Por que você sempre cai nos mesmos erros, mesmo depois de prometer que não ia mais repetir aquilo? Porque parece que existe uma força invisível que te puxa de volta para a dor, para os relacionamentos destruídos, para a procrastinação e para os mesmos fracassos. A resposta não está na falta de força de vontade e também não está em frases motivacionais.
Ela está enterrada profundamente na estrutura do seu inconsciente e Freud, há mais de 100 anos, já sabia disso. Na obra Além do Princípio do Prazer, Freud se depara com algo perturbador. Nem sempre somos movidos pelo prazer.
Ao contrário do que pensava a psicologia da época, ele começa a perceber uma compulsão à repetição, uma força psíquica tão antiga, instintiva, que nos leva a reviver o mesmo sofrimento inúmeras vezes. Freud escreve que a ação é repetida, apesar de tudo. Uma compulsão impele a isso.
Neste vídeo, vamos entender por você está preso nesse ciclo e, o mais importante, como começar a romper com ele. Para acessar a transcrição deste vídeo, leituras adicionais, atendimento terapêutico e indicações de livros, acesse atoipotencia. com.
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Você já teve a sensação de estar vivendo uma espécie de dejavu emocional? Como se certos erros se repetissem mesmo quando o cenário muda? Você passa por relacionamentos diferentes, mas todos parecem ter o mesmo fim.
Você prepara objetivos novos, mas sempre desiste no meio do caminho. Até mesmo algumas promessas que são renovadas sempre acabam nos mesmos arrependimentos. Essa repetição não é aleatória, ela é um sintoma psíquico.
Freud nos explica que os pacientes em análise, ao invés de recordarem seus traumas, revivem-nos como se estivessem acontecendo agora. Em seu texto recordar, repetir e elaborar, ele escreve que o analisando não recorda absolutamente o que foi esquecido e reprimido, mas sim ou atua. Ele não reproduz como lembrança, mas como ato.
Ou seja, você não lembra do trauma, você repete ele. Você não se lembra da dor, mas revive versões dela nos erros que comete repetidamente. Essa repetição se torna uma tentativa inconsciente de resolver um conflito que ficou mal resolvido no passado, como se a mente dissesse: "Dessa vez vai ser diferente".
Mas como não há consciência do que está sendo repetido, o ciclo se fecha. Erro, culpa, promessa de mudança e repetição. E pior, quanto mais resistimos a olhar para dentro, mais atuamos o passado no presente.
Freud nos alerta que essa repetição não ocorre apenas na terapia, mas também na vida cotidiana. Ele escreve que o que a psicanálise aponta nos fenômenos de transferência dos neuróticos é encontrado igualmente na vida de pessoas não neuróticas. Nelas dá-se a impressão de um destino que as persegue, de um traço demoníaco em seu viver.
Você pode estar vivendo esse traço demoníaco sendo perseguido por padrões que nem sabe de onde vem, mas que te conduzem de forma inconsciente a falhas previsíveis. A verdade é que enquanto você não tomar consciência desse ciclo, você não terá liberdade para escolher um caminho [Música] diferente. A maioria das pessoas acredita que está no controle da própria vida.
Acorda de manhã, faz escolhas, decide o que quer, traça metas. Mas e se a maior parte das nossas decisões já foi tomada não por nós mesmos, mas por forças inconscientes que operam nas profundezas da nossa mente? Freud foi quem percebeu essa realidade.
Em suas palavras, ele diz que o inconsciente, ou seja, o reprimido, não promove qualquer resistência aos esforços da terapia. Ele mesmo não procura, senão, apesar da pressão que sobre ele pesa, abrir caminho rumo à consciência ou a descarga através da ação real. Isso quer dizer que tudo aquilo que você reprimiu, desejos, traumas, memórias, culpas, continua vivo dentro de você.
E o que não é lembrado é encenado. Se você não recorda, você repete. Se você não elabora, você repete.
Se você não reconhece o que sente, acaba agindo contra os outros e muitas vezes contra si mesmo. É por isso que Freud desenvolveu a metapsicologia, uma forma de compreender como os desejos inconscientes atravessam o ego e são censurados pelo superego, criando conflitos internos que se manifestam em comportamentos aparentemente irracionais. Mas não há nada de irracional nisso.
A lógica, só que é uma lógica inconsciente. Ele afirma o seguinte: "Sabemos que o princípio do prazer é próprio de um modo de funcionamento primário do aparelho psíquico e que para a autoafirmação do organismo em meio às dificuldades do mundo externo, já de início é inutilizável e mesmo perigoso em alto grau. Ou seja, a realidade exige adaptações e para isso reprimimos desejos que seriam inaceitáveis, mas eles não desaparecem.
Eles retornam disfarçados de escolhas ruins, procrastinações, sabotagens, compulsões e erros recorrentes. Para Freud, não é exagero dizer que a maior parte do que chamamos de decisão é, na verdade, uma repetição inconsciente. E sem saber, você pode estar sendo arrastado por essas forças, acreditando que está no controle, quando na verdade é como um navio sem leme, conduzido por ventos psíquicos que não entende.
Por isso, Freud nos adverte que devemos traçar sua doença não como assunto histórico, mas como um poder atual. A neurose ou sofrimento psíquico não está no passado. Ela se atua no presente, na forma como você vive, ama, trabalha e se sabota.
Você está repetindo que não consegue lembrar. E só há um caminho de saída, tornar o inconsciente consciente. Mas isso exige coragem.
Pode parecer absurdo imaginar que alguém escolha o sofrimento, mas o que Freud revela é ainda mais inquietante. Não só escolhemos o sofrimento, nós o repetimos compulsivamente e fazemos isso porque em algum lugar profundo da psique há uma busca por algo não resolvido. Essa força recebe um nome que é a compulsão.
A repetição. Essa compulsão, segundo ele, é mais primitiva e instintiva que o próprio princípio do prazer. Ela nos leva a reviver situações dolorosas, não porque queremos sofrer, mas porque precisamos compreender ou dominar aquilo que um dia nos traumatizou.
É como se o inconsciente dissesse: "Talvez dessa vez eu consiga fazer diferente". Mas sem consciência, tudo que se consegue é repetir. Freud traz o seguinte exemplo: "Conhecemos pessoas para as quais toda a relação humana tem igual desfecho.
Homens para os quais o desfecho de toda amizade é serem traídos pelo amigo. Outros que repetidamente no curso da vida, elevam outra pessoa a condição de grande autoridade para si mesmos ou para opinião pública. E após um certo tempo, derrubam eles próprios essa autoridade para substituí-la por uma nova.
Amantes, cuja relação amorosa com uma mulher percorre sempre as mesmas fases e conduz ao mesmo fim. A essência da repetição traumática é que sem saber, ferimos de novo o que amamos, porque estamos presos a um padrão psíquico que repete o passado em busca de redenção. Freud complementa com o seguinte trecho literário: Tancredo, o herói, matou sua amada Clorinda sem o saber.
Após o enterro, ele golpeia uma grande árvore, mas da ferida da árvore corre sangue e ouve-se a voz de Clorinda, cuja alma fora aprisionada naquela árvore, acusando-o de novamente haver golpeado a sua amada. Isso não acontece só nos casos patológicos. A repetição está presente nas más escolhas, nos relacionamentos sabotados, nos projetos abandonados, nas mesmas desculpas usadas por anos e anos.
Freud nos mostra que até mesmo crianças brincam repetindo vivências dolorosas. Em seu texto Além do Princípio do Prazer, ele também descreve o jogo de um menino de um ano e meio que lançava um carretel para longe, dizendo foi embora e depois puxava de volta dizendo está aqui Freud então interpreta: "É impossível que a ausência da mãe fosse agradável. Como pode então harmonizar-se com o princípio do prazer?
O fato de ela, a criança, repetir tal vivência dolorosa como brincadeira. Essa brincadeira que a criança fazia com o seu carretel foi interpretada por Freud como uma maneira dela, inconscientemente diminuir a ansiedade em relação à separação com a mãe, que estava longe dele naquele momento. Assim, a repetição dos movimentos que a criança fazia com o carretel, que o jogava e o trazia de volta para si, visava controlar a ausência da mãe.
O que se repete, portanto, não é o desejo, mas o trauma. E o sofrimento não é buscado conscientemente. Ele é o rastro de uma dor antiga que ainda não encontrou palavra, elaboração ou cura.
E enquanto isso não acontece, seguimos ensenando, atuando, tentando fazer diferente, mas sempre estando presos ao script da peça. E quanto mais você foge da dor, mais ela repete. Você já percebeu como muitas vezes cria justificativas perfeitas para os próprios erros?
Você já deve ter dito coisas como: "Eu só explodi porque estava estressado. " Esse relacionamento não deu certo porque o outro era problemático. Não é que eu tenha medo, é que o momento não é o ideal.
Essas frases parecem inofensivas, mas são mecanismos de defesa. São formas sutis com as quais sua psique protege você de algo que não quer encarar. Esse algo é a dor da verdade.
Freud nos revela que quando o inconsciente tenta vir à tona, o eu consciente ativa resistências. Ele escreve que vimos que o analisando repete em vez de lembrar, repete sobre as condições da resistência. Agora podemos perguntar: "O que repete ou atua ele de fato?
" Essa resistência se expressa em forma de autoengano. Você não mente para os outros, você mente para si mesmo, porque a verdade ser encarada de frente ameaça sua identidade. Por isso, Freud destaca que o paciente precisa aprender a se reconciliar com sua própria doença, olhar para seus sintomas como partes legítimas de si.
Ele escreve a própria doença não deve mais ser algo desprezível para ele, mas sim tornar-se um digno adversário, uma parcela do seu ser fundamentada em bons motivos, de que cabe extrair algo valioso para sua vida futura. Você não pode transformar aquilo que ainda despreza. Enquanto você não reconhece que carrega dentro de si aspectos difíceis, contraditórios, feridos, você continuará projetando, negando e repetindo.
Por isso, muitos fogem da terapia, dos relacionamentos profundos ou do silêncio, porque no silêncio a verdade ecoa e você não tem escapatória. E quando ela se aproxima, o ego, com medo da dor sabota tudo de novo. Diante disso, a armadilha é o seguinte.
O inconsciente tenta emergir, o ego resiste, a repetição se instala, a culpa aumenta e o ciclo recomeça. Mas Freud nos lembra que não há cura sem enfrentamento e ele diz que é preciso dar tempo ao paciente para que ele se enfrouem nas resistências agora conhecida, para que a elabore, para que a supere prosseguindo o trabalho apesar dela. Em algum momento você vai ter que parar de se enganar.
A mudança real começa quando você abandona as desculpas e encara de frente quem você realmente é. E se você pudesse apagar da sua memória, por exemplo, todas as lembranças de um amor que te destruiu? Essa é a proposta do filme Brilho Eterno de uma mente sem lembranças.
Joel, devastado pelo fim do relacionamento com Clementine, recorre a um procedimento experimental para deletar cada traço emocional ligado a ela. Você até pode pensar que isso seria libertador, mas o que acontece no filme é profundamente freudiano. Mesmo sem lembrar, Joel repete.
Joel encontra Clementine de novo, se apaixona de novo e os mesmos conflitos, os mesmos desejos, o mesmo abismo se repetem. O roteiro do filme não só dramatiza a ideia da repressão inconsciente, mas mostra com clareza o que Freud descreve como compulsão a repetição. Joel não lembra de Clementine, mas sua psique lembra e ela o leva de novo à dor, não por crueldade, mas por necessidade psíquica de elaboração.
Freud nos diz que não basta pagar um conteúdo da consciência, é preciso elaborá-lo. Caso contrário, ele volta. volta como padrão, como fracasso ou como sintoma.
No filme, há um momento em que a memória de Joel, já em processo de apagamento, resiste. Ele quer guardar ao menos uma lembrança de Clementine, algum gesto, um afeto, um espaço de sentido. Isso é profundamente simbólico, porque o inconsciente quer preservar aquilo que ainda não foi elaborado.
Freud descreve que essa compulsão quer nos parecer mais primordial, mais elementar, mais instinal do que o princípio do prazer por ela posto de lado. Ou seja, mesmo que o prazer diga para a gente apagar essa lembrança, existe algo mais profundo que diz que precisamos viver aquilo até entendermos, pois não há atalho, não há cura sem confronto. E como o próprio final do filme sugere, mesmo sabendo que tudo pode dar errado de novo, eles tentam mais uma vez.
Eis então o dilema humano: viver, errar, lembrar, repetir e, quem sabe finalmente elaborar. Se repetir é o modo inconsciente de lembrar, então elaborar é o caminho para se libertar. Mas como transformar a repetição em cura?
Como romper com o padrão que você mesmo não vê? Freud escreve que somente no áudio da resistência podemos, em trabalho comum com analisando, descobrir os impulsos instintuais que a estão nutrindo. A terapia não estava indo adiante.
O médico tinha apenas esquecido que nomear a resistência não pode conduzir a sua imediata sensação. O que isso significa? que não basta entender intelectualmente, não basta ter um insight, é preciso um trabalho emocional e constante de conscientização, aceitação e transformação, como uma escavação cuidadosa do passado, onde cada memória dolorosa deixa de ser uma prisão e se torna matéria-pra de crescimento.
E esse processo exige três passos fundamentais. O primeiro é reconhecer o padrão. Você precisa sair do piloto automático perguntando coisas como o que sempre se repete na minha vida.
Quais são os momentos em que sinto que eu já vivi isso? Quais dores eu sempre encontro, mesmo em contextos diferentes? Essa é a chave para começar o diálogo com seu inconsciente.
A segunda coisa é sentir o que foi evitado. Freud mostrou que repetimos aquilo que não conseguimos sentir completamente. Por isso, a dor não elaborada retorna disfarçada.
É preciso permitir-se sentir o que antes foi negado, seja tristeza, raiva, abandono, medo ou vergonha. Sentir não é se afundar. Ao contrário, é se libertar.
E terceiro, é dar um novo sentido ao passado. A lembrança que cura não é a lembrança factual, mas sim a que é acolhida com compreensão emocional. Você não vai apagar o passado, mas você pode integrá-lo como parte da sua história sem que ele continue escrevendo o seu presente.
No fim, elaborar é viver com consciência. Romper com os velhos padrões não é um evento único, é uma jornada. E como toda jornada verdadeira, ela exige esforço, coragem e uma profunda honestidade consigo mesmo.
Freud nos mostrou que a repetição é uma forma disfarçada de lembrança e que aquilo que você não elabora te aprisiona. Mas agora você já sabe que os erros recorrentes têm raízes inconscientes, que fugir da dor só aprofunda a compulsão a repetição, que mudar exige mais do que motivação, exige um olhar com coragem para si mesmo. Portanto, aqui vão algumas dicas práticas que você pode fazer para perceber suas repetições.
Você pode escrever suas repetições, ou seja, listar situações que você viveu mais de uma vez, seja relações, fracassos, decisões impulsivas e então buscar o padrão por trás delas. Você pode observar suas justificativas automáticas. Cada vez que der uma desculpa para um comportamento destrutivo, pare e pergunte-se: do que estou me protegendo agora.
Você pode procurar ajuda profissional. A terapia é o caminho mais profundo para acessar, nomear e transformar conteúdos inconscientes. Você pode também criar um espaço de silêncio.
No silêncio é o inconsciente que fala. Desligue os estímulos e escute então o que emerge dele. E por último, tenha paciência com o processo.
A repetição foi construída ao longo da sua vida. Desconstruí-la, então, leva tempo, mas é absolutamente possível. Como o Freud escreveu, o nosso estado assumiu todas as características da doença, mas representa uma enfermidade artificial.
Ao mesmo tempo, é uma parcela da vida real, ou seja, dentro da dor já está o embrião da cura. Você só precisa olhar para ela com coragem, com afeto e com responsabilidade. Se você gosta do meu trabalho e quer ajudar de algum jeito, considere tornar-se membro aqui do canal para apoiar a produção dos vídeos.
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