Muitos acreditam que estamos vivendo o início de uma Segunda Guerra Fria com as crescentes tensões entre China e Estados Unidos ou Rússia e Estados Unidos. Por isso, o estudo da Guerra Fria original é tão importante para entender o mundo de [Música] hoje. A primeira ideia que as pessoas têm sobre esse conflito é de que as duas superpotências iniciaram a Guerra Fria por conta de suas diferenças ideológicas.
É claro que as ideologias fizeram parte dessa guerra, mas não foram a causa dela. A Guerra Fria surgiu por motivos geopolíticos. Cada uma das duas superpotências observava as ações da nação rival no cenário internacional como um jogo de xadrez e movimentava suas peças de forma defensiva ou ofensiva de acordo com o movimento do seu adversário.
O problema é que este jogo envolveu a perda de milhões de vidas, a produção de milhares de armas e munições e a distorção de notícias e eventos históricos por meio da propaganda de ambos os lados. Um livro que explica muito bem esse cenário é A história da Guerra Fria sem Mitos de Marcelo Andrade. O autor é professor de história há mais de 25 anos e já escreveu outros sete livros.
Este livro é uma das obras mais completas sobre o assunto e aborda o tema sem qualquer alinhamento ideológico com uma das partes desse conflito. Tanto os Estados Unidos quanto a União Soviética são vistos de forma crítica. O livro foi lançado pela editora Caravelas, que vale comentar, é um achado para o público brasileiro, que sempre foi refém de livros com uma visão marxista da história.
A editora tem traduzido obras importantíssimas da historiografia mundial que o Brasil nunca teve acesso, a não ser aqueles que sabem ler em francês ou inglês. Vale a pena entrar no site da editora para conferir o que eles têm por lá. Ou se você preferir, espere os próximos vídeos do Manual de História para receber outras recomendações.
A história da Guerra Fria sem mitos é interessante porque não tenta justificar os erros de algum lado dessa guerra. Ao contrário de outras análises sobre o tema, o autor mostra que as duas superpotências tinham muito mais em comum do que imaginamos, seja no desrespeito aos direitos humanos em território estrangeiro, no financiamento militar de golpes em diversos países, na exaltação de seus próprios feitos tecnológicos e na construção de mentiras de propaganda ideológica. Fiquem agora com alguns trechos selecionados do livro.
O fim da Segunda Guerra Mundial deu início à Guerra Fria, que foi o período no qual as duas grandes superpotências, os Estados Unidos e a União Soviética, lideraram o mundo. Ao contrário de uma guerra convencional, os dois lados nunca lutaram diretamente, daí o termo fria. A disputa foi uma batalha ideológica entre o comunismo e o capitalismo, entre o leste e o oeste, pela influência ideológica em outras nações e pelo poder.
Houve conflitos regionais que se transformaram em guerras por procuração, em que os dois lados patrocinaram grupos opostos que tinham suas próprias agendas. Ambos os lados, os Estados Unidos e a União Soviética, acumularam armas nucleares, mas houve discussões sobre controle e eliminação de parte delas, tornando-se centrais para a propaganda do conflito. A espionagem e a guerra psicológica tornaram-se a norma com a rivalidade pela superioridade tecnológica culminando na corrida espacial.
A liderança dos Estados Unidos e da União Soviética só foi possível com o enfraquecimento da Alemanha, França e Inglaterra, bem como o Japão sendo uma consequência direta da Segunda Guerra Mundial. Após o conflito mundial, grande parte do mundo se aliou aos Estados Unidos ou à União Soviética. O bloco ocidental foi liderado pelos Estados Unidos que se aliaram a outras nações do chamado primeiro mundo, as quais eram geralmente democráticas liberais, mas também ligadas a uma rede de estados autoritários, muitos dos quais eram suas excolônias.
O Bloco Oriental foi liderado pela União Soviética e seu Partido Comunista, que tinham influência em todo o chamado segundo mundo. Um erro muito grande é associar a Guerra Fria do ponto de vista dos Estados Unidos como uma guerra contra o socialismo e suas variantes. Isso não é verdade, visto que os Estados Unidos apoiaram regimes socialistas como Iugoslávia e deram suporte para China e Camboja.
De modo que lutar contra a União Soviética não foi sinônimo de luta contra o socialismo, mesmo porque muitos regimes supostamente de direita tinham políticas esquerdistas. Isso sem falar no dito marxismo cultural, que avançou muito inclusive nos Estados Unidos desde os anos 1960. E a luta nos Estados Unidos também estava distante de uma luta pelo mundo livre ou democrático, haja vista que apoiaram várias ditaduras.
Em alguns momentos, parecia que a Guerra Fria interessava os Estados Unidos, de forma que isso poderia justificar o intervencionismo em vários países, além do que justificaria os investimentos na área militar. Também no tempo de Nixon, houve uma vontade de manter a União Soviética estável, um reconhecimento tácito de sua zona de influência. Dessa maneira, houve um jogo duplo feito pelos Estados Unidos, que ajudou economicamente a União Soviética desde 1917 e os anos 20, direta ou indiretamente até o final dos anos 70, ao mesmo tempo que diziam que lutavam contra o comunismo.
De fato, em alguns locais o fizeram, no Chile, por exemplo, mas em outros, quer por negligência inexplicável, como em Cuba, quer por ajuda explícita, como na Iugoslávia, de fato ajudaram o socialismo. Há de notar que, na prática, a descolonização africana apoiada pelos Estados Unidos favoreceu o comunismo. Um dado escondido e pouco divulgado foi a cooperação Leste Oeste.
Os países ocidentais investiram muito dinheiro no Leste Europeu, apesar de exteriormente serem adversários. Um dado notável que ilustra esse fato é que a Polônia autorizou empresas estrangeiras a possuírem 100% das pequenas e médias empresas de seu país. Na África, as políticas das duas potências, União Soviética e Estados Unidos, foram desastrosas para o continente que estava em melhores mãos no tempo do colonialismo europeu, que sob a influência daqueles.
Os países africanos oscilaram entre ditaduras brutais e guerras civis. A África do Sul, um dos países mais organizados era um regime racista, apartaide. Na Ásia formou-se a maior nação socialista do mundo, a China.
E no Vietnã, os Estados Unidos conheceram sua derrota mais humilhante. Na América, Cuba foi um centro de deflagrações esquerdistas e serviu de inspiração para outros movimentos terroristas comunistas. A Europa permaneceu dividida entre a ocidental e a oriental, o que incluiu a divisão da Alemanha.
O símbolo máximo foi Berlim com seu famigerado muro. A Inglaterra permaneceu aliada aos Estados Unidos e a França ensaiou uma independência no tempo de Deol, mas depois cedeu ao europeísmo e a aliança com os Estados Unidos e com a OTAN. O lado ocidental sofreu com ameaças terroristas e partidos comunistas que ameaçavam conquistar espaço político.
A Guerra Fria, assim como a Segunda Guerra, também passou inicialmente pela Polônia. Ao entregarem para a União Soviética a Polônia, os Estados Unidos e a Inglaterra iniciaram um novo período histórico e deixaram a União Soviética ocupar seu espaço. A fissura final do império soviético também passou pela Polônia, onde os líderes soviéticos se recusaram a intervir.
O auge do império soviético aconteceu, pelo menos na aparência, nos anos 70. E de fato foi surpreendente que a virada tenha sido rápida e teve como ponto de inflexão a invasão do Afeganistão em 1979. O fim da União Soviética foi um processo complexo e multifacetado que resultou de uma combinação de fatores internos e externos.
A economia soviética estava estagnada e enfrentava dificuldades crescentes, com baixa produtividade, escassez generalizada e níveis desconfortáveis de inflação. O custo de manter uma presença militar global, bem como sustentar seus estados satélites na Europa Oriental, colocaram uma enorme pressão sobre a economia soviética. As reformas de Gorbachova introduziram políticas de reestruturação econômica como a perestroica e de abertura política como a Glass, destinadas a modernizar a economia soviética e o sistema político.
No entanto, essas reformas levaram a uma maior dissidência e instabilidade política e enfraqueceram a autoridade do Estado soviético, além de não propiciarem melhorias no padrão de vida. Os vários grupos étnicos dentro da União Soviética, particularmente nos Estados Bálticos, começaram a exigir maior autonomia e independência. O governo soviético foi incapaz de conter essas demandas e a União Soviética começou a se fragmentar em vários estados.
Os Estados Unidos pós-guerra fria tornaram-se a única superpotência e tiveram um amplo domínio mundial em várias áreas. Porém, isso está mudando. A União Soviética se foi e os arsenais nucleares diminuíram drasticamente graças aos tratados de não proliferação entre Washington e Moscou nas décadas de 1980 e 1990.
Porém, a Guerra Fria ainda afeta a geopolítica moderna. Ambas as nações ainda têm interesses geopolíticos divergentes, grandes orçamentos de defesa e bases militares internacionais. A OTAN ainda exerce poder político e continua crescendo.
Aliança agora se estende até fronteiras da Rússia e inclui ex-estados soviéticos e membros do antigo Pacto de Varsóvia. Desde a década de 1990, a Rússia vê a expansão da OTAN para o leste como uma ameaça à sua segurança, embora isso pareça mais retórico do que real, visto que a Rússia tem poder atômico e dificilmente a UTAN iria entrar numa aventura militar com potencial de desencadear uma guerra nuclear. Do ponto de vista econômico, a China surgiu como desafiante ao poderio dos Estados Unidos.
O fim da Guerra Fria motivou muitas análises historiográficas. No livro Era dos Extremos, Eric Hobsba forneceu uma análise abrangente dos principais eventos do século XX. Hobsb argumentou que o século XX foi caracterizado por uma série de extremos, incluindo violência, ideologias políticas e crescimento econômico.
Ele também sustentou que esses extremos foram impulsionados por uma série de fatores, incluindo mudanças tecnológicas, globalização e o declínio das formas tradicionais de autoridade. Em relação ao fim da Guerra Fria, ele coloca como um fim de uma época. Um argumento tentador é que o período de 1914 a 1991 defin.
A Primeira Guerra encerrou a era dos impérios e propiciou um jogo de forças entre totalitarismos e regimes democráticos. em especial fez nascer o socialismo real, que em 1991 quase morreu totalmente.