Eu sou decidida Não importa o que eu vou ter que fazer Se eu falar pra você que eu vou atravessar o oceano pra buscar alguma coisa pra você Eu vou atravessar o oceano E eu não sei nem nadar! A minha palavra é a palavra de uma mulher da periferia Eu estava estudando, eu tinha nove anos Oito pra nove anos, acho que era 1977, 1976. .
. e eu achei um livro que é a minha inspiração mas na época era só um livro e eu queria o quê? Eu só queria entender as palavras eu não queria nem ler o livro direito, eu acho acho que eu queria entender as palavras Eu perguntei: quem é que entende as palavras?
"Ah, quem entende as palavras. . .
" "Dizem que quem entende as palavras são os advogados" Eu falei: então eu quero ser advogada! porque eu quero entender as palavras eu não sabia ler, né? Eu entrei na escola já muito.
. . eu já ia completar nove anos, com oito anos e meio eu entrei na escola e eu não sabia ler nessa época e aí, eu não imaginava nem um segundo da minha vida que eu fosse chegar, né?
Chegar nesse processo que eu cheguei Por quê? Porque primeiro, as mulheres que eram minhas referências Eram mulheres que eram submissas aos homens A própria Dona Maria, que tomava conta de mim era a "Dona Maria do Seu Juca" Eu aprendi a ter essa autonomia Ser uma mulher que é dona. .
. que é dona de você, que faz o que quer fazer, trabalhando Eu trabalhei com. .
. como empregada doméstica e tive uma mulher como referência, que era uma mulher independente E aquilo pra mim. .
. falei: nossa! Eu posso ser livre?
Eu posso morar sozinha? E isso pra mim foi incrível, assim. .
. Aí, eu quis aquilo pra mim Num determinado momento eu quis aprender as palavras No outro momento eu senti que eu podia morar sozinha e ser independente fazer o que eu bem entender Foi bem legal No meu caso, na época eu só podia ler eu não tinha como imaginar que uma filha de uma empregada doméstica, uma mãe solteira poderia entrar numa faculdade eu só podia entender as palavras lendo Era uma coisa que era inatingível Porque pobre, periférico. .
. não tinha Enem, não existia ProUni, não existia bolsa de estudo, não existia nenhum tipo de, sabe? Sisu.
. . não existia nada disso Eu fui fazendo o seguinte: Eu trabalhava na Q-Refres-Ko de manhã e eu pagava minha escola à tarde Eu mesma pagava porque eu queria estudar E aí, eu fui estudando, estudando Fui.
. . e cursos técnicos, né, também E aí, essa é uma evolução eu queria entender as palavras E onde eu fosse e entendia as palavras que não era a faculdade, que eu não tinha acesso, eu ia estudando Depois que eu me casei, eu fiquei em casa com o Jorge porque ninguém queria tomar conta do filho do Mano Brown Eu não queria parar de trabalhar, mas as pessoas não queriam tomar conta do filho do Mano Brown Olha que inferno!
Eu trabalhava, era bem remunerada Aí fiquei grávida, meu filho nasceu Ok. . .
Passando-se lá os meses de licença maternidade eu queria voltar a trabalhar, e o meu patrão queria que eu voltasse a trabalhar O que aconteceu? Ninguém queria tomar conta do filho do Brown Nenhum. .
. ninguém! Nem escola, nem ninguém Ai eu falei: quer saber de uma coisa?
Vou engravidar tudo de uma vez que assim, eu já quero ter dois filhos eu já vou engravidar de uma vez eu tenho dois filhos e eu já fico parada de uma vez Acontece que a menina não chegava, ela não chegava porque tudo tem sua hora, né? Aí, ela chegou quando o Jorge tinha quatro anos Eu queria voltar para o mercado de trabalho E como eu ia voltar para o mercado de trabalho se eu já estava parada em casa? Com dois filhos?
Eu falei: eu me recuso a voltar para o mercado de trabalho com um passo atrás Falei: já que eu estou em casa cuidando de filho mesmo Então, vou fazer o seguinte Vou estudar! Eu tinha me matriculado no Núcleo de Consciência Negra Estava fazendo cursinho lá para entrar na faculdade E aí, eu não conseguia entrar na faculdade pública Apesar de eu estudar pra caramba era impossível E eu não tinha paciência também de ficar quatro, cinco anos pra entrar na universidade pública Falei: quer saber? Vou entrar na faculdade particular Aí eu cheguei para a minha "bolsa estudo", né?
Eu falei: Brown, é o seguinte. . .
Pedro Paulo, é o seguinte você vai pagar a faculdade pra mim Ele falou: "Não vou. . .
" Eu falei: vai. . .
você vai pagar a minha faculdade, vai sim! Se você não pagar, alguma coisa vai acontecer Você vai pagar! E aí, foi assim que se deu Eu bati pé, briguei Ele me dava o dinheiro exclusivamente da mensalidade E era incrível, achava aquilo o máximo!
Porque eu ia. . .
eu sempre trabalhei Agora eu estava ralando pra estudar, eu ralava Eu economizava no papel higiênico, eu economizava na feira, eu economizava na comida, eu economizava em tudo Eu economizava e ia para a faculdade de ônibus Pegava o ônibus aqui, seis horas da manhã e ia estudar em São Caetano Três conduções para ir, três conduções para voltar A comida eu levava, minha comida, um potinho com frutas, né? Eu levava E quando eu voltava para casa, eu. .
. Um livro eu pegava na faculdade Eu sou machucada até hoje aqui de tanto carregar livro Eu tenho um machucado, tá vendo, ó: Não sarou Eu tenho um machucado de tanto carregar livros Eu lia no ônibus Feliz, lia! Eu segurava com uma mão e lia com a outra, assim.
. . Focada que eu queria ser advogada e minha oportunidade tinha chegado E aí, estudei cinco anos Estudando assim, de segunda a sábado Eu estudava de segunda a sábado Corria para a faculdade de manhã, cuidava das crianças, corria para a faculdade depois corria pra casa com o livro na mão Não lanchava, comia no intervalo assim.
. . muito rápido, da faculdade Pegava os livros da biblioteca, trazia pra casa Lia para ir, lia para voltar Chegava em casa, cuidava dos dois Do Jorge, da Domênica da casa, de todo mundo Arrumava tudo, organizava tudo Estudava e no outro dia, seis horas da manhã eu fazia isso de novo Até o terceiro.
. . Até o terceiro ano Quando eu fui para o quarto ano eu prestei um concurso, Entrei na Procuradoria Geral do Estado de São Paulo Ganhava R$ 350 de estagiária R$ 350!
E eu pegava os R$ 300 e dava para minha sobrinha ficar Aí já ficou mais legal porque eu saía da faculdade e ia fazer estágio E terminei! E nunca mais eu parei de trabalhar desde. .
. Nunca mais, assim Nunca mais! Eu fui a primeira da minha família a fazer uma faculdade Depois que eu fiz a faculdade Aí, sim.
. . Minha irmã já estudou, minha sobrinha já estudou Meu irmão já fez faculdade e está fazendo a segunda faculdade Aí, depois que eu fiz.
. . Aí ficou legal e todo mundo veio!
Quando surgiu a proposta para cuida do Racionais Eu cuidava. . .
Eu estava no auge da minha vida Eu já tinha terminado minha faculdade Depois de terminar minha faculdade, eu já tinha. . .
eu estava com meu escritório de advocacia aberto E depois de abrir meu escritório de advocacia eu quis entrar para a política Eu estava trabalhando na política Eu estava tomando conta da minha vida do jeito que eu tinha planejado E aí, surgiu a proposta de cuidar da carreira do Mano Brown Ok. . .
Mas isso não vai me impedir de seguir a minha vida E depois surgiu a proposta de organizar a carreira do Racionais E aí, eu levei seis meses para dizer sim porque eu estava cuidando da minha vida eu estava feliz da vida Eu pensei bastante, foram seis meses pensando E eu tinha a possiblidade de ser uma mulher bem sucedida E eu seria mais sucedida no direito do que eu sou bem sucedida como a empresária Eu seria muito melhor no direito do que empresária Mas era um risco E um risco. . .
por que era um risco? Porque eu sou uma mulher negra E a sociedade é uma sociedade racista, machista porque se eu tivesse como advogada hoje e esse. .
. e não tivesse construído nesses sete anos, o que foi construído como é que a gente estaria nessa pandemia? Entendeu?
Então, valeu a pena o sacrifício E aí, lá se vão sete anos Em outubro completamos oito anos Eu tinha muita luta para fazer. . .
O mundo da música era mais machista ainda, E o mundo do rap também E eu tinha que fazer o serviço três, quatro, cinco vezes para mostrar que eu era competente E eu acho que foram uns quatro anos, mais ou menos eu tendo que me desdobrar para poder mostrar porque o mundo dos negócios é um mundo machista o mundo dos negócios, né? Hoje eu sou respeitada no mercado mas a um preço muito alto, né? Eu sou respeitada no mercado, mas o preço é muito alto Não é um preço baixo Mas.
. . eu comecei a chorar por causa do direito Comecei a chorar, chorar, chorar de saudade do direito ano passado E como o universo é uma coisa louca A OAB me chamou para ser conselheira Então, eu estou de novo com a OAB E estou fazendo um trabalho com a OAB bem legal E eu estou nessa agora, surfando aí, com os advogados E a hora que eu não servir mais para ser empresária porque a idade não permite o mundo é machista a esse ponto, né?