Olá, pessoal. Aqui é a Cinttia e esse é o Negritude em Letras. Hoje eu quero comentar uma notícia que parece absurda à primeira vista, mas que quando a gente olha com mais atenção mostra coisas muito profundas, revela coisas muito profundas sobre racismo, identidade e pertencimento no Brasil.
Recentemente veio à tona que brasileiros estavam cadastrados em um site de relacionamentos supremacista, apelidado de Tinder nazista. O nome da plataforma era White Date, encontro branco, encontro para brancos. E a proposta era explícita, reunir pessoas que só queriam se relacionar com outras pessoas brancas dentro de uma lógica de pureza racial, tradição e herança europeia.
Esse site foi hackeado por uma hacker alemã vestida de Power Ranger Rosa e milhares de perfis foram expostos, entre eles perfis de brasileiros. E o conteúdo dessas descrições é bem revelador. Tinha gente dizendo que queria uma mulher branca tradicional.
Outros reclamavam que no Brasil quase não existem brancos de verdade e alguns diziam se sentir minoria no próprio país. O ICL conseguiu acesso a 10 perfis de brasileiros nesse site. E quando a gente olha com mais atenção para quem eram esses brasileiros, o quadro fica ainda mais revelador.
Entre os perfis expostos no chamado Tinder nazista, haviam homens e mulheres de várias regiões do Brasil. gente de Santa Catarina, Minas Gerais, São Paulo, ou seja, não estamos falando de um caso isolado, nem de um único lugar. E olha só o que essas pessoas desejam em um parceiro, uma parceira.
Um dos brasileiros de Florianópolis dizia procurar uma mulher branca tradicional, deixando claro que não era só uma questão de afinidade pessoal, mas de raça, de valores e de hierarquia. Outro de Minas Gerais dizia que queria uma parceira branca, porque segundo ele as mulheres brancas da sua região preferiam homens negros ou mestiços. Olha só, literalmente o que ele diz.
Além disso, não pretendo continuar morando aqui por muito tempo. Sim, sou sul-americano, mas com ascendência europeia principalmente. Meu sonho é me mudar paraa Europa, não como imigrante, pois posso ter cidadania europeia, porque tenho dois avós gregos e um deles ainda está vivo, felizmente, e preservar meus genes e minha raça, tendo pelo menos dois filhos com uma mulher branca e tradicional.
Gente, e repara no discurso, ele não fala em amor, em afinidade, em troca. Ele fala em competição racial, em ressentimento, em perda de espaço. E teve também brasileiro reclamando que no Brasil há poucos brancos de verdade dizendo se sentir minoria no próprio país.
Um usuário, estudante de engenharia, anunciava que estava cercado de antibrancos na universidade, mas que não podia desistir. Segundo ele, precisamos nos manter firmes. Nosso povo é o bem mais precioso e precisamos de amor.
Afinal, apenas tentando achar uma companheira, completou. E teve também mulher brasileira usando termos como honra, tradição, pertencimento para justificar a busca por um relacionamento exclusivamente branco, associando o amor à ideia de herança europeia e pureza cultural. Desejo me juntar à comunidade White Date porque anseio por um vínculo enraizado na honra, na tradição e num profundo senso de pertencimento.
Quando a gente lê uma fala como essa, olha só, dentro de mim reside uma alma antiga moldada pelas memórias de um mundo mais ordenado, onde o amor era sagrado e a família um legado. Ser mãe é a mais nobre vocação da minha existência. transmitir em corações pequenos e ternos os aspectos mais nobres e belos da nossa herança europeia.
Gente, isso não é poesia inocente, isso não é romantização do passado, isso é discurso ideológico. E eu vou falar com todas as letras, isso é delírio supremacista branco. Esse tipo de fala bebe diretamente da estética e da retórica do movimento treadwife, as esposas tradicionais, que não é apenas sobre escolher ser dona de casa ou valorizar a maternidade, é sobre recolocar mulheres brancas no papel de reprodutoras da nação, responsáveis por garantir a continuidade de uma suposta pureza cultural e racial.
E quando a pessoa fala em alma antiga, mundo mais ordenado, ela está evocando um passado idealizado, um passado que, curiosamente, só foi ordenado para alguns. Esse passado excluía mulheres indígenas, mulheres negras, mulheres pobres, imigrantes racializados. E a maternidade aqui não aparece como experiência plural, afetiva, ela aparece como missão racial.
E quando entra a frase transmitir a herança europeia, o discurso se fecha. Não é sobre valores universais, não é sobre ética, não é sobre cuidado, é sobre preservação racial. E esse tipo de pensamento parte de três ideias muito claras.
A primeira é que a mestiçagem é vista como ameaça. A mistura é vista como decadência, perda, contaminação, algo que precisa ser contido. A diversidade é vista como sinal de crise.
Quanto mais diverso o mundo, mais desordenado ele seria. A pluralidade vira sinônimo de caos. a branquitude como algo que precisa ser protegido, não como posição histórica de poder, mas como vítima imaginária, cercada de perigos.
E esse discurso não surge agora. Esse discurso ele é bem antigo, reciclado, atualizado pra era digital. Antes vinha em tratados eugenistas, hoje vem legenda bonita, estética clean, linguagem emocional.
E quando brasileiros se reconhecem nesse tipo de espaço, o que eles estão dizendo no fundo é: "Eu não quero ser associado a esse país mestiço, negro, indígena. Eu quero pertencer a outro lugar simbólico. " Isso diz muito sobre o Brasil, porque isso não surge do nada.
Isso se conecta com uma longa história de idealização da branquitude. No Brasil, ser branco nunca foi só uma questão de cor de pele, é um lugar social, é acesso, é status. E quando essas pessoas entram num site desses, elas não estão só buscando um relacionamento, elas estão buscando pertencimento racial, reconhecimento, validação.
Estão dizendo: "Eu quero estar do lado certo da hierarquia". Isso também desmonta um mito muito comum, o de que o racismo só aparece como agressão explícita, xingamento ou violência física. Aqui o racismo aparece revestido de preferência pessoal, de gosto, de estilo de vida, de valores familiares.
No fim das contas, esse Tinder nazista não é uma bizarrice isolada da internet, mas uma prova de como a supremacia branca tem se reorganizado e se tornado algo cada vez mais explícito.