Você imagine ler como eu li irmãos Karamazov Dostoevski com uns 7 anos. Eu li porque eu ia lendo. Mas você entendia?
Sim, entendia muito pouco. Mas aquilo foi ficando como um fundo. A questão é que se transformou num segundo momento numa tarefa prazerosa.
Em algum momento da vida humana nós não teremos mais violência. O senhor acha que em algum momento da história humana não haverá guerra? Para mim é tristeza.
e do Einstein. E o Freud responde: "Não, sempre haverá, porque nós somos capazes do horror. " Se tem uma coisa que eu tenho hoje, Riza, que eu tenho recusa, é pessoa que é hipócrita.
Isto é, que ela finge que ela é algo que não é. Liberdade não é licença. Liberdade não é licença.
Eu sou livre para falar o que eu quiser, mas eu tenho que assumir a responsabilidade em relação àquilo que eu falo, porque não é porque eu sou livre que eu tenho autorização para fazer. E tem coisas que são absolutamente, né, passáveis. Uma música, ela é clássica, não porque ela é uma música sinfônica, mas porque ela continua no tempo.
Um diálogo não é de maneira alguma ausência de conflito. O diálogo não é a obrigatoriedade que nós concordemos. O diálogo ele só é possível com a obrigatoriedade que nós nos respeitemos.
[Música] Oi, gente. Sejam bem-vindo a mais um PD Pá. E esse Pode Pai tá muito especial.
Como é que você tá, ig? Ah, eu eu estou bem. Oxe, eu recebo com muito carinho o nosso convidado de hoje, Mário Sérgio Cortela.
Pelo amor de Deus, pelo amor de Deus. Bate palma. Vamos embora.
Boa. Vamos filosofar. O exagero é sempre bom quando é elogioso.
Ah, ele já vem cravando, né? Só pline no homem. Como que você tá?
Você ma de cor. Olha, você sabe que tem um filósofo alemão do século XIX chamado Edmund Russell e ele quando perguntado como o senhor está eles bem, sinta apenas uma certa dificuldade em ser. E aí parava e as pessoas ficavam imaginando ser o quê?
Ser, isto é, existir, né? E é claro que quando a gente diz assim, bem estou, nós temos um modo formal de dizer isso de maneira geral, quando alguém fala: "Como é que você tá? Mas como é que você tá, mito?
Como é? Tô legal", etc. a gente não segue, mas quando você me pergunta como é que eu estou, digo bem por uma razão, não é?
Vivo com capacidade de autonomia, com possibilidade de seguir e partilhando um tempo de vida aqui com vocês agora. Coisa melhor não tem, né? Você imagine ler como eu li irmãos Karamazov Dostoevski com 7 anos.
Eu li porque eu ia lendo, mas você entendia? Sim, entendi. É muito pouco, mas aquilo foi ficando como um fundo.
A questão é que se transformou num segundo momento numa tarefa prazerosa. Se no primeiro momento era um encargo, era uma obrigação, era uma ocupação que não tinha alternativa, passou a ser prazeroso. Porque mesmo que eu não entendesse Dostoevs, quando eu encontro uma frase como: "Se Deus não existe, tudo é permitido".
Aí você mesmo que tenha 7 anos de idade, você para e fala: "Que será que ele quer dizer com isso? esta ideia ou quando a gente encontra, como eu li Don Quichote do Servantes, né, em que ele escreve na obra, nem sempre recuar e fugir, você começa a refletir sobre isso. Encontrei um mundo em que a literatura, no caso, e mais tarde a filosofia, ela permitia que eu saísse do óbvio, que eu saísse daquilo que é o cotidiano, que eu ultrapassasse, não outras pessoas, ultrapassasse a minha limitação.
E por isso que a hepatite, que é uma doença que dá no fígado, produziu em mim algo que dá um trocadilho ótimo em português, ao dizer que a minha relação com a literatura ela é fadal, né, por conta exatamente disso. Mas qual foi sua primeira paixão na literatura? Que imagino com 6 anos você tava lendo ali, nossa, esse assunto eu me interessei muito.
Eu gostava muito de gibi, história em quadrinhos. Em 1959, né, eu tinha 5 anos de idade. Eu vi pela primeira vez no jornal em Londrina, né, vi quadrinhos do Maurício de Souza, que era a história do Bidu, cachorro, não é?
Que que não era colorido na época e que depois eu vi que ele tinha uma outra cor mais adiante. E eu até tenho uma alegria de ter três livros com Maurício de Souza. Nunca imaginei, não é, que um dia eu pudesse, são livros que se chamam, vamos pensar um pouco, vamos pensar mais um pouco, ele faz a ilustração e eu os textos.
E ao ler gibis, eu lia gibis de história em quadrinhos, seja de brasileiros, no caso Geraldo, ou, por exemplo, Maurício de Souza, que tava começando, mas lia também muito do que vinha dos Estados Unidos, da América do Norte, histórias da família Disney, né? Histórias especialmente de aquilo que depois se tornariam é superheróis no cinema e que eu só vi em Giibi, como o caso do Batman, o Superhomem, um herói. Você gosta do Batman?
Gosto bastante de lembrar do tempo em que eu gostava, mas eu passei a não gostar tanto quando ele se corporificou, né, na minha frente. Uma das coisas boas é que tava ali desenhado. Como é que é possível que a gente admita, né, que haja exclusão, a retirada de pessoas do nosso convívio, aquilo que hoje se chama de bullying, né, e que naquele momento era mesmo discriminação, embora também tem esse viés.
E sem dar um ar romântico a esse caminho, dizer que aos 14 anos eu já tinha um pensamento social, não era isso. Aquilo me incomodava. Que que me incomodava?
ao tripudiar sobre pessoas, aquele que não tinha família, aquele que tinha que viver sozinho, aquela que porque não tinha a mesma orientação sexual que outras, era entendida como estranha, isso me trazia um certo incômodo que eu não sei da onde vinha. Depois, mais adiante, eu fui perceber, ao ler, estudar um pouco que o nome disso era vida comum. A vida comum exige que a gente tenha modos e princípios para que a gente possa ser decente na convivência.
E o nome disso é ética. A ética é o conjunto de valores e princípios que a gente usa para conviver. Só existe ética porque nós somos mais do que um, né?
Se vocês fossem só um, né? Se eu fosse só um, não haveria o problema da convivência, porque não haveria convivência. Só existe necessidade de pensar a vida em comum, porque incomum ela é.
A melhor definição de ética que eu já vi é de um filósofo francês do século XX chamado Paul Ricker. Olha que coisa ótima e simples. Ele diz: "A ética é vida boa para todas e todos em instituições justas".
Há uma grande pergunta que um dia, olha que coisa, vocês gostariam demais de fazer um po de pá com duas pessoas que escreveram cartas um para o outro, que é Einstein e Freud. Nossa Senhora. No início dos anos 1920, a Liga das Nações, que hoje é a ONU, né, ela criou uma forma de comunicação entre grandes cientistas e pensadores da época e os desafiou ao seguinte: se você fosse escrever para alguém, para quem você gostaria de escrever?
E Einstein decidiu que ele queria escrever pro Freud e vice-versa. Eles trocaram cartas. Esse livro existe no nosso idioma.
As cartas entre eles se chama Por a guerra. Nossa, v. Por quê?
Porque o Freud e o Ain na correspondência, o A escreveu para o Freud com a seguinte pergunta: "O senhor acha que em algum momento da vida humana nós não teremos mais violência? O senhor acha que em algum momento da história humana não haverá guerra? " Para mim é tristeza.
e do Einstein. O Freud responde: "Não, sempre haverá, porque nós somos capazes do horror". E você, para aprender o encontro consonantal na palavra e de a ideia de NH, você coloque lasanha.
Embora a lasanha hoje seja uma coisa mais conhecida, há 30, 40 anos, alguém no estado do Pará, né, não tinha tudo isso como seu cotidiano. O que Paulo Feira afirmava? para que alguém aprenda de fato, ele precisa conectar-se com a realidade dele.
Para isso, eu preciso discutir com a pessoa qual é o meio em que ele está. Eu não posso educar uma criança ou um jovem que vive, por exemplo, nas áreas de periferia social de uma cidade como São Paulo, da mesma forma que eu faço em outro local. Te dou um exemplo concreto.
Eu fui secretário de educação na cidade de São Paulo, aliás, substituindo Paulo Freire no cargo. Algumas pessoas diz: "Você substituiu o Paulo Freire? " Eu falei jamais substituiu o secretário Paulo Freire.
Paulo Freire não tem substituto. Ninguém em san consciência deixaria nesse momento de ter estrutura policial armada na sociedade que fosse por nós cidadãos e cidadãs autorizados a usar a arma para que aquilo não seja degenerante, não seja degradante. Mas aí nós temos umas uma sociedade que usam isso para poder guerrear, por exemplo.
Fala assim: "Não, eu eles estão cheio de arma lá, vamos pegar eles". Não, eu quero pais. Então se vocês vierem aqui não vai explodir vocês.
Então isso a galera usa muito esse discurso também. Ol e usa com razão, né? Porque afinal de contas se você tem uso regulado da armamento em que as pessoas têm o controle sobre a possibilidade de quem é que está autorizado ao uso da força, aí a gente ter o controle sobre ela.
Se há um descontrole em relação a isso, é mais ou menos como aquilo que vivemos nesses instantes na luta nuclear. E eu falo isso com frequência. Se você tem bomba atômica e eu também tenho, só existe vitória no empate.
É, se todo mundo ficar quietinho, né? Isso. Se eu suspeito que você tem e você não tem, mas você afirma que tem e eu também não tenho, é mais ou menos como um jogo de truco, né?
Em que você simula que tem as cartas ou no pouca. Se nós dois temos, há um controle maior para que não comece. Gente que diz: "Não, Deus é que mandou, Deus é que disse que eu e você tenhamos fonte de referência em que a ideia de sagrado possa ter o seu lugar, é até uma possibilidade, mas eu me colocar na tarefa e no papel de dizer Deus não quer e Deus quer é uma arrogância, né?
também é colocado um medo na gente enquanto pequeno ou sociedade ali de que a gente não pode nem nem questionar isso. Ah, Deus mandou dizer, será? Não, eu não posso nem meter esse será porque eu sei lá, sou endemoniado do cap.
Então, a autoridade inquestionável, isto é, o princípio inamovível, ou seja, o dogma no lugar do pensamento mais livre, ele é uma das bases de boa parte das religiões. Não é para controlar esse medo, não serve para controlar. Mas você tem que se lembrar sempre que a religião tem o medo como uma das suas fontes.
Você se torna uma pessoa muito crente quando um avião tá balançando em excesso, né? Você quando está, né, com uma situação desesperadora, de maneira geral, você recorre as forças que der, né? Se você olha num estádio de futebol, no momento que estão faltando 3 minutos e teu time precisa fazer de qualquer modo um gol, quase que a torcida se dá as mãos, né?
E você tem um monte de gente de olho fechado fazendo assim, lançando, né, força de recursos que estejam fora dele. Portanto, o terror, eu vou usar a palavra correta, o terror é uma parte daquilo que nos movimenta na direção de buscar forças que nos auxiliem a viver. Se num primeiro momento na vida nossos pais é que fazia esse papel, isto é, ajudava a segurar na nossa mão, a ir lá te acalmar, né, a dizer você à noite no famoso terror noturno ou acordando com medo de que tivesse fantasma, você chamava um adulto para ir ali, né?
Depois que você cresce, você continua tendo medos, você continua tendo fantasmas, você continua tendo aquilo que te assusta na vida. Uma das maneiras de buscar apoio é a religião. Há pessoas que não tm a religião como caminho para isso.
Mas, por exemplo, no censo que saiu agora no Brasil, de cada 10 pessoas no Brasil, nove tem algum tipo de crença. Portanto, não é algo desprezível. Qual é a fonte do mal?
aquilo que você trazia logo no início, digamos, a ideia do por que que continuamos matando. Quando você levanta a perspectiva aqui mítico de qual é a fonte para pegar, para ter aquilo que é o teu epíteto, o teu apelido mítico, né? O que é o mítico senão uma busca de explicar a realidade de uma maneira que seja imediata e sintética e que nos dê algum sossego.
A ciência ainda não trouxe isso, né? Você acha que um dia vai ter algumas respostas para essa? Se não, porque nós temos uma síndrome que é muito interessante que a ciência nos trouxe.
No século X nós tivemos o microscópio e o telescópio. O que que o microscópio permitiu? Que a gente visse mais aquilo que a gente não via e o telescópio que a gente visse mais aquilo que a gente não via.
As duas invenções fizeram com que a gente aumentasse nossa ignorância, porque havia coisas que eu não via, no mínimo e no máximo que eu não sabia que não via. E ao começar a olhar, há outras coisas a serem vistas. O conhecimento, quanto mais ele mergulha no infinitamente diminuto e no infinitamente magnífico, mais ele se transforma em algo que a gente caminha.
Acho que a gente não termina, né, um movimento. O Ruben Alves, grande educador, grande mineiro, ele falava do exílio do sagrado. Há um momento em que as pessoas acharam que o sagrado, isto é, a religiosidade poderia ser colocada de lado.
E ele diz: "Olha, até a religião pode ser questionada, mas a religiosidade, isto é, a crença de que a vida ela tem um sentido maior, de que nós não temos uma inutilidade na convivência, na amizade. " Aristóteles dizia, "Vocês se colocam como amigos no caminho da vida, Aristótes dizia que a amizade são dois corpos com uma única alma, né? Isto é aquilo que conecta as pessoas, que isso faz sentido.
Muita gente pratica religião de modo hipócrita. A palavra hipócrita na origem, no grego antigo, significa aquele que fica dissimulado, que fica por baixo, né? Aquele que no teatro antigo, inclusive era alguém que se colocava por trás da cena para poder soprar o que deveria.
Os cristãos mencionam uma frase atribuída a Jesus de Nazaré, que eu acho expressiva. Jesus, um dia na ração dos cristãos, ele entrou num templo e expulsou todos que estavam vendendo coisas lá dentro, isto é, vendendo a fé, vendendo religião, vendendo coisas, fazendo da religião uma coisa comercial. E uma parte dessas pessoas era gente que batia no peito o tempo todo.
Eu creio, eu vou, eu sei piedade. E dizem que Jesus, homem expão, ele é muito forte em que ele disse, chamou essas pessoas hipócritas de sepulcros fétidos caiados de branco por fora. Isto é, é gente que é fedida por dentro, que nem um sepulcro, um túmulo em que o corpo já apodreceu, mas pelo lado de fora tá pintadinho com a cal e parece limpinho.
Olha que frase forte: sepulcros fétidos caiados de branco por fora. Se tem uma coisa que eu tenho hoje, Riza, que eu tenho recusa, é pessoa que é hipócrita. Isto é, que ela finge que ela é algo que não é.
a ausência de autenticidade. Alguém pode ter uma religião que eu não concorde, pode ter uma percepção política que eu não concorde, mas se aquilo é decente, se aquilo é algo que não visa fazer o mal e é praticado de modo autêntico, tem meu respeito. Mas a primeira Constituição brasileira, que será inclusiva, que vai trazendo inclusive os analfabetizados também com direito de cidadania, é de 1988.
Isto é, 100 anos depois da proclamação da República, de 1889 até 1988, nós temos quase 100 anos de república, mas não necessariamente de democracia, porque o analfabeto não votava, mulheres não votavam durante um tempo, pessoas que estavam à margem, né, do processo social não tinha possibilidade de acesso. É que normalmente a gente eh linca a democracia com o poder do voto. Óbvio que isso é uma dádiva e é maravilhoso e importantíssimo.
Mas o que eu quis dizer com isso é que se você for analisar mesmo, pegar números, dados, o povo que morre ainda é o povo preto. Tipo, tem o estado tem um braço armado que mata muito, que age demais. Mas aí não seria uma questão de democracia, seria uma questão de justiça social.
A democracia ela é um instrumento para proteção da justiça social. Democracia não é ausência de regras. A democracia é a construção coletiva das regras.
E as regras que têm que ser construídas são aquelas que produzem e facilitam o morticínio, o fratricídio, a violência contra as pessoas que são minorias políticas. As pessoas que são minorias políticas, afrodescendentes, mulheres, pessoas da periferia social, pessoas que têm uma orientação sexual diversa da hegemonia, elas não são minorias demográficas, porque demograficamente, isto é, como população contada, elas são maioria. O Brasil tem mais mulheres que homens, tem mais negros do que não negros, né?
Tem mais pobres do que não pobres, tem mais periferia do que área privilegiada. são minorias políticas, entendido aí político como poder, de que haja direitos em relação à participação na organização da vida coletiva, mas não necessariamente ela garante por si mesma, né, o acesso àquilo que é distribuição de renda, que é a presença na ruptura de privilégio. A isso se daria o nome, né, de justiça social.
Você e eu sabemos bem que não se deve confundir direito com justiça. Sim, direito é o que tá na lei. Justiça é aquilo que é correto e nem sempre tá na lei.
É necessário lembrar que o escravagismo do Brasil tava na legislação, né? Ele fazia parte da lei. Tanto que teve que haver um uma lei que quebrasse isso para poder haver uma leão.
O sistema que a gente vive é ultrapassado, não acha? Porque me parece que esse Você acha, o mítico acha? Eu acho.
Muita gente não acha. Muitos acham que não. Porque o pobre continua pobre.
Eu acho muito. Então o preto continua pobre. Não necessariamente.
Por exemplo, até até a quando eu tava na escola, no ensino fundamental, não havia nenhum negro na minha cartilha escolar. Uhum. Não havia representatividade do indígena, exceto de modo exótico, né?
Assim, era divertido, engraçado o modo que se vestia. Eh, eu poderia há 30 anos eh contar, né, uma piada racista em sala de aula, né, sem que houvesse nenhuma consequência em sala de aula. Mas por que tem gente hoje que usa isso como arte ou só piada e não se liga na responsabilidade de falar isso num país onde que se mata negro e gay?
Eu vou usar eu vou usar uma expressão que eu uso e que não é minha e que eu tenho repetido a exaustão, né? Eu falo todo lugar que posso. Tem um filósofo alemão chamado Eric From.
Ele nasceu em 1900, portanto viveu bastante o século XX. Ele dizia: "Liberdade não é licença. Liberdade não é licença.
Eu sou livre para falar o que eu quiser, mas eu tenho que assumir a responsabilidade em relação à aquilo que eu falo, porque não é porque eu sou livre que eu tenho autorização para fazer. De maneira geral, ou a pessoa preconceituosa, ela tem dois movimentos. Primeiro, ela é ignorante, né?
Porque ela imagina que o único modo de ser é como ela é. Segundo, ela é covarde, porque ela tem muito medo de ser como é. E qualquer pessoa que não seja como ela é, é para ela uma ameaça, porque ela não tem muita segurança.
De maneira geral, toda pessoa que tem fragilidade em relação, por exemplo, à própria sexualidade, ela passa um bom tempo se dedicando a desmontar aquilo que é o modo de sexualidade de pessoas que não são como ela. Toda pessoa que tem qualquer tipo de formação em relação à condição econômica, a condição escolar, ela se acovarda bastante. A pessoa preconceituosa, ela tem dois problemas sérios.
O primeiro é a ignorância interna, como eu dizia, ela supõe que ela é o único modo de ser. Segundo, né, ela tem tanta fraqueza em relação ao modo como é, que a única maneira dela crescer é se ela abaixar a outra pessoa, né? E alguém que cresce porque abaixa outra pessoa, ela é absolutamente acovardada, né?
E uma das maneiras que ela faz para não ser enfrentada nem confrontada por quem a ameaça por existir, é ela buscar dominar essa pessoa e distingui-la. Uma das coisas que nós fazemos entre os humanos para diminuir outra pessoa é chamá-la, né, pelo nome de um animal, portanto tirá-la do mundo humano, né? Você quer desqualificar mulheres, né?
Foi muito comum. É vaca, é galinha, é cadela. Você quer valorizar um homem?
É tigrão, é cavalão, é leão. É leão, jumento. Esse aqui é [ __ ] Veado.
É veado. Aliás, o tema aparece em São Paulo, num bar na área central, né? Porque nos anos 60 a polícia vez o outro dava uma batida numa região central onde havia uma comunidade LGBT, como agora se teria, muito forte, e as pessoas tinham que sair correndo.
Então parecia, né, nos filmes, né, um bando de animais que saíam correndo. Se passou a chamar, mas o é veado é porque é menos humano, é cadela, né? É menos humano, é galinha.
Então essa desumanização se dá desse modo. Há várias maneiras de fazê-lo. A linguagem é utilizada também, né?
Você pode dizer de modo recreativo. Eu tava só querendo me divertir. Tem uma regra básica, né, que precisa aparecer na escola, em todos os lugares.
Não ria de mim, ria comigo. Não ria de mim, ria comigo. Você pode até estar me gozando, mas se a gente rir junto, aí que é bom.
Bom, mas ser de mim significa que se eu não tô apreciando e se aquilo me machuca, então não pode ser brincadeira. Outra coisa é eu ficar tão diminuído a ponto de acharem que o único modo de ser é como ele é e ninguém mais será como ele é. No campo da cultura, quando da vitória no Oscar do Ainda estou aqui, parte da nossa nacionalidade que tava guardada muito mais na camisa da seleção, ela veio à tona.
O nossa alegria de sermos brasileiras e brasileiros. Nós fazemos bom cinema, mas a gente tem de saber que uma parte do bom cinema que fazemos tem que ter como referência os outros lugares fora daqui que fazem, especialmente quando o cinema brasileiro começou a aperfeiçoar a sua capacidade técnica no som, na capacidade de imagem, a direção de fotografia, a montagem. Não é casual que a gente faça aqui parte da nossa cultura, mas tem a referência.
Quem falava de complexo de viralata é o Nelson Rodrigues. Ele dizia que nós temos esse complexo de que a gente acha que tudo fora daqui é melhor. Até há 20 anos, talvez você e eu tivéssemos essa mesma visão em relação a produtos e tecnologia.
E há 30 anos o que viesse do mundo asiático para nós não servia. Diz assim. Isso aí é coisa da China, China, isso aí não serve.
Hoje é o contrário. Aliás, uma boa parte do movimento, né, em direção a consumo, né, no mundo tecnológico, vem exatamente dessa direção. Quando o funk vem com a força e o rap, ele trará nas suas letras, especialmente num ponto de partida, mais ainda, as dores, as agonias, os desesperos e as vivências que são estranhos a outras camadas sociais.
Num primeiro momento, esse olhar de estranhamento será esse povo tá lá batucando. Tô usar algo que era ligado ao mundo das religiões afro, né, originárias. Tá lá batucando, deixa lá.
A questão é quando esse povo, entre aspas, decide que ele vai ter direito a todos os territórios e, portanto, circulará em outros lugares. Deixa de ser bem comportado. Não estou falando porque não quero ser tolo de que não haja descompassos.
exageras, né, em relação a algumas das condutas, não é isso? Mas como ponto de partida, essa forma de desprezo ao que é mais ligado às áreas da periferia se dá, porque isso antes de mais nada conduz a uma ameaça, né? Existe um outro modo de olhar, de pensar que eu não quero prestar atenção.
E tem coisa que vem da periferia que é ruim mesmo, né? E tem coisa que vem da área central, né, do poder e do dinheiro, que é ruim mesmo, né? A nossa classificação, se ela for ser feita, será clássico aquilo que perdura, aquilo que tem importância, que tem relevância.
E tem coisas que são absolutamente, né, passáveis. Uma música, ela é clássica, não porque ela é uma música sinfônica, mas porque ela continua no tempo. Eu nunca imaginei, né, que eu pudesse ser abordado por um menino de 7, 8 anos de idade.
Diz: "Olha, eu li teu livro, né, Conectados, mas com Cuidados, que é o livro mesmo, exatamente sobre isso, junto com o Paulo Jebaile, né, sobre redes sociais e mundo digital ou eu assisti uma coisa tua com meu pai, eu sou de rádio também, né? E durante muito tempo, durante 10 anos, eu tinha uma coluna que entrava no rádio às 6:33 e entrava de propósito às 6:33. Por quê?
Porque era o momento que o pai e o filho ou a mãe e o filho tava junto no carro, né? Indo pra escola. Ind.
Olha, eu encontro hoje pessoas que estão com 20 anos de idade que diz: "Eu preciso te cumprimentar porque eu te ouvia quando eu tinha 10 anos de idade junto com o meu pai ou minha mãe, ou seja o que for". ou o cara da Kombi ou da Van tinha deixado ligado naquele movimento. O que é, né, o mundo das redes sociais, ele é um mundo de você poder se encontrar, mas ele tem que ser qualificado.
Ele não é um mundo em que você não tenha nenhum tipo de responsabilidade daquilo que faz. E mais ainda, se tem uma coisa que vale, que eu falava antes, é as pessoas perceberem que você tem autenticidade naquilo que você faz. Eu não posso simplesmente imaginar que eu vou ter o tempo todo de ter uma vida exposta.
Eu não tenho nenhuma versão a tecnologia se ela tiver um uso benéfico. O exemplo que eu mais dou, vou dar aqui de novo esse exemplo. Se eu achar minha caneta que tá no bolo, já achei.
Exemplo que eu acho que vale sobre tecnologia. Eu tenho em mãos uma caneta, mas ela pode não sê-lo. Eu posso usar essa caneta para escrever que vocês dois são mentirosos, que vocês dois são ladrões e isso ser falso.
Portanto, eu tô usando para o incorreto. Como posso escrever para denunciar? Claro que a questão não tá na caneta, tá nas no que você faz.
Vou melhorar o exemplo e esse é o que eu mais dou. Tô com isso aqui em mãos e em vez de ser uma caneta, é uma faca. Mentiroso.
Uma faca. E você tem em mãos uma maçã. Eu posso usar essa faca para repartir a maçã com você e nós dois aproveitamos ou para tomar a maçã de você.
Como a questão não tá na faca, Uhum. Ela tá exatamente no uso da faca. É por isso que inteligência artificial é algo que eu desejo que garanta a minha autonomia, mas que aquilo não seja autônomo.
Inteligência artificial precisa ser controlada para ela ser automática, mas não autônoma. um pensamento crítico, uma postura, né, inteligente, ela nos coloca em estado de alerta, né? O filósofo Decart, que é um filósofo do século X7, ele introduziu no dia a dia algo chamado dúvida metódica.
Dúvida metódica. O primeiro livro que eu escrevi na vida foi sobre Decarte. Chama-se Decarte, a paixão pela razão.
Parte das pessoas que estão conosco estudaram Decarte, não na filosofia, mas na matemática em produto cartesiano, especialmente quem fez ensino médio, teve essa ocasião, né, estudou coordenadas e abscissas, função de X, etc. Pois bem, Decart introduziu o conceito de dúvida metódica, que não é duvidar por duvidar, mas duvidar de modo organizado, estruturado, de maneira que você chegue a uma certeza maior. Por isso que aí volta às redes sociais, eu posto a cada dois três dias nas minhas redes um cartazinho eventual com um pensamentão para a vida e uma dúvida metódica.
E aí eu pego uma frase de alguém que nasceu, né, naquele dia ou morreu naquele dia, faço uma selfie com um cartazinho e escrevo a mão no cartaz. Será? Será?
Porque aquilo que mais leva cada um de nós a pensar é quando eu sou capaz de pensar. Será? A dúvida ela é criativa, a certeza ela é reiterativa.
Não há ciência sem certeza, mas a ciência ela se mumifica. Se ela não tiver dúvida, será que não dá para fazer de outro modo? Será que não tem como organizar a vida de outra maneira?
Será que eu não consigo fazer melhor isso que estou fazendo? A pessoa que será escolarizada, como é o ambiente dela? Quais são os valores que ela tem?
Quais são as condições que ela tem como presença para poder trazer para ela coisas que são fora dali? Isto é, levá-la para um outro lugar. Aí a gente captura de novo, né, esse momento.
Nas redes sociais, muita gente fala sobre e algumas pessoas falam de essas a gente admira. A essa gente diz, esse é autêntico, essa é autêntica. Ela vive isso que ela anuncia.
Outro você sabe, né? Mais ou menos como algumas pessoas com muito recurso que anunciam, digamos, fazem propaganda, né, de loja de móveis que você sabe que não tem na casa dele. Uhum.
né? Ou não tem na casa dela. É mais ou menos como eu, Cortela, falando, não, esse é o melhor carro que tem.
Vocês vão ver. Eu não dirijo, eu não tenho carteira de motorista, né? Eu fazer uma publicidade, por exemplo, uma puble, né, de carro, seria só como passageiro, né?
Porque eu não tenho essa condição. Nesse não, não é que não tenha condição até da aquisição, é a condição de uso daquilo. Portanto, é externo, né?
Um, o que é que caracteriza uma boa conversa? Quando as pessoas elas falam das coisas e não só sobre as coisas. Eu sou professor, parte da minha tarefa falar sobre as coisas.
Quando que eu grudo mais? Quando eu falo das coisas, quando aquele pastel postado sou eu que tô comendo de verdade. Aquilo não é para parecer simpático, não é para eu tirar um pouco da farinha, né, ou da caspa ou do frango que tá no meu colo para fingir, né, que eu me alimento daquele jeito.
É toda nudez será castigada, escreveu Nelson Rodrigues. Isto é, tudo que se expõe às vezes choca, ofende, mas tudo que é absolutamente verdadeiro encanta. filósofo mais conhecido do ponto de vista de nome é Sócrates, né?
E Sócrates é famoso, jogou bola e tudo, né? Sócratesadeira. Quem disse?
Onde nasceu Sócrates? O filósofo na Grécia. Mas onde nasceu o Sócrates de jogador?
Nasceu em Botafogo de Ribeirão Preto. Nasceu lá no em Ribeirão Preto. É.
Olha que coisa, hein? Você lembra? E o irmão dele, o Raí?
É. Aí onde ele nasceu? Não sei, mas jogou no São Paulo, né?
Ele jogou no São Paulo e jogou muito bem. Nasceu no Pará. Será que ele nasceu no Pará?
O racê é paraense? Não sei, né? Enquanto a gente fala que que tá acontecendo aqui, pessoas estão procurando.
Sim. Pessoas estão olhando. Se eu chego aqui diz: "Raí, nasceu, hein?
Acabou". Onde nasceu? Ribeirão Preto.
Ribeirão Preto. Olha só. E o Raí também.
E também Ribeirão Preto. Que que nós criamos aqui agora na nossa conversa? Um tempo de reflexão em que a expectativa do conhecimento moveu a energia para saber.
Se eu chego aqui e digo: "Bom, Sócrates nascer em Ribeirão Preto, acabou a conversa". Não, isso é ma chato isso, né? Se eu digo assim, onde nasceu Sócrates?
Onde que a gente será? Vamos procurar, vamos olhar junto. A ideia de ter que opinar o tempo todo de modo assertivo, ela é muito ruim.
Quando a gente falava agora há pouco sobre liberdade de expressão, sobre casos nossos no dia a dia no Brasil, vez outra, porque eu sou comentarista ou rádio em TV, me pergunto: "O que que você acha disso? " E em vários momentos eu diz: "Ainda não tenho clareza". Eu preciso estudar mais para poder emitir uma opinião.
Não é porque eu preciso comentar que eu tenho que ser assertivo. Eu torço para o Santos Futebol Clube. Se alguém me pergunta assim: "Você acha que o Santos vai se recuperar?
" Eu digo: "Ainda não tenho certeza. Eu tenho esperança, mas esperança ativa essa esperança não, não te esperar, de ir atrás, de participar, né? e, portanto, de fazer uma coisa que eu aprendi com um grande jogador de futebol que eu vi jogar umas 100 vezes, chamado Pelé.
[ __ ] que [ __ ] Quando eu era menino, eu me mudei para São Paulo com 14 anos, 13 para 14, para quatro quarteirões do estádio do Pacaembu, que é onde o Santos jogava mais e os grandes times jogavam também. E quando eu era menino em São Paulo, o menor de idade não pagava no estádio. Então eu ia ao Pacambu as terças, quartas, quintas, sábado e domingo.
Nossa, todos os times, eu assistia todos os times. O Pelé havia jogar muitas vezes e o Pelé fazia uma coisa dificíima. Ele cabeceava de olho aberto.
Como isso é antinatural, é provável que um dia ele tenha imaginado que era possível fazer. Isto é, ele duvidou que só dava para cabecear de olho fechado, mas para que ele cabeceasse de olho aberto, ele fazia algo decisivo. No treino do Santos, na Baixada Santista, ele todos os dias treinava mais ou menos uma hora depois do treino do time, cabeceando de olho aberto, virado para São Paulo.
No fim da tarde significava tá virado em direção ao sol. Se é difícil cabecear de olho aberto, sem dúvida, de virado pro sol é mais ainda. Só que só dá para fazer se você primeiro souber que não sabe.
Segundo, ter clareza que pode tentar fazer. Terceiro, treinar bastante. Pelé é monstro.
Cortela, com tudo isso, muito obrigado, tá? Eu queria saber se você gostou de bater esse papo com a gente. Eu gosto muito de conversar e quando se liga a uma possibilidade de fazê-lo, eu falo durante horas e horas, a tal ponto que Cláudia vez outra diz para mim assim: "Para, dá, já deu.
" É, isso significa que, claro, uma das coisas que eu aprecio e eu acho que vocês apreciam é a possibilidade de ter o diálogo como uma forma de repartir aquilo que se sabe e colocar o que não se conhece. Quando eu sou convidado, né, para uma conversa, quando eu sou acolhido numa conversa, é sinal de que há, pelo menos no ponto de partida, algum tipo de afeto em relação à aquilo que eu trago. Muito nesse sentido, já é uma homenagem ser chamado.
Em segundo lugar, ser chamado e ficar tanto tempo conversando. Terceiro, usar você o termo que usou agora e que usar, que é obrigado, é algo que me coloca numa condição de alegria. Claro, se você, se cada um de nós, se todas as pessoas se dispõem a fazê-lo, um diálogo não é de maneira alguma ausência de conflito.
O diálogo não é a obrigatoriedade que nós concordemos. O diálogo ele só é possível com a obrigatoriedade que nós nos respeitemos. Nós podemos chegar ao final dessa conversa a pontos diferentes, mas isso não significa que esses pontos sejam excludentes.
Eu não penso necessariamente como vocês pensam o tempo todo, mas eu tenho que levar em conta o que vocês pensam, porque se eu levar em conta eu melhor a minha maneira de pensar ou recuso a ideia como penso ou começo a pensar de outra forma, né? Nesse sentido, como eu disse, em relação ao Paulo Freire, Paulo Freire jamais seria contra que alguém contra ele fosse. Ele seria contra que quem contra ele fosse não pudesse ser contra ele, porque seria a ruptura da possibilidade, inclusive, né, de um diálogo onde haja divergência, onde haja discordância, mas haja, acima de tudo, o máximo respeito.
Muito bom. O cara é rapper, mano. Ele é rapper, tá ligado?
Vocês tem que entender que o Cortela é rapper. Viva Paulo Freire. É, nós estamo junto.
Salve rapaziada. Esse é o nosso canal oficial dos melhores momentos e ó mano, se inscreve aí que vai est os melhores momentos aqui, né? Exatamente.
A gente conhece, sabe que a nossa audiência às vezes não tem tempo para ver todo o papo também, não quer ver só os cortes, quer ver os melhores momentos. Então é aqui que você tem que ver, tá bom? Clica no sininho, se inscreve e os melhores momentos vão ser sempre aqui.
Verde.