Em 2016, o jornal americano The Washington Post publicou a matéria "Bilionários da tecnologia gostam mais dos democratas do que dos republicanos". E lá estava ele, Elon Musk, doador da campanha da democrata Hillary Clinton na eleição contra Trump em 2016. Além dessa doação, Musk também foi o financiador de outras campanhas democratas, inclusive na de Obama em 2012 e de Biden em 2020.
O bilionário dono da Tesla era um entusiasta da energia renovável e dos carros elétricos. Apoiava pautas como financiamento público para ciência e tecnologia, e mais impostos para quem poluísse demais, chegando até a criticar abertamente Donald Trump por sua política anti-imigração e pelo negacionismo em relação às mudanças climáticas. Mas, alguns anos depois, alguma coisa fez com que o jogo se invertesse.
Em um tweet, Musk declarou voto nos republicanos e disse que os democratas se tornaram o partido da divisão e do ódio. A aliança do bilionário com Donald Trump havia sido selada definitivamente, e suas ideias não eram mais as mesmas. Mas o que levou Musk a romper com suas antigas convicções e se tornar um dos maiores expoentes da direita mundial?
E, afinal, qual é a história por trás de uma das figuras mais influentes do mundo? No vídeo de hoje, a Politize! te conta qual é a verdadeira história do homem mais rico do mundo e como ele se tornou uma peça fundamental de um dos movimentos políticos mais poderosos da política internacional.
Nascido em 1971 na cidade de Pretória, na África do Sul, Elon Musk é o filho mais velho de uma família de classe alta com três filhos. Essa é sua mãe, May Musk, uma nutricionista e modelo canadense famosíssima na China. E esse aqui é o pai de Elon, Errol Musk, um engenheiro sul-africano bilionário com uma biografia um tanto quanto polêmica.
Em 2018, uma reportagem sugeriu que a fortuna de Elon Musk teria raízes na mineração de esmeraldas na Zâmbia, administrada por seu pai Errol, que se gabava da grande fortuna que acumulou durante o apartheid na África do Sul. Em um tweet, Musk negou veementemente a história, chamando-a de mentira completa e afirmando que sua fortuna foi construída exclusivamente com seus próprios empreendimentos. A real é que tem muito mais por trás da história da família de Musk, mas isso a gente conta mais pro final do vídeo.
De qualquer forma, o jovem Elon cresceu em uma família rica e desde muito cedo teve acesso a computadores e dispositivos eletrônicos, mesmo em uma época em que tudo isso era artigo de luxo. Assim, aos 12 anos, Musk aprendeu a programar sozinho e criou o Blaster, um jogo de videogame simples que ele vendeu poucos anos depois por 500 pra revista PC and Office Technology. Aos 17, mudou-se pro Canadá para evitar o serviço militar obrigatório.
Estudou dois anos na Queen's University antes de se transferir pra Universidade da Pennsylvania, onde obteve a cidadania americana e se formou em economia e física. Aceito para um doutorado em Stanford, Elon desistiu após dois dias de aula para fundar sua primeira empresa. Fundada em 1995, a Zip2 oferecia guias de cidades online para jornais.
Basicamente, ela ajudava jornais tradicionais a entrarem na internet, fornecendo mapas interativos e diretórios de negócios, como um Google Maps da época, atraindo clientes como o The New York Times. Três anos depois, em 1999, a Zip2 foi adquirida por outra empresa por 300 milhões de dólares, o que acabou impulsionando a carreira de Musk. Em 1999, após vender sua primeira empresa e perto de casar com Justine Wilson, Elon Musk fundou a X.
com, uma empresa de serviços financeiros online. Como você pode ver, a afinidade do bilionário com a letra X vem de alguns anos atrás. Um ano depois, a companhia se fundiu com o PayPal, que passou a ser o novo nome da X.
com. Em 2002, a gigante digital foi vendida ao eBay por 1,5 bilhão de dólares, fazendo a fortuna de Musk disparar. Naquela mesma época, Elon Musk fundou a SpaceX com o objetivo de reduzir os custos das viagens espaciais e, a longo prazo, viabilizar a colonização de Marte como um plano B pra humanidade.
Enquanto investia na SpaceX, Musk aplicou os recursos obtidos com a venda do PayPal na Tesla. A real é que o bilionário não foi o fundador da empresa. Quem idealizou a gigante automobilística foram dois engenheiros californianos: Martin Eberhard e Marc Tarpenning, muito antes de Musk entrar em cena.
No entanto, o empresário logo se tornou o principal investidor da companhia. Em 2004, o presidente do conselho. Foi nesse mesmo ano que nasceram seus dois gêmeos, Griffin e Vivian, que logo teriam os irmãos Kai, Saxon e Damian.
Sua participação na Tesla cresceu. Em 2008, o bilionário assumiu o cargo de CEO da empresa, reestruturando sua operação de cima a baixo, fazendo da montadora a líder do mercado de veículos elétricos. Nada poderia dar errado, mas deu.
Com a venda do PayPal em 2002, Musk investiu metade do dinheiro obtido na SpaceX e a outra metade na Tesla. Só que em 2008, o empresário enfrentou crises simultâneas com seus dois negócios. O lançamento do foguete Falcon 1 da SpaceX fracassou pela terceira vez, um prejuízo de bilhões de dólares.
E a Tesla estava à beira da falência, apenas dois dias do Natal. Tudo isso fez com que a fortuna de Musk derretesse e o empresário chegasse bem perto de quebrar. E para completar, na mesma época, sua vida pessoal estava em crise, com pedido de empréstimo para pagar o aluguel e um divórcio conturbado com sua ex-mulher, Justine Wilson.
Em meio à desconfiança dos investidores e acionistas, o milionário viu sua fortuna ser reduzida a pouco mais de 40 milhões de dólares e fez uma aposta arriscada. Investiu todo o dinheiro que lhe restava nas duas empresas. E o plano deu certo.
Musk não apenas salvou as duas companhias da falência, como fez delas gigantes de seus setores. Pouco tempo depois, em 2010, o empresário ficou noivo da atriz Talulah Riley, na época em que a Tesla lançou modelos icônicos como Roadster, Model S, Model 3 e o famoso Cybertruck. Mesmo competindo com gigantes da indústria automotiva, a Tesla chegou a superar a Ford e a GM em valor de mercado, apesar de produzir e vender um número muito menor de carros.
Forçando montadoras tradicionais a acelerarem sua transição para os elétricos. Ainda naquele ano, a NASA fechou contratos no valor de 3,5 bilhões de dólares com a SpaceX, o que com certeza ajudou para que Elon Musk entrasse pro seleto clube de bilionários. Em 2012, apareceu pela primeira vez no ranking da Forbes, com um patrimônio de 2 bilhões de dólares.
Em 2018, depois de se separar, Musk voltou a casar, dessa vez com a cantora Grimes, com quem teve três filhos com nomes bem inusitados. Mas o bilionário não parava de surpreender o mundo. Em fevereiro de 2018, o empresário fez o que ninguém acreditava ser possível: enviou um carro Tesla pro espaço a bordo do Falcon Heavy, o foguete mais potente da SpaceX, marcando o auge de suas duas maiores marcas.
Musk agora era mais do que empresário. Ele era uma personalidade da cultura pop americana. A SpaceX ampliou suas operações, lançando satélites e levando pessoas além da atmosfera.
Em 2015, criou o projeto Starlink, inaugurando uma instalação de desenvolvimento de satélites em Washington. No ano seguinte, fundou a Neuralink para desenvolver chips cerebrais que auxiliam pessoas com deficiências. E a The Boring Company, focada em infraestrutura e mobilidade urbana.
Também cofundou a OpenAI, que anos depois lançaria o ChatGPT. Só que todo esse investimento em tecnologia tem também uma motivação ideológica. Musk se define como um tecnocrata e otimista tecnológico, acreditando que a inovação pode resolver desafios globais como a crise climática.
E foi com sua crescente presença no cenário tecnológico que Musk realizou um dos movimentos mais controversos de sua carreira: a compra do Twitter. Logo de início, Elon Musk enfrentou resistência dos acionistas da empresa, gerando um processo de 6 meses com questionamentos sobre contas falsas e o real valor da empresa. Mas, como você bem sabe, o Twitter virou X.
Foi mais ou menos nessa época que a guinada de Musk à direita começou. Após a compra, o bilionário havia prometido mudanças na moderação de conteúdo e dizia que o Twitter deveria ser um espaço onde assuntos importantes pro futuro da humanidade seriam discutidos. A ideia ficou ainda mais evidente quando Musk reativou a conta de Donald Trump seguindo uma enquete no Twitter que decidiu pelo retorno do ex-presidente, anos após o banimento no contexto da invasão ao Capitólio.
No Brasil, ocorreu algo semelhante. Após o 8 de janeiro, o STF, por decisão de Alexandre de Moraes, bloqueou contas ligadas aos atos antidemocráticos. Mas o dono do X se recusou a cumprir, acusando Moraes de censura.
Seguiram-se multas e o fechamento do escritório do X no país, enquanto Musk criticava publicamente o ministro, chamando-o de “Valdemort” e “vergonha para as togas de juízes”. É verdade que Musk se apresenta como um defensor ferrenho da liberdade de expressão, mas essa postura é vista por muitos como seletiva. Embora tenha contestado suspensões no Brasil, sua empresa seguiu sem questionamentos as legislações na China, Arábia Saudita e Índia, bloqueando perfis conforme exigido.
Além disso, Musk mantém fortes laços comerciais com a China, onde o X é bloqueado e não pode funcionar. Não à toa, é lá que a Tesla opera sua maior fábrica, dependendo amplamente da cadeia de suprimentos do país. Ele inclusive já expressou admiração pelo modelo econômico chinês, elogiando sua infraestrutura e gestão.
Em abril de 2010, Musk se encontrou com o presidente Barack Obama. Não se falava muito sobre isso, mas naquela época ele era um grande financiador das campanhas democratas nos Estados Unidos. Na reta final da eleição presidencial de 2016, quando Hillary Clinton parecia ter a vitória garantida, Elon Musk, que já tinha feito doações à candidata e declarado apoio aos democratas, fez uma declaração polêmica para a CNBC, criticando duramente Donald Trump.
Musk afirmou que o então candidato não possuía o tipo de caráter que refletia bem nos Estados Unidos, dizendo ainda que as políticas de Hillary eram as melhores e que Trump não era o cara certo. No entanto, com a vitória inesperada de Trump nas urnas, Musk passou a fazer alguns movimentos de aproximação em relação ao republicano. Nos meses seguintes, ele se tornou um dos principais conselheiros do presidente, participando frequentemente de reuniões já envolvido com a Casa Branca.
Doou milhares de dólares a organizações ligadas ao presidente e seu partido. Ainda assim, Musk criticou a nova legislação sobre imigração de Trump e afirmava que sua função nos conselhos não significava concordar com todas as ações do governo. Em 2019, o milionário foi a público para anunciar seu rompimento com Trump e sua saída do conselho ligado ao governo, depois de o presidente republicano retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris.
Depois disso, Musk passaria um tempo longe da política. Em 2020, ele disse ter votado em Biden, mas doou para republicanos como Susan Collins e democratas como Chris Coons. Com a pandemia, mudou a sede da Tesla pro Texas, após criticar as restrições do governo democrata da Califórnia.
Em 2021, após ser eleito Pessoa do Ano pela Time, e ter tuitado “preferir estar fora da política”, doou novamente pro Partido Republicano. Em abril do ano seguinte, Musk oficializou a quebra das relações com os democratas em uma postagem dizendo que apoiou fortemente Obama, mas o Partido Democrata havia sido sequestrado por extremistas. Ele atacava os democratas, mas as relações com os republicanos também estavam complicadas.
Em julho, Trump chamou o Twitter de inútil e ridicularizou as empresas do milionário, enquanto Musk sugeriu que Trump deveria pendurar o chapéu e ir embora. Em novembro, já dono do X, Musk apoiou os republicanos para equilibrar o poder em Washington e expressou descontentamento com Biden, preferindo um candidato sensato e centrista para 2024, indicando apoio ao republicano Ron DeSantis. Mas Musk logo passaria a se reaproximar de Trump, chegando a criar um fundo de arrecadação pra campanha republicana, sorteando 1 milhão de dólares por dia até a eleição.
Doando um total de 259 milhões de dólares, em público e marcando presença em inúmeros comícios. Musk justificou o apoio a Trump acusando os democratas de ameaçar a liberdade de expressão e defendendo que suas ideias estavam mais alinhadas do que nunca. Em 2020, aos 16 anos, Vivian Wilson, filha de Elon Musk, iniciou sua transição de gênero.
Um processo que só se tornou público em 2022, quando ela adotou o sobrenome da mãe, Justine Wilson, e se distanciou do pai. Mesmo antes do caso vir à tona, Musk já fazia críticas ao tema. Ainda em 2020, publicou no Twitter comentários pejorativos sobre o uso de pronomes por pessoas trans.
Em 2024, em uma conversa com o psicólogo Jordan Peterson, classificou a transição de gênero infantil como maldade, alegando que adultos podem manipular crianças em crises de identidade. Ele também citou sua experiência pessoal, afirmando que foi enganado por profissionais de saúde ao assinar documentos relacionados à transição da filha, antes de entender as implicações dos tratamentos. O conflito de Musk parece ter sido um dos fatores que levou o bilionário a se tornar um crítico feroz do que ele chama de “vírus mental woke”, que, segundo ele, teria matado seu filho.
A expressão seria uma forma pejorativa de se referir à chamada cultura woke, originada nos anos 60 como uma conscientização sobre desigualdades, que passou a ser vista pelos republicanos como uma imposição progressista, que ameaça os valores sociais e cria divisões na sociedade. Apesar de parecer contraditório, Musk se declara moderado, misturando visões progressistas em direitos sociais e meio ambiente com ideias liberais na economia. Mas parece claro que, na prática, suas ideias e ações nos últimos anos o afastam consideravelmente da esquerda política.
Analistas apontam até que Musk caminha cada vez mais à direita, podendo até aproximá-lo do extremo do espectro político. Além da clara aproximação ao movimento trumpista, Musk frequentemente critica o que considera uma interferência excessiva do governo na economia, argumentando que regulamentações ambientais, por exemplo, podem sufocar a inovação e o crescimento empresarial. Mas o debate sobre a associação de Musk com a direita e seus extremos esquentou depois desse episódio aqui: Algumas pessoas afirmaram que o movimento se parecia com o gesto usado pela Alemanha nazista, que significa “salve a vitória”.
Durante um discurso de agradecimento aos apoiadores na posse de Trump, ele colocou a mão sobre o peito e ergueu repetidamente, o que foi visto e comparado a uma saudação nazista e a uma mensagem codificada para grupos radicais. Mas a polêmica aumentou ainda mais quando, no começo de 2025, Elon Musk resolveu mergulhar de cabeça na política europeia e, sem cerimônia, declarou apoio ao partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha, o AfD. Pra você ter uma ideia, em 2024, o partido chegou a ser expulso da coligação Identidade e Democracia, uma frente de partidos conservadores na Europa, após um dos dirigentes do partido dizer que membros da SS nazista não eram todos criminosos.
Por videoconferência, em um comício da sigla, Musk chegou a aparecer ao vivo, chamando o partido de "melhor esperança pra Alemanha" e incentivando seus membros a lutar pelo país. Se essa guinada política surpreendeu muitos de seus seguidores, um olhar mais atento à sua história familiar pode sugerir que a afinidade com as ideias ultraconservadoras não surgiu do nada. A biografia de Musk, escrita por Walter Isaacson, revela que seu avô materno, Joshua Haldeman, teve uma trajetória profundamente marcada por ideologias extremistas.
Em 1950, Haldeman se mudou pra África do Sul, no início do regime do apartheid, onde apoiou publicamente a segregação racial. Ele via o país como um bastião da civilização cristã branca, que, segundo ele, deveria resistir a uma suposta conspiração internacional de banqueiros judeus e à ameaça representada pelas “hordas de cor”. Essas ideias foram formalizadas em seu livro de 1960: A conspiração internacional para estabelecer uma ditadura mundial e ameaça à África do Sul.
Além de seu envolvimento com o regime do apartheid, Haldeman também esteve ligado ao movimento tecnocrata, que pregava a substituição da democracia por um sistema tecnocrático, no qual especialistas em ciência e tecnologia governariam sem interferência política. Não é possível afirmar que essas crenças tenham sido diretamente transmitidas a Musk, mas parece que algumas dessas ideias continuam a ecoar em sua história. E esse movimento não é inédito.
A ascensão de Musk como empresário que desafia o sistema e mobiliza massas lembra a trajetória de outra figura que transformou sua influência nos negócios em poder político: Donald Trump. Mas as semelhanças entre os dois não param por aí. Entender a jornada de Trump pode nos ajudar a prever os próximos passos de Musk na política global.
Para entender melhor essa história, confira agora o nosso vídeo sobre a verdade por trás de Donald Trump. Esse foi o vídeo de hoje, pessoal. Até a próxima!