Narrativas compartilhadas tem o prazer de dar continuidade à nossa conversa aqui com a Fernanda Maia, que agora vai falar um pouco mais sobre a professora Zilá. E, por favor, dona Zilá era uma professora muito especial que trabalhava com iniciação musical com crianças. E muitos e muitos anos mais tarde, quando eu dei aula no Colégio Dom Aguirre e minha mãe, que era diretora na época, decidiu montar um coral lá, que ela achava que as crianças precisavam cantar, eu acho que eu tive uma oportunidade de devolver um pouco do que aprendi com dona Zilá, né?
Essas experiências do coral na infância, de cantar na infância, de ouvir música, de aprender música na infância, que dona Zilá fazia tão bem no Estadão, e com tanta dedicação e, de fato, com muito afeto, né? Elas ficam para o resto da vida, né? Elas ficam para o resto da vida e têm um lugar muito especial na história que a gente conta sobre a gente mesmo, não é?
E eu tive essa oportunidade também de receber esse feedback dos alunos do meu coral, né? Então, até hoje recebo, via redes sociais, assim alguém tão grande, né? São pais que já eram crianças na época, falando: "Eu lembro tanto do coral, eu gostava tanto, foi tão especial pra mim, foi tão incrível aquela época.
" Então, acho que, de certa maneira, espero que não esteja sendo arrogante, eu me senti muito honrada de poder mimetizar um pouco, de continuar um pouco esse trabalho da dona Zilá, com outro lugar, em um outro contexto, mas muito inspirada pelo trabalho da dona Zilá Benevenuto, né? E o Fábio, o Fábio foi uma das pessoas mais importantes na minha formação como ser humano, como tudo. O Fábio foi uma pessoa que me ensinou a ter prontidão porque ele nos desafiava o tempo todo.
Quando chegava com uma partitura, falava: "Essa partitura, lava e militar para estudar, sem conserto, mês que vem. " Então, tinha que ficar pronta. E eu acho que isso foi uma coisa muito importante na minha formação, muito importante, porque as pessoas acham que ser artista é uma coisa muito diluída, aquela coisa que você está na sua casa, na rede, que eu tenho na minha casa, e aí sai uma música, e eu posso compor e sai o texto.
E não é assim, né? Os prazos estão correndo atrás da gente o tempo inteiro. Você tem que criar uma música para amanhã, a música tem que ficar boa amanhã, você tem que levar o ensaio, se você não tiver o ensaio, não vai dar pra montar a cena, não dá pra montar, senão não dá pra fazer o arranjo, não vai dar para estrear, você tem cronogramas.
Então, essa questão de lidar com prazos e obrigação e ter que criar com hora marcada é muito mais a rotina do artista do que essa coisa de "não há inspiração". A inspiração tem que vir na luta; a transpiração tem que trazer a inspiração. E o Fábio fazia muito isso com a gente, ele colocava pra gente muitas metas a serem cumpridas.
Ele até marcava recitais: "Daqui um mês, em recital, você vai tocar isso. Se vire", né? Isso foi muito importante, isso me ensinou a ter prontidão, a ser responsável, isso me ensinou a entender o que é trabalhar profissionalmente com arte, né?
Porque, às vezes, não é porque você tem um talento que você tem vocação; são coisas diferentes, né? Às vezes, você tem talento para até se expressar, até é um meio de expressão pra você, mas é preciso ter vocação. E a vocação é quando a parte desagradável de fazer aquela atividade, que qualquer atividade tem, não suplanta a sua necessidade de fazer.
A sua necessidade de fazer é maior do que o desprazer, o desconforto de alguma coisa diária, do que a parte desagradável daquela atividade, né? Então, o Fábio foi muito importante. Eu estudei com ele dos 12 aos 17 anos, então foi uma fase muito importante da adolescência, né?
Uma outra coisa que eu acho importantíssima é que não existe mais. . .
Também, o Fábio organizava os recitais dos alunos e as apresentações no Getúlio Vargas, que tinha aquele maravilhoso piano Steinway, que era a única sala da cidade na época, a melhor sala da cidade, que tinha um piano incrível e tal, que hoje está no Teatro Municipal. A gente ia lá e eu achava uma coisa impressionante ter um teatro dentro de uma escola pública, né? Não existem hoje escolas em São Paulo, principalmente, que tenham teatros, né?
Então tem 29, Andrade Caravela, usados, são teatros incríveis, né? Mas naquela época ter um teatro dentro de uma escola pública, um teatro que tinha uma vida, é um teatro que realmente funcionava, havia uma orquestra, né? No Getúlio Vargas, que fazia concertos.
A orquestra se transformou na Orquestra Sinfônica de Sorocaba. Havia os festivais de teatro que você organizava no Getúlio, então, esse espaço de uma escola pública, um espaço utilizado, frequentado, as coisas circulavam por ali, a ocupação desse espaço é uma coisa muito importante. E hoje a gente vê tantos equipamentos públicos que não são usados, né?
E equipamentos públicos incríveis que você não pode usar, né? Você não pode entrar porque vão ser depredados. É engraçado que ninguém depredava, né?
Ninguém do programa. . .
Todo mundo brigava muito bem por aquele espaço, não é? Muito bem por aquele espaço. Hoje, parece que tem um fechamento, uma coisa de "não, as pessoas vão estragar".
E, treinando, duro, as pessoas vão usar, vão usar, evidentemente. A empresa não é um desgaste, né? E mas não é depredação.
As pessoas usavam muito isso; a gente tocava quase todo mês, a gente fazia recitais no Getúlio Vargas. E aí é um outro tipo de treinamento mesmo: a gente dominar o nervosismo para tocar em público. Havia um consumo, dentro de Sorocaba, dos seus artistas locais.
Não é? Eu não sei como está isso agora; estou há muito tempo morando fora, não sei exatamente. Mas, ao que me parece, a cidade, hoje em dia, consome menos dos seus artistas locais, né?
Eu tenho na conta também a primeira vez que assisti à peça de teatro, que faz parte da minha trajetória, que foi no Teatro Fantoche, na capital. Grande, no 1 a 1, em Sorocaba, que pertencia, entre várias pessoas, a Roberto Gil, inclusive. E lembro da cena da peça; eu lembro da pressa.
Você vai contar um pouquinho da conveniência da primeira peça, é próprio da série. A gente até já. .
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