As narrativas compartilhadas têm o prazer de continuar ouvindo Teresa Baddini. E agora, Teresa vai começar contando um pouco a respeito do convite que Zé Henrique de Paula fez para ela participar da peça "Esperando o Do". Então, vamos lá, Teresa.
Esse convite, Roberto, ele surgiu, viu, após o Seda. Lembra que eu interpretei a esposa de Floriano, que era um corinthiano? Força, né?
Que saudade que eu tenho daquilo. Saudade! Eu me sentia na personagem uma mãe.
Uma mãe! Chegou a hora que você falava: "Você tá incorporando demais! Volta, volta!
" Eu lembro dessas coisas. Bom, aí ele fez este convite e eu, muito entusiasmada, pensei: "Nossa, acho que coisas boas vão dar certo. " Eu fiz um personagem que foi um dos espectros na história.
Isso dentro desse bolo do teatro. Eu já estava falando, já estava montando uma companhia, então foi fora, já. E eu fiz esse personagem que foi um sucesso!
Apresentaram ao lado da Igreja Catedral. Foi lá nossa estreia. E já é.
. . E aí que eu falei: "Bom, eu deixei o curso de Letras, Roberto, é porque eu queria ser educadora e eu entendi que eu podia oferecer mais coisas, que eu poderia crescer mais.
" Então, fiz uma gravação em arte, com habilitação em música e teatro, nas artes plásticas, porque eu poderia fazer essa opção. Aí, eu precisei me estimular e fiz na CEUNSP, em Itu, a graduação em Educação Artística, com habilitação em Teatro e Música. Junto com a faculdade, eu resolvi fazer um curso de Teatro profissional.
Eu queria muito! Minha mãe me segurava um pouco, mas eu falei: "Mãe, eu já dou aula, eu já tenho o dinheiro. Eu vou!
" Aí, eu já tinha meus 19, 20 anos. Já. E fui pesquisar.
Pesquisei, pesquisei. . .
A minha amiga de sala de lá da USP, ela namorava o Éwerton de Castro, ator, e eu falei: "Nossa, uma pessoa maravilhosa! Anne, é o nome dela. Ana, eu gostaria muito de fazer um curso lá em São Paulo.
" Ela disse: "Então vamos lá conhecer! " Ela me levou no bairro de Santa Cecília, uma escola maravilhosa. Conheci Éwerton de Castro, que é um monstro sagrado.
Me matriculei. Bom, fiz dois anos de curso e saí com DRT, chique, formada profissional. E a minha formatura, sabe que peça que foi?
"Círculo de Giz Caucasiano", de Bertolt Brecht. Porém, eu fiz um personagem que não tinha no texto original, é porque Éwerton queria que o ator se encantasse e tocasse as três coisas. O que ele inventou, ele colocou no texto um trovador que fazia as intermediações de toda a história.
Eu entrava sempre no canto. Nunca me esqueço, tocando uma flauta contralto, que é uma flauta bem grande, com a música "Aceita Rajada", pelo maestro de lá da escola. E eu recitava o acontecimento e tocava e fazia toda a trilha sonora da peça.
Era eu que fazia na flauta. Então, eu pude atuar, cantar e tocar. Eu pude fazer!
Então, eu saí de lá em plena primavera de lá, né? Depois, não pedi contato com Edson durante muito tempo. Trouxe ele para Sorocaba muitas vezes.
Eu gostava muito, na época, quando estavam tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Eu gostava muito de seresta. A minha escola, do que eu sei musicalmente hoje de cantar, eu devo à seresta.
E aqui em Sorocaba tinham dois polos: o Quero Bar, tudo azul, na Comendador Oetter, e o Bar do Que Tu Rosa, na Rubino de Oliveira. E eu levei Éwerton de Castro uma noite lá e, coincidentemente, era época que ele ia fazer um seriado interpretando Noel Rosa. Bom, então ele chegou no bar e viu que o clima nas suas serestas, pois ele me incorporou lá.
Ou não, era Noel Rosa, e deu um show lá, com uma voz eletrônica. Castro, eu tenho ele com nós no coração. E ele, hoje, montou depois uma escola em Portugal e foi para lá.
Não sei o que, tive um pouco de contato com ele agora. Não sei. .
. Enfim, nesse tempo todo, junto com tudo isso, eu decidi que gostaria de cantar profissionalmente, mas não surgiu oportunidade, né? Mas o que eu tenho, 20 anos.
E aí, eu frequentei muitos e muitos anos a comunidade paroquial Cuja, como nós que éramos um grupo de jovens na catedral em Sorocaba. Eu cresci a limpo e surgiu o festival. Paulo de Castro Moura, que hoje é meu médico dermatologista, um parceiro meu, ele compôs uma canção e falou: "Teresa, vai ter o festival.
Eu não tenho ninguém. " Ele falou assim: "Eu não tenho ninguém para cantar. Você conhece alguém?
" Eu falei: "Conheço! " Aí ele falou assim: "E você com aquele. .
. ". Eu fui mostrar, e depois nós ganhamos o primeiro lugar.
Eu ganhei o prêmio de melhor intérprete no primeiro festival que eu entrei. Aí, eu me achei atriz de teatro, professora de arte, de música, cantora, instrumentista. Que mais que eu quero?
Eu perguntava para mim, sabe? Roberto, você quer ser famosa? Pergunte com quem que não quer ser famosa!
Mas, daí, ao mesmo tempo, eu falava: "Estou fazendo a missão que eu tenho na minha vida, que é educar. " E eu não tô. .
. Portanto, claro que eu queria ser famosa, ganhar dinheiro, é, mas eu faço o meu ofício de arte, de educar. Eu acho que duplo, dentro da minha casa, nas escolas que leciono, nos lugares que eu levo a minha música.
Para as pessoas que eu converso, eu digo que o meu maior sonho. . .
Aí fico até emocionada. Meu maior sonho é levar a minha arte para o maior número de pessoas que eu conseguir. E se eu conseguir levar.
. . Para o maior número de pessoas, eu já sou famosa.
E não é isso. É assim que eu penso. Depois, como professora, falei: "Preciso me especializar mais.
" Como já estava tudo dentro da mesma área, as coisas ficaram muito mais fáceis para mim. Não tinha a professora dando aula de uma coisa, a Teresa artista já estava tudo junto. Então as coisas foram muito mais fáceis.
Aí eu resolvi fazer um curso de pós-graduação em São Paulo, indicada pelo Everton de Castro, na Faculdade Paulista de Artes. E me encantei com o curso que eu fiz de especialização; isso me especializei em arte e comunicação. Ah, e de lá mesmo, mal terminei o pós, já ingressei no mestrado, e a dissertação minha foi sobre um negócio memorial.
Eu já tinha, naquela época, muita história para contar, assim, né, dentro do conhecimento e da minha vida prática musical, teatral, enfim, artística. Aí eu fiz um memorial onde contei a trajetória da minha vida acadêmica. E eu terminei o mestrado.
Quando terminei de defender, olhei para a banca, eu virei e disse: "Isso fez assim, um sonho que se sonha só, e é um sonho que se sonha junto. " E é realidade! Eu termino, sim, delícia, coisa boa.
Os examinadores, teve que ter, né, para te quebrar. Eu consegui entender um sorriso daquele grande mestre que estava sentado por esse pedaço, de Raul Seixas, que resume, realmente, uma vida artística e quem luta por ela. E se for só, não dá!
Eu preciso das pessoas para sonhar junto, né? Isso, naquele momento, para mim, foi tudo. Eu não tinha preparado aquilo; não tinha preparado para falar a minha dissertação de mestrado, né?
O meu orientador, antes que na hora começou a se encostar atrás da mesa, pediu: "Levanta, também, será que fala mais alto? " Funcionário. E, quando terminou, ela me deu aquele abraço, que eu esperava de qualquer pessoa, o cumprimento, mas eu não esperava um abraço tão afetuoso como aquele.
Enfim, eu terminei meu mestrado. Doutorado eu não tive a pretensão de fazer, não por conta do objeto de pesquisa, porque eu acho que eu poderia continuar, mas por conta do que eu tinha por trás, que eu precisava cuidar também dessa minha carreira. Afinal, eu queria encarar isso de frente.
Eu comecei a cantar. Formei a minha primeira banda, né? Olha que delícia: a primeira banda!
E aí não parei mais. Eu participei de inúmeros festivais de música aqui em Sorocaba. Olha, sem falsa modéstia.
Eu participei de todos! Hahaha! Meu parceiro, chamado Joaquim Moreno, que é um excelentíssimo compositor.
As músicas que ele fez junto com João Bridi foram exceções. Juntos, defendemos a música dele e ganhamos! E não parei mais.
E aí, um dia, eu pensei assim: "Bom, eu já comecei a ganhar um dinheiro com isso. " Comecei, mas eu falei: "Bom, eu tô ganhando dinheiro com isso, acho que eu posso reverter um pouco a história. " E aí pensei no lado social que a música me oferece, que eu poderia compartilhar com pessoas que precisassem.
E aí, até hoje, faço inúmeros shows beneficentes, canto muito na câmara municipal para grandes homenageados que vão receber títulos de cidadão, que tudo de honra ao mérito. Sou uma participante ativa do Instituto Histórico, que minha mãe levou lá, que é um membro, eu tenho participação ativa com eles porque o Instituto Histórico é uma instituição que não tem dinheiro para nada. Então, eu ajudo fazendo eventos, eu vou lá, eu canto.
Agora, no Dia da Mulher, eu vou fazer um evento para eles. E também tem uma coisa que você falou no início: é claro que quem canta, toca e dança, que a voz apareça. Fui fazer um curso de locução de rádio no Senac.
Eu fui da primeira turma do curso de locução. Quem eram os meus amigos? Alexandre Moretto, que hoje é um excelentíssimo jornalista, Anderson Santos.
. . Todos os nossos secretários de cultura foram meus primeiros professores.
E me formei lá, trabalhei na rádio Vanguarda. Olha, eu vou falar: fui organizada e sinta: Rádio Clube de 71, o casal Lemos, sei se você se lembra disso. Eu trabalhei.
Depois da Vanguarda, fiquei uns quatro anos lá, trabalhando como locutor, a fazer um programa que nunca mais esqueci, chamado "Convite Multicanal" com Teresa. Tadinha, né? E era um programa onde eu entrevistava pessoas.
E o diferencial do programa — você vai morrer de rir — era fazer propagandas, mas não eram aquelas propagandas já prontas que vinham no cartucho, prontas. Eu chegava: "Salomão Pavlov, que abri a porta de tudo, palavra, você tem que vender linguiça para mim. " Meu Deus, como assim?
Era propaganda do açougue do Januário! Seu salário era de um açougue na Rua da Penha. Você se lembra de mim?
Lembra de passear? "Dá para o seu organismo. Tentando vender, por exemplo, para a dona de casa: 'O seu almoço vai estar garantido hoje!
Olha, são oito horas da manhã, dá tempo de você correr, ou, seu Januário, comprar! '" Porque era de linguiça que tinha que fazer, né? Comprasse o quilo de linguiça, ou você faz no forno, ou frita, ou assa.
A Dori para ela. Sim, Roberto, eu vim dias com linguiça, "seu Januário," um dia, porque ele me conhecia, porque eu era pequeno, e lá eu fiquei: "Sua casa é de linguiça! " Isso era uma vez.
Olha, eu nunca vou esquecer também que eu tinha que vender um desodorante, que era fedido. Mas eu tinha que vender bem; eu resolvi antes e eu vendi o desodorante! Então, as histórias têm estrada, né?
Propaganda fossem feitas assim, então foram quatro anos de pura felicidade dentro daquela rádio com Salomão; foi veloz e eu aprendi demais com o outro. É muito ainda quando a rádio era ali na praça central, assim, naquele difícil grande que tem ali, que era embaixo da Caixa Econômica Estadual. Foi uma loja, não precisa exatamente e ali eu fiquei durante quatro anos.
Depois eu me desliguei por conta da. . .
eu acabei optando por pegar mais aulas e me aprofundar mais com a professora. Né, enfim, o que que eu sou hoje, Roberto? E hoje eu sou uma batalhadora pela arte; e hoje eu levanto a minha bandeira pela cultura.
E hoje eu brigo, brigo é por nós músicos e hoje eu brigo pelas oportunidades que o nosso povo tem que ter para a cultura. Hoje eu brigo de que nossa prefeitura tem que valorizar o artista local, porque o artista renomado que tá fora e os grandes empresários trazem, e a prefeitura, enquanto facilitadora de cultura, tem que valorizar o artista local. E aí já melhorou muito isso aqui em Sorocaba, mas precisa muito!
O artista local e regional precisa de espaço, seja na música, no teatro, na dança, na literatura, onde for. Nós precisamos desse espaço, então essa bandeira eu levanto. Eu tenho muitas propostas, sabe, para políticas públicas culturais e eu ainda espero poder um dia mostrar isso numa secretaria de cultura, colaborar, tá dando, levando propostas.
Porque a gente que tá dentro do sistema sabe muito mais o que é você correr atrás para garantir um show que você vai fazer numa periferia do que fazer um show numa praça de Campo Limpo. Fácil! Vai fazer um show em uma periferia onde, um dia, a maioria das pessoas são totalmente carentes de cultura.
E quando você faz qualquer coisa para eles, uma praça na Vila Formosa, no Parque da Vila Formosa, eles ficam ao seu redor, achando que você é um deus. E olha quanta coisa boa a gente pode levar para esse público! Então, né, é isso.
Nós vamos dar uma pequena pausa e, daqui a pouquinho, nós voltamos para o terceiro bloco, o último bloco. A Teresa ainda tem muita coisa a contar, tá bem? Então, até já!