Uma ponta da corda estava no fundo do mar e a outra ponta nas mãos da tripulação da embarcação HMS Challenger em mil oitocentos e setenta e cinco. Enquanto puxavam a corda no meio do mar, aqueles homens já haviam catalogado diversas novas espécies marinhas em sua longa viagem desde que partiram anos atrás da Inglaterra vitoriana. No fim de sua viagem teriam acumulado cerca de quatro mil e setecentas espécies, incluindo dez por cento de todas as espécies de estrelas do mar conhecidas até hoje!
O intuito da viagem era vago mas muito disruptivo, aquele grupo de cientistas patrocinados pelo governo inglês saíram de seu país pra descobrir o máximo possível sobre o planeta, principalmente seus oceanos. E tinha muito a ser descoberto. Porém essa descoberta em específico, o que eles estavam prestes a coletar na outra extremidade daquela corda, traria consequências climáticas, sociais e econômicas muito profundas no século vinte e um.
Quando terminaram de puxar, perceberam que por um total acaso seus equipamentos coletaram um item muito estranho. Era uma pedra do tamanho de uma batata que quando foi analisada melhor percebeu-se que dentro dela tinha um dente de tubarão. Naquele momento ninguém sabia disso, mas aquele objeto seria o motivo de uma verdadeira corrida do ouro pelo fundo do mar muitos anos depois.
Foi somente depois de mais de um século que um sujeito chamado Gerrard Barron mergulhou nessa história com sua empresa, a The Metals Company pra dar os primeiros passos dessa corrida. Arriscou milhões de dólares, viajou o mundo e fez acordos com governos. Tudo porque foi descoberto como que um dente de tubarão foi parar dentro de uma pedra!
(vinheta) Bom, a explicação pro dente na pedra só foi ser descoberta quando esses objetos já eram mais conhecidos pela ciência e já tinham ganhando um nome peculiar: nódulos polimetálicos. Um nódulo polimetálico é como seu nome diz, um nódulo, ou seja, um aglomerado de vários metais diferentes. E a formação de um deles começa com um pequeno objeto vindo da superfície, talvez, fezes de baleia, um osso de golfinho ou quem sabe um dente de tubarão.
Somente quando esse objeto toca o chão oceânico é que algo incrível acontece: precisamente nada! Ou pelo menos é isso que parece. Mas na verdade o que está acontecendo é um processo extremamente lento, em que metais do ambiente reagem de uma certa maneira que os fazem se depositar no objeto da superfície.
Então molécula por molécula eles vão grudando e criando uma cobertura e camadas, fazendo o objeto crescer, criando um nódulo feito de vários metais. Esse crescimento é absurdamente devagar, não chegando a ser nem sequer um centímetro a cada um milhão de anos. Pra se ter uma ideia, desde que a humanidade saiu da África, estima-se que um nódulo desses tenha crescido apenas a espessura de um fio de cabelo humano.
Pena que não tenho nenhum pra ilustrar aqui. Esse processo pode ocorrer de duas maneiras diferentes. Os metais que vão se depositando podem vir da água do mar, ou das partículas sólidas do chão oceânico ao redor do nódulo.
Dependendo do processo de formação, o nódulo pode ter mais de certos metais em sua formação do que de outros. Se o nódulo foi formado principalmente com metais vindos da água do mar então provavelmente ele vai ser mais rico em cobalto, já se ele foi formado mais a partir de partículas no chão, ele vai ser mais rico em níquel. Mas é claro que na prática a maioria dos nódulos são feitos um pouco dos dois jeitos e possuem uma riqueza bem diversa de metais, o que inclui também lítio, manganês, arsênio, metais de terra rara e outros.
Com base nisso, só de ouvir essa composição já podemos ter uma ideia de porque essas pedrinhas são tão valiosas no mundo de hoje. Simplesmente lá nós podemos encontrar elementos cruciais pro nosso estilo de vida moderno. Nossa tecnologia atual depende desses materiais, especialmente as baterias.
E essa demanda está aumentando… bem rápido. E outra demanda que vem aumentando rápido é a demanda por conhecimento em programação no mercado de trabalho. Felizmente, nós temos a Alura, que está patrocinando esse vídeo, pra nos ajudar com isso.
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Uma delas é a produção de carros movidos a combustíveis fósseis. E o principal substituto encontrado foi carros elétricos, que precisam de muitas baterias. A indústria global de carros elétricos está se expandindo a passos largos e ela demanda baterias em um nível completamente em outro patamar, se a gente comparar com outras indústrias que também precisam de baterias.
Como é o caso dos smartphones. Olhe pro seu celular agora mesmo e lembre quanto ele pesa, agora pense que sua bateria é menos ainda, no máximo algumas poucas dezenas de gramas, talvez umas vinte ou quarenta. Já um único carro elétrico precisa de muitas baterias, um total que pode variar de cerca de quatrocentas e cinquenta a novecentos quilos.
É próximo de uma tonelada. É o equivalente, em baterias, de mais de vinte mil celulares. Por mais que uma pessoa média tenha mais celulares do que carros, a conta ainda não fecha.
E se a gente projetar o fim dos carros à combustíveis fósseis até o fim do século, a fome por baterias da indústria de carros elétricos vai se tornar algo completamente sem precedentes na história. E mais importante de tudo, com isso vem a explosão na demanda por metais usados em baterias. Veja por exemplo o caso do lítio.
E no ano de dois mil e vinte e dois por volta de sessenta por cento do lítio ofertado no mundo foi destinado exclusivamente a carros elétricos. Sendo que apenas cinco anos antes era de somente quinze por cento. Essa fatia cresceu quatro vezes!
No ano de dois mil e vinte e dois a oferta de lítio cresceu incrível cento e oitenta por cento em relação ao ano anterior. Mas mesmo assim isso ainda foi o suficiente pra se igualar a demanda. Com isso, é claro que os preços do lítio iriam subir.
O carbonato de lítio, usado pra se obter os compostos usados na fabricação de baterias, anda subindo muito de preço. Em dois mil e vinte e um os preços quadruplicaram e no ano seguinte eles dobraram em cima disso. Isso tudo quer dizer que por mais que seja difícil prever o mercado, existe uma tendência clara, a de que vamos entrar numa era de alta demanda e possivelmente de altos preços de metais usados em baterias.
Certo, então existe um alto interesse mundial em minerar esses metais valiosos, e regiões ricas nesses minérios estão sendo muito visadas. Mas nenhuma delas se compara ao fundo do mar na zona Clarion-Clipperton. Localizado no oceano pacífico, esse é simplesmente o maior depósito no mundo de nódulos polimetálicos.
Estimativas conservadoras indicam que há cerca de vinte e um bilhões de toneladas de metais nesse lugar. Pra se ter uma ideia mais clara, toda a reserva terrestre global de lítio é de onze milhões de toneladas. Esse número abrange tudo que já foi mensurado mais as possíveis reservas que não medimos, incluindo os depósitos economicamente viáveis, os marginalmente, e até mesmo os que não são viáveis, mas um dia podem ser.
Enquanto que temos em terra onze milhões de toneladas, no mar temos dois vírgula oito milhões de toneladas de lítio apenas na zona Clarion-Clipperton. Sim, esse lugar sozinho corresponde a dezesseis por cento de todas as reservas terrestres combinadas. Isso é bastante coisa!
Já a quantidade de manganês em terra é de cinco vírgula dois bilhões de toneladas, e em Clarion-Clipperton é de cinco vírgula nove. Ou seja, simplesmente tem mais manganês só lá do que em toda a terra seca. Somado a isso, Clarion-Clipperton possui algo não muito distante do dobro de níquel e tem mais de três vezes mais cobalto do que é encontrado em terra.
Todos esses são metais cruciais pra fabricação de baterias. Ou seja, é óbvio que existe um interesse econômico gigantesco para coletar esses nódulos polimetálicos. Mas a largada pra essa corrida do ouro no fundo do mar ainda não foi dada.
Existe um pequeno detalhe que impede o começo desse jogo: não temos regras ainda. As regras da mineração submarina não foram estabelecidas ainda porque essa atividade não pode acontecer em qualquer lugar mas somente onde há uma concentração grande o suficiente de nódulos polimetálicos. Caso contrário a extração não seria economicamente viável.
Esses lugares em que as condições específicas certas acontecem geralmente não estão muito próximos do litoral dos países. Ou seja, os depósitos de nódulos não estão normalmente na zona econômica exclusiva de um país. Países possuem no seu território não só a parte de terra seca, mas também uma faixa de mar que se estende a duzentas milhas náuticas da sua costa, claro, se houver uma costa.
Essa é a zona econômica exclusiva, e pertence única e exclusivamente à soberania do seu país, tanto quanto qualquer pedaço de terra dele. Ou seja, se um país pode fazer o que bem entender no seu território, ele também tem essa liberdade no mar, no seu pedacinho de mar. Aí se um depósito de nódulos polimetálicos estiver lá, o país pode explorar economicamente do jeito que quiser.
Ele pode fazer isso até mesmo de uma forma social e ecologicamente questionável só pra ganhar dinheiro o mais rápido possível. Apesar das pressões de mercado, e apesar dessa possibilidade, a mineração ainda não começou! Não só por limitações tecnológicas, mas porque simplesmente a maioria dos nódulos não está na zona econômica exclusiva de nenhum país.
Esses depósitos estão no que o direito internacional chama de águas internacionais. As águas internacionais não pertencem a um país ou a outro, mas isso também não significa que é de quem chegar primeiro. As coisas são organizadas e têm leis que regulamentam as atividades de lá.
E a ONU se responsabiliza em criar as regras pra essa região. Segundo a ONU as águas internacionais são uma herança de toda a humanidade e por isso devemos procurar fazer com que toda a humanidade usufrua disso, seja de um ponto de vista ambiental, social ou… econômico. Sim, a exploração econômica de recursos naturais em águas internacionais não é algo proibido inteiramente, mas é regulamentado.
E o órgão da ONU que cuida da mineração no mar se chama Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, ou ISA, da sigla em inglês. A ISA ainda não deu nenhuma permissão pra explorações comerciais mas já deu permissão a dezenas de explorações pra fins científicos ao redor do globo, principalmente na zona Clarion-Clipperton. Essa preferência por explorações científicas reflete a principal preocupação da ISA nesse período que ela está passando pra elaborar as regras de mineração: ela está preocupada com o que não sabemos!
E tem muita coisa que não sabemos sobre o fundo do mar. Desconhecemos muitas das espécies, das dinâmicas do ecossistema e diversos aspectos da vida lá a milhares de metros de profundidade. E isso é o maior problema da ISA.
Como criar regras pra regulamentar uma atividade de mineração em larga escala se nós nem sabemos direito o que já existe no lugar? Se regras forem mal feitas, a mineração pode destruir habitats e espécies únicas, nós nem vamos saber ao certo o que vamos estar destruindo. Não teremos a menor ideia do potencial científico e tecnológico que vamos desperdiçar no longo prazo.
Talvez um pequeno habitante desse lugar possa ter a chave pra cura de uma doença! Inclusive, graças a essas explorações científicas foi descoberto que existe uma esponja muito peculiar que parece ser feita de vidro que vive fixada nos nódulos. E nesse momento, pesquisadores estão estudando a possibilidade dela nos ajudar a fazer antibióticos melhores.
O que é incrível! Por isso a ISA está demorando pra liberar a mineração, ela precisa criar regras, e pra criar regras é preciso conhecer mais a vida submarina e todo seu potencial! E é claro, é preciso também saber como funcionaria na prática a mineração no fundo do mar.
Por causa disso, a ISA tem que aprender os métodos de extração das possíveis mineradoras, incluindo a The Metals Company. Coletar nódulos a quilômetros de profundidade não é fácil, muitos dos equipamentos são reaproveitados da indústria do petróleo e ainda existe pouquíssima experiência neste estilo de mineração, mas basicamente ela funcionaria da seguinte forma. Uma enorme sonda que parece uma colheitadeira seria controlada remotamente e ficaria no fundo do mar coletando os nódulos do chão e jogando uma mistura de minérios com lama pra um tubo conectado à sonda.
Ao longo desse tubo teria que haver bombas pra jogar essa mistura milhares de metros até a superfície, onde haveria um barco que separa os nódulos da lama, guarda os nódulos e descarta a lama de volta no mar. E é aí que começam os problemas! Esse descarte de lama gera uma nuvem de sedimentos que pode bloquear a luz e impedir a fotossíntese nas profundidades mais abaixo.
O que teria o potencial de matar as formas de vida que se alimentam através da luz e as que se alimentam dessas que se alimentam da luz! Poderia ser um efeito cascata! Além disso, vale lembrar que essa nuvem de sedimentos estava a poucas horas no fundo do mar, e lá deveria permanecer.
A maior parte da matéria orgânica, do alimento, do carbono disponível lá no ecossistema do fundo do mar é proveniente da superfície. Quando um animal morre, ele afunda, quando os restos da presa não são consumidos, eles afundam, quando se faz fezes, elas afundam! (PEIDO) Enfim, muito carbono chega até o fundo, o suficiente pra se manter todo um ecossistema de vida.
E esse carbono tende a ficar lá preso no fundo nas moléculas dos seus habitantes ou simplesmente na forma de sedimento. Isso significa que o fundo do mar serve como um tipo de sumidouro de carbono gigantesco, sugando e guardando bastante coisa. O que é ótimo, porque isso evita que esse carbono todo acabe chegando até a atmosfera como um gás estufa.
Então se a gente pegar esse carbono, esses sedimentos, do fundo e jogar tudo lá pra perto da superfície, logo esse material pode ser reaproveitado pelos seres lá de cima e muito mais facilmente acabar parando na atmosfera. Assim agravando ainda mais as mudanças climáticas. Por isso que a ISA já prepara um conjunto de regras específicas pra esse descarte.
Idealmente os navios da superfície devem descartar os sedimentos através de um tubo longo o suficiente pra atingir uma profundidade que a luz não consiga penetrar, pra não causar o bloqueio dela. Além disso, quanto mais profundo menor será a chance do carbono dos sedimentos atingir a atmosfera. Isso já representa um avanço, mas o problema é que essa é a parte mais fácil de resolver, na verdade existe uma outra nuvem muito maior que a do descarte.
Lá no fundo, no próprio ecossistema, uma nuvem quase vinte vezes maior se forma. Lá embaixo, a sonda que coleta os nódulos também separa a lama dos minérios, na verdade o trabalho pesado de separação é feito pela própria sonda. Isso significa que é gerada uma nuvem bem maior e densa.
O que é bom porque não tem perigo de tapar o sol e nem de chegar na atmosfera, mas ainda assim causa problemas, talvez até mais difíceis de se resolver. No meio dessa nuvem os seres vivos podem ficar cobertos de sedimento o que pode entupir aparatos de respiração e alimentação. Talvez alguns animais podem até ter a capacidade de sacudir a poeira, mas é claro que esse comportamento possui um custo energético.
E ter que fazer isso várias vezes em um ambiente onde a energia é tão escassa pode significar a diferença entre a vida e a morte. Evitar esse problema parece algo muito difícil, mas ainda mais complicado vai ser resolver o cenário deixado pra trás depois da mineração. Uma vez que a sonda termina a colheita, ela deixa pra trás um rastro de destruição no chão oceânico.
Uma vez que a nuvem repousa de novo no fundo, se forma uma camada de alguns centímetros, talvez dezenas de centímetros de espessura, que consiste num sedimento fofo, fofo demais pra que algumas espécies possam se fixar e recolonizar o habitat. E claro, depois da mineração não sobram nódulos polimetálicos, não temos nenhuma superfície dura. Ou seja, onde será que então as esponjas de vidro poderiam voltar a morar?
É, aquele lugar com nódulos criando variações sutis no relevo, onde florescia um intrincado entrelaçado de vida, depois da mineração, acabaria se tornando um deserto monolítico de sedimento fofo. Enquanto isso, algumas perguntas ficam boiando. O quão rápido esses habitats poderão se recuperar?
Será que isso não pode levar milhões de anos? Será que sequer um dia haverá uma recuperação? E o que a humanidade vai perder com isso?
É por causa desse tipo de impacto que a ISA está demorando a liberar a exploração econômica de nódulos. É preciso ir com muita calma pra conseguir entender o que existe no lugar, como vai ser minerado, de que forma isso impacta o ambiente e como podemos criar regras pra amenizar isso. Essa cautela faz todo o sentido e os todos os estudos estavam indo bem desde dois mil e onze.
Os países membros da ISA estavam de acordo até que um pequeno país insular de menos de doze mil habitantes mudou tudo isso. Nauru é uma pequena ilha no pacífico e chegou a elogiar o trabalho bem feito da ISA e dos cientistas envolvidos nos estudos dos nódulos. Mas de repente mudou seu posicionamento de forma radical.
No fim de junho de dois mil e vinte e um, Nauru entrou com um pedido oficial de exploração econômica dos nódulos. E assim ativou a regra dos dois anos. A ISA possui um conjunto de regras que guia suas ações, uma delas é a regra dos dois anos.
Ela diz que sempre que se um país pedir pra praticar uma atividade que a ISA ainda não regulamentou, então é ativado um cronômetro de dois anos. A entidade internacional tem dois anos pra criar as regras praquela atividade nova, e se não conseguir chegar a um consenso final, o texto passa a valer mesmo se estiver incompleto ou der muita margem pra interpretação. Isso pode parecer estranho, mas a princípio é um mecanismo com um bom propósito.
A regra dos dois anos serve pra evitar que a ISA não impeça novas atividades indefinidamente porque por algum motivo pode estar com um consenso interno travado. O problema aqui não é a regra, mas a utilização dela. Nauru apressou desnecessariamente o processo com um pedido precoce pra minerar.
E o mais estranho de tudo foi o timing desse pedido. Lembre-se que em junho de dois mil e vinte um o mundo ainda estava passando por uma pandemia e o encontro de pessoas ainda era complicado. E o grupo de reguladores da ISA ainda estavam se reunindo com menos frequência pra pensar em regras pra mineração marinha.
O resultado é que todos sabiam que o escopo das regras não conseguiria avançar rápido. Mas mesmo assim Nauru escolheu esse momento. Pra piorar a situação Nauru pediu pra minerar através de um empresa chamada Nauru Ocean Resources Inc, ou apenas NORI.
E a dona da NORI é uma empresa canadense que na época do pedido, se fundiu com outra empresa pra se tornar… a The Metals Company. E curiosamente assim que foi criada, ela revelou planos de vender ações na bolsa de valores de Nova Iorque ainda em dois mil e vinte um. Num tô dizendo que é, mas será que é?
Será que esse é o caso de uma empresa canadense querendo manipular um governo de um pequeno país em desenvolvimento, abusar de dispositivos legais internacionais e destruir o meio ambiente pra lucrar em cima disso tudo? Bom, eu não sei. Vendo essas coisas acontecerem em um timing tão estranho, claro que isso pode levantar sobrancelhas, e de fato foi o que aconteceu.
Empresas como BMW, Volvo, Samsung, Meta e Google já disseram que não vão comprar minerais vindo de explorações submarinas. Enquanto isso, do outro lado, a The Metals Company se defende dizendo que o mar é a nova fronteira da mineração, e pode tornar possível o sonho de eletrificar nosso transporte pra frear as mudanças climáticas. Além disso, a mineração no mar tem o potencial de substituir a em terra, que é muito mais custosa socialmente falando.
A mineração em terra deixa pra trás terras tóxicas inutilizadas, como é o caso do próprio Nauru que além de ser o terceiro menor país do mundo, ele tem cerca de oitenta por cento do seu território devastado pela mineração em terra. Somado a isso temos que a exploração de certos minérios em terra acontece em países que violam fortemente direitos humanos. Como é o caso da República Democrática do Congo em que minas são exploradas artesanalmente por trabalhadores que recebem quase nada em troca.
São várias horas de trabalho sob o risco de desabamento de minas, e dividindo os turnos com crianças. É uma mistura de insalubridade, com trabalho análogo a escravidão e trabalho infantil. Não é legal!
Certo, esses problemas da mineração em terra poderiam acabar com a no mar, mas será que realmente haverá uma substituição do impacto de uma pela outra? Ou será que o impacto da mineração no mar vai ser apenas adicionado ao que já existe em terra firme? Será que vamos apenas encontrar mais uma forma de destruir o planeta?
Bom, a The Metals Company diz que os ganhos serão muito maiores que as perdas, e o pior de tudo é que talvez eles estejam certos! O problema aqui no fim das contas pode ser mais subjetivo. Porque se sabemos que haverá perdas, resta nós como humanidade descobrir o quão pequeno é esse número de perdas.
E onde podemos traçar uma linha em que um número pequeno se torna grande. Onde a ganância de alguns pode afetar um planeta inteiro. Onde a velha corrida pelo ouro nos leva para o fundo.