma dúvida? Ela estava certa. Bruno Moreira tinha cruzado uma linha sem volta e precisava enfrentar as consequências. "Qual é o plano?", eu perguntei. Raquel tirou do bolso um dispositivo pequeno, parecido com um pen drive. "Isso aqui é um clonador de dados." A Emília espeta no notebook do Bruno e ele copia tudo automaticamente. Leva uns
10 minutos e depois depois a gente entrega pra Polícia Federal. Bruno e Sandro são presos. A academia fecha e a cidade inteira descobre o tipo de monstro que eles realmente são. Emília pegou o dispositivo quando? Amanhã à noite o Bruno vai dar uma festa no apartamento, já que os pais dele estão viajando. Você foi convidada, né? Emília assentiu. Ele me mandou mensagem hoje à tarde querendo que eu fosse. Perfeito. Você vai arruma um motivo para mexer no computador e faz a cópia. Depois vai embora. E se alguém me vir? Você é a namorada dele. Ael
disse. Ninguém vai achar estranho. Ex-namorada. Emília corrigiu. A gente terminou depois do que aconteceu com o meu pai. Melhor ainda. Você vai para conversar, quem sabe reatar. É bem incrível. Eu detestava a ideia de mandar minha filha para uma situação potencialmente perigosa, mas também sabia que ela era a única pessoa que podia fazer aquilo. N. Se qualquer coisa parecer errada, se você ficar com medo, desconfortável, qualquer coisa, você sai na mesma hora, tá? e me liga assim que terminar. Eu vou estar esperando no estacionamento. Ela assentiu, então olhou para Raquel. E a minha mãe? O
que acontece com ela quando tudo isso vier à tona? Sua mãe fez as escolhas dela. Raquel respondeu: "Agora vai ter que lidar com as consequências. Mas o bebê, o bebê vai estar melhor sem Sandro Moreira por perto. Na noite seguinte, deixei a Emília no condomínio do Bruno e estacionei do outro lado da rua, de onde dava para vigiar o prédio. Fiquei com o celular na mão, pronto para chamar a polícia se qualquer coisa saísse errado. 20 minutos depois, ela mandou mensagem. Entrei, achei o notebook, começando a cópia. 10 minutos Depois, outra. Tem algo errado. O
Bruno tá estranho. Fica perguntando porque eu realmente vim. Meu sangue gelou. Sai agora. A resposta veio quase na mesma hora. Não dá. Ele tá bloqueando a porta. Diz que a gente precisa conversar. Eu já estava saindo da caminhonete e correndo na direção do prédio antes mesmo de perceber. A mensagem seguinte me fez parar no meio do caminho. Tá tudo bem. Consegui. Tô saindo agora. Vi a Emília aparecer na entrada, andando rápido, tentando disfarçar o pânico. Bruno surgiu na porta atrás dela, chamando seu nome, mas ela não olhou para trás. Entrou na caminhonete e colocou o
dispositivo na minha mão. Pegou tudo? Eu acho que sim, pai. Tinha centenas de arquivos, vídeos, fotos, planilhas com informação de clientes, preços. É pior do que a Raquel falou. Você tá bem? Sim. Mas o Bruno tava muito estranho. Ficou perguntando se eu tava trabalhando com alguém, se alguém tinha me mandado lá. Parecia desconfiado. Ele viu você usar o aparelho? Eu acho que não. Falei que precisava checar meu e-mail e ele deixou usar o notebook. O clonador fez o trabalho enquanto eu fingi ler mensagem. Liguei para Raquel e avisei que estávamos com os arquivos. Ela marcou
encontro na usina em uma hora. Quando chegamos, ela já estava lá com o notebook próprio. Plugou o dispositivo e começou a revisar o material. "Meu Deus!", ela sussurrou alguns minutos depois. "Isso é ainda pior do que eu pensava. Quanto pior! O suficiente para fechar aquela academia para sempre mandar o Bruno e o Sandro paraa prisão federal por décadas." Ela virou a tela para que eu e Emília víssemos. Havia uma planilha com centenas de registros, nomes, idades, descrição dos vídeos, preços. Reconhecia alguns nomes. Mulheres da cidade, muitas casadas, muitas menores de 18 anos. Os valores iam
de R$ 50 por imagens básicas de vestiário até 500 por material mais explícito. "A gente vai ligar pra Polícia Federal hoje", Raquel disse. Ah, acabou. Mas no instante em que ela pegou o celular, ouvimos barulho de motor do lado de fora. Mais de um. Vários carros chegando rápido. Droga. Raquel falou. Alguém seguiu vocês pelas janelas quebradas da usina. Vi faróis se aproximando. Pelo menos três veículos. M, vem para trás de mim, eu disse, puxando ela pro fundo do galpão. Os carros pararam lá fora. Portas bateram. Então, ouvi a voz do Sandro, alta, furiosa. Eu sei
que vocês estão aí, todos vocês. Como ele achou a gente? Emília sussurrou. Raquel já estava copiando os arquivos do notebook dela para vários pen drives. O Bruno deve ter percebido o que a Emília estava fazendo. Talvez tenha colocado o rastreador no celular ou no carro dela. Nicolas Tavares Sandro gritou lá de fora. Quer brincar? Então vamos brincar. Ouvi passos entrando no galpão e fachos de lanterna varrendo a escuridão. Raquel, quanto tempo você precisa? 2 minutos. A gente não tem 2 minutos. Os passos vinham se aproximando. Agora eu já ouvia várias vozes. Sandro tinha trazido reforço.
Eles estão ali gritou. Raquel arrancou os pen drives do notebook e enfiou na mão da Emília. Pega. Sai daqui. Usa a saída dos fundos. E você? Eu seguro eles. Raquel. Não vai. Agarrei a mão da Emília e corri até a traseira do galpão, onde uma porta de carga estava meio aberta. Atrás de nós, aquel começou a gritar com Sandro e os outros, tentando chamar atenção para si. Eu e Emília conseguimos passar pela abertura e fomos parar no estacionamento dos fundos da usina. Minha caminhonete estava do outro lado do prédio, impossível de alcançar sem sermos vistos.
Por aqui, eu sussurrei, guiando minha filha até uma fileira de vagões de trem abandonados sobre trilhos enferrujados. A gente chegou até os vagões justamente quando ouvi um grito de dor vindo de dentro. Pai, a gente precisa ajudar ela. A gente ajuda se levar essas provas paraa polícia. Tirei o celular do bolso e liguei pro 190. Sem sinal. A estrutura metálica da usina criava uma zona morta. A gente precisa chegar mais perto da estrada", eu falei. Fomos avançando devagar pela lateral, escondidos atrás dos vagões. E foi aí que eu vi uma cena que gelou meu sangue.
Sandro e três homens estavam arrastando a Raquel até um dos carros. Ela estava consciente, mas claramente ferida. Havia sangue no rosto dela. "Eles vão sequestrar ela?", Emília sussurrou. "Não vão?" Saí de trás do vagão, me mostrando. Sandro. Solta ela. Ele ergueu a cabeça e me viu. Mesmo no escuro, eu consegui perceber o sorriso. Nicolas, aí está você. A gente estava só tendo uma conversa com a sua amiguinha. Ela contou umas histórias bem interessantes. Solta ela e a gente conversa. Ah, a gente vai conversar. Todos nós. Pode sair, Emília. Eu sei que você tá escondida aí.
Ela fez menção de andar, mas eu segurei seu braço. "Fica onde tá", eu sussurrei. "Não importa o que aconteça." Então, caminhei na direção do Sandro, de mãos visíveis, fingindo uma calma que eu não sentia. "O que você quer?" "Quero os arquivos que vocês roubaram do computador do Bruno. Quero todas as cópias e quero a sua palavra de que isso termina aqui." "E se eu não entregar?" Sandro fez um gesto para um dos homens que acertou a barriga da Raquel com um soco. Ela se dobrou de dor, sem se não entregar. Sua amiga vai ter uma
noite muito ruim. Olhei para Raquel. Aquela mulher tinha arriscado tudo para me ajudar a fazer justiça pela minha família. E ali eu percebi que estava diante de uma escolha impossível. Se eu entregasse o que Sandro queria, Bruno continuaria explorando mulheres e meninas sem sofrer nada. Se eu recusasse, Raquel pagaria o preço pela minha decisão. Tá bom, eu disse. Você venceu. Eu sabia que você ia entender. Os arquivos estão com a Emília. Emília? Sandro chamou. Pode vir, querida. Seu namorado quer te ver. Emília saiu de trás do vagão com os pen drives apertados na mão. O
Bruno não é meu namorado. Não mais. Foi então que o Bruno surgiu detrás de um dos carros. O rosto dele estava inchado, roxo, como se alguém tivesse espancado ele pouco antes. Emília, amor, me desculpa por tudo isso. Eu nunca quis que você se machucasse. Mas não teve problema machucar todas as outras meninas, né? Bruno franziu a testa. Que outras meninas? As que você Filmou na academia? As que você vendeu na internet para tarados? Eu não sei do que você tá falando. Sandro riu. Bruno, você é mais burro do que eu pensava. Ela sabe de tudo.
Sandro, do que ela tá falando? Do nosso pequeno negócio. Aquele que tá pagando sua faculdade. O rosto do Bruno ficou branco. Você disse que eram só câmeras de segurança. Disse que ninguém nunca veria as imagens. Eu menti. Emília olhou para ele com nojo. Lá no fundo. Você sabia? Sabia que era errado. Mas fez mesmo assim porque o Sandro estava te pagando. Emília, por favor, eu posso explicar? Não tem nada para explicar. Você é um predador igual a ele. Sandro perdeu a paciência. Chega de drama familiar. Me dá os pen drives, Emília. Ela olhou pros drives
na mão. Depois para mim. Depois para Raquel. Não. O quê? Eu disse não. Não vou te dar nada. A expressão do Sandro escureceu. Emília, você não vai gostar de me deixar com raiva. Eu não tô nem aí pra sua raiva. Não tô nem aí. Se você me machucar, eu não vou deixar você continuar destruindo a vida dos outros. Naquele momento, nunca tive tanto orgulho da minha filha. Sandro fez sinal pros comparsas. Eles começaram a se mover na direção dela e foi então que ouvia as sirenes. Carros da polícia vinham rasgando a estrada de acesso à
usina, luzes vermelhas e azuis Estourando na escuridão. "Droga!" Sandro gritou. "Quem chamou a polícia?" Raquel ergueu o rosto ensanguentado e sorriu. Eu antes de vocês chegarem. Mandei tudo pro escritório regional da Polícia Federal junto com nossa localização e a descrição dos veículos. As viaturas frearam em frente à usina e vários policiais saltaram com armas em punho. Polícia! Todo mundo no chão agora. Os amigos do Sandro caíram de joelhos na mesma hora, mas Sandro tentou correr, disparando pros fundos do galpão. Não foi longe. Um policial derrubou antes de completar 3 m. Enquanto os agentes controlavam a
situação, algemavam Sandro e Bruno e chamavam atendimento para Raquel, eu abracei a Emília pelos ombros e fiquei olhando o amante da minha esposa ser jogado dentro da traseira de uma viatura. Acabou? Ela perguntou. Acabou, filha. Mas eu estava errado. Aquilo estava só começando. Três dias depois, o Gazeta de Santa Helena estampou uma manchete de capa que abalou a cidade inteira. dono de academia local é preso em operação federal de pornografia ilegal e a Janete Pires tinha feito o dever de casa. A matéria detalhava a prisão do Sandro Moreira por conspiração para a produção e distribuição
de pornografia infantil junto com a prisão do Bruno Moreira por acusações parecidas. Descrevia a apreensão de centenas de vídeos ilegais na academia do Sandro e trazia promotores federais dizendo que aquele era um dos maiores casos de voerismo que já tinham visto. Mas a Parte mais devastadora da reportagem era a lista de vítimas. 37 mulheres e meninas, com idades entre 14 e 52 anos, tinham sido filmadas sem consentimento dentro da academia. Os nomes não foram publicados, mas numa cidade como a nossa não ia demorar muito para todo mundo descobrir quem eram. Meu telefone começou a tocar
às 6 da manhã e não parou o dia inteiro. Repórteres do Rio e de São Paulo queriam me entrevistar. Advogados, representando as vítimas, queriam conversar sobre processo coletivo. Clientes antigos da oficina ligavam pedindo desculpas por terem levado os carros para outro lugar, mas a ligação que eu esperava não veio. A Carla não tinha feito contato desde as prisões. Segundo a Emília, ela estava num hotel na cidade vizinha, tentando se esconder da repercussão. Ela tá com vergonha. Emília me disse no café da manhã. sabe que todo mundo tá falando dela e deviam estar mesmo. Ela estava
dormindo com um homem que explorava meninas. Pai, eu não acho que ela soubesse dos vídeos. Ela sabia que o Sandro era um predador. Só não se importava desde que ele desse a ela o que ela queria. Emília ficou quieta por um momento. O que vai acontecer com o bebê? Era uma pergunta que eu vinha evitando. A Carla estava grávida de 4 meses do filho do Sandro. E o Sandro provavelmente passaria os próximos 20 anos numa prisão federal. Eu não sei, filha. Isso depende da sua mãe. Se ela pedisse, você consideraria criar a criança? Olhei para
minha filha, Impressionado com a capacidade que ela tinha de perdoar. M, esse bebê não é minha responsabilidade, mas também não tem culpa de o Sandro ter virado um monstro. Ela tinha razão. A criança era inocente, mas eu não sabia se era forte bastante para criar o filho de outro homem, especialmente do homem que tinha destruído meu casamento. Quando essa ponte aparecer, a gente vê se atravessa. Naquela tarde, o Davi me ligou com novidade sobre a situação jurídica. As acusações federais contra o Sandro e o Bruno são fortes ele disse. Os dois estão olhando para décadas
de prisão. Mas tem outra coisa que você precisa saber. O quê? A Carla entrou com um pedido de medida protetiva contra você. Alega abuso, ameaça e conspiração para mandar prender o namorado dela com acusações falsas. Eu ri, mas sem humor nenhum. Acusações falsas? O FBI aprendeu o vídeo dos crimes. Eu sei. Você sabe. Mas o advogado dela tá dizendo que você plantou a prova. Que invadiu o computador do Bruno e criou o arquivo falso para incriminar o Sandro. Isso é ridículo? Claro que é, mas significa que você não pode falar com a Carla diretamente enquanto
a medida estiver valendo. Tudo agora tem que passar por advogado. Ótimo. Eu não quero falar com ela mesmo. Nicolas, tem mais uma coisa. O advogado dela quer antecipar a audiência do divórcio. Quer fechar tudo antes do Sandro ir a julgamento. Então deixa ele correr. Você tá pronto? Mais do que nunca. Por que a Carla vai dizer que você armou tudo isso por vingança por causa da traição? Vai tentar pintar você como um marido rancoroso que destruiu a vida de um homem inocente por ciúme. Um homem inocente comandando um esquema de pornografia infantil. Não é sobre
verdade, Nicolas, é sobre percepção. E agora algumas pessoas na cidade já começaram a se perguntar se talvez você não tenha ido longe demais. Aquilo me pegou de surpresa. Que pessoas, gente que acha que o Sandro e o Bruno merecem punição, mas também acha que você errou ao envolver a Emília numa situação tão perigosa. Gente que diz que você devia ter ido direto à polícia em vez de fazer justiça com as próprias mãos. Aquela raiva velha subiu de novo. Então agora eu sou o vilão. Para algumas pessoas, sim, o pai que colocou a filha em risco
por vingança contra o amante da esposa. Eu sou o homem que expôs um predador que explorava mulheres e crianças. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo, Nicolas. Naquela noite, eu estava trabalhando até mais tarde na oficina quando ouvi um carro entrando no pátio. Pela janela, vi a Carla saindo do ronda dela, andando devagar. A barriga começava a aparecer. Ela parecia exausta. Fui até a porta, mas não abri. A medida protetiva significava que ela não devia estar ali. Nicolas, ela chamou. Eu sei que você tá aí. A gente precisa conversar. Conversa Com o meu
advogado. Por favor, só 5 minutos. Contra meu bom senso, eu abri a porta. A Carla parecia mais velha do que uma semana antes. Tinha olheiras fundas e o rosto abatido. Você não devia estar aqui. Eu sei. Mas eu precisava te ver. Precisava tentar explicar. Explicar o quê? Como você se apaixonou por um homem que vendia pornografia infantil? Eu não sabia disso, Nicolas. Você precisa acreditar em mim. Eu não fazia ideia do que o Sandro fazia. Mas você sabia que tipo de homem ele era? Sabia que ele manipulava a gente, que usava as pessoas. Carla começou
a chorar e por um segundo eu senti um lampejo daquela antiga compaixão que eu tinha por ela. Eu tava sozinha, Nicolas. A gente vinha se afastando há anos. O Sandro me fazia sentir desejada de novo. Jovem, bonita, viva. E aí você decidiu jogar fora 22 anos de casamento. Eu decidi ser feliz pela primeira vez na minha vida. As palavras ficaram entre nós. E naquele instante eu entendi a verdade. A Carla não tinha sido seduzida nem enganada no sentido mais inocente da palavra. Ela tinha feito uma escolha consciente. Tinha escolhido a própria felicidade, custasse o que
custasse para mim e para Emília. "Tá feliz agora?", perguntei. Ela baixou os olhos. "Não, tô com medo. Tô sozinha. E a cidade inteira Me acha uma idiota. E tá errada." Ela levantou os olhos na minha direção. O bebê não é seu. Mas você poderia? Não, eu não poderia. Essa criança é responsabilidade do Sandro Moreira, não minha. O Sandro vai ficar preso por muito tempo, Nicolas. Ótimo. Ela me olhou com uma expressão que eu não consegui decifrar. Você me odeia mesmo, né? Pensei bastante antes de responder. Não, eu não odeio você. Eu só não amo mais.
Quando isso aconteceu? Na noite em que descobriu o Sandro, no exato instante em que percebi que meu casamento inteiro tinha sido uma mentira. Não foi tudo mentira. Foi sim. Por que se você conseguiu jogar tudo fora com essa facilidade? Se conseguiu me trair desse jeito, então nada daquilo era real. Carla chorava mais forte agora e eu não senti nada. Nem pena, nem raiva, nem arrependimento, só vazio. Eu devia ir, ela disse. Devia. Ela se virou, caminhou até o carro, depois parou e olhou de volta. Nicolas, eu sinto muito por tudo. Eu sei que isso não
muda nada, mas eu queria que você soubesse. Eu sei. Depois que ela foi embora, fiquei sentada na oficina por muito tempo, pensando no homem que eu tinha sido e no homem em que eu tinha me transformado. Uma semana antes, eu teria perdoado, teria aceitado ela de volta, teria criado o filho do Sandro como se fosse meu, teria tentado reconstruir nosso casamento, mas aquele homem tinha morrido. No lugar dele havia alguém mais duro, alguém que entendia que certas traições não têm conserto, que certas pontes, depois que queimam não podem ser refeitas. Alguém disposto a virar o
vilão, se fosse isso que precisasse ser feito para proteger as pessoas que amava. Meu celular vibrou com uma mensagem da Emília. Pai, você tá bem? A mamãe disse que foi te ver. Eu respondi: "Tô bem. E você?" Ela mandou de volta. Antô. E tenho orgulho de você. De tudo. Foi a primeira vez em dias que eu sorri de verdade. Talvez ser o vilão nem fosse tão ruim assim. Seis meses depois, numa terça-feira fria de fevereiro, o divórcio foi finalmente concluído. Eu fiquei com a casa, a oficina e o pouco de respeito próprio que ainda me
restava. A Carla ficou com metade das nossas economias e uma lição amarga sobre o preço de trair as pessoas que te amam. Sandro Moreira foi condenado a 25 anos de prisão federal. Bruno pegou 15. A Academia Moreira fechou as portas para sempre. Hoje no lugar funciona uma creche. A Raquel, cujo nome completo eu descobri depois ser Raquel Shen, acabou virando uma espécie de amiga. A filha dela fazia terapia para lidar com o trauma de ter sido filmada escondida e a própria Raquel criou um grupo de apoio para outras vítimas de crimes de voerismo. A Emília
estava florescendo, trocou o curso e foi estudar direito com foco em área criminal. Falava em ser promotora. Acho que quero colocar gente como eles na cadeia", ela me disse. Quero garantir que não machuquem mais ninguém. Eu tinha orgulho da mulher que ela estava se tornando. Quanto a Carla, ela deu à luz um menino em janeiro. Deu a ele o nome de Miguel, em homenagem ao meu pai, o que me pareceu ou uma tentativa torta de reconciliação ou mais um ato egoísta dela. Até hoje não decidi qual dos dois. Por meio dos advogados, ela perguntou se
eu queria conhecer o bebê. Eu recusei. Algumas pessoas da cidade acharam crueldade. Disseram que a criança era inocente, que eu devia ser maduro, que devia ajudar. Mas eu aprendi uma coisa naquele último ano. Ser o homem maior é uma ideia super estimada. Às vezes, ser o vilão é o único jeito de proteger a si mesmo e as pessoas que você ama. Numa tarde de sábado, eu estava na oficina mexendo no carro da dona Helena quando a Emília entrou com um jornal na mão. Pai, você precisa ver isso. Era uma matéria de um grande jornal sobre
uma investigação federal envolvendo crimes de voerismo em academias e centros fitness por todo o estado. Ao que tudo indicava, o esquema do Sandro e do Bruno fazia parte de uma rede maior que vinha explorando mulheres e meninas fazia anos. A investigação tinha levado a dezenas de prisões e ao fechamento de vários estabelecimentos. Os promotores chamavam aquilo de um dos maiores esquemas de voerismo já descobertos. "Olha essa parte", a Emília disse, apontando para um parágrafo perto do fim. A investigação começou quando uma denúncia anônima levou agentes federais à Academia Moreira em Santa Helena. Segundo fontes próximas
ao caso, a pessoa que denunciou forneceu vasta quantidade de provas das filmagens ilegais, incluindo registros financeiros e arquivos de vídeo que comprovaram a extensão da operação. Levantei os olhos para minha filha. Denúncia anônima. Pai, você e a Raquel salvaram muita gente. Meninas que teriam sido filmadas e exploradas se aquilo tivesse continuado. Ela tinha razão. Ao destruir Sandro Moreira, a gente tinha feito mais do que vingar nossa família. A gente impediu que outras famílias passassem pelo mesmo inferno. "Você se arrepende de alguma coisa?", Emília perguntou. "De tudo que aconteceu?" Eu pensei de verdade antes de responder.
Eu me arrependia de perder meu casamento. Eu me arrependia de ter virado o tipo de homem capaz de arruinar os próprios inimigos. Eu me arrependia de ter ensinado minha filha que às vezes para conseguir justiça era preciso lutar sujo. Não disse. Não me arrependo de nada, nem de perder a mamãe, principalmente disso. Ela me mostrou quem ela era de verdade e eu mostrei quem eu sou de verdade. Acho que no fim Foi melhor para todo mundo. Emília sorriu. Sabe o que eu acho? O quê? Eu acho que você não é o vilão dessa história. Acho
que você é o herói. Heróis normalmente não destróem a vida dos outros por vingança. Destróem sim, quando esses outros merecem. Minha filha tinha um ponto. Naquela noite eu estava fechando a oficina quando meu celular tocou. Número desconhecido. Normalmente isso significava telemarketing ou engano, mas alguma coisa me fez atender. Alô. Oi, Nicolas. É a Raquel. Raquel, como você tá? Bem, muito bem. Na verdade, eu queria te agradecer pelo quê? Por tudo. Por me ajudar a fazer justiça pela minha filha, por ter topado arriscar tudo para impedir o Sandro e o Bruno. Você não precisa agradecer. A
gente ajudou um ao outro. Eu sei, mas também queria te contar outra coisa. Eu vou me casar. Isso é ótimo. Fico feliz por você. O nome dele é Davi. Ele é professor na escola da minha filha. Um homem bom. Alguém que nunca machucaria uma criança, nem exploraria uma mulher. Parece perfeito. Ele é. E Nicolas, quero que você saiba que tudo o que a gente fez, tudo que viveu junto, me ensinou que eu merecia coisa melhor do que tive antes. Me ensinou a reconhecer um homem de verdade quando encontrei um. Eu sorri, fico feliz. E você
tá saindo com alguém? Ainda não. Não tô pronto. Um dia vai estar e quando estiver vai encontrar alguém que mereça você. Alguém que nunca te traia do jeito que a Carla traiu. Talvez. Não, com certeza. Você é um dos homens bons, Nicolas. Não deixa ninguém te convencer do contrário. Depois que a Raquel desligou, fiquei parado no meio da oficina vazia, cercado por ferramentas e máquinas que representavam tudo que construí com as próprias mãos. Pensei no homem que eu tinha sido um ano antes e no homem que eu era agora. Pensei nas escolhas que fiz, nas
linhas que atravessei, nas pessoas que machuquei no caminho até a justiça. Pensei na minha filha, mais forte e mais sábia por causa de tudo que a gente tinha enfrentado junto. Pensei na minha ex-esposa, sozinha com o bebê, cujo pai estava na prisão, aprendendo da pior forma que toda ação traz consequência. E pensei em Sandro Moreira, sentado numa penitenciária federal, provavelmente ainda tentando entender como o plano perfeito dele tinha desmoronado de forma tão completa. Eu virei o vilão na história de muita gente. O ex-marido vingativo que destruiu a vida de um homem mais jovem por ciúme,
o divorciado amargo que não soube largar a raiva. Mas eu sabia a verdade. Eu fui o pai que protegeu a filha de um predador. Foi o homem que Expôs uma rede criminosa que estava explorando mulheres e meninas. Foi o sujeito que se recusou a ser destruído pela própria dor. Então, se isso faz de mim um vilão, que seja. Algumas histórias precisam de vilões e algumas famílias precisam de alguém disposto a virar