Olá, meus queridos irmãos, minhas queridas irmãs, uma grande alegria estarmos juntos mais uma vez no nosso programa "Testemunho de Fé", aqui quem fala é o Padre Paulo Ricardo e quero nos próximos minutos convidar você refletirmos juntos a respeito da Palavra de Deus que a Igreja nos propõe neste 8° Domingo do Tempo Comum. Nesses domingos, nós estamos refletimos a respeito do capítulo 6 do evangelho de São Lucas e, para a gente entender um pouco o evangelho desse domingo, deixa eu colocar um pouco de contexto para você, ou seja, nesse domingo agora, Jesus começa dizendo assim, que “um cego não pode guiar outro cego”, aí critica a hipocrisia, quem quer tirar o cisco do olho do olho do outro, mas não quer tirar a trave do próprio olho. Esse é o evangelho.
Mas, qual o contexto dele? O contexto é exatamente os evangelhos dos domingos passados, você se lembra que dois domingos atrás, Jesus iniciou o Sermão da Planície, Jesus passou a noite em oração no monte, escolheu os Doze Apóstolos e quando, finalmente, com os Doze Apóstolos, desce da planície está lá uma multidão, gente vindo do estrangeiro, de Tiro, e Sidônia, etc. , estão ali prontos para ouvir Jesus.
Jesus, então, se dirige a essa multidão colocando dois caminhos, ou seja, o caminho das bem-aventuranças e o caminho dos “ais”, “Bem-aventurados os pobres”, “Ai de vós, ricos”. Ali Jesus está claramente ensinando que existem dois caminhos, um caminho para o céu, para a felicidade, para a bem-aventurança e um caminho para o inferno, um caminho para a infelicidade eterna. Agora, como é que se comportam as pessoas que trilham e escolhem esses caminhos?
Logo em seguida, Jesus vai ensinar o caminho para o céu, ele diz: “Amem os inimigos porque amando os inimigos, vocês vão ser filhos do Pai do Céu, misericordiosos como vosso Pai celeste é misericordioso”, esse é o caminho das bem-aventuranças, foi o evangelho que a gente refletiu no domingo passado. Agora, Jesus vira do outro lado e vai nos mostrar o caminho que leva para o inferno e qual é o caminho que leva para o inferno? É o caminho onde a gente, ao invés de se deixar guiar pelo verdadeiro mestre e senhor que é Jesus, ficamos cegos e é assim que começa o evangelho desse domingo.
Jesus começa com uma parábola, no versículo 39 se usa a palavra parábola, a palavra parábola aqui é usada num sentido amplo, ou seja, Jesus usa uma comparação, um símile, uma comparação, uma metáfora, mais do que uma parábola. E qual é a metáfora que Jesus usa? “Pode um cego guiar outro cego.
Não cairão os dois num buraco? ”, então, vejam, se vocês vão seguir o caminho dos fariseus, daqueles que são os nossos inimigos, porque, vejam só, Jesus vai ser condenado à cruz por essas pessoas, esses que são os inimigos dele. Jesus ensina, ele diz amar os inimigos como ele amou, ele perdoou os fariseus, perdoou aqueles que queriam matá-lo, “Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem”, é o que nós refletimos no domingo passado, esse é o caminho do céu, das bem-aventuranças.
Pois bem, Jesus vive o caminho do perdão, agora, tem gente que escolhe outro caminho, que não escolhe Jesus como mestre, imitar Jesus na cruz, que perdoa aos seus algozes, tem gente que escolhe como mestre os fariseus. Então, é cego que guia cego, você está cego, sendo guiado por outro cego e se você é discípulo desse tipo de mestre não vai ser maior do que o mestre, ou seja, se você escolhe um cego como seu mestre, não pense que vai terminar enxergando, um discípulo não é maior do que o mestre. Todo discípulo bem formado será como o mesmo, então, se você escolhe como professor um cego, não pense que vai enxergar, o discípulo não é maior do que o mestre.
O que você tem que fazer? Você tem que romper com os fariseus. Os fariseus são hipócritas, eles julgam todo mundo, eles veem os defeitos de todo mundo, só não veem os defeitos deles, são cegos.
Eles não têm autocrítica, autoconhecimento, conhecimento de si mesmos, essa é a característica típica das pessoas soberbas. A soberba, uma pessoa soberba pensa que só tem ela de ser humano no mundo, o resto é coisa, ou seja, você faz uma coisa errada, o que o soberbo diz? "Você tem que compreender o que eu fiz, não é bem assim”, está cheio de justificativas porque ele é gente, você tem que compreender, agora, o outro faz uma coisa errada?
Está errado, vai ter pagar, ele julga, condena, porque só tem um ser humano, só tem uma única pessoa com um eu, com uma biografia digna de ser apreciada, os outros são gente que precisa ser julgada. Deixa eu explicar isso para você um pouco melhor, eu quero que você entenda que isso é uma coisa que é fácil a gente enxergar os fariseus na época de Jesus e não enxergar que pode ser que a gente esteja fazendo a mesma coisa no dia de hoje. Vamos lá, vamos pegar um exemplo banal, do nosso dia a dia, você vai numa loja ou numa repartição pública e está requisitando os serviços de uma pessoa.
O cara não fez o serviço certo? Vocé cai em cima do sujeito, “Vocé é um incompetente, vocé é um irresponsável, vocé é isso, é aquilo”, vocé condena o sujeito porque ele fez um negócio errado, “Eu to pagando! Eu to pagando!
”. Só que se você pensasse bem que aquela é uma pessoa, veja, eu não estou justificando a incompetência dos outros, não é isso não, mas, você já parou para pensar que aquele funcionário que está atrás do balcão tem a vida dele? Será que ele dormiu bem aquela noite?
Será que o filho dele recém-nascido chorou a noite inteira no ouvido dele e ele não está cansado? Será que aquilo não foi uma distração perfeitamente compreensível? Será que aquilo não foi simplesmente uma falha, um defeito, um pecado, que seja, mas que se fosse você, você estaria pronto para perdoar, estaria pronto para pedir compreensão dos outros: “Olha, está bem, veja lá, não é bem assim, veja só a minha situação”.
Veja como são os soberbos. Os soberbos acham que eles merecem toda a compreensão, que são seres humanos que merecem compaixão da humanidade, compreensão, paciência, mas os outros não. Os outros são coisas, não gente, são máquinas que eu aperto o botão e tem que funcionar, “Eu estou pagando, voce tem que fazer o negócio, não quero saber e se voce fez errado, vou denunciar para o seu patrão pra voce perder o emprego, seu desgraçado, vai ser colocado no olho da rua”, mas eu tenho mulher e filho, “Não quero saber, vocé é incompetente, quem não tem competencia não se estabeleça!
”. Veja como nós temos dois pesos e duas medidas. Muitas vezes estamos cheios de misericórdia para com nós mesmos e temos uma medida mesquinha com os outros.
É isso que concluía o evangelho de domingo passado, não sei se você se lembra, domingo passado concluía dizendo assim: “Não julgueis e não sereis julgados, não condeneis e não sereis condenados, perdoai e sereis perdoados, dai e vos será dado, uma boa medida calcada, sacudida, transbordante será colocada no vosso colo, porque com a mesma medida com que medirdes os outros, vós sereis também medidos”. Ou seja, existe um princípio pra você enxergar a realidade, aqui é o princípio - vamos usar o termo psicológico, amplo - é o princípio da empatia, você tem que ser capaz de se colocar no lugar do outro. Quer usar um termo mais teológico, espiritual?
É o princípio da compaixão. Você olhar para o outro como um ser humano de verdade, mas a soberba cega as pessoas, você se sente elevado, superior. A soberba faz com que a pessoa tenha uma visão delirante da realidade.
Sabe quem é assim? As crianças egocêntricas. Pega uma criança mimada, ela que é o centro do mundo e que todo mundo está a serviço dela, “É meu”, “E eu, como é que eu fico”, “Eu quero”.
Que uma criança tenha atitudes assim, ela não foi educada ainda, ela não cresceu ainda, vá, vamos ter paciência com a criança, vamos educá-la. Mas que você, adulto, se comporte como criança, o que é pior, se comporte como criança às vezes até diante de Deus. Todo mundo tem problema, acontece um problema com você: “Onde está Deus nesse momento?
Deus me abandonou! ”, peraí, aí já vai julgando Deus, criticando Deus, jogando coisas contra Deus, porque você é o centro do mundo. Doença todo mundo tem, você abre as páginas dos noticiários e vê pessoas morrendo, acidentes acontecendo, falências, desemprego, tudo acontecendo com a vida dos outros, acontece com a sua.
. . “Onde está Deus nessa hora?
Como isso foi acontecer comigo? ”. E por que não com você?
Por que não com você? Vejam, eu estou dizendo tudo isso para que você enxergue que o que eu estou descrevendo aqui e que Jesus está combatendo, essa cegueira, é a cegueira que foi contraída pelos nossos primeiros pais que foram mordidos pela serpente. É a cegueira da soberba de Adão e Eva, “Sereis como deuses”.
A gente quer o trono de Deus, nós queremos nada mais, nada menos do que o trono de Deus, com essa soberba de nos acharmos o centro do mundo. Tudo pode acontecer com todo mundo, menos comigo, normal que aconteça com outros, comigo não porque eu sou o centro do universo. Para você ter uma compreensão do irmão, para você ser um verdadeiro cristão, eu convido você a olhar para o outro com o olhar que Jesus olha.
Vamos nós tirar a trave do nosso olho antes de ficar corrigindo o cisco no olho do irmão, Jesus diz isso, “Como podes dizer a teu irmão: Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho! Quando tu não vês a trave no teu próprio olho? Hipócrita!
Tira primeiro a trave do teu olho, então poderás enxergar bem para tirar o cisco do olho do teu irmão”. Que quer dizer isso? Na prática, na sua vida, especialmente na sua vida de oração, olhe para as outras pessoas e se coloque no lugar delas, veja a vida que a pessoa está vivendo.
Quando você olha para a sua vida, você olha para a sua própria história, não olha? Então você vê as circunstâncias, os dramas que viveu, sei lá, eu olho para a minha vida e vejo todas as circunstâncias da pobreza na qual eu nasci, passei fome quando era criança, fui batizado logo cedo, mas não fui educado na fé católica com toda aquela profundidade que deveria, fui conhecendo aos poucos a fé católica a partir dos onze anos de idade, ali eu fui aprendendo a me confessar, aprendendo as coisas de Deus, ficou mais clara a vocação sacerdotal. Olho para a minha história, para os dramas que vivi na época de seminário, a formação inadequada que eu tive que adquirir depois como padre, tive que reaprender as coisas.
Olho para a minha vida com as circunstâncias, olho para os dramas, os sofrimentos, perseguições, dificuldades na família, a morte da minha irmã, etc. Eu olho para a minha vida e do jeito que eu vida, a outra pessoa também tem. Põe o pé no chão, enxerga que as outras pessoas também têm vida, não trate as pessoas como seus funcionários, seus escravos, como máquinas que não têm vida, não têm circunstâncias.
E então você poderá ver brotar no seu coração frutos maravilhosos, porque uma vez que você tem a compaixão, vê brotar o fruto da caridade, começa a olhar para o outro com outros olhos e vai conseguir olhar para os outros com os olhos emprestados de Deus. Você vai ter os olhos de Deus. Então, esse é o fruto maduro, esse é o fruto sazonado do coração cristão.
Enquanto os fariseus, hipócritas, aqueles que Jesus descreveu nos “ais”, esses daí, por causa da soberba, são cegos. São cegos que guiam cegos. O evangelho desse domingo nos conduz a esse olhar de caridade para os irmãos.
Deus quer nos curar de nossa cegueira, Deus quer verdadeiramente que enxerguemos as coisas, então não vamos seguir o caminho de líderes cegos e soberbos, vamos seguir o caminho do nosso líder, do nosso mestre e senhor, que é aquele que teve compaixão, que desceu do alto céu, se compadeceu de nós. Se nós tivermos esse coração compassivo, nós seremos filhos de nosso Pai celeste. “Sede misericordioso como o vosso Pai celeste é misericordioso”, nós olharemos para as pessoas de uma forma diferente.
Vou resumir aqui o que eu tentei explicar pra você nessa reflexão hoje, em primeiro lugar, as pessoas na sociedade atual, mas também na época de Jesus, muitas vezes não evoluíram espiritualmente, são pessoas que continuam na soberba. egocêntricas, como crianças mimadas. Quando você é uma criança mimada e dá trabalho para outros, tudo bem, é até razoável que se a criança seja assim porque ainda não foi educada.
O problema é quando você cresce porque as coisas com as quais você brinca são um pouco mais perigosas. Quando você era criança brincava de carrinho, agora você brinca de Ferrari, bate no poste e mata as pessoas. Quando você era criança brincava de arminha, agora você anda armado e mata as pessoas.
Quando você era criança ficava com raivinha, agora voce faz o mal para os outros. Então é importante que a gente entenda que precisamos deixar de ser infantis, egoístas e crescer. Uma das coisas, uma das habilidades básicas, aqui não estou falando ainda de cristianismo, estou falando simplesmente de uma coisa simples, humana, estou falando de virtude meramente humana, uma habilidade básica de uma pessoa que cresce é que capaz de enxergar o outro como pessoa, é capaz de se colocar no lugar do outro, ter essa empatia, essa capacidade de ver que o outro é pessoa, não coisa, que o outro tem dignidade.
Essa virtude humana, básica, fundamental, tem que estar lá, agora, nós podemos evoluir nisso e colocar uma nota a mais que é o fato de que essa empatia ou compaixão pode estar revestida de sobrenaturalidade, ou seja, da graça de Deus, aí ela se torna verdadeiramente cristã. Aí nós começamos a olhar as pessoas não somente nos colocando no lugar delas, mas começamos a olhar as pessoas com o mesmo olhar com que Jesus olhou. Ele é nosso mestre, mas não um mestre cego que nos guia para o buraco, ele enxerga as coisas de verdade.
Se você não enxerga uma pessoa do jeito que Jesus enxerga, é que você não enxerga a verdade plenamente, pode ser que esteja vendo aspectos bons e positivos da realidade, mas você só enxerga as coisas como são se tiver o olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esse olhar de Deus sobre as coisas, sobre as pessoas, sobre a realidade e Jesus morreu por essas pessoas, Jesus derramou o sangue dele por essas pessoas, Jesus odeia profundamente os pecados dos pecadores, mas ama infinitamente esses pecadores e os convida à conversão, essa é a realidade, essa é a verdade mais profunda. Veja só, três pontos, primeiro: se dê conta, enxergue a trave no seu olho, o quanto você é egoísta, infantil e imaturo; segundo ponto: decida, eu quero crescer, eu quero ser gente, eu quero ser humano, antes de ser cristão, não precisa nem ser cristão ainda, só decida parar de ser criança mimada e infantil e se ponha no lugar dos outros, enxergue que as outras pessoas são humanos e tenha compaixão; terceiro ponto, você pode crescer muito mais, você pode ir na direção do coração de Cristo e ter o coração como ele, manso e humilde.
O nosso coração não é manso e nem humilde, ele é soberbo, nós nos achamos melhores do que os outros e não é manso, irado e raivoso, ficamos cegos e condenamos os outros. Nosso Senhor, na cruz, nos dá o exemplo: “Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem”. Uma outra passagem importante do evangelho de São Lucas que nos fala daquele episódio do publicano, Jesus que ensina na parábola do publicano e do fariseu, o fariseu altivo, no templo, dizendo: “Eu vos louvo, Senhor, porque não sou como esse publicano desgraçado” e o publicano, pobrezinho, batendo no peito e dizendo: “Senhor, tem compaixão de mim porque sou um grande pecador”.
Jesus diz que um voltou para casa justificado, foi o publicano, o soberbo fariseu foi para casa achando que é santo, mas, na verdade, ele está no caminho do inferno. Bem-aventurado o publicano pobre, arrependido, ai de vós, fariseu rico e soberbo, esse é o evangelho desse domingo, que ele dê bons frutos para a sua vida espiritual, que você verdadeiramente faça esse caminho de criança egoísta e soberba, você vire um ser humano adulto, capaz de reconhecer o outro e de ser um ser humano adulto, capaz de reconhecer o outro e seja capaz de dar o bom fruto de um cristão com um coração como o de Cristo, dando o fruto da caridade, da compaixão, olhando a todos com o olhar com que Cristo nos olhou. Deus abençoe você.
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.