[música] Ser eu mesmo virou projeto de marketing pessoal? Virou e como sempre ficou uma coisa furada. Aceitar o fracasso é ser autêntico.
Dizem por aí que é, mas antes de tudo é muito chato. Existe autenticidade sem ética? Não, do ponto de vista da autenticidade não.
Ser autêntico ou ser especial? Melhor ser especial. Oi, Thaí.
Oi, Pondé. Bem-vinda sempre. Muito obrigada, Pondé.
O nosso tema de hoje é autenticidade. Algo de que muito se fala agora e que virou um valor. As pessoas querem ser autênticas, querem ser elas mesmas.
O que é que significa ser autêntico, Pondé? E de onde que veio esse desejo? Olha, o que significa ser autêntico pode ser dar muito pano pra manga, né?
porque vem da literatura, da filosofia, engata da psicologia, né? Mas eu diria assim, seguramente veio do romantismo, né? veio do romantismo, aquele movimento largamente conhecido, final do 18 e 19 na Europa, ah, da ideia de que mais importante do que ser feliz é você ser autêntico e não se vender à modernidade, no caso dos românticos, né?
viver segundo o que você vive, o que você sente. E naquele cenário, o maior exemplo de autenticidade seria morrer de amor ou ser infeliz porque não pode ficar com quem você ama. É romântico.
Existia o que se chamava de mal-estar romântico, não é? e que era causado então naquela época por esse esse susto, essa suspeita paraa coaciência, essa desconfiança da tecnologia e tudo isso. E se a gente puder traçar um paralelo agora, o que que seria o gatilho da autenticidade?
Que tipo de mal-estar causaria esse gatilho para esse desejo de autenticidade? responder. Olha, você me perguntando, me lembra uma cena da última adaptação do Frankenstein, né, que a personagem, a menina que acaba se apaixonando por ele, pela criatura, não pelo Frankenstein, né, médico.
E ela fala para ele em algum momento que antes de conhecê-lo ela nunca tinha sentido que ela estava em casa no mundo. Alguma coisa assim, ela se sentiu uma estranha, né? Então, o gatilho da busca da autenticidade no romantismo e e depois vai fazer escola na psicologia, né?
Filosofia da existência, conhecida como existencialismo e psicologia inclusive da existência humanista e tudo mais. Mas naquele universo romântico, Frankenstein é uma é um romance romântico. Ah, o gatilho, a sensação de que você, o mundo que você vive não é mais o seu.
Então, os românticos tendem a ser regressivos no sentido de entender que a vida verdadeira, as relações humanas verdadeiras é uma construção idealista, né? É claro que é, mas a ideia de que o mundo verdadeiro acabou. E, portanto, o romântico se sente como que um exilado num país que não é dele, porque a terra dele foi destruída.
Esse gatilho lança a ideia de então, já que eu não tenho terra, já que eu sou exilado, como diz o próprio Verter do Gut, o personagem que dá no meu livro, pelo menos eu tenho a mim mesmo, tá? Você tá situando esse desejo de ser autêntico, esse desejo contemporâneo de ser autêntico, mas explica melhor o que que é esse desejo, o que que é ser eu mesmo? O que que é isso?
Como que isso se expressa? Isso se expressa procurando conhecer a si mesmo, identificar aquilo que para você faz sentido, né? identificar aquilo que para você não faz sentido, a capacidade de recusar os papéis que supostamente a sociedade obrigaria você exercer, né?
Descobrir aquilo que faz seu coração bater, como falam os americanos, certo? aquilo que faz seu coração bater, ou seja, aquilo que de fato move você. Porque a suspeita sempre é de que o mundo à sua volta, é o mundo da modernidade nascendo, é um mundo falso, é tudo mentira, né?
E portanto uma forma de você se defender é você não ser mentiroso como todo mundo é. Então são esses elementos que estão por aí até hoje, né? O campo do trabalho, por exemplo, foi se tornando um território muito tomado.
Sabe aquela frase ah do Steve Jobs pros alunos? Follow your heart. Quer dizer, siga seu coração, porque o seu coração fala exatamente o que você quer fazer na vida.
É, é uma abordagem muito poderosa da vida essa abordagem romântica. Como você citou no discurso do Steve Jobs, 2005 foi feito para os alunos da Universidade de Stanford. Agora isso, vamos ver um pedacinho desse discurso.
Olha aí, não desista, não pare, continue procurando. É, é um discurso completamente romântico. Esse aí é completamente romântico, mas também exige alguns pré-requisitos, né?
Por exemplo, tem esse Rob Anderson, que ficou famoso ao cunhar esse termo crença de luxo. É que que que é a crença de luxo? é essa crença ou essa atitude que você tem, que você exibe para se diferenciar socialmente, moralmente dos outros.
Assim como você compra uma bolsa muito cara, sair com a bolsa, você fica ostentando a sua crença de luxo por aí. Você ser autêntico como prega o Steve Jobs, como como desejam e buscam muitas pessoas, não é de alguma forma também uma crença de luxo só acessível, portanto, a quem tem dinheiro. Como dissera o Teodorador, a gente pode voltar a falar dele também, é, ah, não haveria mais romantismo a dentro do século XX, quanto mais do século XX.
Porque o mal está romântico, ele tinha e as formas de enfrentamento dele tinham sido eh transportado pro mundo da mercadoria, que dá na crença de luxo. Então, é claro que essa autenticidade ela é, a gente pode dizer que ela é um produto de luxo. Pelo amor de Deus, quem pode ser autêntico?
Vou não ten o que comer. Quem pode fazer escolhas? escolha já é um luxo.
Então ele tá fazendo esse discurso em Stanford, né? Uma das universidades, a IV League americana, alta elite americana, então tá falando com alunos que muito provavelmente vem de uma certa elite econômica americana que conseguiu entrar em Stanford, né? Se não for financeiro, com certeza é no mínimo intelectual, em tese, pelo menos.
Então assim, portanto, é claro que você tá transitando a essa ideia de crença de luxo. A gente pode situá-la, por exemplo, no discurso sobre a geração Z que se faz por aí. Não tô levando muito a sério o conceito de geração, mas como se fala por aí em geração Z, com a ideia de que a geração, a geração Z quer trabalhar naquilo que faz sentido para ela.
No Brasil isso é uma crença de luxo. Em outros lugares provavelmente também é. Quem pode trabalhar naquilo que faz sentido?
N. Não tô dizendo que você tem que ser rico, você tem que ter uma condição material prévia. Pois é.
Então, a autenticidade é só para rico. Pobre não pode ser autêntico. É que normalmente na linguagem, e tá no presente o discurso dele, na linguagem contemporânea dentro do universo, do mercado e tal, uma das marcas da autenticidade é recusar dinheiro por dinheiro.
Isso permanece vinculado à origem romântica. recusar dinheiro por dinheiro, entendeu? E optar por aquilo que pode não te dar tanto dinheiro, mas tem algum significado.
Agora você pergunta se é coisa de rico em alguma medida, eh, hoje, quando os românticos estavam se batendo com isso, não, mas hoje é seguramente alguma coisa que depende, como eu dizia, de uma condição material prévia que de alguma forma alça você inclusive a identificação do mal-estar. Certo? E a possibilidade de lidar com esse mal-estar, dar nome ao mal-estar, tem que ter uma terapeuta aí no meio.
Muitas vezes para terapeutas, os românticos só imaginavam isso porque nem existia, né? Mas é alguém que ajude a você lidar. Por isso que mercadoria hoje.
Então vamos ver agora a Maria de Lourdes, a Lia, ela deixou a floricultura em que ela gostava de trabalhar para se dedicar a uma horta comunitária. Vamos ver. Ô, seu Zé, ali tem [música] maxixei não, nesses pés aí dentro.
Eu prefiro fazer isso aqui. Eu faço com amor. Eu tô ajudando outras pessoas.
Quando eu ganhava meus R$ 10. 000, eu ganhava só para mim. Eu só pensava em dinheiro.
E hoje eu penso [música] na outra pessoa também. Quanto mais eu trabalhasse, mais eu ganhava. [música] Só que hoje eu prefiro fazer isso aqui, porque isso aqui me traz paz, me traz conscientização, né?
[música] Que aqui eu também tô protegendo o meio ambiente. Eh, através disso aqui eu ajudo outras pessoas. 2012 a gente teve uma reunião com o promotor, onde o promotor falou que a gente tinha [música] que sair daqui, que a gente tava degradando.
E eu fui e falei pro promotor que em vez de tirar as pessoas, por não trazia para dentro da comunidade [música] educação ambiental? Ele não deu ouvido. Eu cheguei aqui, fiz uma reunião com os moradores e tinha esse terreno que tava tudo cheio de lixo.
Eu digo, vamos limpar aquele terreno e vamos fazer uma horta. A ideia era de fazer a horta era para trazer para dentro da comunidade educação ambiental, [música] até mesmo segurança alimentar e trazer também empreendedorismo, trazer emprego para as pessoas [música] dentro da própria comunidade. E aí a gente em 2013 a gente começou a horta.
Essa época foi o desespero, né? A gente ia perder a moradia da gente e ela tá aí lutando. Ela luta por pela gente, sim.
Graças a Deus a gente tá aqui até hoje, né? Ela tá lutando ainda, né? Que isso tá na justiça, tá tudo.
Mas eu creio que a gente vai permanecer aqui. [música] Logo no início eu não sabia eh conviver com pessoas que não concordava [música] comigo, entendeu? Hoje eu já aprendi a conviver com esse tipo de pessoas.
Hoje eu tenho certeza que eu sou uma pessoa melhor, entendeu? E eu tô aprendendo cada dia mais. Eu tô aprendendo, [música] falando estritamente do que poderia ser avaliado como autenticidade na história dela, porque o desdobramento disso que para ela é importante, o combate à defesa da comunidade, a preocupação dela com segurança alimentar, ambiental, ajudar as pessoas, tá na transição dela, de um trabalho em que ela ganhava R$ 10.
000. R$ 1. 000 e ela ganhava sozinha e ela tava ali pelo pelo dinheiro que ela ganhava, principalmente para um trabalho que não é movido pela lógica financeira, certo?
Um trabalho que fala, faz o coração dela bater, ela faz com amor. Tá vendo o linguajar, né? De um lado, um trabalho que é por dinheiro, modernidade, a lógica financeira.
do outro lado, uma atividade que você faz por amor, que você se sente em paz, certo? Isso tudo é muito claramente, digamos assim, a dinâmica da autenticidade romântica em relação ao trabalho que você faz. [música] Ela seguiu o coração dela.
Exatamente. E no próximo bloco, autenticidade à venda. Será que o marketing se apropriou da autenticidade?
Estamos de volta hoje falando sobre autenticidade. Bom, no bloco anterior você falou que o adorno, filósofo adorno, não só não acreditava mais no mal-estar romântico, como ele achava que o mal-estar romântico já havia virado mercadoria, havia sido comprado pelo capitalismo. E você também citou o Balman mais recente, que pelo contrário, acreditava que ainda existia sim esse mal-estar.
Explica a diferença entre os dois. A diferença é que o o adorno mais fiel ao marxismo, no caso, né, entendia que a a sociedade da mercadoria ou mercantilização, como ele falava e tal, ela capturou o mal-estar romântico. Capturou o mal-estar romântico significa o quê?
Por exemplo, ela entendeu que faz parte do mal-estar romântico uma nostalgia do passado, certo? Então ela vende para você, vou dar um exemplo besta, mas esse didático, ela vende para você um final de semana numa cidade colonial mineira com harmonização de vinho e comida em restaurante descoladinho e pousadinha numa casa do século XVI. Entendeu?
Olha aí. Quer dizer, você paga por isso. Por quê?
Porque os românticos são vinculados a ruínas. a ideia de um mundo em ruína, um mundo que acabou, que é antigo, né? A publicidade trabalha muito com aquilo que o romantismo esperava.
Então, ah, vínculos entre carros e cachoeiras, a exploração da natureza. E nesse sentido, quer dizer, setores do mercado e o marketing acabou capturando também a a o mal-estar romântico, vendendo a ideia de reinvenção, de ressignificado da sua vida, de descobrir quem você verdadeiramente é aos 50 anos, né? Então, a leitura do adorno é que isso vira uma coisa quase cínica, a mercantilização desse mal-estar romântico ou dessa nostalgia.
A leitura do adorno é que ninguém sente o mal-estar romântico, mais não sente. Então não existe mais o mal-estar verdadeiro. O que existe é a vontade de consumir aquilo que o romantismo falava que era vida verdadeira.
No nosso caso aqui, cidades coloniais e minas basicamente, porque você fica num cenário colonial, entende? E claro, desprovido completamente da violência que tava envolvido naquilo tudo. Mas você ganha isso porque você acertou não sei o quê, ou porque você comprou na na agência de turismo, entendeu?
Porque você quer viver um final de semana romântico. Olha o nome. [risadas] Final de semana romântico.
Como assim? Você é romântico só do sábado até o domingo sem o trânsito da estrada. Final de semana romântica.
Olha só a expressão, numa cidade colonial, que é o mais longe que a gente pode chegar, que a gente no Brasil tem como cenário. Quer dizer, é aquela ideia mesmo de fazer a noite surpresa que dá errado, né? Final de semana romântico.
E o Balman, o Balman nessa história, porque o Balman continua trabalhando com a ideia de que existe o malestar no mundo, malestar com mundo líquido, com o amor líquido, o mal-estar de uma sociedade em que ah, como diz ele, a velocidade é cada vez maior e o mundo se transformou numa espécie assim de lago congelado e você tem que andar cada vez mais rápido, senão você afunda, certo? Então você não pode ter vínculo com nada. não pode esperar coisa nenhuma de nada, mas você sofre por causa disso.
O Balm descreve o tempo inteiro pessoas que estão sofrendo. Então ele, apesar de que ele tem clareza de que existe o mercado em ação, ele não torna isso completamente invalidado como adorno. Pro adorno, o romantismo acaba no 19.
Não tem mais, porque o mercado engoliu até isso. Ainda na linha do adorno, vamos falar do controverso e misterioso B, o grafiteiro britânico que ganha bastante dinheiro negando o mercado. Será que o Banks é rebelde de verdade ou ele banca o autêntico?
Vamos ver um vídeo. [música] Você se lembra do quadro da menina com balão que se autodestruiu durante um leilão em Londres? [música] [música] O autor é o Ben, o artista britânico que o mundo inteiro conhece, mas o rosto ninguém jamais viu.
Para ele, os valores são construídos por meio da arte, não a partir da identidade revelada. [música] Duas obras chegam a valer milhões de reais, mas o anonimato vira uma arma contra o marketing e protege o que realmente importa. A mensagem.
[música] Pinturas e murais espalhados pelas ruas de diferentes países carregam fortes críticas sociais e políticas, rejeitam a autoridade e despertam no observador a sensação de concordância e identidade. [música] Só para lembrar um pouco esse episódio, Pondé, não sei se você lembra dele. Esse quadro da menina com balão era um quadro muito caro que o Banks se celebrizou e foi a leilão.
Só que no leão, depois que bateram o martelo por 1 milhão de dólares, um monte de dinheiro, o quadro começou a se autotriturar, porque o artista, o Banks, tinha embutido nele um mecanismo que, segundo ele, Banks, tinha sido colocado lá justamente para o caso da obra dele e a leilão, porque desse modo ele triturava a própria obra e o valor pela qual ele tinha sido pela qual ela tinha sido comprada. era uma atitude rebelde, antimercado, anticapitalismo. Só que o que aconteceu foi que mesmo triturada não chegou a virar pó, ficou em tiras.
O que ele disse que foi um acidente, porque a ideia era que virasse pó, mas não virou. A obra mesmo triturada foi comprada, rebatizada como a obra triturada ou a obra que veio do lixo e ficou mais cara ainda. Isso isso é um exemplo.
Me parece muito próximo do que o adorno descrevia. É claro que o elemento do anonimato, de ninguém saber o rosto dele, é um belo jogo de mercado, porque inclusive desperta o desejo, a ansiedade de saber quem ele é. Talvez se algum dia alguém ver o rosto dele, ah, ele perca valor, né?
Ele vai perder valor. Agora, ah, é claro que isso tá vinculado diretamente à ideia de um Deus que é invisível, que você não acessa, que não tá na linguagem, você não sabe quem ele é. Talvez algum dia diga que o Banks é um coletivo, não é uma pessoa só ou uma mulher ou uma mulher ou várias mulheres, sei lá, você pode acabar falando o que quiser.
Então assim, agora o fato disso ser monetizado e de repente imagino que ele deve a assimilar o o o valor, né? É claro que ele tá no mercado, ele só achou um nicho de mercado e ele investiu no nicho que é bem típico do capitalismo da burguesia. que é se odiar, principalmente quando é filho de banqueiro, se odiar, entendeu?
Falar mal do mercado. Imagine, o mercado de arte é puro capitalismo, total. Tem quadros que valem milhões simplesmente porque alguém famoso que escreve não sei aonde falou daquele cara ou daquela mulher e aí bombou, né?
E assim, tem um outro elemento, né? Essa ideia da rebeldia contra a ordem ah que normalmente atrai algumas pessoas é tipicamente teenager, né? Porque apesar da ordem ser muitas vezes insuportável e apesar de algumas pessoas amarem a ordem de forma excessiva e tornar a vida irrespirável, completamente sem ordem, quer dizer, quando você é moleque, dá para ser anarquista.
Imagine uma cidade como São Paulo, todo mundo fazendo o que quer, todo mundo roubando quem quer, invadindo os lugares, violentando a mulher que quer. Imagina uma coisa como essa. Então, é evidente coisa de adolescente ficar o tempo inteiro querendo acabar com a ordem.
Vamos conhecer agora Simone Moura. Influenciada pelo filho, ela deixou de ser logista para viver uma antiga paixão, a arte. Depois da morte do filho, foi na cerâmica que ela encontrou sentido para continuar.
Aqui a gente tem [música] gay acreditou. Foi quando [música] eu assim em uma semana eu decidi que eu não que eu não queria mais a loja que eu ia encerrar. [música] Muitos falaram: "Mas como que doideira?
Por quê? " E aí eu falava assim: "Não, eu não quero. " Eu não conseguia mais me ver [música] atrás do, digamos, do balcão, entendeu?
Eu não conseguia mais me ver a numa mesa mais estudando, [música] fazendo os projetos. Aquilo já tava me saturada já. Eu já não tava mais conseguindo mais.
Eu já tinha perdido o glamor, já tinha pedido o tesão na coisa, entendeu? Eu que decidi que eu não queria mais. E aí eu chamei uns profissionais, só os profissionais que eram parceiros e e chamei e fiz uma festa na loja.
E nessa loja eh nesse dia eu os comuniquei que [música] eu estava era o último mês, precisava de alguém aí sim de alguém [música] que me fizesse assim: "Mãe, vai lá e faz isso, experimenta fazer isso". Aí eu fui e procurei um várias professoras de de cerâmica. Encontrei [música] não existe nome para uma dor de uma perda de um filho.
Não existe. É algo que parece que tira de você. É te te tira o o de dentro de você, sabe?
Te meio que te segura teu a garganta, [música] entendeu? Então eu acho que a dor da perda é muito grande, mas ao mesmo tempo que eu tenho a dor da perda, eu tenho muita coisa bonita no mundo. [música] Eu sempre tive esse lado meio artístico.
Eu sempre fiz enfeites de Natal, fazia bazar vendendo enfeite de Natal, mesmo trabalhando igual uma doida. Eu sempre fui envolvida com arte de uma [música] certa maneira. Eu nunca imaginava que eu não ia ter mão.
Hoje eu não tenho unha de tanto que eu mexo com argila, né? E eu não me permitia a ter esse esse lado, sabe? De descobrir esse lado, entendeu?
De de [música] de viver esse esse lado da arte. Foi na cerâmica que eu me deixo me entregarem emocionalmente, entendeu? É interessante porque eu entendo que, apesar de que a análise que o adorno faz, do meu ponto de vista, né, quem sou eu para avaliar o adorno, mas eu acho que fica de pé com relação ao mercado dos elementos românticos.
Ah, no âmbito profissional, me parece que algumas pessoas experimentam o mal-estar romântico e mudam o que fazem. Eu acho que isso é uma, talvez seja uma das poucas áreas que isso continua a acontecer, guardadas certas condições materiais materiais a priori que dá você a possibilidade de fazê-lo, como a gente dizia antes, né? E é interessante também porque assim como o romantismo nasceu muito ligado ao que depois ficou conhecido como arte, no sentido que a gente fala, né?
Os romantes criaram essa noção de algo que é tão radicalmente singular que a autenticidade tá montada justamente nisso, né? E a arte foi um espaço onde isso foi muito manifestado, inclusive muitas vezes como reação à obrigação de entrar na lógica do dinheiro, né? E é interessante porque aqui é um caso assim, ela foi pra cerâmica, é o caminho que ela escolheu.
O caminho que ela escolheu foi pra cerâmica e claro, tocado por uma experiência de morte do filho, que isso que ela falou que não tem nome é fato. Eu já vi essa ideia citada algumas vezes. Não tem como se dizer o que que é a condição de uma mãe, de um pai que perdeu o filho.
Não dá nem para enunciar porque é uma coisa como essa que é uma um sofrimento muito grande, mas ela fala ainda assim tem muita coisa bonita no mundo. Quer dizer, ela conseguiu recuperar, né, um vínculo com o mundo e não ser mais uma perdida, porque o filho, infelizmente, foi levado. Linhas Cruzadas volta já já.
E no próximo bloco, a briga do eu ideal com o eu real. Voltamos a discutir a autenticidade, esse conceito que hoje virou um valor e que muita gente persegue. O psicólogo Carl Rogers falava que o sofrimento mental nasce quando há um abismo entre o eu real, que é quem eu sou, e o eu ideal, que é quem eu acho que deveria ser.
Pra gente entender melhor essa teoria, nós convidamos agora paraa nossa conversa a psicóloga humanista Ana Lúcia Palma. Muito obrigada por ter aceito o nosso convite, Ana Lúcia. Muito obrigada.
Prazer, é meu, uma honra enorme estar aqui com vocês e para contribuir, né, com essa conversa tão bacana que eu já tô vendo há algum tempo. Então assim, você me pergunta o que que, qual é a ideia de Rogers sobre o eu real, o eu ideal e como é que isso impacta a questão da autenticidade, né, e da e da vida e esse abismo que existe entre o eu real e o eu ideal. Então, só pra gente começar a a conceituar, né, pro Rogers, o eu, o que ele chama de eu, é a maneira organizada como o organismo que vive no mundo se percebe, né, como ele se reconhece, como ele se avalia como pessoa.
Só que antes mesmo do self existe uma dimensão que é mais básica, que é a dimensão da experiência vivida, aquilo que eu vivo e sinto no mundo. Então, a gente tem algumas instâncias nisso. Primeiro, o eu que vive no mundo.
Na hora que isso é representado na consciência, surge então o eu como conceito. E ao mesmo tempo que surge esse eu como conceito, esse eu começa a viver no mundo e a receber valorações das pessoas significativas, de algumas alguns critérios. E tudo isso que era apenas descritivo passa também a compor este próprio selfie, né?
Então a gente tem o que eu sou e eu passo a ter o que eu desejo ser, o que eu deveria ser e que nasce da expectativa de outras pessoas. A palavra autenticidade hoje virou uma miscelânia, né? Vamos fazer o que quiser e que o que se exploda.
Pro Rogers, autenticidade não é isso. A autenticidade é um estreitamento entre o que eu sinto e sou no mundo e me reconheço e também um estreitamento entre o que eu sou e o que eu desejo ser. Eu queria te perguntar eh pelo que você falou desse eu ideal, então da valoração exterior, certo?
que vai agindo sobre nós. Então, a gente pode supor que no mundo como o nosso, pautado pela lógica de consumo, em que inclusive você tem estilos de vidas que são vendido a você, né? A gente pode dizer que nesse universo que a gente vive hoje cada vez mais, a tendência é que haja ainda mais abismo entre o que é esse eu ideal vendido, inclusive em redes sociais o tempo todo e esse eu que seria mais real.
Bomé, eu te diria que isso é mais do que nunca, porque veja bem, há uns anos atrás, na década de 80, 90, o que que nós tínhamos? Nós crescíamos dentro de casa e éramos avaliados eh por poucas pessoas. Era no colégio, era na família, era nos vizinhos, uns poucos amigos.
Hoje eh nós nos tornamos todos pessoas públicas, né? Então, nós nos arriscamos mais, nós nos colocamos sob olhares avaliativos a mais pessoas e acabou que nós colocamos a nossa própria autoestima como guiada pelas curtidas que recebemos nas redes sociais. Então, cada vez mais o erro ideal vai ficando mais exigente e a gente vai internalizando esses valores como sendo algo que deveríamos conquistar.
Nesse sentido, ainda continuando a conversa, Ana, você acha que essa esse bombardeio de valorações, que é o que acontece no caso da internet, das redes sociais, seria então suficiente para alguém como você, uma psicóloga, aconselhar os pais a, de alguma forma vetarem, cortarem ao acesso à exposição de uma criança à rede social, muito especificamente, até que idade, baseado em que como que os pais devem deveriam ler isso na prática. Essa é a pergunta de milhões de dólares, né, Thaí? Assim, o o que a gente recomenda primeiro, a família eh tá em primeiro lugar, os valores da família precisam ser conversados dentro da família.
O que eu aconselho sempre é um monitoramento muito próximo da criança e mesmo das redes. A gente fala muito: "Ah, mas e a minha privacidade? " Eu vejo meninos de 12, 13 anos falando: "É, mas é a minha privacidade, é o meu celular, é a minha privacidade.
" Gente, criança de 12 anos é vulnerável. Quem cuida da privacidade de uma criança de 12 anos são os responsáveis, inclusive legalmente. Se alguma coisa acontece com essa criança ou se ela causa a alguém um um mal, porque a gente não pode achar que o fato de ser criança não cause mal, causa assim, né?
A responsabilidade é dos pais ou de quem cuida. Então, existe uma inclusive uma questão civil, não é apenas psicologia. A gente não pode esquecer que a própria psicologia ela não tá descolada da cultura.
A a psicologia tá colada no que a gente precisa viver, porque é o fenômeno social que determina o que que a gente vai fazer com a com a com o estudo da psicologia e não o contrário. E o Carl Rogers, ele fala qual é uma idade em que o eu ideal encontra o eu real. E de novo, nesse caso prático, quando é que um adolescente tende a ter essa congruência ou, portanto, até quando ele deve ser protegido desse bombardeio externo?
Olha só, a gente tá o tempo todo em formação. A idade em que se supunha uma aproximação desse eu real, do eu ideal, seria na fase adulta. Mas o que a gente acompanha hoje é que mesmo os adultos não estão dando conta de tantas avaliações.
Então a gente também tá muito suscetível à avaliação social o tempo todo. Então, neste momento aqui com vocês, só para vocês terem uma ideia, eu tenho 30 anos de psicologia, eu tenho um receio de numa apresentação ruim ter a minha imagem abalada. É claro que eu quero ser bem avaliada e isso faz parte hoje do mundo adulto.
Mas por que que eu tenho eh eh essa precaução? Porque eu estou nas redes sociais. Se eu estivesse apenas entre os meus pares os meus familiares, a premissa de que eu sou uma boa profissional, ela está colocada, ela tá posta.
Então a gente passou a a esticar também esse prazo da incerteza sobre a própria avaliação. Ah, Ana, uma coisa que você falou aí de que ah mesmo os adultos hoje tem um pouco um uma espécie de extensão maior do processo de formação, né? Eh, você não acha ou você acha que não existe a dentro desse processo todo um uma certa implicação de infantilização na vida adulta?
No sentido de que, como se fala por aí, muitos pais não querem assumir responsabilidade pelos filhos. Porque é interessante que você falou de valores familiares, normalmente se fala disso, mas mesmo a filosofia, as ciências humanas em geral tem criticado a família há algumas décadas, né, pondo abaixo a ideia de família. E na hora que a coisa aperta, parece que sempre se volta a família, aos valores familiares.
Não é um pouco infantil a crítica contínua à família que foi feita nas últimas décadas? A mim parece, Pondé, a mim parece, né? Eh, eu eu tenho uma a premissa de que os melhores valores que eu aprendi na vida, eu aprendi na dentro da família, né?
E e mesmo assim a família é o nosso primeiro núcleo, então são os primeiros valores e que depois a gente pode até questionar. Eu não posso ser hipócrita e dizer, eu mantenho todos os valores que eram da minha família de 60 anos atrás, mas alguns deles eu submeti à crítica atual e mudei. Alguns eu mudei e revi, como você colocou anteriormente, né?
Quando a gente é jovem, a gente tem alguns direitos a mais de de cometer erros. Depois que a gente passa dos 30, 40, 50, eu já já passei dos 60. Então a gente precisa ter um pouco mais de consciência para poder ir à frente e dizer isso.
Aqui continua valendo culturalmente e familiarmente e isso aqui foi um modismo e deve ser descartado porque está literalmente acabando com a nossa sociedade. Ana Lúcia Palma, muito obrigada pela sua presença, pela participação e até breve. Eu agradeço muitíssimo a vocês a participação, Thaí Pondé, uma alegria enorme estar com vocês e virei sempre que for convidada.
Muito obrigada. Muito obrigado, Ana. Até a próxima.
Vamos agora pro nosso jogo rápido. Pondé, o mundo acadêmico valoriza ou pune a autenticidade? Essa é fácil, hein?
pune a autenticidade. Pune ah porque cada vez mais ah, primeiro você precisa aceitar fazer parte dos jogos de poder institucional e corporativo dentro da universidade. Ah, porque senão você pode, porque isso se se isso transborda inclusive para as agências reguladoras do governo que age sobre a vida acadêmica.
Então tem as agências que estão ligadas à universidade, pessoas que estão aqui estão lá, né? A ideia, inclusive, é colonizar as agências dentro dos interesses políticos. E também tem, além desse, digamos assim, meramente político institucional, tem também os temas que ganham mais investimento, que estão na moda.
E aí aparece o mal-estar romântico. Eu vi isso muitas vezes na universidade, né? Ainda vejo que é o quê?
alguém que quer estudar alguma coisa, mas acaba sendo obrigada a estudar outra coisa, porque o professor quer que ela estude aquilo, porque o grupo de pesquisa que recebe financiamento quer que estude aquilo. E a pessoa tem que acabar abrindo mão do seu objeto de desejo, de conhecimento, em nome de lidar com essa pressão que vem do mercado acadêmico. Então é punido se você seguir a, digamos assim, o seu desejo.
Curioso, eu imaginei que a academia buscasse a autenticidade, porque a autenticidade traz originalidade, originalidade é o conhecimento. Mas tô muito surpresa. Thaís, você acha que é possível comprar autenticidade em Manhattan?
Precisa ter bastante dinheiro, mas para quem tem dinheiro, Manhattan é um shopping de autenticidade, né? Você pode, por exemplo, você tava falando que aqui as pessoas vão em busca de autenticidade as cidades coloniais lá eles vão em busca de autenticidade. Você pode alugar uma cabaninha assim que cat skills, né?
Bem minimalista, sem luz assim. Você pode também ir para um deserto. Você pode também, uma coisa que eles gostam muito, os autênticos de Manhattan, usar uma camisetinha básica, branca assim, só que custa muito caro.
Tem que ser uma camiseta de uma marca italiana que custa. Ah, sei. É uma palhaçada, né?
[risadas] E será que ser autêntico é aceitar a própria finitude? no próximo bloco. E será que ser autêntico é agir mais com o coração do que com a razão?
Vamos às ruas perguntar as pessoas. Janaína, em algum momento da sua vida você agiu mais pelo coração? Com coração?
Olha, sinceramente, eu acho que eu acabo agindo mais pela razão do que com a emoção. E às vezes eu acho que falta mais emoção para mim. Então eu acho que a gente tem que ter um equilíbrio na vida.
Aí já já agi várias vezes, principalmente quando eu pr pedir demissão de uma empresa. Acho que foi acho que o momento que eu mais agi com o coração do que com a razão. Sim.
E eu acho que nas escolhas com relação ao trabalho e a faculdade também eu tinha escolhido primeiro na razão psicologia e depois com coração eu fui pra área do direito. É onde que eu tô perto de se formar agora. Sim, com certeza.
Eh, foi, foi esse ano, em julho, eu decidi me mudar. Eu sou de Fortaleza, então saí lá do Nordeste para vir aqui para São Paulo. Quando eu tive que mudar para São Paulo para seguir esse aqui, porque eu sou carioca, ele também, mas ele passou num concurso para vir trabalhar para cá, então assim, é o coração que mandou, né?
E o que essa escolha te trouxe? Olha, me trouxe uma sensação de liberdade, de pertencimento e muitos aprendizados. Valeu.
Era o que eu mais precisava no momento, era o que eu mais tinha necessidade. Valeu a pena. Foi, foi legal.
Tanto que agora eu tô aqui, né, tive na oportunidade e funcionou 100%, né? E esse foi o momento quando eu escolho é agir com coração. É, eu sabia dos meus ideais e quando eu agi, pela razão, eu não tinha essa ideia, né?
Sim, valeu a pena. Eu tive que acostumar a morar numa cidade muito maior do que o Rio, né? que é São Paulo, mas eu já tô há 30 anos aqui.
Eu até gosto daqui agora, né? Mas é tudo porque ele veio para cá. Esse homem mudar a vida inteira dela para para vir seguir o caminho que você tá seguindo.
Mas a gente agora estamos os dois aposentados, a gente acha que valeu. Não só românticos como satisfeitos com a opção romântica que fizeram, né? É.
Então, apesar de que de fato o mercado engole o mal-estar romântico, eu suspeito que ele permanece como motivo de ação em alguma medida, né? Você tem exemplos. Nasceu em Fortaleza, mas quis vir para São Paulo, se sente mais livre, né?
O casal, ela seguiu o coração quando seguiu o marido porque passou aqui. Ah, o rapaz que trocou de psicologia para direito, no sket clichê seria o contrário, né? Percebe?
é cara que faz direito, faz porque dá dinheiro, psicologia, porque tá preocupado com o ser humano. Ele fez o caminho contrário, isso é muito interessante. Fez psicologia, mas depois percebeu que o que interessava ele é direito.
Taís, você acredita que o mal-estar romântico continua valendo como motor paraa ação em pleno século XX? Pondé, eu acredito no que Adorno diz e eu acho que faz todo sentido a gente ver essa mercantilização do romantismo, do malestar romântico. Isso é evidente.
Mas pessoalmente eu acredito na existência do malestar romântico como um gatilho para você fazer as coisas que você só pode fazer nessa única vida que você tem. As pessoas mostraram isso aí. Elas fizeram as suas opções românticas e estão todas satisfeitas.
É, foi um povo fala feliz. Condé, e o que que é autenticidade, que é o assunto do nosso programa, muito relacionado com o movimento romântico, mas é o assunto do nosso programa. O que que tem a autenticidade a ver com a finitude?
E por que que Heidger falava que a autenticidade é a antecipação para a morte? Então, primeiro que esse vínculo entre a posição filosófica e a morte não é inventada pelo Heidegger, né? Apesar que o tema da autenticidade não existia no estoicismo, mas o estoicismo entendia a filosofia como meditácio mortes, por exemplo.
Quer dizer, meditando sobre a morte que você aprende a fazer o discernimento entre o que é essencial e não é no seu campo de ação. Todas as ideias de que quando você contempla o nada que nos constitui a morte como a ida para o nada, a vida é o tempo até a morte, isso deveria produzir em você um reconhecimento de que você não deve perder tempo com coisas que de fato não não valem para você, que não fazem sentido para você. Entende?
Quanto mais consciência você tem da finitude, mais prontidão você tem. para não perder tempo com o que não importa para você. E isso é autenticidade.
Isso é autenticidade. E para quem quer contemplar a morte, existe o café da morte. Criado em 2011 pelo sociólogo britânico John Underwood, o projeto reúne pessoas para conversar abertamente sobre a finitude da vida.
A iniciativa já tá presente em 85 países, incluindo o Brasil. Vamos ver depoimentos de quem participa desses encontros. The spread of death cafe indicates that people are really keen to talk about death and even more than that I think they're keen to talk about death now because of of the time we're in.
I think we're in a time of great instability, economic instability and sort of environmental degradation. People are asking questions about what's a positive path forward for the world. And I think coming to focus on death and some of the fundamentals of who we are.
Esse é um exemplo quase didático do que significa a consciência da finitude pro Heidegger, né, ou pro Satre ou pro Cami, né? Eh, é claro que eh há em todos esses autores, inclusive no Heidegger, uma ideia de que essa consciência da morte deve você fazer com que você não se perca no mundo técnico, como falava o Heider que te ilude. O que que é o mundo técnico?
Esse mundo é o mundo moderno, é o mundo que faz com que você acredite que você tem controle sobre tudo, entendeu? Que você deve responder às demandas. Eu imagino que o Heidegger visse redes sociais, ele ficaria meio assustado com seria um um uma existência muito inautêntica, como ele diz, que é existência pro mercado, pra técnica, para essa modernidade.
Você vai pro café falar de morte, mas traduz técnica. Técnica não é só no sentido de você consertar um elevador. Técnica é uma sociedade que tá toda permeada pela ideia de controle do mundo o tempo todo, da finitude.
Isso quer dizer, não, não, não. Controle do mundo. E que faz com que você fique distante da sua condição real de finitude, de tempo limitado e de não ficar controlando, querendo controlar o mundo toda a sua volta, entendeu?
Isso é a existência inautêntica, mediada pelo impulso técnico de controlar tudo o tempo inteiro. A doença, por exemplo, a doença, a gente pode chegar até dizer isso, né? Eh, querer controlar a natureza absolutamente, totalmente, né?
Mas voltando ao nosso café aqui, que eles falavam da morte, é quase um exemplo empírico e didático do que seria ah você não fugir, como eles mesmos dizem, né? Dentro disso que você chama de técnico, também estão os recursos para ã evitar ou adiar o envelhecimento, como as os recursos de cirurgia plástica, de procedimentos dermatológicos, etc. É quase um exemplo caricato disso daí, da técnica, né, da existência inautêntica.
Ela é quase caricato de tão real, real no sentido de ser exemplo, de você ah evitar morte, envelhecimento, negar. E aí fica ainda mais caricato quando você vê certos adultos que querem aprender sobre a vida com sua filha ou seu filho de 15 anos. Aí não é nem mais só caricato, é ridículo mesmo.
Agora vamos para o nosso jogo rápido. Onde é? Até onde você topa ir para administrar o seu envelhecimento?
Qual o seu limite? Fazer exames médicos periódicos. Bem curtinho o seu limite.
Esse é o máximo. Mas é, não, eu faço isso, né? periódicos, às vezes maior, período menor, mas eu diria que isso é uma é uma prática que eu tenho e eu acho que eu acho não, isso de fato faz com que você em alguma medida consiga viver mais, apesar de que cada vez mais a medicina suspeita de que em matéria de envelhecimento, compreendido como perda de funções vitais, a a herança genética pode chegar quase 50% ou alguma coisa assim, né, de que é claro que você tem que cuidar, né, fazer tudo aquilo que se fala, mas há um certo determinismo em algum nível da herança genética.
É a sua, a minha de cada um, herança genética de cada um, acaba levando um pouco esse limite da vida para cá e para lá, né? Thís, você acha que existe uma forma de se envelhecer autenticamente? Então, essa pergunta feita para mulheres, ela tem um um outro sentido.
E eu tava pensando enquanto você falava sobre os limites nas cirurgias plásticas. Por exemplo, eu tenho uma amiga, uma advogada muito inteligente, muito analisada, que vai fazer uma plástica. E daí ela consultando médicos, ela não foi naquela linha que a maioria das mulheres vai.
Eu quero uma plástica muito natural, não é? As mulheres eu quero que seja muito natural. Não, ela disse o seguinte, eu não tenho compromisso nenhum com o meu rosto original, doutor.
[risadas] Sim, senhor, faça o que tiver que fazer melhorando, tá bom? Nenhum compromisso com o meu rosto original. Isso não é muito autêntico?
Eu acho ótimo. Se ela ficar bonita, tá bom. É isso que ela quis dizer.
É, na realidade, o que eu pensava quando eu descaricato é quando você chega ao nível tal de que algumas pessoas chegam e não só mulheres, né? Apesar que isso tá mais associado socialmente à ideia das mulheres, mas quando você chega no nível tal em que quem olha para você vê claramente que você ah ultrapassou o limite do que seria um rosto qualquer natural, entende? Mas a ideia é que eu não tenho nenhum compromisso com o meu rosto original.
Afinal de contas, por que você deveria ter? Só se talvez ela vai ter algum problema no reconhecimento facial do aeroporto, que é a tecnologia péssima em muitos lugares, né? Reconhecimento facial, né?
Não funciona, nunca encontra, nunca acha. E no aeroporto isso também acontece. Linhas cruzadas fica por aqui, mas na semana que vem [música] a gente está de volta.