Hoje, nós vamos falar sobre o sono e o autismo, retomando aqui a nossa série de vídeos. Na quinta-feira passada, não pude gravar porque comentei com vocês que estava sem voz. Fiz a publicação lá na nossa comunidade e, aliás, foi a partir desses comentários que eu triei esse tema aqui.
Os comentários mais curtidos ficam acima; vocês podem ver lá que tem um ranking que o próprio YouTube faz. A partir disso, eu vi que um dos comentários é do Wids, e eu não sei se estou lendo o nome corretamente, mas ele sugere uma lista de temas, e um desses temas é sobre alterações do sono em pessoas autistas. Antes de mais nada, preciso agradecer a vocês pelos comentários e pelo tanto carinho que vocês me enviaram; foi excelente!
Eu, por recomendação médica, precisei fazer um retiro de silêncio para poupar a voz. Agora, nessa semana, nós temos um congresso, o Congresso Espectro, em São Paulo; então, é um evento grande e eu precisava cuidar da voz. Teremos vídeo hoje e teremos vídeo na quinta-feira também, mas vou fazer vídeos mais curtos a partir desses temas, e depois nós vamos aprofundando a nossa conversa, ok?
Então, começando pelo sono, essa correlação entre alterações do sono e o autismo. Vamos falar sobre a prevalência. A prevalência de insônia e de alterações do sono em pessoas autistas é muito alta, muito mais alta do que na população em geral.
Os estudos chegam a estimar cerca de 80% de prevalência de insônia e alterações do sono em geral em crianças autistas, enquanto nas neurotípicas essa estimativa é de cerca de 20% a 40%, ou seja, menos da metade. E quais são os possíveis motivos, as possíveis causas de insônia em pessoas autistas? O primeiro deles pode ser uma alteração biológica do relógio biológico, o ritmo circadiano, porque muitas pessoas autistas têm dificuldade para regular esse ciclo sono-vigília por questões que às vezes estão realmente ligadas à arquitetura cerebral.
Existem alguns estudos que falam sobre o número de piscadelas ao longo do dia. Se a pessoa fica com os olhos mais abertos, mais estalados, ela pode ficar mais atenta; se pisca mais, pode ter um pouco mais de sonolência. Tem essa repercussão.
Às vezes, a pessoa tem dificuldade na produção de serotonina e melatonina, e isso tudo pode ser investigado. O segundo motivo aventado é a hipersensibilidade sensorial, a hiperreatividade. Por exemplo, se o quarto estiver muito quente ou muito frio, a temperatura pode atrapalhar o sono.
As meias ou o pijama também, se tiverem costuras muito ásperas, podem deixar a pessoa mais agitada e dificultar o relaxamento necessário na hora de dormir. O terceiro motivo pode ser a ansiedade, a sobrecarga sensorial ou social. Depois de dias muito longos e intensos de atividades novas, a pessoa precisa relaxar mais, mas às vezes não consegue.
Se a pessoa tiver que socializar por muito tempo, parece que a energia escoa. Ela deveria relaxar, apagar, mas não consegue. Se precisou gastar muita energia para administrar imprevistos, isso também pode acontecer à noite.
O pensamento fica muito agitado, tem pensamentos perseverativos e, consequentemente, insônia; o corpo não consegue relaxar. Um quarto fator pode ser a presença de comorbidades. Por exemplo, se a pessoa tem TDAH, realmente ela pode ser mais agitada, ficar mais inquieta, hiperativa; ela pode querer adiar a hora do sono.
Acontece muito com os meus alunos, que falam que acordam muito tarde e, assim, vão adiando o horário de dormir, porque estão mais atentos à noite. Esse ciclo vai se perpetuando, porque quanto mais tarde dorme, mais tarde acorda. O dia parece ficar mais curto, e a pessoa quer aproveitar o que não fez nesse tempo perdido pela manhã, querendo aproveitar lá pela meia-noite, uma hora da manhã, e isso atrapalha tudo.
Precisamos reconfigurar a agenda, e isso melhora muito. Se a pessoa estiver passando por uma fase de depressão, isso também pode levar a alterações do sono. A pessoa pode ter hipersonia, querer ficar só quietinha, parada, dormir muito, passar muitas horas na cama, e também pode acontecer o contrário: às vezes, a pessoa tenta dormir e não consegue.
Os dois são sinais que precisamos observar quando a pessoa relata muito sono ou pouco. Na epilepsia, nós também podemos ver alterações do sono, então é importante fazer uma avaliação completa e observar esses detalhes, porque uma queixa como a insônia pode ter múltiplas causas. Agora, qual é o possível impacto na saúde?
Então, esse impacto de não dormir: o que pode fazer com a saúde da pessoa autista? Quais são as queixas de quem não dorme bem? A insônia e outros problemas do sono podem ter um impacto significativo, tanto no caso de pessoas neurotípicas quanto nas pessoas autistas.
Agora, como a pessoa autista é geralmente muito sensível, o impacto pode ser ainda mais significativo. Por exemplo, pode haver o agravamento dos traços autísticos. A falta de sono pode deixar a pessoa ainda mais autista, digamos assim, porque ela pode apresentar mais estereotipias, ter mais dificuldade na socialização e na reciprocidade social.
Ela pode ter dificuldade para iniciar as suas interações e para compreender as pistas sociais. Todos esses traços a fazem ficar muito conectada ao seu mundo seguro, muitas vezes conectada ao seu hiperfoco. Isso acaba acarretando problemas ou maiores dificuldades em relação ao critério que diz respeito à socialização e à comunicação.
Isso quer dizer que não dormir acaba aumentando o número, a quantidade de movimentos, comportamentos repetitivos e restritivos, e também dificulta a comunicação e a interação social. Além disso, podemos perceber problemas cognitivos. Isso é natural para todas as pessoas.
O sono inadequado pode afetar a atenção e a memória. Aprendizagem pode ter redução no desempenho acadêmico. Tudo isso a gente precisa levar em consideração.
Agora, em relação à saúde geral, os estudos indicam que a pessoa que dorme mal corre maior risco de ter problemas cardiovasculares, alterações hormonais e o sistema imunológico fica enfraquecido; então, tem uma série de problemas que podem, inclusive, levar à redução da longevidade. Tem um estudo conduzido pela Universidade de Cambridge que saiu em 2023, e os pesquisadores fizeram uma análise de rede. Descobriram que a inquietude das pessoas autistas, que está ligada à insônia e à baixa concentração, tudo isso pode deixar a pessoa autista muito aflita, e esses componentes elevam significativamente a taxa de ideação suicida.
Olha só que crítico! Esse tipo de sintoma ou de queixa não aparece no grupo controle das pessoas neurotípicas. Para que você relaxe, durma melhor e também acorde mais energizado, a primeira delas é a higiene do sono.
Todo mundo sabe disso: tem que estabelecer uma rotina consistente, sabendo direitinho a hora que você vai escovar os dentes, que vai desligar as luzes de casa, que vai reduzir o ritmo e também a hora que você vai para a cama. A gente precisa criar esse ambiente para dormir direitinho e expor as retinas à luz pela manhã; se a gente conseguir fazer isso também no entardecer, é maravilhoso. Tudo isso constitui a higiene do sono.
Então, não é só o momento de dormir; desde que acordamos, precisamos pensar na qualidade do sono. Se as retinas, né, os olhos, são expostos à luz natural — não é ficar olhando diretamente para o sol, mas se você vai fazer o seu alongamento, meditar um pouquinho, cuidar das plantas, estar em um ambiente claro com luz natural — naturalmente, também o seu relógio biológico vai se ajustando e a tendência é que você libere melatonina ao entardecer e durma melhor. Algumas pessoas também vão ter benefícios com a suplementação de melatonina; aí, o médico precisa observar direitinho, porque algumas pessoas autistas se queixam de sonhos muito vívidos quando a dose de melatonina é um pouquinho mais alta.
Então, as pessoas autistas tendem a ser mais sensíveis; talvez elas não precisem de doses muito elevadas desses suplementos, já tendo os benefícios com microdoses. Terapia sensorial, também técnica de integração sensorial, pode ajudar bastante a reduzir essa hiperreatividade e ajudar a relaxar na hora do sono. Os exercícios físicos, claro, todos nós sabemos que manter atividade física regular ajuda a dormir melhor, ajuda a regular o relógio biológico, a relaxar à noite e a ter um sono mais reparador.
Então, não há dúvidas; também não há segredos. Nós não estamos falando sobre novidades aqui, mas, de todo modo, no nosso livro "Espectro Autista Feminino", nós temos um capítulo específico da doutora Thí Frad que é bastante interessante. Talvez você queira ler para saber sobre essas possíveis alterações do sono e repercussões de maneira mais aprofundada, sobretudo quando se trata de meninas autistas.
Lembrando que a abordagem toda, intervenção precisa ser individualizada. Estamos falando sobre fatores gerais, sobre hábitos saudáveis em geral, sobre pesquisas que falam como o sono pode estar alterado e também como nós podemos melhorá-lo em pessoas autistas. Mas agora, gostaria de saber de vocês: o que acontece?
O que vocês observam em relação ao sono? Vocês tiveram alterações durante a infância? Ainda têm?
Que tipo de repercussão vocês observaram em relação à saúde? E também quais foram as estratégias mais saudáveis, mais adaptativas? O que vocês percebem que funciona melhor?
Muito obrigada mais uma vez pela sugestão. Vamos seguindo essa lista. Se tiverem mais temas ou tópicos que vocês queiram que eu aborde aqui, vai ser um prazer conversar com vocês.
Grande abraço e até breve. Tchau tchau!