O Quinze de julho de 1955 Aniversário de minha filha Vera Eunice eu pretendia comprar um par de sapatos para ela mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos atualmente somos escravos no custo de vida eu achei um par de sapatos no lixo lavei e remendei para ela calçar eu não tinha um tostão para comprar pão então eu lavei três litros e troquei com Arnaldo ele ficou com os litros e deu-me pão fui receber o dinheiro do Papel receber 65 cruzeiros comprei 20 de carne 1 kg de toucinho e um quilo
de açúcar e seis cruzeiros de queijo e o dinheiro acabou se passei o dia indisposta percebi que estava resfriada à noite o peito do Ian comecei tossir resolver não sair à noite para caçar papel Procurei meu filho João José eles a Rua Felisberto de Carvalho Perto do Mercadinho o ônibus já tirou um garoto na calçada EA turba frio se ele estava no núcleo dele uns tapas e em cinco minutos ele chegou em casa abro e as Crianças aleitei aablo imi EA lei me Esperei até às 11horas Um Certo Alguém ele não veio tomei um Melhoral
e deitei-me novamente quando despertei o astro-rei deslizavam no espaço a minha filha Vera Eunice dizia vai buscar a água mamãe Oi Carolina Maria de Jesus Chegou a São Paulo em 1937 aos 23 anos de idade migrando da cidade de Sacramento no interior rural de Minas Gerais e em seus escritos mais conhecidos ela narrou não apenas a sua própria experiência nas bandas mais periféricas da cidade mas a cidade de forma Ampla conforme ela se constituir em meados do século 20 quando São Paulo passou a ser centralmente marcada pela ideia de crescimento quanto despejo é considerada uma
obra fundante da fala em primeira pessoa do sujeito negro periférico na literatura brasileira no sentido de ser a primeira na qual se fala desde dentro da experiência narrada Isto é onde o sujeito periférico sai da condição de tema e torna-se autor de sua própria história através dessa obra Carolina Maria de Jesus em História no texto Nacional a experiência histórica do sujeito negro marginalizado na modernidade colocando em Foco a própria ideia de desenvolvimento ao apresentar a face ou professora violenta e desigual da Metrópole de São E no meio século 20 em Dezenove de agosto de 1960
o livro quarto de despejo de Carolina Maria de Jesus foi lançado e nele se publicavam cotidiano vivido Na década anterior a primeira parte de quarto de despejo cobre um curto período que vai do dia 15 ao dia vinte e oito de julho de 1955 depois salta-se para o ano de 1958 com a primeira entrada no dia dois de Maio e eu não sou indolente há tempos que eu pretendia fazer o meu diário Mas eu pensava que não tinha valor e achei que era perder tempo eu fiz uma reforma em mim quero tratar as pessoas que
eu conheço com mais atenção quero enviar um sorriso amável às crianças e aos Operários recebi intimação Para comparecer às 8 horas da noite na delegacia do 12 Passei o dia catando papel à noite os meus pés doíam tanto que eu não podia andar começou a chover eu ia na Delegacia ia levar o José Carlos A intimação era para ele o José Carlos está com 9 anos o cotidiano de uma mulher negra pobre mãe e única responsável por seus filhos vivendo Os desafios da maternidade da busca por expressão artística da própria sobrevivência não apenas material mas
também subjetiva e os aspectos constantemente destacados em quarto de despejo junto a isso há também o fato de que essa obra configura uma rasoura nos discursos e representações que celebravam São Paulo somente pela face do moderno com o valor positivo o livro de Carolina Maria de Jesus constitui um dos momentos mais fortes de reflexão jamais escrito em português acerca da experiência dos negros e dos pobres na Urbe Paulistana através de seus arranjos de forma e conteúdo o texto materializa um de incenso diante da comunidade imaginada ativa naquele contexto ao narrar A locomotiva do Progresso do
ponto de vista daqueles que seguirão sendo por ela atropelados e depois das Linhas discutir vivas de Carolina o Consenso diante da ideia positiva de Metrópole do Progresso tornou-se inviável pois sua escrita deflagrou o outro lado da modernidade a colonialidade evidenciada nos processos acelerados de racy a racialização da pobreza de favelização Urbana Concentração da violência etc aspectos inerentes do desenvolvimento econômico que se tornam a amplamente abertos em seu texto e mais seu texto também ampliou imensamente os contornos do Imaginário da cidade revelando uma cartografia oculta como ela própria dizia inconscientemente nos três São Paulo por dentro
universo e pensava que São Paulo era um atleta um físico forte e eu apresentei as suas Chagas as favelas é diferente do Rio de Janeiro na cidade de São Paulo as primeiras favelas estavam surgindo quando o quarto de despejo chegou às livrarias mas a margem urbana já era ter uma constante nas letras dos sambas e na música popular e principalmente no samba de salões que cantava a beleza idílica dos barracões de zinco reservando aos moradores do Morro um lugar pertinho do céu esse imagética da favela fabricada pelas canções teve um papel muito importante na Constituição
do Imaginário social Nacional sobre a pobreza altura daqueles anos dourados pois nas letras desses ambas segundo a professora Marisa lajolo é a história estava um reduto indisputado de uma favela lírica e apaziguadora de consciências o morro era a partir das Letras destes ambas basicamente um ótimo lugar para se viver é mais um morro dos Poetas nada possuir comum com os escritos de Carolina para esse tema experiência G1 E aí e quando chegamos na favela o motorista ficou horrorizado o seu olhar percorreu de um local a outro exclamou Credo que lugar então isso que a favela
é a primeira vez que vejo favela eu pensava que favela era um lugar bonito por causa daquele samba favela Oi favela favela que trago no meu coração mas Haverá alguém que traz um lugar desse no coração enquanto o motorista ficava a favela eu pensava Com certeza o compositor do Samba tinha uma mulher boa na favela o motorista disse me olha eu vou dar o troco para senhora porque quem reside no lugar desse precisa muito mais do que ele e o imaginário de favela existente é completamente desmantelado por Carolina Maria de Jesus sua obra era algo
original porque os sentidos que criavam não estavam em harmonia com os programas de verdade articulados entre os produtores e reprodutores de imagens que projetavam a favela em signos e discos além de mostraram a favela mais complexa e fraturar essa representação Projetada sobre a favela a própria concepção de Periferia e portanto a própria concepção de cidade é completamente revista a partir do texto de Carolina Maria de Jesus e a favela em que Carolina viveu foi Projetada pelo Estado para abrigar aqueles que o progresso Urbano preferia manter a distância situada em terreno público foi originada por estímulo
da própria prefeitura que concedeu a área para o assentamento de 99 famílias desalojadas da ocupação de um terreno particular e isso a própria Carolina narra contando os detalhes delimitação do terreno dos caminhões baú da prefeitura que realizavam as mudanças dos primeiros barracos etc e a favela da kanindé tanto para o poder público que gerenciava as modificações na estrutura Urbana quanto para os seus moradores eram os passos de transitoriedade é a realidade que Carolina viveu em termos de território era diferente do que acontece hoje no domínio das autorias e texturas periféricas a favela não constituiu uma
comunidade de pertencimento para a autora a altura que compôs quarto de despejo na verdade ela achava que a favela é um problema do desenvolvimentismo que geram o Êxodo dos Camponeses para as cidades sem qualquer estrutura segurada Carolina acreditava que a única solução para favela seria a reforma agrária assim ela escreveu esse poema colônia Fazendeiro em outros diversos momentos é através da escrita Carolina conquistar as condições materiais necessárias para sair da favela e foi pela escrita que ela ultrapassou dificuldades ao constituir na linguagem sua subjetividade dessa forma o rótulo de escritora favelada ainda muito recorrente não
condiz com a construção literária de Carolina Maria de Jesus pois restringe seu campo discursivo a universo fixo do qual ela própria buscou afastar-se e a favela era um lugar de passagem mas o fato de escritura favelada parece ter ficado gravado na cama e da palavra Caroline Ana quarto de despejo Diário de Uma favelada é ainda hoje se eu lembro de maior visibilidade tanto em termos editoriais quanto de interesse acadêmico é o que leva a falsa ideia ainda hoje é repercutida de que Carolina foi autora de um livro único e o título quarto de despejo escolhido
pelo editor faz referência a uma expressão frequentemente usada por Carolina para significar o lugar da população pobre dentro dos projetos de modernização e Progresso almejados pela cidade naquele tempo no quarto de despejo joga se aquilo que não se quer mais que não têm valor alguma já o subtítulo Diário de Uma favelada traz a inscrição de um ponto de vista mais voltado ao potencial mercadológico da obra é que ao definir a autora nesses termos a circunscreveu antecipando uma categorização que iria acompanhá-la até o fim da vida pois mesmo quando saiu do espaço da favela permaneceu sendo
identificada com uma escritora favelado é se de um lado a favela representava para Carolina uma negação da sua condição de sujeito por outro lado a escritura problematiza em sua narrativa a visão social preconceituosa que os moradores da cidade de cetim quando ela dizia nutriam sobre a vida na favela onde habitavam pessoas que a sociedade Paulistana considerava marginais que morava na favela era muitas vezes colocado fora da própria condição humana e assim Carolina nos contou passou um senhor parou e nos olhou e disse perceptível Será que este povo é deste mundo eu achei graça e responde
Nós somos feios e malvestidos mas somos deste mundo passei o olhar naquele povo para ver se apresentava aspecto humano ou aspecto de fantasma e além da autora o próprio contexto da época percebia favela como quarto de despejo da cidade partindo desse ponto Qual o valor ação poderia ter àquela altura a escrita de alguém inserida na engrenagem literária como escritora favelada e no momento presente Quando pensamos em Carolina Maria de Jesus hoje concebemos que sua produção escrita ultrapassa os enquadramentos prescritivos que a impedem um lugar fixo e limitado de nunciação e de valoração literária e quando
eu Carolina Maria de Jesus surgiu nos anos 60 o contexto social político e cultural de circulação de discursos a época Faltou as circunstâncias da mediação para a sua voz mediação que também opinou sobre a pertença da autora ao campo do literário Tal condição de marca imensa diferença de tempo Entre sua produção EA produção literária contemporânea de escritores e escritores que tomam a textura periférica como morada como fonte comunicante como rede heterogênea de significações sociais e estéticas sem mediadores e de fato as décadas de história que separam a narrativa de Carolina Maria de Jesus da literatura
periférica contemporânea é muito significativa para não ser considerada a periferia hoje constitui seu próprio público leitor que compartilham os mesmos códigos E não busca necessariamente e a priori o aval da academia e das grandes editoras saraus e feiras literárias editoras e seus alternativos clubes de leitura é entre diversas outras atividades altamente visíveis na cidade possibilitam a circulação dos textos sem a necessidade primária de legitimação pelas vias oficiais do circuito literário esse dado altera radicalmente o cenário pois tal realidade não existia quando o quarto de que esteja foi lançado e como Carolina não se restringia a
um lugar fixo nem na escrita tão pouco na vida onde suas maiores marcas é justamente sua itinerância o ato de caminhar Dessa forma não apenas uma ideia de Periferia passa a existir após seus escritos mas também uma ideia da sala de visitas como ela chamava a parte visível da cidade essa parte passa a ser exposta sobre fratura a ganhar uma representação crítica - idealizada acentuando os conflitos e negações ao outro que ele eram constitutivas e o texto de Carolina seguindo um padrão do seu projeto literário e de seu processo criativo você como marca central a
escrita disse que também é composta pela observação do outro de modo tal que ela enunciar seus pensamentos experiências angústias e Emoções mas também na ao seu ao redor E a estrada que percorri ia torna-se crónica em seus escritos compondo uma verdadeira cartografia da Cidade no tempo tornando-a muito mais complexa e contraditória e a noção de modernidade conservadora ou de modernidade como contra a face da colonialidade conceitos elaborados por diversos pensadores pós-coloniais decoloniais é elaborada por Carolina Maria de Jesus no momento em que o Brasil almejava de fato ser o país do Futuro sua narrativa diz
tópica amplia os limites do realismo e do Imaginário e por essa razão de aula algo intensamente com nosso tempo contemporâneo Oi Carolina elaborou de forma inaudita a experiência histórica do pós-abolição Nacional e constituiu literariamente o Marco Zero para pensarmos de forma crítica a nossa modernidade conservadora bem com a ideia de desenvolvimento e Progresso de metade do século 20 do ponto de vista de quem for realizada de direitos e da plena cidadania fez isso com contornos estéticos próprios a partir dos quais se constituem uma tradição Carolina Maria de Jesus e instaura discursividades e marca profundamente a
literatura brasileira contemporânea e principalmente a literatura de cariz Urbano para além dos limites do que anos