Os principais problemas que a gente tem enfrentado hoje na comunidade cigana da cidade de Sousa é a dificuldade de emprego. . .
é a dificuldade de medicação, de saúde, entendeu? A educação, o saneamento básico. .
. Sobre o que vocês veem hoje aqui: a questão da rede de esgoto, saneamento básico, saúde, desemprego. A sociedade não vê isso não, meu irmão.
A nossa situação aqui está muito precária. É esgoto ao céu aberto como o senhor viu ali fora. O mato tomando conta.
No nosso PSF, é uma vez perdida para aparecer um médico. Se vier, atende 10, 15 pessoas. Dentista, dificilmente tem.
A nossa situação aqui em termos de saúde, saneamento básico é uma situação precária. Os médicos e os postinhos nos atendem um dia sim e outro não. Não tem médico.
Quando é para receber algum exame médico, a pessoa morre e o exame não chega aqui. Aí, me diga uma coisa: os enfermeiros saíram de que horas? - A enfermeira saiu de quatro horas, a técnica.
- A enfermeira não veio hoje à tarde. - A enfermeira não veio? - Só veio pela manhã.
A questão aqui é falta de infraestrutura, como o senhor vê, ainda há casas de taipa por aqui. Tem casas que não têm energia. Não tem nem um pote para tomar água.
Quando falta, a gente vai beber na casa da vizinha. Aqui, na comunidade, está faltando saneamento básico, está faltando moradia. Há muita gente morando em casas de taipa.
A moradia aqui com a gente é precária, Porque a gente não tem esgoto, não tem saneamento básico de nada. Para você ver, se você andar pelas casas, você vê o lixo tomando conta. O mato tomando conta das casas.
A gente tem que se virar entre si. Há mais de 30 anos que eu não moro em casa de tijolo, só em casa de taipa. Não tenho condições de levantar, né?
Não vou mentir. Há muitas famílias morando em uma residência só. Há casas que moram 3, 4 famílias porque elas não têm condição de fazer casa.
Tá vendo as condições da minha casa? Que está toda caindo, nem barro tem. Rodeada de plástico.
Se você for olhar, é rodeada de plástico. - Isso aqui, ó. - Olha a bagunça da casa.
- Olha as portas como são. Está vendo? Rapaz, é como eu digo, Eu sou um cara jovem, eu não sou fácil de desistir.
A gente vem correndo atrás dessas moradias, dessa regularização do terreno. Inclusive, há muitas casas de tábua na nossa comunidade cigana. É um projeto de muito tempo atrás.
Estamos correndo para regularizar o terreno, para conseguir fazer essas moradias. Como você está vendo, é uma dificuldade enorme. Muito grande, mesmo.
Essa casa é de uma filha minha. Aqui, quando chove, a água corre, mistura água de esgoto para dentro da casa da minha filha. Até meu neto pegou uma doença muito grave.
Foi preciso ir para Campina Grande. Ele pegou meningite. O médico mandou tirar meu neto daqui rapidamente.
Meu menino pegou meningite. Eu tive que o levar para Campina Grande e a médica dele, que é a Dr. Francisca Teodório, ela até suspeitou disso, de ser por conta da água do esgoto entrar na minha casa.
Na casa do meu menino, quando chove, a água fica entrando. A gente passa a noite todinha tirando água com a vassoura, com o rodo. Meu neto já passou 9 dias em Campina Grande com uma doença que o médico acusou que tenha sido por conta da água do esgoto dentro de casa.
Nós sofremos muito aqui. A rede de esgoto é ao céu aberto. O prefeito tinha que ajeitar, né?
Mas, até agora, não fez. Pode ser que ele ajeite nossa rede de esgoto aí, mas, até agora, ele não fez nada por nós. Nem almoçar direito eu almoço e nem janto quando isso entope.
Até para dormir, a gente tem dificuldade porque ficamos inalando o mau cheiro. Espero que eles venham até a nossa comunidade para tirar o esgoto. Porque a gente vive dentro de um esgoto.
Espero que façam o saneamento básico, olhem para o povo que tem muita gente que está doente. Olhem pela saúde do povo. Fica cheio de esgoto e enche de tudo que é ruim aqui.
Eu não quero nem dizer o nome. A casa da minha filha não tem banheiro. Nossa situação é péssima.
Para fazer necessidades fisiológicas, somos obrigadas a ir para dentro do mato. Nós, mulheres, esperamos até a noite por causa dos homens. Aqui, por trás, tem uma firma e passam pessoas que vão trabalhar lá.
Não tem saneamento básico. A respeito de prefeitura, entra prefeito, sai prefeito, mas não fazem isso pela gente. É preciso que se desloque da casa para fazer dentro do mato.
Tem dia que você tem que vir aqui com uma toalha na cabeça para as pessoas só verem a parte de baixo, não verem o rosto. Prefeito não vem aqui. Vem o carro do lixo, eles passam por aqui.
Sabe o que acontece? Eles passam rasgando, os lixos caem. Eles passam direto, fica o lixo dentro de casa.
Quando é tempo de mosca, muriçoca, o pessoal taca fogo no lixão. É pena de galinha, é carniça, é cachorro morto que o vento leva, e fica a catinga. Ninguém aguenta.
Nem almoça, nem janta. As crianças, os mosquiteiros tomam conta. Não temos assistência de nada.
Aqui a gente não tem emprego. Não temos condições de pagar essa energia tão alta. Sem emprego, como pagar uma energia alta?
Dentro da comunidade, têm pessoas que fazem vários tipos de trabalho. As mulheres e os homens são divididos. Mas, nessa questão, o divulgamento é pouco.
O preconceito ainda existe. Hoje em dia, os ciganos, quando vão entregar o currículo em uma loja, quando as pessoas olham o endereço e vê que é cigano, eles discriminam. Já nos tiram do lado dos outros, entendeu?
Fiz um curso de camareira. Coloquei meu currículo em vários hotéis daqui de Sousa e nem sequer eles olhavam o currículo. Se for pedir um emprego numa casa de família, se for cigano, eles não dão.
Passamos muito preconceito. Trabalhamos com tudo, mas não temos oportunidade de mostrar nosso trabalho. Eu sou alfaiate, sou cabeleireira.
Eu faço crochê, eu pinto. E não tenho condições de fazer isso porque ninguém compra, não. Se chegarmos em algum canto para pedir um emprego e perguntarem: "É cigano?
" já é outro peso e outra medida. Quando falo a palavra "cigano", eles já ficam com receio. Fazendo a entrevista, perguntam: "Você é.
. . ?
" "Sou cigano" Ali já acabou a entrevista. Não vai poder trabalhar porque eles dizem que já estão preenchidas as vagas e encerram a entrevista na mesma hora. Quando você diz que é cigano, encerram na mesma hora.
Para você ver o tanto de preconceito que ainda existe quanto a nós, um trabalho lindo como este e é nós que fazemos. Por que não temos oportunidade? Na cidade, não temos condição.
E o Poder não nos ajuda. Tem cigano formado hoje. Tem cigano médico.
Tem cigano advogado. Mas, mesmo assim, há o preconceito das pessoas não se consultarem com um cigano, não ter um cigano como advogado. Eles pensam que não somos trabalhadores, pensam que, se entrarmos, iremos roubar, iremos fazer coisas erradas dentro da obra, dentro de uma construção.
A gente, dificilmente, tem oportunidade de trabalhar. A gente não tem emprego. A gente não tem um trabalho fixo.
Daí a gente tem que pedir. A gente é pobre. Há dias que têm o que comer, há dias que não têm.
A gente passa fome. A gente só come quando vai pedir para comer. Não temos vergonha de dizer.
É melhor pedir do que pegar, no que diz respeito à lei. Não minto para vocês, eu vivo de doação. Eu vou para Rio Grande arrumar alimentos para os meus filhos, meus netos.
Nós vivemos de doação. Vão completar 3 anos que eu estou desempregado. Minha mulher pede para comer e eu também peço.
Meu pai, minha mãe. - Hoje, nessa casa, eles nem comeram porque ela não pode pedir porque estava doente, com dor na perna. - Com certeza.
- Com certeza - Já hoje não vai ter merenda, nem almoço. Porque eu não pude pedir devido a uma dor que eu estou sentindo na minha perna. Eu tenho 76 anos, minha filha.
Mas, graças a Deus, eu ainda tenho força de pedir minhas esmolas para comer. Deus me ajuda. A gente pede ao governador, às pessoas de capacidade, que olhem pela gente.
Veja a situação das pessoas. Entra prefeito, sai prefeito e nada de nos ajudar. É o que estamos vendo.
O Poder Público nos prometeu fazer saneamento básico, fazer os asfaltos da comunidade e melhorar a situação do atendimento do PSF na nossa comunidade. Uma benfeitoria como uma escola para os ciganos, uma creche que nós precisamos. Nós não temos.
A gente queria pedir ajuda ao Ministério Público, ao governo estadual, municipal, que nos ajudasse com isso. A gente está vivendo uma situação muito precária mesmo. Se o Poder Público, o governo municipal, estadual vierem aqui dá uma olhada, vão ver que não estamos falando mentiras.
Estamos falando a verdade. Nós esperamos que melhore, com a força de Jesus, se as pessoas tiverem pena e compaixão. Tem tanta criança doente aqui.
Gente velha doente também da água de esgoto, das coisas que aparecem aqui dentro, só o senhor vendo. E pedir à comunidade de Sousa, para o pessoal de Sousa e da Paraíba, para acabar com esse preconceito com a gente. Deixem a gente mostrar o nosso trabalho, as nossas culturas, o que a gente sabe fazer.
Queria pedir que o povo olhasse por nós também que nós somos gente também. Olha por nós, por favor, Poder Público. Quem tem poder pra isso, olhe por nós também.
Eu não sei, minha filha, o porquê deles não gostarem de ciganos. Discriminam muito os ciganos. Por que nós somos tão discriminados desse jeito?
Nós também somos eleitores. Há mais de 40 anos que moramos em Sousa e, desde 1960, que os ciganos votam em Sousa e não alcançamos nada? Eu não sei porque também somos seres humanos.
É a questão da palavra "cigano". Eu não sei qual é a diferença de eu ser um cigano para você ser ou para ela ser. Porque somos feitos de carne e osso também.
Feitos de sangue. Mas a palavra "cigano" é uma palavra forte para sociedade. Aqui em Sousa ninguém abre uma porta, não.
Se souber que é cigano, não entra dentro de uma casa. Eles não vão ter confiança de deixar a casa na mão de uma cigana. Nós não somos do mal.
Nós não somos do mal, não. Nós somos gente também. Não fazemos mal a ninguém, graças a Deus.
Minha mãe também era assim. Minha mãe era mulher do chefe, quando ela fazia as panelinhas de comer, os ciganos comiam junto. Do mesmo jeito, eu fiquei.
A nossa sorte é que somos unidos. O que falta na casa de um e tiver na casa do outro, o outro serve. Tanto no alimento, quanto na bebida, no vestir, no calçado.
E assim, a gente vai sobrevivendo. Nós somos muito unidos e ajudamos um ao outro. Quando uma não tem, a outra dá.
Como eu disse a você, a gente tem muita fé no Senhor Jesus que as coisas vão melhorar e nós vamos ser bem vistos na cidade de Sousa como pessoas dignas da sociedade. Na visão geral, eu acho que teve um grande avanço. Primeiro, em conseguir reunir as comunidades.
São duas comunidades: Rancho de Cima e Rancho de Baixo. E daí partir para a questão coletiva. Depois das visitas do pessoal do Ministério Público, as coisas estão andando de maneira diferente.
Estamos sendo mais reconhecidos. As coisas estão melhorando como, por exemplo, o postinho de saúde está com um encaminhamento melhor. O postinho de saúde já está com outra visão.
A médica já está atendendo, doutora Alda. Pessoa boa. Se eu consegui?
Consegui sim. Já encaminhei um exame de próstata. A médica deste posto é muito boa.
Antes, nunca parava. A médica aqui é legal e está tendo atendimento sim. - Ainda tem ficha para atendimento médico?
- Tem. - Pode mostrar para ela, por favor? Tivemos grandes avanços em criar a Associação das Ciganas Artesãs do Rancho de Cima “Pedro Maia” e a Associação das Mulheres Artesãs Rancho de Baixo “Rita de Cássia”.
Ou seja, o Rancho tem duas associações de mulheres artesãs que, claro, o principal objetivo é valorizar e dar incentivo a essa cultura rica que elas têm, que é o artesanato. Também tivemos um avanço, um incentivo de projetos para geração de alimentos. E, lá na comunidade cigana, nós conseguimos, durante o ano de 2019, que algumas residências produzissem mudas de pimentão, de coentro, de cebolinha.
. . Até plantação de feijão.
Pessoas que plantaram feijão dentro do seu quintal e se alimentaram desse produto. Isso aí foi o pontapé inicial para fazermos um projeto maior. Um projeto coletivo, que seria o das hortas urbanas.
Como todos nós sabemos, lá na comunidade tem área o suficiente para se fazer uma horta coletiva. Isso fez com que esses órgãos realizassem esse projeto em conjunto. O planejamento, o plano das galinhas foi feito através do Professor Caetano.
Estou criando umas galinhas, ovelhas, porco, que, às vezes, a gente cria porco também Tem outra casa que fizemos para criar porco. E aqui é galinha, ovelha. Outro avanço é a construção da creche dentro da própria comunidade.
Já entrei em contato com a secretária de Educação para que lá tenha um projeto de geração de alimento, que seria uma horta, um setor de fruticultura. Por menor que seja, mas que tenha algo que gere alimento para aquelas comunidades. Imagina a merenda escolar, o fruto, a verdura sendo gerados dentro daquela própria comunidade.
Isso é um projeto que está praticamente elaborado. Falta apenas a conclusão da escola para protocolarmos junto aos órgãos o Ministério, a Secretaria da Agricultura, a Secretaria da Educação, a Ação Social para todos eles se envolverem nesse projeto coletivo dentro da creche. Melhorou bastante com a vinda de vocês.
Inclusive, aqueles cartões alimentação, que muita gente precisa, já estamos recebendo, graças a Deus. Uma das reuniões que eu tive na comunidade Rancho de Cima, o projeto "Rancho Limpo", foi idealizado pela engenheira civil Moema da Nóbrega, que faz parte do Grupo Verde. Visitando a comunidade, ela viu a necessidade de um trabalho em relação ao lixo na comunidade.
Qual é o objetivo desse projeto? É fazer uma política de separação e coleta adequadas do lixo na comunidade. O mais importante é que, hoje, eles estão gerando renda com esse material que seria descartado ao céu aberto.
Melhorou porque a coleta de lixo está vindo cada vez mais. Já tem um projeto de fazer um asfaltamento na nossa comunidade, que é uma coisa importante. Outra coisa também é a questão da pavimentação.
Houve uma melhora em relação à pavimentação. Vocês lembram bem a dificuldade de acesso que tinha, principalmente, no Rancho de Baixo. Mas já houve um avanço na pavimentação daquela comunidade.
O grande problema que era observado, não só hoje, mas durante muito tempo, era a questão da continuação dos projetos. Eu vejo que, através do Ministério, estamos contínuos. Não é uma coisa isolada.
Não só na comunidade cigana, mas às vezes, fazem um projeto isolado e as pessoas envolvidas vão embora. Há vários órgãos envolvidos nesse projeto. Não é uma coisa isolada.
E eles estão vendo a credibilidade dos órgãos que estão presentes. Isso é importante. Eu acho que, no futuro bem próximo, com a instalação da creche e da escola, teremos um grande avanço no envolvimento do professor, do técnico administrativo da escola na comunidade.
Ou seja, será um envolvimento geral das secretarias, junto ao Ministério, junto ao IF, junto ao Grupo Verde dentro daquela comunidade. A gente só tem a agradecer ao pessoal do Ministério Público. Pedir a Deus que cada um de vocês seja bem visto por Ele e que Deus ilumine cada passo de vocês.