[Ariana Santos] [vinheta] [O] racismo obstétrico ainda 'tá muito presente na assistência perinatal. [vinheta] [Ariana Santos] A violência obstétrica, ela. .
. A gente pode [conceituá-la] como uma série de práticas que acontece, ali, durante o período gestacional [ou que] pode acontecer no pré-natal, durante o trabalho de parto/ parto e no pós-parto também. Eu acho que ela [a violência obstétrica] acaba ficando (sic) [em uma] nuance, ali, que eu falo que é uma "cortina de fumaça", porque, em alguns momentos, você consegue identificar por ser um xingamento, uma violência física que [se] sofra, mas durante muito tempo, algumas práticas não eram entendidas como violentas, porque elas eram tidas como técnicas necessárias para o nascimento.
[Nathalya Fonseca Camargo] A gente não pode esquecer que, hoje, a gente utiliza um termo [chamado] "racismo obstétrico"; é como se fosse um olhar (sic) da violência obstétrica que faz o recorte de raça, e [fazendo-se] esse recorte de raça, a gente consegue compreender [que a] violência obstétrica, que é algo que pode acontecer [com] todas as mulheres ou [com] todas as [pessoas] gestantes, [ela acontece], principalmente, entre as mulheres [negras (pretas e pardas)]. [Ariana Santos] [O racismo obstétrico] 'tá muito relacionado ao que a gente traz de história mesmo de construção de política de saúde da mulher, né? , no Brasil, principalmente, né?
Então, a gente vem de um caminho, né? , de mulheres, aí, pensando [em] mulheres negras, [que] foram escravizadas durante muito tempo. .
. Mais ou menos, ali, em 1880 (1883), a gente tem o surgimento de um conceito que é [chamado] "eugenia", e esse conceito, ele vem p'ra tentar, de alguma forma, hierarquizar e controlar as gerações futuras. Então, a partir do momento [em] que a gente tem esse conceito, a gente (sic) entende que existem "raças" que são "superiores", "raças" que são "inferiores" e que a gente (sic) pode "controlar" como essas raças vão "progredir" daqui p'ra frente.
Então, a ideia principal da eugenia era que a gente conseguisse, de alguma forma, aumentar a raça branca, diminuindo a raça negra, eliminando essa raça negra. E aí, por que eu trago isso, né? , porque pensar [em] cuidado de saúde da mulher é pensar [em] como esse corpo era enxergado.
[Nathalya Fonseca Camargo] E aí, essas violências, elas permanecem, 1º, [ao desconsiderar-se essa mulher (negra) como uma pessoa humana]; 2º, [ao animalizar-se] o corpo da mulher ou da [pessoa] gestante [negra], e [por] "animalizar", eu digo [sobre o] que a gente vê com mais [facilidade, ou seja, quanto a dizer que esse corpo, ele "não sente dor" e que, por isso, não precisaria de anestesia, como também que a mulher ou a pessoa gestante negra não precisa de cuidados ou] ter tanta atenção, porque, afinal, 'tá "tudo certo". A [animalização igualmente incorre na lógica de que] você é um produto de reprodução (sic), como já [assim foi visto um] dia, né? , [em uma noção de] que o corpo negro, ele precisava estar ali apenas para reproduzir, apenas p'ra procriar e gerar lucro.
. . Então, essa forma de ver o nosso corpo [negro] distorcido e banalizado faz com que essa violência, assim como era antigamente, assim como era no período da escravização (1535-1888), ela permaneça no nosso dia a dia.
[Ariana Santos] Então, dentro da política, estruturou-se o quê? [Estruturou-se] que existiam corpos que poderiam ser negligenciados e corpos que deveriam ser cuidados, e quais [corpos seriam] negligenciados? Os corpos das mulheres [negras (pretas e pardas)].
Então, quando a gente pensa, hoje, em violência obstétrica e pensa em racismo obstétrico, a gente (sic) tem [de] fazer esse apanhado histórico p'ra entender que tudo foi estruturado p'ra que realmente, gradativamente, essa "raça" [fosse] "eliminada", e aí, não por acaso, hoje, os estudos já [mostram] que existe uma diferença muito grande entre o tratamento de mulheres [negras (pretas e pardas)] e mulheres brancas. Em 2012, a gente teve um marco principal, que foi a Pesquisa Nascer no Brasil. [Essa] pesquisa, ela vai trazer o conceito de violência obstétrica que a gente ainda não tinha — a gente já falava de algumas violências na obstetrícia [e] não [havia] esse peso, né?
, de conceito, assim —. Quando ela [a Pesquisa Nascer no Brasil] explica o que é violência obstétrica p'ra essas pessoas que 'tão sendo (sic) entrevistadas, uma em cada quatro mulheres vai identificar que sofreu violência obstétrica, a partir do que 'tá sendo (sic) apresentado, né? , e aí, dentro dessas mulheres que sofreram [algum tipo de] violência [obstétrica], a gente vê que 66% são mulheres negras.
Então, por mais que seja, sim, uma violência ligada ao sexo biológico feminino, a gente vê que ela também tem um caráter racial, ali, muito forte, com certeza, por conta desse histórico que a gente traz de uma política que se estruturou dentro de um conceito eugenista, né? , olhando essa mulher, o corpo da mulher negra como um corpo que pode ser realmente brutalizado. [Nathalya Fonseca Camargo] [A] mortalidade materna hoje existente no nosso país [ocorre] por causas evitáveis.
Então, se [se] pode evitar uma morte, por que não [se] age [sobre isso]? [A] gente não age, porque a gente (sic) não compreende, ou melhor, a gente (sic) compreende, porém a gente (sic) não coloca força e engajamento em violências uma vez [perpetradas sobre] corpos pretos (sic). [Ariana Santos] Então, essas pesquisas, elas são importantes p'ra isso, p'ra mostrar p'ra gente que, apesar de tudo que a gente (sic) tem feito, o racismo obstétrico, ele ainda 'tá muito presente e ele ainda é o responsável pela morte dessas mulheres [negras], né?
, porque [se] se estrutura desde o pré-natal até o puerpério uma série de negligências, de maus-tratos, de [invisibilidades sofrida por] essas pessoas e que [vai] culminar [em uma] morte materna ou no que a gente fala que, hoje, tem [de] ser muito olhado de perto, que é o que a gente (sic) chama de "Near Miss", né? , que é o quase morte, [que] não entra, às vezes, na estatística, mas que 'tá ali [e é] aquela pessoa sobreviveu quase que "por sorte", né? , mas [que] também poderia ter ido a óbito.
Então, isso tudo acaba servindo de base p'ra que a gente afirme realmente que o racismo obstétrico ainda 'tá muito presente na assistência perinatal. [Nathalya Fonseca Camargo] Hoje, a nossa população [negra], ela 'tá reduzindo o número de [filhos e, sim, há] um projeto social p'ra [isso, mas] não é só o projeto social. P'ra nós, população [negra], muitas das mulheres só querem ter um filho, depois de passarem por traumas durante a maternidade.
[Estas mulheres] só querem ter um [filho, que passaram] por traumas depois do parto, e não é porque maternar é muito ruim, é pelo trauma [por que elas passam] toda vez que [estão em] frente a um médico. . .
[A] gente 'tá falando de gestação e [de] maternidade, mas depois que seu bebê nasce, todo mês, você vai 'se deparar com [um] médico, e isso não é encaminhado, isso não é dito, isso não é continuado por um único motivo, que é o racismo obstétrico, a violência obstétrica. [Ariana Santos] Então, é a mulher [negra a] que não precisa de analgesia p'ra parir, e, hoje, a Pesquisa Nascer no Brasil (2012) mostra isso, né? , [as mulheres negras recebem] menos analgesia; [as mulheres negras são as] que, na hora de [ser] suturadas, né?
, de [ser] costuradas, elas não recebem anestesia local. . .
Então, [para] qualquer pessoa que vá a qualquer lugar que machuque um joelho e precise de ponto, a gente [dá] anestesia, e por que na hora do parto, né? , no pós-parto, você vai costurar a vulva de alguém, né? , a vagina, ali, sem anestesia?
[Que] explicação técnica [você] teria p'ra isso? [Ela] não [existe]! A explicação é racismo, né?
A explicação é crueldade, nada além disso, porque explicação técnica a gente não consegue ter p'ra coisas assim.