A nossa sociedade, infelizmente, parece tá se idiotizando. Eu tenho convicção que, provavelmente, tu percebe isso. Talvez tu não saiba onde tá o podre, mas tu sente o cheiro dele.
Primeiro, a gente parou de ler livros. No Brasil, quem compra livros é uma minoria e quem lê eles, então, e sinceramente até eu tenho lido menos. Chega ao ponto de ser ridículo.
Na pesquisa Retratos do Brasil, sempre foi muito comum ver entre a pergunta de quais são os seus autores favoritos, Machado de Assis em primeiro lugar. >> Claro, é quem a galera lembra porque aprendeu em aula de literatura. Agora é quem a galera lê?
Obviamente não. Se fosse a gente veria Machado de Assis nas gôndulas das livrarias. Alguém vê?
Então a gente matou a leitura. Depois a gente matou. Tá matando ainda o ensino superior.
Quando eu entrei na faculdade na URGs, que era para ser uma das melhores universidades de administração do país, acho que era a melhor na época, já era lamentável, sinceramente. Agora tá pior ainda. Na cidade que eu vivo, que é Santa Cruz do Sul, no interior do Rio Grande do Sul, tem uma universidade que é a UNISC, que é a grande universidade.
Aliás, a estrutura lá é linda. Diz que já tiveram quase 13. 000 alunos.
Agora tem menos de 3. 000. Vestibular.
Hoje em dia só não passa quem não quer, fora um ou outro curso que ainda há o monopólio do ensino. E aí com isso, nossa indústria do diploma matou, conseguiu matar o ensino superior, que hoje em dia significa bosta nenhuma do ponto de vista de que conhecimento que tu supostamente tem. E aí o nível da educação, né, vai na contramão da quantidade de diplomas colocados na rua.
Obviamente cai. Então, a gente ficou sem livros, a gente tá ficando praticamente semo superior, agora a gente não quer mais nem fazer curso. A galera parece tá perdendo a aptidão ao esforço que o aprendizado exige.
Mais fácil é ver se não tem uma skill do Cláudio que faz por nós aquilo que a gente precisa fazer para que a gente não precisa aprender. As vendas de curso ainda vão bem. Muito obrigado.
Relatórios recentes da Hotmart divulgados pelo fundador, o JP Rezende mostram agora uma coisa é comprar, outra coisa é fazer. Assim como não basta um livro na estante, tu precisa ler. Não basta um curso na aba do navegador, a gente precisa fazer.
E dados mostram que no geral menos de 1/3 de quem compra curso vai até o final. Aqui eu não vou nem entrar no mérito da qualidade. Se tu passa pelas livrarias, vê o tipo de livro que tá sendo vendido, tu passa pelos mais vendidos de cursos da Hotmart, por exemplo, vai ver o que que é aquilo.
A minha opinião pessoal é que é bastante vergonhoso, mas não vamos nem entrar nisso porque tudo bem, estão fazendo curso, estão aprendendo, estão lendo e pros propósitos desse vídeo isso já funciona. Qual o resultado disso tudo? é uma superficialização progressiva da capacidade intelectual urbana, que faz com que hoje em dia até ler um um parágrafo longo já seja difícil pra maior parte das pessoas.
E obviamente aqui também não tô nem entrando num problema mais fundamental que é o analfabetismo ou analfabetismo funcional que ainda comete uma grande parte da população. Tô falando só dos que sabem ler e mesmo assim não leem, não querem e não aprenda. Então se lê um parágrafo já é difícil, quem dirá ler?
Sei lá. Ah, bibliografia do Leonardo da Vince, que cara tem 500 e poucas páginas, se eu não me engano. É um livro ótimo, só que além de longo é lento.
E lentidão morreu. Ninguém tem tempo pra lentidão. Ninguém tem tempo para perder tempo.
Só que quando a lentidão morre, o pensamento morre, porque o pensamento profundo é lento. O pensamento profundo é o que tu ganha quando tu lê um livro de 500 páginas e não quando tu pede pro Cláudio resumir a biografia do Leonardo da Vin. Agora isso não li em nenhum lugar, não tenho dados para isso, mas é a minha impressão.
Antigamente, nas gerações dos nossos pais, avós, a vida não era fácil, pelo contrário, era muito difícil. As restrições eram muito maiores. E escassez não era só um termo usado por coaches para definir um mindset que não gera abundância financeira.
Não, escassez era medida pela quantidade de comida e variedade de comida que tinha na panela. Era uma coisa muito real, mas a vida não tinha tantos maus caminhos. A galera comia o que nascia da terra, quase não tinham supermercados e certamente não encontrava traquinas ou Nutella na prateleira deles.
Dinheiro para pagar refrigerante, só uma minoria abastada para conseguir ou lá de vez em quando, no final de semana. Drgas eram coisa rara, celular não existia. Agora, hoje em dia, hoje em dia parece o oposto, o básico da vida tá muito mais facilmente contemplado, mas os descaminhos, os maus caminhos, eles não só são muitos, como eles parecem se proliferar a cada dia.
Então o que que a gente precisa? Conseguir dizer não e conseguir dizer não é uma competência nova das novas gerações e cada vez mais estressada, exercitada. é dizer não pro doce, é dizer não para droga, é dizer não para ficar sentado no sofá, dizer não ficar para ficar parado dentro de casa, é dizer não para ficar jogando videogame o dia inteiro, é dizer não para ficar no celular, é dizer não para ficar com a aba aberta da inteligência artificial perguntando qualquer coisa para ela.
Só que dizer não, dizer não, dizer não, dizer não exige energia. Estudos mostram que quando a gente tem muitas restrições é difícil conseguir equilibrar todas elas. Por isso que no final de um dia estressante a gente se permitiu um docinho.
eu já aguentei tanto o dia inteiro, ah, docinho, eu vou me permitir. Quando a nossa vida é isso e a vida é estress e a vida é um dizer não, quem vai conseguir sustentar isso por todo esse tempo? A gente tem um problema que a sociedade, além de idiotizada, ela tá cansada, extremamente cansada.
E aí, da onde a gente vai tirar a energia para no final do dia, já chegando arrastado nele, a gente consiga dizer não pro sofá, dizer não pro celular, pegar um livro, ir pra academia, convidar um amigo para uma conversa significativa? não consegue. Tem um livro que se chama Deaths of Despair, Mortes por desespero, que mostra como as mortes autoinfligidas, ou seja, aqui, principalmente suicídio, overdose e alcoolismo, elas estão crescendo há décadas para grandes partes, grandes extratos da população norte-americana, a ponto de indeterminados recordes temporais.
A expectativa de vida ao nascer tá reduzindo pela primeira vez desde um pouquinho antes da pandemia. gravíssimo. E isso a gente fala só dos obtuários.
Galera que morreu, tem todo mundo que tá vivo, vivo de corpo pelo menos, mas já mais ou menos morto por dentro. E a galera corruída por ansiedade, por depressão, por insônia, por obesidade mórbida e dificuldade de locomoção, por infelicidade, por vícios, que torna a vida um pesadelo, ao ponto de quase ser insuportável. A gente vive numa era tecnologicamente avançada, materialmente próspera, mas psicologicamente pobre e infantil.
E a gente poderia ir além socialmente anêmica, não existem mais vínculos sociais como antes existiam. Politicamente falida, precisando reencontrar alguns rumos que foram apodrecendo ao longo do tempo e diversos outros fatores conjunturais que, infelizmente, criam esse esse contexto. A gente não cansa à toa.
E aí, infelizmente, são um terreno fértil por esse hábito pobre e idiotizante de scrolling nas redes sociais e de superficialização em tudo que é consumo de conteúdo e relação social. Só que aí a gente pensa assim, pô, também perto do suicídio, do alcoolismo, da obesidade mórbita, do dos grandes vícios, o que que é também eu pegar um celularzinho, usar ele de ópio, diário, um pouquinho, esquecer da minha realidade, dar uns risos com os vídeos criativos que o algoritmo selecionou para mim. Por um dia, mal nenhum.
Agora, por uma vida como hábito, é esse essa catástrofe idiotizante e esse pane cerebral que acontece. Agora, nadar contra a corrente é meritório, é bonito, mas é muito difícil. Esses dias eu vi uma entrevista do Eduardo Janete da Fonseca, que é talvez meu autor favorito.
Ele é filósofo, ele tem acho quase 70 anos, economista, escritor, membro da Academia Brasileira de Letras. Ele é um recluso por conta do seu processo criativo. Então, se tem alguém que eu nunca diria que teria problema com a vida digital, com distrações, é ele.
E mesmo assim, na entrevista, ele fala: "Cara, todo dia eu trago um combate corpo a corpo". Quais são as expressões que ele usou contra as distrações? Claro que a distração para ele é legional, é ver notícia, não é nem rede social, porque isso aí não faz parte do universo, mas mesmo ele briga com se deixar levar para manter esse espaço de saúde criativa, intelectual, familiar até.
Então ele ele luta para colocar os cercados e deixar essas coisas de fora. Se ele luta, o que que sobra para nós? Eu não acho que culpar quem se deixa levar ou colocar em nós próprios essas responsabilidades seja errado, porque não é no limite, ao fim ao cabo, no final do dia, cabe sempre a cada um ir lá e dizer não, desligar o celular, deixar num outro cômodo, pegar um livro, sair para correr, ligar para um familiar, enfim, seja o que for, condicionar a sua vida para como tu quer que ela seja e não se deixar levar pro mais cômodo, mais fácil daquele momento.
Ao mesmo tempo, não dá para negar que a nossa força de vontade, ela vai só até certo ponto. A partir desse ponto, ela esbarra em fatores conjunturais, em problemas talvez grandes demais pra gente conseguir lutar contra. E aí esse combate corpo a corpo que o Eduardo Janete fala, a gente entra em combate, mas a gente perde, cai no chão e desiste da luta.
Eu, por exemplo, nunca fui um super leitor, mas sempre li consistentemente ao longo da minha vida, de 15 a 20 e poucos livros por ano, mais ou menos, eu acho. Hoje em dia tenho lutado para ler 10 e aí tudo bem, poderia dizer, meu filho nasceu recentemente e foi um fator que mudou a minha rotina. E aí o que acontece entre lei e trabalhar?
Eu tenho optado por trabalhar, que aliás já tá com carga horária reduzida por conta do nascimento do meu filho. Entre lei e fazer exercício, eu tenho optado por fazer exercício, porque ali eu acho que eu tô um pouco para trás e a minha saúde física é importante. Entre ler e ficar com meu filho, entre ler e ver minha família, entre ler tem muitos tradeoffs e o nosso dia tem 24 horas.
Pum, não cabe. E olha que a minha vida, sinceramente, dado o que eu consegui construir até hoje, não é a vida mais difícil que um brasileiro pode enfrentar. Eu sei disso.
Se eu realmente quisesse ler, era só eu revisar algumas prioridades. Eu teria condições de revisar essas prioridades. Mas para muita gente não é tão fácil assim.
A vida é um arrastão de dificuldades. O cansaço ele não vem do nada. Embora a premissa de tu ser dono da tua vida segue sendo válida, porque muitas vezes tu acessa o celular dessas mesmas pessoas e tem duas, três, 4 horas de tempo de uso, então tá no domínio, não é simplesmente falta de tempo, é mau o uso do tempo por falta de vigor, de força de vontade, ao mesmo tempo, não dá para negar.
O cansaço, que é o que faz a gente não conseguir agir dessa forma, não vem do nada. Ou seja, essa idiotização não é só falta de responsabilidade do próprio indivíduo. É um sintoma de uma sociedade doente, de um sistema econômico que precisa de reparos e de valores de vida que perderam completamente o rumo e criam padrões e réguas nunca satisfatórios para nós próprios, especialmente aqui nessa podridão de rede social.
Nadar contra a corrente não é fácil. E não me pergunte quais são os melhores caminhos para conseguir isso. Totalmente descobrindo eles.
Mas no mundo podre de hoje é a única opção saudável e única direção que nos resta para nadar.