Nos coloca em meditação acerca da lei de Deus o Sermão da Montanha, segundo São Mateus, cujo trecho lemos hoje. Está dividido em algumas sessões, depois das bem-aventuranças e de um pequeno conjunto de versículos em que Jesus fala sobre o sal da terra, luz do mundo, etc. O Senhor faz o comentário aos 10 mandamentos, e esse comentário é introduzido por essas palavras dele: "Não penseis que vim abolir a lei e os profetas; não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento.
" Antes, ele já havia dito: "Se a vossa justiça não exceder à justiça dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus. " Ora, o que o Senhor está querendo nos dizer com isso? Que o Velho Testamento ainda está em vigor?
Não, obviamente! Aquilo que no Velho Testamento era uma prefiguração do novo em Cristo foi abolido: todas as leis cerimoniais, todas as leis judiciais que eram próprias do povo de Israel. Tudo isso caiu em obsolescência, porém, não os preceitos morais, e são justamente esses que o Senhor comenta aqui.
E mesmo São Paulo, quando, por exemplo, na Carta aos Gálatas, ele censura a comunidade dos Gálatas por querer voltar à prática da lei, ele não se está referindo aos 10 mandamentos. Existe toda uma gama de estudiosos sobre os ensinos de São Paulo, da chamada nova perspectiva sobre Paulo, que hoje já nos asseguram que São Paulo não estava falando senão daqueles preceitos, como circuncisão, guarda do sábado, guarda das festas judaicas, etc. , etc.
, leis alimentares, coisas assim. Porém, isso que Jesus diz aqui também deve ser interpretado no espírito do Novo Testamento, porque a lei evangélica é a própria graça divina derramada nos nossos corações, cumprindo aquilo que dizia o profeta: "Derramarei sobre vós as minhas leis; escreverei em vossos corações as minhas leis. " Ou seja, no Novo Testamento, nós precisamos olhar para tudo aquilo que Deus nos manda fazer, inclusive no Velho Testamento, todos aqueles preceitos morais, para descobrir a profundidade da sabedoria que está escondida por trás deles.
Então, por exemplo, na primeira leitura do livro do Deuteronômio, Moisés diz ao povo: "Vós os guardareis e os poreis em prática, porque neles está a vossa sabedoria e inteligência perante os povos; para que, ouvindo todas estas leis, digam: 'Na verdade, é sábia e inteligente esta grande nação. '" Ou seja, tudo aquilo que Deus nos manda em sua lei está codificado para nós como um reflexo de uma sabedoria muito mais profunda que nós deveríamos rastrear mediante a meditação. O Salmo 118, que é o maior salmo da Bíblia, o maior capítulo da Bíblia, também é toda uma meditação sobre a lei de Deus e uma meditação sobre a meditação da lei de Deus, o quanto é importante meditá-la para podermos entender o seu sentido profundo.
Tudo isso faz parte de uma virtude que classicamente é chamada de prudência: a sabedoria prática, a capacidade de entender os porquês daquilo que nós fazemos ou deixamos de fazer. Não como quem segue uma mera lei, porque essa é a desgraça de muitos cristãos: eles não pecam porque está proibido, mas não sabem por que está proibido. E, por isso, ao invés de aprenderem a ter gosto pela vontade de Deus, eles vão levando um fardo a vida inteira, como se Deus estivesse obrigando alguém a fazer determinada coisa ou obrigando alguém a renunciar a determinado prazer por capricho divino.
Então, Deus mandou, infelizmente, não dá para fazer, mas eu gostaria, no fundo, de fazer isso. Não, não é assim que funciona! Deus não nos manda nada por capricho; ele nos manda em função da sua sabedoria eterna, e o homem prudente é capaz de entender essa sabedoria, justamente porque ele medita e descobre que nada daquilo que Deus nos manda fazer é aleatório.
Ora, isso está nas antípodas da atitude que genericamente é chamada de imprudência. O que é um homem imprudente ou o que é o pecado de imprudência, do qual pouco se fala? As pessoas falam muito dos pecados da carne, dos pecados de injustiça, mas dos pecados de imprudência quase ninguém fala, e são vários os pecados de imprudência que nós podemos cometer.
O primeiro deles é a precipitação, é aquela pessoa que vai agindo atropeladamente, que é impulsiva, que tem uma ideia na cabeça e já vai logo executando, que não pondera, que, portanto, troca os pés pelas mãos. Fala demais: a boca é mais rápida do que o cérebro. É um pecado, pecado de imprudência; no caso, pecado de precipitação.
Nós não podemos ser precipitados; precisamos ponderar muito bem aquilo que fazemos. Quantas vezes uma pessoa precisa pagar o preço caríssimo por atitudes impensadas, impulsivas, tomadas apenas em função das pressões circunstanciais? É um desastre!
Outro pecado de imprudência é a chamada inconsideração, aquela pessoa que não quer nem pensar. Eu já vi gente falando isso: "Nossa, eu não quero saber. " Para não pecar?
Como assim? ! Isso já é pecado; é o pecado de inconsideração.
A pessoa não quer parar para pensar, não quer refletir, não quer escutar os outros, não quer pedir conselho; ela tem a atitude interior de quem diz: "Ah, tanto faz! Eu vou fazer aquilo que eu acho que tenho que fazer. " A inconsideração é um pecado muito sério.
Outro pecado, aliás, é muito oportuno; estamos bem no meio da quaresma hoje, é o pecado da inconstância. É aquela pessoa que começa uma coisa e não termina. Então, ela diz: "Vou fazer uma penitência quaresmal X.
" Aí, quando chega no meio da quaresma, diz: "Ah, eu não vou aguentar! " E muda de penitência ou deixa aquela penitência simplesmente; a pessoa, por exemplo, começa a ler um livro, não termina. Ela tem que fazer uma prova e fica adiando tudo; é inconstante, tem uma vontade que é sempre volúvel.
Isso é pecado, é pecado de imprudência. Na inconstância, há um outro pecado, que é a negligência, que tem mais a ver com a falta de esmero, de cuidado. Que nós deveríamos ter com aquilo que fazemos é a pessoa que faz tudo de modo atropelado, que não para nem um instante para colocar o esforço da diligência, do capricho, da solicitude; e aí, tudo que faz, faz de qualquer modo e os outros que aceitem isso.
Não é viver uma vida sábia. O homem sábio, pelo contrário, ele pensa muito bem antes de agir, ele observa, ele escuta muito, ele não dá atenção a todos os pensamentos obsessivos que vêm em sua cabeça, ele sabe silenciar interiormente o seu coração. O homem prudente, ele tem aquela profundidade de quem conhece o que está por trás de um preceito, de uma lei, de um ditame que Deus nos entrega.
Será que nós não somos imprudentes, nesse meio da quaresma? Será que nós não precisamos colocar mais a cabeça para funcionar? Há tanta gente inépta na sociedade de hoje.
As pessoas vão agindo da maneira mais caótica possível, têm filhos como se fossem assim, um com outro, irresponsavelmente, têm atitudes das mais malucas, não calculam os perigos, os riscos. Nós vivemos numa geração de pessoas que têm uma vida esquizofrênica por falta de prudência, de consideração, de ponderação; e, exatamente por isso, vão se tornando desformidades biográficas, uma biografia que não tem começo, meio e fim, que é errática. Ali tem de tudo; a cada três páginas, é um capítulo novo, é um começo do zero.
Queridos irmãos, peçamos ao Senhor que nos conceda essa sabedoria, para que nós tenhamos uma inteligência moral bem formada e, ao mesmo tempo, uma vontade que sabe perseguir o bem, ao invés de desistir na primeira dificuldade.