Olá, moçada! Tudo bem? Baita prazer falar com vocês novamente.
Sejam bem-vindos de volta! Hoje, eu estou num território diferente; estou em terras paulistanas, por isso gravando daqui a nossa reflexão diária. Mantendo o nosso cotidiano, não posso faltar com vocês nem comigo mesmo.
Hoje, dia 14 de março, com uma meditação intitulada "O autoengano é nosso inimigo". Mais uma vez, os nossos autores optaram por evocar esse historiador da filosofia que nos oferece uma série de notícias sobre pensadores antigos, chamado Diógenes Laércio. Não confundir esse Diógenes, historiador da filosofia, com "Vida e obra dos filósofos ilustres", que é o título do seu livro.
Ah, aqui eles colocam "Vida e doutrinas de filósofos ilustres". Você vai achar algumas versões desse título, mas é sempre o mesmo livro. Não confundir esse Diógenes Laércio com o Diógenes, o cínico, lá do cinismo, da filosofia cínica, que é uma filosofia que está mais ou menos no mesmo período histórico — mais ou menos, não; está no mesmo período histórico do estoicismo, dando algumas respostas também a um período de crise, né?
Como eu expliquei lá na primeira meditação, naquele período de crise causado por Alexandre, o Grande, toda a sua expansão territorial e essa crise que se instala no pensamento do homem grego, especialmente. E o Diógenes Laércio, referindo-se aqui nesse trecho, fala sobre Zenão. Que bom!
Acho que é melhor a gente ler logo a meditação e refletir a respeito dela. Dizemos que há um firme domínio do conhecimento que o autoengano. Esse é um dos grandes problemas que nós enfrentamos na contemporaneidade, mas um problema que já era apontado na Antiguidade.
É muito difícil, vocês vão perceber, é muito difícil nós não termos, na Antiguidade — seja na Antiguidade Clássica, seja na Antiguidade Helenística — que é essa que nós estamos frequentando aqui, é muito difícil nós não nos remetermos para lá para entendermos vários dos problemas que persistem ainda hoje. Essa questão do autoengano é fundamental para a gente entender os erros que nós frequentemente cometemos por imaginarmos saber alguma coisa quando, na verdade, não a sabemos. Eu quero ilustrar essa historinha ou esse trecho aqui com um passo narrado por Platão, num texto chamado "Apologia de Sócrates", que mostra a defesa de Sócrates no tribunal quando ele sofre algumas acusações de alguns detratores seus.
E ele vai se defender no tribunal e, lá pelas tantas, o personagem Sócrates nesse texto de Platão conta o seguinte: um amigo dele chega um dia, vai até ele num certo dia e diz: "Sócrates, eu fui até o Templo de Delfos, que é o templo do Deus Apolo. O templo era uma espécie de ambiente oracular, né? Aquele ambiente no qual você vai, faz uma pergunta ao oráculo e o oráculo te responde com uma máxima, com uma frase que você deve interpretar.
" E esse amigo do Sócrates conta para ele e fala: "Sócrates, eu fui até o Oráculo de Delfos e perguntei quem era o mais sábio entre todos os homens e o oráculo me disse: 'Sócrates é o mais sábio entre todos os homens'. " E o Sócrates fica indignado com aquilo. "Como logo eu, que sou o homem que admite que nada sabe!
Eu só sei que nada sei e nem pressuponho saber coisa alguma. Como esse homem pode ser o mais sábio entre todos com tantos gênios andando por aí em território grego? " Sócrates diz que, então, provocado pela resposta do oráculo, começou a andar em praça pública, começou a andar pela cidade perguntando para aqueles sábios ou reputados sábios da cidade a respeito dos seus temas de especialidade.
Então, ele vai ao poeta que fala sobre o amor e pergunta ao poeta: "Olha, tudo bem, você faz canções e poemas sobre o amor, mas me diga exatamente o que é o amor. " Ele percebia que, com a pergunta simples, desmontava o sujeito porque ele percebia que o cara não conseguia dizer para ele o que era, de fato, o amor. Qualificava: "O amor é uma coisa maravilhosa.
O amor é lindo. O amor devemos cultivar. " Mas ele dizia: "Tudo bem, mas você não me disse o que é o amor.
Você está me dizendo que ele é lindo, que é maravilhoso, que todos nós devemos cultivar, mas você não me definiu o amor. " E a mesma coisa ele experimentou quando foi falar com os aplicadores de justiça, perguntando: "E aí, o que é a justiça? " "Ah, a justiça é uma coisa muito importante.
Sem ela, nós não podemos viver. Sem ela, não há vida possível em sociedade. " "Tudo bem, você não me definiu o que é justiça.
" Ele disse que essas investigações, que sempre causaram muito incômodo nessas pessoas, o levaram à seguinte conclusão: "O oráculo disse que eu sou o mais sábio entre todos os homens porque eu sei que nada sei, enquanto os outros, que nada sabem, ao contrário, pressupõem saber algo. E esse é o pior tipo de ignorância: a ignorância que não é sequer ciente de si mesma, o autoengano; a ideia de que eu sei o que não sei; a ideia de que eu sustento um conhecimento que, na verdade, se ampara muito mais em achismos, opiniões, posições mal meditadas. " No comentário dos nossos autores, o autoengano, delírios de grandeza, esses não são apenas traços de personalidade irritantes.
O ego é mais do que apenas repulsivo e detestável; é o inimigo jurado de nossa capacidade de aprender e crescer. Se existe algo que impede o nosso crescimento intelectual, é uma letargia de quem imagina saber o suficiente, de quem está satisfeito com aquilo que já obteve ou com o que pensa ter obtido. Como disse Epicteto: é impossível para uma pessoa começar a aprender o que ela já pensa ou o que ela pensa que já sabe.
Hoje, seremos incapazes de melhorar, incapazes de entender, incapazes de ganhar o respeito de outros se. . .
Pensamos que já somos perfeitos: um gênio admirado de norte a sul. O sujeito se ama tanto, ele é tão, eh, autocentrado que acha que não precisa de mais nada, que já leu o suficiente, já ouviu o suficiente e que agora tudo que ele tem a dizer é na forma de tratado; ou seja, como quem já domina algo e que, portanto, só tem que dizer aos outros o que eles devem aprender. Mas nunca se coloca na condição de aprendizagem ele mesmo.
Nesse sentido, ego e autoengano são os inimigos das coisas que desejamos ter, porque nos enganamos, induzindo-nos a pensar que já as possuímos. Devemos, portanto, enfrentar o ego com a hostilidade e o desprezo que ele insidiosamente emprega contra nós; mantê-lo longe, ainda que ao menos por 24 horas de cada vez. Sempre vigilantes para que o ego não se sobreponha, para que o achismo não se sobreponha a uma realidade mais dura: o universo da investigação, o universo da pesquisa, do conhecimento.
Ele não para nunca; ele sempre exige de nós essa abertura. E, para finalizar, quando alguém vem me perguntar: “Denis, eu queria participar da sociedade da lanterna, mas eu nunca mexi com nada na filosofia. Denis, eu me considero uma pessoa completamente despreparada, tudo o que eu sei é que eu não sei”, eu digo para essa pessoa: “Você sabe o que precisa saber que não sabe.
Você já está numa condição filosófica que tantos outros não estão e que vão demorar muito a chegar a essa condição. O sujeito que é consciente do seu não saber se coloca na condição do filósofo; ele se coloca na condição do investigador. Quem eu temo de verdade não é quem nunca frequentou as coisas da Filosofia, mas está disposto a se colocar em jogo com as coisas da Filosofia.
Mas é aquele que, tendo às vezes lido duas ou três páginas de um diálogo de Platão ou visto um videozinho qualquer no YouTube, diz assim: ‘Eu sei o suficiente, é quanto basta. ’ Desse aí eu tenho medo. Não sejamos essa pessoa.
Beijo grande para vocês, tenham um excelente dia! Não deixem de comentar, curtir, compartilhar e não deixem de entrar no nosso grupo aqui de WhatsApp para você receber todas as informações para ingressar na sociedade da lanterna e aperfeiçoar sua vida filosófica a partir de um ambiente extraordinário no nosso mês de aniversário. Beijão e até amanhã!