E como é difícil para um homem virar pai! Homem faz filhos, claro, mas como é difícil de ser pai. É um homem feito para ser duro, orgulhoso, violento, competitivo, egoísta.
Como é difícil para um homem transformar o seu coração de pedra em um coração de manteiga! E é preciso milagre, químico, uma intervenção cirúrgica, ouvir mais, falar menos, aceitar um imprevisto incontrolável, o imponderável, não ligar para a opinião dos outros, tirar suas máscaras, reconhecer seu choro, recolher a âncora e aceitar que a vida é onda, tirar maduro, poder construir um castelo. Pai não tem útero, mas tem colo.
Não tem peito, mas pai tem mamadeira. Não carrega na barriga, o carrega no braço, carrega no ombro, carrega nas costas, carrega na cabeça. Para engravidar no frio da barriga quando descobre que vai ser pai, mas já está no coração.
Põe no choro, no treino, beijo, alimento do carinho, protege na atenção, mas não tem cordão umbilical. Mas tem mãos, braços e pernas para fazer chegar o necessário. Mas não faz leite, mas pai pode fazer comida.
Não amamenta, mas pode fazer a papinha, pode dar papinha, pode sujar a roupa inteira de papinha, pode limpar a papinha que caiu no chão. Mas não tem nove meses de gestação, mas tem anos e anos de formação. Pai já está fora, tentando acertar todos os dias, aí é rei, princesa, professor, Messi, Einstein, gigante, minúsculo, imbatível, chorão.
Ser um bom pai, bom filho, um bom marido, um bom homem, auréolas invisíveis e asas escondidas embaixo das nossas camisas. Que sejamos o super-herói que os nossos filhos sabem que a gente pode ser: heróis comuns, empurrando carrinhos, levando nossos filhos nos slides, agradecidos por um dia termos virado o que a gente nunca imaginou. Como é bom quando um homem consegue virar pai!