A solidão do dia 31 de dezembro tem uma sensação muito específica. Meu nome é Caik, tenho 32 anos, trabalho no suporte técnico de uma empresa de logística que provavelmente vai ser substituída por IA no próximo trimestre e estou solteiro há tempo suficiente para que meus parentes tenham parado de perguntar e as namoradinhas? e começado a perguntar como está a saúde.
Eu estava sentado no sofá do meu apartamento minúsculo no centro, ouvindo os fogos de artifício prematuros estourarem lá fora. A televisão ligada no show da virada, aquele programa de otimismo forçado da Globo, onde cantores suados fingem que o próximo ano será mágico. Odiava aquilo.
Odiava a esperança deles. Meu notebook em minha frente, eu navegando sem rumo na internet quando apareceu. Não foi uma propaganda intrusiva, foi um link num fórum obscuro sobre produtividade que eu frequentava.
Ironicamente, já que eu estava procrastinando minha vida inteira. Enfim, o link dizia apenas: "O manifesto de janeiro, torne-se quem você nasceu para ser". Cliquei.
O design era minimalista, quase brutalista. fundo preto, fonte branca, sem anúncios, sem fotos de pessoas sorrindo, fazendo yoga, sem promessas de fique rico rápido. Havia apenas um campo de texto numerado de um a cinco e um botão escrito assinar contrato.
No topo, uma frase dizia: "A mudança dói, a permanência mata. O que você está disposto a sacrificar pelo novo você? Eu estava bêbado o suficiente para achar aquilo poético e desesperado o suficiente para levar a sério.
Olhei para minha barriga estufada por cima do cinto. Olhei para minhas unhas roídas até a carne viva. Um hábito nervoso que eu carregava desde a infância.
Lembrei da minha ex Marina dizendo que eu era fechado demais emocionalmente antes de me abandonar. Decidi que aquele ano seria diferente. Não apenas na teoria.
Eu ia mudar. Comecei a digitar meus desejos para o novo ano. Uma lista sincera e simples.
Um. Quero parar de roer as unhas definitivamente. Um clássico.
Dois. Quero um sorriso que obrigue as pessoas a olharem para mim. Meus dentes eram amarelados e eu sorria de boca fechada.
Então, ter um sorriso bonito era algo essencial para minha autoestima. Três. Quero perder 15 kg rápido.
Eu não tinha paciência para a academia. Quatro. Quero ter um coração aberto para o mundo.
Afinal, a crítica da minha ex ainda doía no meu ego. E cinco, quero matar o Caik velho e fracassado para sempre. Li a lista depois de escrever.
Parecia um plano de guerra. Cliquei em assinar contrato. A tela piscou.
Não pediu e-mail, não pediu cartão de crédito, não pediu confirmação. Apenas uma mensagem apareceu por 2 segundos antes do site sair do ar e dar erro 404. Em frente ao erro, uma frase que dizia: "O protocolo foi iniciado.
Feliz ano novo". Fechei o notebook. Ri da minha própria estupidez por achar que um site faria milagres.
Terminei a garrafa de espumante e apaguei no sofá antes da contagem regressiva. Dia 1 de janeiro. Acordei com a boca seca e uma dor de cabeça pulsante.
O sol do meio-dia entrava pelas fras da persiana, ferindo meus olhos. Levantei-me tonto e fui para a cozinha beber água. Enquanto segurava o copo, senti algo estranho.
A textura do vidro parecia meio torta contra a ponta dos meus dedos. Olhei para minha mão, gritei e soltei o copo que se estilhaçou no chão, espalhando cacos e água por todo lado. Minhas unhas, elas não estavam lá.
Não digo que estavam cortadas curtas, mas sim que tinham sumido. Onde deveria haver a placa de querer havia apenas pele. Pele lisa, contínua, rosada, cobrindo a ponta dos dedos, como se eu fosse um boneco de plástico ou um feto em formação que ainda não desenvolveu unhas.
Levei a mão à boca, horrorizado. A sensação da língua passando pela ponta dos dedos cegos era nauseiante. Não havia bordas, não havia nada para roer.
Corri para o banheiro, olhei para os meus pés. A mesma coisa. Os dedos dos pés eram salsichas lisas e perturbadoras.
Que merda é essa? Sussurrei para o espelho. Meu coração disparou.
Tentei racionalizar uma reação alérgica, um efeito colateral bizarro de alguma deficiência vitamínica fulminante, fungos. Mas não havia dor, não havia sangue, a pele estava perfeitamente curada, como se eu tivesse nascido assim. Lembrei da lista.
Um. Quero parar de roer as unhas definitivamente. Bem, tecnicamente era impossível roer o que não existia.
Peguei o celular para ligar para a emergência, mas parei. O que eu diria? Alô, minhas unhas sumiram.
Eles riririam de mim ou me internariam? Decidi esperar. Talvez fosse um sonho lúcido causado pelo álcool barato.
Passei o resto do dia de luvas, evitando olhar para minhas mãos. A sensação tátil de pegar objetos sem a rigidez da unha era agoniante, macia demais, vulnerável demais. Dia 2 de janeiro.
Acabei me sentindo estranhamente leve. Não leve de espírito, leve de gravidade. Sentei na cama e quando fui colocar os pés no chão para levantar, desequilibrei e caí de ombro no carpete.
Minha perna esquerda não respondeu. Olhei para baixo, esperando ver meu pijama embolado. O pijama estava lá.
Mas estava vazio do joelho para baixo. O pânico foi tão absoluto que minha visão escureceu. Tateei minha perna.
Minha coxa esquerda estava lá, o joelho estava lá, mas logo abaixo da patela, a perna terminava. Não havia sangue, não havia ferida aberta. A pele se fechava num coto perfeito, arredondado e liso, como a extremidade de uma salsicha cortada e cicatrizada há anos.
Não, não, não. Eu gemia, arrastando-me para trás até bater as costas na parede. Levantei a calça da perna direita.
Faltava um pedaço enorme da minha panturrilha, como se alguém tivesse usado uma colher de sorvete gigante e cavado a carne, deixando apenas o osso da tíbia e fíbula, cobertos por uma pele fina e translúcida. Toquei meu tronco. Faltava um pedaço das minhas costas.
Eu sentia o buraco. Faltava carne no meu braço direito. Arrastei-me até o banheiro, chorando, e me pesei, apoiando-me na pia.
O visor digital da balança piscou 70 kg 500 g. Dois dias atrás, eu pesava 85 e 500. Eu tinha perdido exatamente 15 kg.
Três. Quero perder 15 kg rápido. Vomitei na pia.
Isso não era uma dieta. Eu estava sendo esculpido. Alguém ou alguma coisa estava tirando pedaços de mim para bater a meta.
A carne, a gordura, o osso, o músculo, subtraídos magicamente durante meu sono, cauterizados por uma força invisível. Tentei ligar para a polícia, disquei o 90. A chamada não completou.
Uma voz sintética falou no meu ouvido. O contrato não pode ser interrompido durante a fase de processamento. Por favor, aguarde a conclusão.
Joguei o celular contra o espelho, trincando o vidro. Eu estava preso, preso no meu apartamento, preso no meu corpo, que diminuía. Passei o dia no chão da sala com uma faca de cozinha na mão esperando alguém entrar.
Ninguém entrou. O horror vinha de dentro. Dia 3 de janeiro.
Não dormi. Fiquei acordado, vigiando meu próprio corpo, esperando ver um pedaço sumir. Mas o sono me venceu por volta das 4 da manhã.
Quando acordei às 9, minha boca doía, uma dor aguda nas bochechas e na mandíbula. Senti um gosto de cobre. Corri para o espelho trincado do banheiro, mancando na minha única perna.
Gritei, mas o grito saiu gorgolejado. Minhas bochechas, elas tinham sido rasgadas? Não, elas tinham sido remodeladas.
A pele nos cantos da minha boca tinha sido puxada para trás e fundida perto das orelhas. Meus lábios estavam esticados numa tensão insuportável, expondo toda a minha gengiva. Eu estava sorrindo, um sorriso largo, fixo, maníaco, estilo coringa, mas sem as cicatrizes grosseiras.
Era anatomicamente impossível, mas ali estava. E os dentes, meus dentes amarelados e tortos tinham caído. Vi alguns no ralo da pia.
No lugar deles, em minha boca, nasciam dentes novos, brancos, brancos como porcelana sanitária e grandes. Eles eram perfeitos, sim, mas eram grandes demais para minha boca. Eram dentes de predador, dentes feitos para serem vistos a quilômetros de distância.
Eles brilhavam sob a luz do banheiro. Dois. Quero um sorriso que obrigue as pessoas a olharem para mim.
Tentei fechar a boca, não consegui. Os lábios estavam curtos demais. Agora meus dentes ficariam expostos para sempre.
O ar secava minha gengiva causando uma dor lancinante. Eu parecia um monstro de filme ruim. Um demônio risonho e perneta.
Chorei na frente do espelho, mas o sorriso não sumiu. Eu chorava soluçando, com os olhos inchados de pavor, mas minha boca continuava naquele misto de felicidade eterna e branca. A dissonância entre o que eu sentia e o que eu mostrava era enlouquecedora.
Comecei a vasculhar o histórico do navegador de meu notebook. Precisava achar o site, precisava cancelar isso, mas o histórico estava limpo. Tentei mandar mensagem para minha irmã pedindo socorro.
Quando digitei socorro, preciso de ajuda, as letras na tela mudaram sozinhas para Estou ótimo. O processo é maravilhoso. O tal do contrato controlava minha saída de dados.
Ele não me deixaria estragar a surpresa. Eu estava isolado, um prisioneiro na torre de carne. Dia 4 de janeiro.
A dor no peito me acordou antes do sol nascer. Não era azia, não era infarto, era uma dor de corte, fria e precisa. Olhei para baixo, minha camisa estava aberta.
Os botões tinham estourado no centro do meu peito, sobre o externo, a pele estava ficando transparente. Não, não transparente. Ela estava se abrindo como as pétalas de uma flor grotesca.
A pele e o músculo peitoral estavam se retraindo lentamente para os lados, enrolando-se em si mesmos. Eu não sangrava. As bordas da ferida eram limpas, brilhantes e úmidas.
O osso externo estalou e se dividiu ao meio. As costelas se afastaram com um som de craque úmido, como galhos verdes sendo entortados. Eu gritava, contorcendo-me na cama, segurando os lençóis com minhas mãos sem unhas.
O sorriso no meu rosto continuava fixo, zombando da minha agonia. Eu podia ver meus pulmões inflarem e desinflarem. Eram rosados e cinzas.
E no meio deles, pulsando freneticamente estava meu coração. O tecido ao redor do coração começou a se dissolver. O órgão ficou exposto no vulnerável ao ar do quarto.
Eu podia ver as artérias, as veias azuis, a gordura amarela. Eu podia ver cada batida aterrorizada. Quatro.
Quero ter um coração aberto para o mundo. A interpretação literal era de uma crueldade artística. Eu sentia o ar frio tocar a superfície do meu coração.
Cada batida doía raspando nas bordas abertas da minha caixa toráxica. Qualquer poeira, qualquer bactéria, qualquer toque ali seria fatal. Eu era uma boneca anatômica viva.
Arrastei-me para o canto mais limpo do quarto. Peguei rolos de filme plástico de cozinha que eu usava para embrulhar restos de comida e envolvi meu próprio corpo, chorando enquanto o plástico grudava na carne exposta e nos ossos. Eu precisava me proteger.
Eu estava aberto demais. Fiquei sentado no escuro, ouvindo o som molhado do meu coração batendo contra o plástico. Faltava um item da minha lista.
A lista tinha cinco itens. Eu olhei para o relógio, eram 11:50. O dia 5 estava chegando.
Cinco. Quero matar o Caik velho e fracassado para sempre. O pavor que senti nos dias anteriores não foi nada comparado ao gelo que inundou minhas veias naquele momento que lembrei do quinto pedido.
Os outros itens foram modificações. Torturas, sim, mas modificações. O quinto item era uma sentença de morte, matar o velho Caik.
Eu peguei a faca de cozinha que mantinha ao meu lado. Se alguém viesse me matar, eu levaria comigo. Me arrastei para a porta de entrada, o único ponto de acesso.
Fiquei ali com meu sorriso gigante, meu coração exposto sob o plástico, minha perna faltando, minhas mãos lisas segurando o cabo da faca. Esperei meia-noite, nada aconteceu. Uma hora?
Nada. 3 horas. Acabei adormecendo de exaustão, encostado na porta, rezando para que o pesadelo tivesse acabado, para que a interpretação literal tivesse sido metafórica dessa vez.
Dia 5 de janeiro. Acordei com o som da chave girando na fechadura. O som veio de trás da minha cabeça.
Eu estava encostado na porta, a chave sendo inserida pelo lado de fora. Meu sangue gelou. Eu moro sozinho.
Só eu tenho a chave. A cópia fica com a minha mãe, que mora em outra cidade. Afastei-me, arrastando meu corpo mutilado pelo chão, apontando a faca.
A maçaneta girou. A porta se abriu suavemente. A luz do corredor entrou criando uma silhueta.
Um homem entrou. Ele usava um terno cinza, impecável, sob medida, sapatos italianos de couro. Ele fechou a porta atrás de si com delicadeza e se virou para mim.
A faca escorregou da minha mão lisa e caiu no chão com um clangor metálico. O homem era eu, mas não eu. Ele tinha o meu rosto, mas melhorado.
A pele era brilhante, saudável, bronzeada. Era magro, 15 kg mais magro que meu antigo eu, mas de forma proporcional, atlética. Ele sorriu para mim.
O sorriso era largo, confiante, com dentes brancos perfeitos que cabiam em sua boca, um sorriso magnético. Ele olhou para minhas mãos no chão. As mãos dele tinham unhas perfeitas, bem cuidadas.
Ele colocou a mão no peito. Eu sabia instintivamente que seu coração estava protegido por ossos fortes, mas que ele era emocionalmente carismático, aberto de forma figurada. Ele era o novo Caik, a versão 2.
0, o resultado final. E eu eu olhei para o meu corpo retalhado no chão. Eu não era o cliente, eu era a matériapra, eu era o casulo, era o lixo biológico que sobra depois que a borboleta sai.
O Caik velho e fracassado. O novo Caik caminhou até mim. Ele não parecia ter nojo.
Ele tinha uma expressão de pena como alguém que olha para um cachorro atropelado que precisa ser sacrificado. "Você foi muito corajoso", ele disse. A voz dele era a minha, mas sem a gagueira, sem a insegurança projetada e firme.
"Obrigado pelo sacrifício. Eu assumo daqui. E quem é você?
", Gorgolejei através do meu sorriso esticado. Eu sou quem você pediu. Eu sou a resolução.
Ele se agachou do bolso do palitó. Ele não tirou uma arma, tirou um saco preto de lixo, grosso, industrial e um rolo de fita adesiva. O contrato foi claro, Caik.
Para o novo nascer, o velho tem que morrer. Não existe coexistência. É um conflito de espaço no servidor da realidade.
Ele disse isso e avançou. Tentei lutar, tentei furá-lo com meus dedos sem unhas, tentei morder com meus dentes grandes demais, mas eu estava fraco, faltando pedaços, meu coração exposto. Ele era forte, me imobilizou com facilidade.
Senti suas mãos, minhas mãos, só que mais fortes, fecharem em volta do meu pescoço. Não foi um estrangulamento de raiva, foi um desligamento. Enquanto minha visão escurecia, a última coisa que vi foi o meu próprio rosto, perfeito e lindo, sorrindo para mim enquanto me matava.
Acordei, ouvi o despertador tocar. 7 da manhã, sentei na cama, respirei fundo. Meus pulmões encheram de ar sem dor.
Meu peito estava fechado, minhas pernas estavam lá. Corri para o espelho. Eu estava magro, 70 kg, músculos definidos.
Abri a boca, dentes perfeitos, brancos, alinhados. Olhei minhas mãos, unhas impecáveis. Senti uma paz interior, uma confiança que eu nunca tive na vida, um coração aberto.
Eu consegui. Funcionou. Sou o Caik que sempre sonhei ser.
Vesti meu terno novo. Tenho uma entrevista de emprego hoje e sei que vou conseguir. Tenho um encontro com Marina mais tarde.
Liguei para ela e minha voz estava tão encantadora que ela aceitou me ver. Caminhei até a cozinha para fazer café. Abriu o armário debaixo da pia para pegar um filtro novo.
Lá no fundo, atrás dos produtos de limpeza, havia um saco de lixo preto, grande e pesado, enrolado com fita adesiva. Cheirava a carne que começa a passar do ponto. Parei por um segundo, olhei para o saco, senti uma pontada de memória, um eco de dor no peito, um fantasma de um sorriso rasgado.
Não deve ser imaginação. O velho caí era cheio de paranoias. Eu não sou assim.
Fechei a porta do armário, peguei meu café, dei meu melhor sorriso para o espelho do corredor e saí para conquistar meu ano novo. Afinal, hoje é dia de coleta de lixo. Eu levo o saco quando descer.
Até a próxima. Obrigado.