No nosso último encontro, vimos como a lógica da revolução industrial nos levou à crise ecológica. Mas hoje precisamos virar a moeda e encarar o seu outro lado, igualmente devastador, a crise social. É fundamental entendermos que o desenvolvimento sustentável não é apenas uma questão de árvores, gases ou animais.
é, antes de tudo, uma questão de justiça e equidade social, a sustentabilidade como justiça social. O Brasil, por exemplo, é um país de mega diversidade, mas também de mega desigualdade. Isso não é um acidente.
A degradação ambiental e a injustiça social são, na verdade, duas faces inseparáveis do mesmo processo histórico, resultado de modelos econômicos que perpetuaram a concentração de riqueza e o acesso desigual aos recursos. O conceito de sustentabilidade, se não abordar as raízes profundas da injustiça, está fadado ao fracasso. Não podemos exigir que uma pessoa, em situação de pobreza extrema se preocupe com o consumo de orgânicos ou com a reciclagem sofisticada, se ela não tem acesso à moradia digna, alimentação e saneamento básico.
As necessidades essenciais dos mais pobres, como afirmou o relatório Brunlan, precisam ter a prioridade máxima. A pobreza e a exclusão social agem como fatores ativos de degradação ambiental, criando um ciclo vicioso. Por exemplo, a falta de acesso a tecnologias limpas, como o gás encanado, força comunidades a depender de lenha para cozinhar, o que intensifica o desmatamento local.
Ausência de saneamento básico polui rios e lençóis freáticos, afetando a saúde de toda a comunidade. Historicamente, quem sofre mais e primeiro com a poluição, as inundações e a falta de água potável são as populações mais vulneráveis. É aqui que entra o conceito de justiça ambiental.
Ela luta pelo direito de todas as pessoas a um ambiente seguro e saudável, independentemente de sua raça, classe ou renda. Vamos aprofundar essa análise focando na desigualdade estrutural. Não é apenas a pobreza que esgota o planeta.
O verdadeiro motor do déficit ecológico global é a extremação ou overconsumption. O que é isso? É o consumo excessivo, desproporcional de recursos por uma pequena parcela da população global, as classes mais ricas do norte global e as elites locais.
Você sabia que em média um cidadão que vive em um país rico consome cerca de 7 a 10 vezes mais recursos, sejam eles energia, água ou minérios, do que um cidadão de um país em desenvolvimento? O problema não é o número de pessoas, o problema é o padrão de consumo dessa minoria rica. São os múltiplos carros, as viagens aéreas frequentes, os enormes desperdícios de água e energia em mansões.
A pegada ecológica dessa pequena elite é a que está de fato ultrapassando os limites da Terra. Essa desigualdade nos leva diretamente à geopolítica da sustentabilidade, o dilema norte global versus sul global. O norte global tem a responsabilidade histórica pela maior parte das emissões e exploração de recursos.
Já o sul global sofre desproporcionalmente os impactos, mas tem a necessidade legítima de se desenvolver. Para resolver isso, as conferências internacionais adotaram o princípio da responsabilidade comum, mas diferenciada. O que isso significa na prática?
Significa que todos temos a responsabilidade de cuidar do planeta, mas os países ricos que poluíram mais historicamente devem liderar a transição, fornecendo suporte financeiro e tecnológico para que os países em desenvolvimento possam crescer de forma sustentável. Concluindo, o combate à pobreza e a promoção da inclusão social são as primeiras e mais importantes ações de sustentabilidade. Não há sustentabilidade ambiental sem justiça social e equidade econômica.
A crise que enfrentamos é uma só, a crise socioambiental. Espero por você na próxima videoaula.