Hoje venho aqui para falar de um assunto desafiador e polêmico que mexe com a crença de muitas pessoas. A gente vê que tem um movimento de pessoas buscando campo tanto por conta de qualidade de vida, como também na intenção de se proteger frente a algum evento catastrófico mundial, né? E é considerando essas motivações, a gente pode se colocar num caminho de busca pela autossuficiência.
E aí, eu quero trazer a pergunta para vocês. Será que a autossuficiência é possível? Fala turma, tudo chi?
Eu sou o Luciano, esse aqui é o canal Ser Rural, é o nosso segundo canal. Tem também o primeiro que é o expandido mundos, onde a gente fala mais do cotidiano, mostra mais o nosso dia a dia. Aqui a gente quer trazer, está tentando trazer de forma mais objetiva esse conteúdo da roça.
E hoje o assunto, eu acho que ele não vai ali numa técnica, alguma coisa que a gente pratica aqui no sítio, mas tem a ver com uma ideia mais ampla de conceber os objetivos, os os porquê de estarmos aqui no rural, buscando essa vida no campo, no sítio, contato com a natureza. E também esse vídeo é no intuito de a gente pensar com um pouco mais de clareza aquilo que faz sentido ou não. A gente vê uma crescente na internet de vídeos, de conteúdos inspirando as pessoas a se mudarem por para o campo, por essa busca de qualidade de vida, alimento saudável, contato com a natureza, talvez na busca de um mínimo de segurança, né, de prover os próprios recursos, os próprios o próprio alimento.
Mas só que você vê um vídeo ser inspirado por um conteúdo, às vezes é muito diferente de viver isso na prática. Então eu quero trazer a minha percepção relativo a isso, a essa busca pela vida sustentável em contato com a natureza e autossuficiência e quem sabe também ajudar no nortear quem tá nesse caminho. Talvez pensarmos, né, quais cuidados, que que é bom levar em consideração se a gente tá procurando fazer esse tipo de mudança de vida.
E a autossuficiência que eu me refiro aqui é sobre a gente se deslocar mais pro pra terra, pro contato com a terra e com a natureza e ali conseguir ter um acesso melhor aos recursos. para construir moradia, para produzir o próprio alimento, produzir energia e daí por diante dá para ir para uma situação muito mais complexa, tentar produzir a própria roupa, produzir tudo, né, o máximo possível e em situações mais extremas não depender de ninguém. Morar no sítio, eu sou dono de tudo, faço tudo, não preciso de ninguém.
E o que nos move ou move as pessoas a procurar esse tipo de vida? Eu acho que principalmente é a tranquilidade, paz e conexão com a natureza. Tá sendo muito comum hoje ver pessoas que já viveram o estress, o caos da cidade e hoje estão se dando conta que essa promessa de progresso, de vida moderna, de coisa cheia de concreto e carro e ter coisas, comprar coisas, ter essas facilidades, os confortos, tudo aqui ao toque de um botão ou a um passo da sua casa, isso não é necessariamente qualidade de vida.
Então, as pessoas estão buscando lugares com mais paz, tranquilidade, saúde e há também quem perceba que as coisas estão ficando complicadas. Então, há uma parte das pessoas que se preocupa com algum apocalipse, com algum fim do mundo, com algum problema global e assim a busca na vida no campo é para tentar se proteger, né, conseguir ter um pouco mais de controle nessas situações de caos que, por exemplo, tem aqueles mais radicais que não querem depender de nada. querem produzir a sua própria comida, sua roupa, não quer depender de supermercado, de ninguém, quer fazer tudo.
Tem o perfil também daqueles que querem produzir o seu tempero, alguma coisinha no quintal para ter um mínimo de autossuficiência e domínio sobre o que consome. A pessoa não tá abrindo mão de tudo, mas tá ali procurando uma vida mais saudável. Acho que um ponto também é a busca de autonomia no sentido de não depender de governo, de grandes corporações, não depender de patrão, no sentido que é você mesmo quem regula os limites, né, ou os pilares do seu próprio trabalho.
Aí nesse perfil às vezes não é no sentido dessa liberdade total, né, mas pelo menos ter um mínimo de domínio e controle sobre a própria vida. E por último, eu acho que tem aqueles que, na verdade, tentam viver a mescla de tudo isso, né? Eu acho que acaba sendo o perfil que a gente se familiariza, que a gente tá tentando viver aqui no sítio, tá?
Mas daí a gente pode se perguntar que problema tem eu buscar essas coisas? Eu acho que o problema tá na forma como a gente vai fazer e se a gente tá com o pé na realidade ou não, porque muitas coisas compartilhadas na internet às vezes não dão a dimensão, a complexidade que uma mudança de vida dessa nos coloca. Eu acho que a internet ela acaba criando um reducionismo, né?
É típico da das redes sociais, porque ali você tende a compartilhar aquele momento de êxtase, né, assim, o momento de super desfrute daquela vivência. Muitas vezes falta essa esse pé no chão, esse demonstrar que também tudo vai ter um lado com dificuldade. E nem sempre essas dificuldades ficam claras, né?
E a gente se anima e se empolga demais com um lado bom, cria expectativas, constrói um sonho. Aí quando vê, chega lá, na hora da realidade, a gente vê que também tem um lado difícil, que não são só flores, né, de morar no sítio. É maravilhoso a gente chegar numa mesa, se sentar e poder olhar, falar: "Nossa, tudo isso aqui veio da terra que tá aqui do lado da minha casinha, que eu produzi aqui no quintal, que eu produzi aqui na terra.
Mas o desafio de alcançar esse nível de autossuficiência, gente, exige uma desenvoltura e um e um uma dedicação com trabalho que às vezes acaba custando outras coisas, né? E aí esse esse custar outras coisas que às vezes não tá bem claro, porque às vezes custa tanto o seu tempo que você não consegue mais sair de casa ou até mesmo financeiramente, né? A gente vive aqui no sítio uma condição que quando faz as contas da produção do feijão e de repente vai lá no mercado e olha quanto tá o quilo do feijão, não vale a o nosso trabalho.
Financeiramente falando. Claro que a gente tá num processo de construir essa vida no campo, quer saber de onde vem o nosso alimento, a gente quer um alimento sem agrotóxico, a gente quer viver com mínimo de autonomia, a gente acaba arcando com esse custo, mas a gente também não pode assumir essa luta de uma maneira muito ferrenha. muito radical, porque há situações que o feijão não deu e a gente tem que buscar no mercado.
Então, aí começa, a gente começa a questionar se essa autossuficiência total ela é possível ou não. Eu acho que aqui a gente já começa a chegar no tema central, que essa ideia de autossuficiência de fazer tudo sozinho é impossível, porque quanto menos pessoas t para produzir os recursos pra vida, quanto mais sozinho você fica, mais árdo e mais difícil a vida fica. E aí que tá viver uma vida tão árdua, é uma vida que não vale a pena.
E aí, às vezes, a gente vai com esse sonho da autossuficiência e chega lá na prática na hora da verdade, vê que isso é difícil, as pessoas estão desistindo, tão abandonando o sítio, voltando paraa cidade, porque construiu uma concepção equivocada. E aqui no canal ou também no canal expandindo Mundos, que a gente fala sobre estilo de vida, já faz muito tempo que a gente reforçou essa questão de comunidade, pensar em ir pro campo sem uma comunidade, sem um organismo social para você se integrar que tá ressoando nessa mesma frequência, nessa mesma, nesse mesmo interesse que você tem, por exemplo, da autossuficiência, né? Se a gente não consegue se integrar num organismo social com esse interesse, a vida ela vai ficando difícil e acaba sendo que é o que acontece, né?
A gente mesmo aqui no oeste do Paraná se vê um pouco nessa condição, porque quem tá fazendo agroecologia, agrofloresta, buscando produzir o próprio alimento, tá? É uma minoria. A gente acaba sendo um ponto fora da curva e isso amplifica, né, os desafios, aumenta os desafios pra gente continuar nessa vida.
Por exemplo, nós aqui temos vizinhos que atuam nessa mesma busca que a nossa. Trabalham com agroecologia, com agrofloresta e nesse momento eles estão morando a 13 km daqui do sítio. Fica em outro município e volta e meia a gente se conversa, porque também a gente se ajuda, às vezes troca até trabalho.
Quanto facilitaria se a gente tivesse, sei lá, 5 km de distância, né? Podia ser até mais perto, mas se fosse cinco, quanto isso já facilitaria pra gente tá atuando? E aí, nesse sentido, é interessante pensar que a especialização no nosso trabalho, ela também tem um sentido muito positivo, porque se eu consigo produzir feijão e o vizinho produz milho, depois a gente pode trocar, porque facilita às vezes eu não precisar fazer um alabarismo com 100 frutas e cultivos, enfim, várias coisas, né?
E aí, se a gente tiver mais uns quatro, cinco vizinhos, que o outro produz o arroz, o outro produz frutas, o outro fazinha de trigo, aí em comunidade a gente começa a chegar numa autossuficiência que ela nos dá um pouco mais de dignidade, um pouco mais de tempo, um pouco mais de possibilidades da gente desfrutar da vida e não ficar numa labuta extremamente árdua, tentando dar conta de tudo, de prover todos os recursos, né? E sem contar, né, gente, que a vida moderna, o que vivemos hoje, a gente tá lapidado por necessidades que são incomparáveis à necessidades de pessoas que viveram há 60, 70 anos atrás. Então, qualquer coisa um pouco mais sofisticada, e a gente pode pensar até chegar num celular, numa internet, né, uma máquina, isso acaba sendo impossível de fazer sozinho.
E aí a gente começa a depender de uma cadeia, de um de um organismo social funcionando para que a gente tenha acessos a esses recursos, né? Ou senão a gente tem que abrir mão e viver uma vida árdua, uma vida bem ruts, bem raiz, uma vida que dependendo a perspectiva a gente, uma vida que na concepção da maioria das pessoas é uma vida difícil. Pode ser que tenha gente que goste e se identifique e consiga fazer assim, né?
Mas no geral, pelo menos eu não tô disposto a viver uma vida tão ermitona. Eu acho que um exemplo que joga muito, muita luz nisso é pensar nas pessoas como, como elas viviam há 50, 70 anos atrás, né? Era uma realidade muito comum produzir feijão, milho, arroz, o próprio açúcar melado, no caso da cana, né?
rapadura, produzia às vezes até a roupa, frutas, pessoal fazia a própria cama, fazia a própria coberta, travesseiro com palha, a casa era feita de tudo material orgânico, tudo bioconstrução, mas mesmo com todas essas conduções, ainda assim precisava de coisa de fora. Porque para comprar um facão, você conseguir fazer o ferro em casa é difícil. mesmo até para ter luz naquela época, acender uma lamparina que erosene, tinha que buscar combustível fora.
Então, nem naquela época que as pessoas viveram muito próximo disso, não se tinha essa total autossuficiência, né? E hoje, então, é, com todas as necessidades que a gente tem, sofisticações, né? Na minha opinião, a autossuficiência hoje ela é impossível para muita gente.
São poucas pessoas que têm garra e tem pulso para viver uma vida extremamente ruts e árdua, nessa labuta de produzir os próprios recursos. E para mim tem um conceito que também é bem difícil de eu me enxergar vivendo, que é a ideia dos sobrevivencialismos. Assim, sempre que me bate essa ideia, eu enxergo esse individualismo.
Parece que ele não contempla muito essa ideia de um organismo social, né? Ele fala muito sobre essa soluções individuais, você fazer um bunker, guardar sua própria comida. Mas gente, a maior segurança que a gente pode ter é tá entre amigos, entre pessoas que conseguem nos ajudar, a gente consegue se proteger.
Então essa ilusão de lá fazer um bunker, guardar tudo, gente, mas como é que você vai conseguir se proteger num momento de caos global, de escassez, que outras pessoas com fome venham e peguem o que que você tem guardado, né? Aí o pessoal já imagina a solução para isso. É câmera, é metralhadora, bomba, e alarme, choque, enfim, né?
São só paliativas, mas que nunca vão resolver o problema, porque o que dá segurança em todos os aspectos é organismo social, é comunidade. Na minha opinião, duas autossuficiências que podem ser viáveis, que são viáveis, que é a autossuficiência parcial, onde você vai produzir uma parte da sua comida e não vai ficar bitolado com outra parte dos recursos que você não consegue produzir, né? Você se integra ao sistema que tá disponível no lugar onde você mora.
ou eu enxergo que o único jeito de ter uma autossuficiência mais total, né, é uma autossuficiência dentro de uma comunidade. Vamos supor um espaço que una 20, 30 famílias, talvez como uma espécie de vila rural, uma comunidade rural. E aí essa essas famílias, essas pessoas trabalham com esse propósito em comum.
E aí cada um pode ter funções diferentes, né? Algum nível de especialização, uma coisa aqui, outra ali. E a gente produz o que pode e o que nos falta a gente troca.
E aí a gente consegue uma autossuficiência em comunidade. E aí assim a vida ela não fica árdua, ela fica uma vida mais gostosa de viver. a gente torna possível essas sofisticações, tecnologias, coisas que também tornam a vida mais prática e mais fácil, mais confortável, mais gostosa.
Então a dica é, se você tá entrando num projeto que vai exigir que você produza muita coisa sozinho, pensa bem que que vale a pena produzir, o que que te dá saúde, qualidade de vida, o que você gosta realmente de fazer e seja flexível para ver o que que é vale, o que que vale a pena comprar, o que que vale a pena trocar com o vizinho. busca produtores da locais para as vezes ajudar a alcançar uma comida mais saudável dentro de um processo de produção mais ecológico, sustentável, para que esse tipo de troca com a comunidade também crie espaços de tempo no nosso dia a dia para desfrutar um pouco mais da vida aqui no campo. Eu posso sentar debaixo de uma árvore e às vezes n um livro.
Pensando mais a fundo, a gente vê que essa ideia de fugir do sistema não existe, né? pelo menos não é um estilo de vida que vá que é possível de atingir de forma ampla a humanidade, a sociedade. Mas aí uma possibilidade bastante viável dentro desse sistema que muitas vezes a gente tenta fugir, é tentar recriar os laços comunitários pra gente criar uma nova perspectiva e caminhar para um sistema diferente, né, que contempla mais essas buscas da qualidade de vida, da alimentação saudável, do cuidado com a natureza, das relações sociais mais nutritivas.
Então, para finalizar o vídeo, produza o que você puder, troque ou compre aquilo que faz sentido, valorize sua saúde, sua qualidade de vida e, acima de tudo, o seu tempo. Cuidado ao entrar em ideias mirabulantes, fruto aí da inspiração de vídeos bonitos que correm pela internet. A gente mesmo se inspira com a internet, mas essa inspiração não pode ser uma coisa voada, né?
A gente tem que estar muito aberto a ouvir, a indagar, a perguntar para entender os pequenos fios. que constróem, tecem essa, esse tecido da realidade, né? E a última constatação é que é muito difícil a gente viver sozinho.
O futuro ele é coletivo. Eu só vejo solução pros problemas que a gente enfrenta no planeta mediante a organização, atuação coletiva. A gente precisa aprender.
Na minha opinião, a organização, nós nos organizarmos é o maior desafio do planeta Terra, né? Porque no mais a gente já tem tudo, tem tecnologia, tem recurso, tem conhecimentos, tem forma de acumular conhecimento, mas a gente só pisa na bola na hora de se organizar, de se comprometer com o bem-estar coletivo, né? Infelizmente, esse sistema ele tem fortalecido o individualismo, porque individualismo, individualismo tem um caminho mais rápido às vezes para chegar naquela qualidade de vida ou no sonho almejado sozinho e largar a mão dos outros, né?
A gente precisa enxergar a importância de andarmos de mãos dadas e chegar num bem-estar comum. Acho que era isso que eu tinha para compartilhar com vocês. Espero que vocês tenham gostado, que tenham entendido o que eu quis dizer, né?
Deixa aí nos comentários o que que vocês acham desse assunto e que ele possa nortear cada passo que a gente tá dando rumo a essa autonomia, nessa autonomia que precisa ser coletiva, precisa ser fruto do da atuação em comunidade. Não esquece de se inscrever, deixar o like, compartilha esse vídeo para quem você acha que pode servir essa discussão, esse assunto e sempre avante mais um passo rumo à autonomia.