A visita à terra indígena, Igarapé Lourdes, era uma expectativa de alunos e professores. Imaginávamos que o nosso encontro se daria sobre as formas de subsistência e organização do povo Karo/Arara. Mas a conversa se voltou para o passado, que segue tão presente.
A partir da década de 1940, a instalação de seringuais e a chegada de fazendeiros na região, marcaram o contato do povo Karo/Arara com não indígenas. Esse contato causou dispersão dos indígenas e mortes provocadas por doenças trazidas pelas novas populações. Somente na década de 1960 o serviço de proteção ao índio começou o processo de realdeamento dos Arara.
Nesse movimento, Pedro Arara, hoje, cacique da aldeia, regressou com a família para o Igarapé Lourdes. De volta, brigou pela demarcação da terra. O que não significou o fim da luta.
Na década de 1980, Pedro e seu povo precisaram defender mais uma vez esse espaço ameaçado por projetos de construção das usinas hidrelétricas Ji-paraná e Tabajara. Os projetos atingiram a bacia do rio Madeira e também a bacia do rio Machado, que banha a terra indígena. E aí descobriram que boa parte do Igarapé Lourdes ficaria debaixo d'água, as aldeias principais.
Vários cemitérios indígenas. E começaram a se mobilizar. Né?
Especialmente, a partir de 87, 88 eles visitaram o canteiro de obras de Samuel, que foi a primeira grande hidrelétrica construída aqui em Rondônia. Eles foram no canteiro de obras, porque já tava, assim, dado que seria construída a barragem Tinha um canteiro de obras com alojamento pro trabalhadores, tinha os trabalhadores. Com pista de vôo, enfim, escola, tudo pronto para receber a barragem.
Nós já fechamos aquela ponte, uma vez, Ji-Paraná, quando quiseram construir. Já tava com todos os projetos pra nós. Fomos no acampamento, todo mundo armado de flecha e tudo.
E nós pedimos pra parar. E eles conseguiram se articular com o Sindicato de Trabalhadores Rurais, com outros povos indígenas. Na mesma época, os povos do Xingu começavam a se organizar contra Belo Monte.
E foi uma luta muito grande, muito povo também junto, né? Naquele tempo tinha uns parceiro que tavam do lado de nós. E essa pessoas tudo vivem junto com nós até hoje, esses parceiros, né?
Muita luta junto com nós. Tudo que passava eles trazia, igual vocês. Vocês tão passando informação pra nós.
Que nós não fica sabendo o que se passa lá fora, né? Então, essas pessoas que nós tem hoje, eles fizeram isso com nós. Então, assim, uma série de medidas, é no âmbito da legislação e também na política internacional acabou que suspenderem o projeto, mas eles continuaram mobilizados.
Em 2006, quando Renata decidiu fazer a pesquisa de mestrado sobre o Igarapé Lourdes, ela acreditava estar fazendo um trabalho de memória. Acabou descobrindo que, em 2007, foi aprovada a reavaliação dos estudos sobre o rio Machado com uma reconfiguração do projeto da usina Tabajara. E a gente não sabe qual que vai ser o caminho daqui pra frente em relação à Tabajara.
Mas pro Pedro e pra outros indígenas, que são ameaçados por esse projeto, é fonte de muita incerteza, muita insegurança e medo. Porque eles acham que é uma estratégia dos brancos pra destruir, pra matar, né? Se não conseguiram matar com o contato, vão matando pelos projetos desenvolvimento.
Não adianta nós sair daqui pra outro lugar, sofrer de novo. Então, eu penso isso, meu pensamento é esse, né? Se os outros pensasse como eu penso, as coisas funcionavam mais rápido.
Então, a gente tá se preparando pra, mais uma vez, essa luta aí. Não sei que briga que vai dar. Nós já barramos uma vez, né?
Porque é uma coisa que vai trazer nem benefício. Se o governo diz: vou indenizar vocês. Dinheiro não paga nossa vida, porque se for contar, como eu falei, o cemitério do nosso povo que tem aqui, não vale a pena fazer isso.
Porque a maior briga nossa é por causa disso, né? E os cemitérios são parte fundamental, né? Porque os antepassados são fonte do conhecimento, da identidade que faz com que eles se reconheçam também, né?
Como Arara. E é uma ofensa muito grande, né? Mexer com os mortos.
Então, acho que, mais que nunca, pra eles é importante que o território seja protegido. Ou eles acaba nós, mata todo mundo primeiro pra eles poderem usar nossa nossa terra, onde a gente mora, Porque, por o contrário, a gente nunca vai abrir mão. Não existe vida sem terra?
Não, sem terra a gente não vive. A gente vive aqui há muitos anos e a nossa intenção não é a de ficar rico, pensar em riqueza, né? A gente quer viver uma vida, assim, uma vida boa, sossegada, né?
Porque, muitas vezes, a gente vê, assim, hoje, que a gente que estuda, que a gente pesquisa, a gente vê assim que a gente tem uma coisa, tem um bem. E você não ter sossego. É melhor você viver do jeito que a gente vive aqui.
A gente não preocupa com com assalto. Não preocupa com muita coisa que vem acontecendo hoje na cidade, né? Então, nossa intenção mesmo que hoje a gente passa por esse processo, né?
A gente não quer, assim, ter a terra pra vender ela, né? A gente quer a nossa terra aqui, pra gente viver nela, da forma que a gente vive hoje. Tudo que a gente planta nela, a gente colhe, a gente sobrevive nela e assim, não só como produção, mas outros materiais também, né?
Que nem coisa pra artesanato. Até água, animais, né? Peixe Tudo isso a gente tem na terra hoje.
E outras coisas, né? Que nem, por exemplo, material pra construção de casa. Tem isso aí pra gente colher.
Então, isso é nossa vida hoje, que a gente vive, né? Porque a gente preservando a floresta, a gente tem uma vida boa. Não ter muito desmatamento, ter muita poluição, né?
Que prejudica muito a saúde. Então, nossa preocupação hoje é isso. Que nossa vida tem que ser assim.
Nós somos assim e nós quer permanecer dessa forma, né? Foi aqui o nosso primeiro contato, durante a viagem, com a floresta amazônica nativa. Até então, tínhamos visto unidades demonstrativas de sistemas agroflorestais mas a floresta na sua imensidão foi na terra do povo Karo/Arara.
A beleza e a grandeza da floresta impressionam tanto que ali, no meio dela, pensamos que todo brasileiro deveria conhecer a Amazônia. Talvez assim, faríamos a defesa dela como faz o povo do Igarapé Lourdes. No quinto episódio da série Floresta de Gente, vamos conhecer a história e as estratégias de Chico Mendes, seringueiro do Acre, que mudou a política ambiental no mundo.