Talvez exista um erro muito comum quando nós falamos sobre saúde mental. Nós olhamos para o sintoma. O adolescente está ansioso, o adolescente está deprimido, o adolescente está sofrendo.
Mas raramente fazemos perguntas que vêm antes. De onde isso vem? No vídeo da semana passada nós falamos sobre algo que está preocupando pais, mães, educadores e profissionais da saúde mental em todo o mundo.
Nunca tivemos tantos adolescentes ansiosos. Nunca tivemos tantos jovens deprimidos, emocionalmente exaustos, inseguros e perdidos. Se você ainda não viu esse vídeo, clique no card que está aparecendo em algum lugar dessa tela e assista.
Depois retorne e aprofunde sobre esse assunto neste vídeo. Eu terminei aquele vídeo fazendo uma pergunta. O que os nossos adolescentes estão tentando nos mostrar?
A psicanálise nos ensina que nenhum sofrimento emocional surge do nada. Existe uma história por trás dele. Existe uma construção, existe um contexto.
E talvez seja uma das coisas mais difíceis de aceitar seja que muitos dos sofrimentos que aparecem hoje nos adolescentes já existiam nas gerações anteriores. A diferença é que antes eles tinham outros nomes ou nem tinham nome algum. Muitas pessoas que estão aqui nos assistindo cresceram ouvindo frases do tipo: "Isso é frescura, engole o choro, você tem tudo e ainda reclama, vai trabalhar que isso passa, na minha época ninguém tinha depressão".
Aos poucos fomos aprendendo uma mensagem silenciosa. Sentir era errado. Demonstrar sofrimento era sinal de fraqueza.
Vulnerabilidade era algo que deveria ser escondido. Então nós não deixamos de sofrer. Nós apenas aprendemos a esconder o sofrimento.
E talvez essa seja a maior diferença entre muitos adultos de hoje e muitos adolescentes da atualidade. Não é a existência da dor, não é sobre isso, mas a forma como a dor aparece. O adolescente entra em crise, o adulto continua funcionando.
O adolescente pede ajuda. O adulto continua trabalhando. O adolescente desaba, o adulto continua sustentando tudo.
Mas isso não significa que a ferida desapareceu. Significa apenas que ela encontrou uma forma de sobreviver. E é exatamente aqui que a infância entra nessa conversa.
Porque a infância não é apenas uma fase da vida. Ela é o lugar onde aprendemos quem somos. É o lugar onde aprendemos o que significa ser amado, pertencer, ser importante, ter valor.
Talvez uma das maiores ilusões da vida adulta seja acreditar que a infância ficou para trás. Ela não ficou. Ela continua viva nas escolhas que fazemos, nos relacionamentos que construímos, nos medos que carregamos e na forma como reagimos ao mundo.
Por isso eu quero te fazer uma pergunta muito importante. Quem você precisou ou se tornar para ser amado? Porque nenhuma criança nasce acreditando que precisa ser perfeita.
Nenhuma criança nasce acreditando que precisa agradar todo mundo. Nenhuma criança nasce acreditando que precisa carregar o peso emocional dos outros. Essas ideias são aprendidas.
Uma criança observa o ambiente, observa aquilo que é elogiado, observa aquilo que é criticado, aquilo que aproxima, aquilo que afasta. E ela começa a construir conclusões acerca de si mesma. Algumas concluem: quando eu sou boazinha, me amam.
Outras aprendem: eu não posso incomodar. Outras: eu preciso ser forte. Outras ainda aprendem: eu preciso cuidar de todo mundo.
E essas conclusões parecem pequenas, mas muitas vezes elas se tornam o roteiro emocional de uma vida inteira. Donald Winnicott, um dos grandes psicanalistas que estudam a infância, observou algo extremamente importante. Toda criança precisa sentir que pode existir como realmente é.
Aliás, todo ser humano. Precisa sentir que as suas emoções têm espaço, que seus sentimentos podem aparecer sem que ela perca amor por isso. Mas quando isso não acontece, ela se adapta.
E essa adaptação, ela é inteligente, ela ajuda a criança a sobreviver. O problema é que muitas vezes isso continua funcionando décadas depois. A menina que aprendeu a agradar se torna a mulher que não consegue dizer não.
A criança que precisou ser forte se torna um adulto que nunca pede ajuda. O filho que precisou cuidar emocionalmente dos pais se torna o parceiro que assume sozinho todos os problemas da relação. E muitas vezes essas pessoas são admiradas, são chamadas de fortes, responsáveis, maduras.
Mas existe uma diferença enorme entre força e sobrevivência. Muitas pessoas que se consideram fortes estão apenas cansadas. Cansadas de sustentar, cansadas de resolver, cansadas de carregar.
E aqui aparece um fenômeno que eu vejo com frequência. Filhos que se tornam emocionalmente responsáveis pelos próprios pais. Crianças que precisam amadurecer cedo demais, que escutaram problemas que não deveriam escutar.
Que assumiram responsabilidades que não eram suas, que aprenderam que seu valor estava em cuidar dos outros. Essas crianças crescem, mas continuam vivendo na mesma lógica. Se tornam pessoas que estão sempre disponíveis, sempre ajudando, sempre resolvendo, sempre sustentando e raramente recebendo.
Chega um momento em que começam a adoecer. Porque ninguém consegue passar décadas cuidando de todo mundo sem eventualmente sentir o peso disso. E talvez você esteja ouvindo isso e pensando: "Mas isso não aconteceu comigo".
Então eu gostaria de te fazer algumas perguntas. Você consegue dizer não sem sentir culpa? Você consegue decepcionar alguém sem sentir ansiedade?
Você consegue priorizar as suas necessidades sem se sentir egoísta? Você consegue colocar limites sem medo de perder amor? Porque essas respostas costumam revelar muito mais do que nós imaginamos.
As feridas emocionais raramente aparecem apenas nas lembranças da infância. Elas aparecem principalmente nos padrões da vida adulta. Na pessoa que vive tentando agradar, na pessoa que sente culpa por descansar, na pessoa que precisa provar valor o tempo inteiro, na pessoa que permanece em relações onde ela não é vista.
Aparece até na pessoa que vive tentando conquistar uma aprovação que nunca chegou. Freud observou algo impressionantemente interessante sobre isso. Nós tendemos a repetir aquilo que não compreendemos.
Vira padrão. Repetimos relações, repetimos escolhas, repetimos sofrimentos, não porque gostamos de sofrer, mas porque o inconsciente continua tentando resolver hoje algo que ficou sem solução ontem. Por isso tantas pessoas mudam de parceiro, mudam de emprego, mudam de cidade, mas continuam sentindo as mesmas dores.
Porque a origem do sofrimento não está na situação atual. Ela está na ferida que a situação atual ativou. E talvez seja exatamente isso que estamos vendo nos adolescentes.
Eles estão manifestando mais cedo aquilo que muitos adultos passaram décadas tentando esconder. O medo da rejeição. A sensação de inadequação.
A necessidade de validação. A dificuldade de saber quem são. A ansiedade de não corresponder às expectativas.
Tudo isso já existia, mas agora parece e agudiza de forma ainda maior devido a tantas expectativas. E talvez isso seja doloroso, mas também seja uma oportunidade. Porque aquilo que aparece pode ser compreendido e aquilo que é compreendido pode ser transformado.
Por isso eu quero deixar aqui uma reflexão para você. Olhar para a infância não é procurar culpados. Não é viver preso ao passado.
É compreender origens. Porque ninguém muda aquilo que não compreende. Ninguém interrompe um padrão que não consegue enxergar.
Ninguém se liberta de algo que continua inconsciente. Talvez muitas das dores que você vive hoje não tenham começado na vida adulta. Talvez elas sejam a continuação de histórias muito mais antigas.
E é exatamente sobre isso que nós vamos falar no próximo vídeo. Porque depois de entender como essas feridas se formam e continuam influenciando na nossa vida, surge uma pergunta inevitável. É possível interromper essa história?
É possível parar de repetir padrões? É possível deixar de transmitir para os filhos aquilo que nós também recebemos? Na próxima semana nós vamos falar sobre transformação, consciência e liberdade emocional.
Então se inscreva no canal, ative o sininho, porque o próximo vídeo será o encerramento mais importante dessa série. E talvez ele seja exatamente o passo que faltava para você entender que a sua história não precisa terminar da mesma forma que começou.