O barulho era ensurdecedor. Gritos, telefones tocando sem parar e o estalo frenético das fitas de papel cuspindo preços que naquela altura já nem eram mais verdade. No coração de Wall Street, centenas de homens vendiam tudo o que tinham a qualquer preço, antes que não sobrasse mais nada.
Do lado de fora, multidões se acotuvelam nas calçadas, tentando entender para onde tinha ido dinheiro de uma vida inteira. Era outubro de 1929 e em poucos dias a maior festa econômica que o mundo já tinha visto se transformou na pior crise da história do capitalismo ocidental. Fortunas construídas em uma década inteira simplesmente viraram pó.
Mas um colapso dessa proporção não nasce do dia para a noite. Ele é construído tijolo por tijolo, com ganância, dinheiro fácil e uma certeza que tomou conta de um país inteiro. A certeza que dessa vez a riqueza não teria fim.
Como uma década de prosperidade absoluta terminou no maior colapso financeiro de todos os tempos. Para entender, a gente precisa rebominar até o exato momento em que a festa começou. Mas antes, por favor, não se esqueça, já deixa teu like no vídeo, se inscreve no canal e ativa as notificações.
Toda semana as curiosidades mais interessantes do mundo dos negócios você encontra aqui no Curioso Mercado. [música] Opa, tudo bem? Talvez você nunca tenha me visto por aqui.
Eu sou Greco Prado, um dos fundadores do curioso Mercado. Antes do vídeo começar, eu queria te contar rapidinho sobre uma parceria que nos deixou muito felizes. Esse vídeo é uma parceria paga entre o curioso mercado e a portfólio pinguim, o selo de negócios da Companhia das Letras.
E essa parceria faz muito sentido para nós, porque praticamente tudo que a gente faz por aqui começa com uma boa leitura. E poder se unir com uma das editoras que mais publica boas histórias de negócios é um privilégio enorme para nós. E além de tudo, o livro que eu vou recomendar agora é simplesmente sensacional.
Ele se chama 1929 do Andrew Ross Sarking, o mesmo jornalista de Too Big To Fail. Ele passou anos investigando os bastidores da maior quebra de Wall Street, com acesso a fontes que ninguém nunca tinha visto e transformou tudo num thriller sobre a natureza humana diante do dinheiro e do poder. Esse mini documentário inteiro nasceu da leitura desse livro.
Mas por mais que a gente tenha caprichado, 20 minutos de vídeo só arranham a superfície. O livro tem tudo que não coube aqui, é simplesmente outro nível de profundidade. Então fica aqui o convite.
Se essa história te interessou, acesse o Qcode na tela ou clique no link no primeiro comentário fixado e garanta agora mesmo uma boa leitura. [música] Nova York, 1919. Enquanto a Europa saía da Primeira Guerra reduzida a escombros, as tropas americanas voltavam para casa em clima de triunfo, o triunfo que abria as portas de uma nova era de prosperidade, os memoráveis e loucos anos 20.
[música] Do outro lado do Atlântico, as nações europeias se afundavam em dívidas colossais só para reerguer o que a guerra havia destruído. Nos Estados Unidos, a história era oposta. A sociedade americana embarcava numa onda de crescimento sem precedentes.
O fim do conflito tinha destravado o desenvolvimento da indústria Yank. Ao longo da década de 1920, a economia americana cresceu mais de 40%, puxada pelo bom da eletricidade e por invenções que mudaram o cotidiano, como o rádio, o telefone e o automóvel produzido em escala. As fábricas se mecanizaram, a produtividade disparou e os lucros corporativos em 1925 geram o dobro dos registrados antes da guerra.
Era o nascimento da economia de consumo. Setores inteiros saltaram de patamar. Em apenas do anos, o número de carros em Nova York duplicou, chegando a ver tantos veículos em Manhattan quanto em toda a República Alemã na mesma época.
Entre os investidores fascinados por Wall Street estava Winston Churchill, o futuro primeiro ministro britânico acompanhava de perto o mercado americano. Mas boa parte desse crescimento se apoiava num artifício perigoso, as dívidas. O produto mais importante era o crédito e foi ele que veio quebrando tabus culturais profundos sobre o endividamento.
Em 1919, a General Motors começou a vender carros a prazo. O popular Ford modelo T chegou a custar apenas $00, tornando-se acessível à classe média através do crédito. A SS, gigante do varejo, veio logo atrás e popularizou as prestações para geladeiras, aspiradores e outros utensílios domésticos.
Esse consumo em massa deu forma ao emblemático American Way of Life. Possuir os novos produtos da indústria virou sinônimo de sucesso e felicidade. O otimismo também virou uma espécie de religião coletiva.
Nova York assumiu de vez o trono financeiro do planeta. A inauguração da nova sede do Federal Reserve na cidade, em maio de 1924, foi a confirmação disso. O prédio foi erguido como um palazo renascentista florentino e ocupava um quarteirão inteiro, quase como um símbolo do período.
A bolsa acompanhava o fôlego naquele mesmo maio de 1924, a média de 25 ações industriais do New York Times marcava 106 pontos. No fim do ano já estava em 134. Em dezembro de 1925, chegou a 181.
Comprar ações com dinheiro emprestado também abriu as portas para a classe média e transformou o mercado num fenômeno cultural de massas. O investidor abria a conta colocando do próprio bolso de 10 a 20% do valor da compra. O resto ele pegava emprestado com o corretor.
Esses empréstimos a corretores, os Broker Laans, saltaram de 1 bilhão no início da década para quase 6 bilhões em 1928. E não eram só os bancos que alimentavam essa máquina. Grandes empresas passaram a achar mais lucrativo emprestar na bolsa do que investir na própria produção.
O mercado imobiliário surfa na mesma onda. Em 1925, milhares de pessoas foram atraídas para a Flórida pela promessa de enriquecimento rápido, comprando terras de forma indiscriminada. Lotes inteiros eram vendidos como beiramar e subdivisões inteiras eram criadas no papel a quilômetros de distância de qualquer cidade real.
Charles Ponzi, que ficou conhecido pelo esquema de pirâmide, por exemplo, vendeu lotes a 100 km de Jacksonville, dividindo terras em fatias minúsculas para maximizar o lucro. Ainda em 1928, muitos investidores descobriram que suas terras valiosas não passavam de pântanos invendáveis. era um alerta do que vinha pela frente.
Muitos historiadores consideram que o cenário de instabilidade que culminou na grande crise de 1929 começou ainda com o tratado de Versales 10 anos antes. Isso porque ele impôs a Alemanha reparações de guerra astronômicas ao aceitar a responsabilidade total pelo conflito. Ao mesmo tempo em que exigiam pagamentos bilionários, os aliados confiscaram 1 terço do território alemão e o coração da sua manufatura, tornando o cumprimento da dívida uma condição matematicamente bem difícil, se não impossível.
Como a Alemanha não tinha ouro ou superavit comercial para pagar as reparações e os aliados precisavam desse dinheiro para pagar os Estados Unidos, que havia financiado bens para a guerra, criou-se um sistema artificial de crédito para evitar o colapso europeu. Grandes bancos americanos, liderados principalmente pela JP Morgan and Company, passaram a emprestar dólares à Alemanha, que usava esses dólares para pagar as prestações de reparações. Os aliados pegavam esses mesmos dólares e os enviavam de volta ao tesouro americano para quitar as dívidas da Primeira Guerra.
Nada real, era produzido, era apenas dinheiro mudando de mãos. O combustível final, que transformou um crescimento moderado na urgia especulativa de 1929, foi chamado de um pequeno gole de whisky pelo presidente do Federal Reserve, na época, Benjamin Strong. Em uma reunião secreta em julho de 1927, ele decidiu deliberadamente baixar as taxas de juro dos Estados Unidos de 4% para 3,5%.
O crédito barato virou arma para os especuladores. Os investidores perceberam que era muito mais lucrativo aplicar dinheiro na bolsa de Nova York, que estava em pleno boom, do que emprestar para a reconstrução da Europa a taxas fixas. A Alemanha entrou em recessão em 1928, à medida que os empréstimos americanos começaram a secar.
Em pouco tempo, o governo dos Estados Unidos parou de receber as parcelas das dívidas de guerra, uma receita importante para manter impostos baixos. E os bancos privados americanos perceberam que seus investimentos que restavam na Alemanha tornaram-se congelados ou impagáveis. Por trás das festas e dos arranhacéus de Nova York, a estrutura econômica de todo aquele crescimento era perigosamente frágil.
[música] Em 1929, os 5% mais ricos recebeu 1/3 de toda a renda pessoal dos Estados Unidos. Isso tornava a economia dependente dos gastos de luxo e dos investimentos desse pequeno grupo. Movimentos altamente voláteis.
Além disso, enquanto a produtividade nas fábricas subia a 43%, os salários permaneciam estáveis. O resultado era um excesso de oferta que o mercado interno já não conseguia absorver. Havia também uma piramidização das empresas com as holding companies e os investment trusts.
Empresas que não produziam nada. Elas existiam apenas para possuir ações de outras empresas usando a força da alavancagem para inflar lucros. A agricultura já vivia em depressão desde os meados da década.
Os agricultores americanos haviam perdido o mercado europeu e acumulavam dívidas que os bancos rurais não conseguiam sustentar. Enquanto os primeiros sinais de ruína apareciam no campo, Nova York seguia em outra direção. Ali, um pequeno grupo de homens controlava boa parte do dinheiro do mundo, convencido de que aquela engrenagem continuaria girando, mas ela estava prestes a travar.
[música] Antes de chegarmos ao fim da festa, vale a pena conhecer os homens que juravam que ela nunca iria acabar. Charles Edwin Mitchell era o chirman do National City Bank, a face pública da nova era de prosperidade dos anos 1920. Um homem atlético de 52 anos, dono de um otimismo tão incomum jornais da época o apelidaram de Sunshine Charlie.
Sob sua liderança, o National City Bank se tornou o maior banco dos Estados Unidos e a primeira instituição financeira americana a ultrapassar a marca histórica de 1 bilhão de dólares em depósitos. O peso da instituição era tão grande que cerca de 1/4 de todos os empréstimos feitos à empresa norte-americanas na época era de responsabilidade da firma. Por meio da National City Company, o braço de investimentos do banco, Mitchell criou uma força de vendas agressiva que tratava ações e títulos como produtos de consumo comum.
Ele dizia aos seus vendedores que ações não eram diferentes de rádio ou aspiradores de pó, eram apenas produtos para tornar a vida melhor. Mitchel foi um dos grandes incentivadores da compra à margem, permitindo que pequenos investidores entrassem no mercado com poucos recursos e muita alavancagem. Sua vida pessoal refletia esse poder.
Ele morava em um palazo, na Quinta Avenida e possui uma propriedade de Tudor em Touchedo Park. Enquanto National City Bank e outros bancos buscavam lucro por meio da expansão massiva, a JP Morgan and Company operava sob uma mística de aristocracia e caráter. A instituição era o eixo gravitacional do poder financeiro e geopolítico mundial.
O banco não anunciava serviços, nem aceitava depósitos de qualquer pessoa. Para ser cliente era necessário uma recomendação, além de saldos mínimos. Jp Jack Morgan Jor, filho mais velho do lendário fundador do banco, tinha poderes quase absolutos dentro da firma.
poderes que permitiam a ele decidir sozinho sobre investimentos e até dissolver a sociedade caso desejasse. Mas embora Jack tivesse o controle, era Thomas Lamont quem dirigiu o banco na prática. Lamont liderou negociações internacionais cruciais como plano Young para as reparações de guerra alemãs, agindo efetivamente como um diplomata sem pasta dos Estados Unidos.
Também cultiva relações próximas com editores e jornalistas para moldar a narrativa pública a favor do banco. Foi na mesa de Lamont que os seis grandes banqueiros se reuniram em 24 de outubro para prometer centenas de milhões de dólares na tentativa de estabilizar o mercado. Mas essa história fica para daqui a pouco.
[música] [música] O stock pool era uma das táticas usadas em Wall Street durante a década de 1920. Embora essas operações fossem notoriamente desonestas, elas não eram ilegais na época e contavam com a participação dos maiores nomes e instituições das finanças americanas. Funcionavam assim.
Um grupo de investidores ricos reunia recursos para comprar de forma encoberta e ao longo de semanas ações de uma determinada empresa. Tudo com cuidado para não atrair a atenção do mercado e não elevar o preço cedo demais. Depois, os membros do pool iniciavam uma série de transações entre si, fazendo o preço subir artificialmente e criando a ilusão de uma atividade genuína.
Investidores inexperientes, ao notar a tendência de alta e ler as dicas das colunas financeiras, corriam para comprar aquelas ações, esperando lucrar com a valorização. Quando a ação atingia um pico prédeterminado, os membros do pool despejavam massivamente seus papéis de volta no mercado. Participar desses pools era visto como um privilégio do poder.
Até instituições de prestígio como National City Bank e o JP Morgan participavam ou financiavam esses esquemas. Essas práticas foram fundamentais paraa criação da SEC, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos em 1934, que finalmente proibiu os pools para proteger o mercado. O clima em 1929 era definido por uma fé cega na nova era.
As altas ininterruptas criavam uma cultura de dicas infalíveis em que as pessoas perderam a capacidade de calcular riscos. A ambição se manifestava fisicamente na corrida pelos arranhaacéus. John Raycob e Walter Chrysler competiam para construir o edifício mais alto do mundo.
O Empire State e o edifício Chrysler usaram esses projetos como monumentos ao futuro. Provas concretas de que o país não podia sofrer um crash. No entanto, a esperança, inclusive a dos engrachates de Wall Street, se fundiu em uma massa crítica de capital especulativo.
E essa massa acabou cedendo sob o próprio peso. Setembro de 1929 começou com uma demonstração de força que em retrospecto era o último suspiro da bolha. A bolsa de Nova York atingiu um estado de euforia máxima com o índice Dow Jones chegando a 381 pontos, o maior nível da história.
Aforia da época se refletia em figuras como Evangeline Adams, uma astróloga que alguns jornais apresentavam como a vidente da bolsa. Evangelin fez fortuna aconselhando clientes a escolher ações com base em seus signos do zodíaco, cobrando 50 por sessão. Entre os famosos que a consultavam estavam o ator Charles Chaplin e, segundo os comentários da época, JP Morgan.
Mas apenas dois dias após o pico, no início de setembro, a primeira rachadura significativa na confiança pública se abriu. Durante a 196ª Conferência Empresarial Nacional, o economista Roger Bson disparou uma provocação que ecoou por todo o mercado. Mais cedo ou mais tarde, vai dar-se um crash que atingirá as ações principais e causará um declínio de 60 a 80 pontos.
Fecha aspas. As palavras de BSON transmitidas rapidamente pelo Ticker da Dow Jones causaram uma queda de 3% no mercado. O episódio ficou conhecido como a queda Bapson.
Wall Street reagiu com desprezo. O renomado economista de Yale, Irvin Fischer, contrapôs Bson publicamente, afirmando que os preços não estavam altos demais e que o país vivia uma era de prosperidade crescente. Mas os sinais de abrandamento da economia dos Estados Unidos já se agravavam.
A produção de aço e os fretes ferroviários, por exemplo, estavam em queda. No entanto, a maioria dos investidores ainda insistia em acreditar que as velhas regras econômicas não se aplicavam mais. E se os tremores internos já eram preocupantes, o golpe na confiança global veio de Londres.
O financista britânico Clarence Hatry, até então visto como um sucesso estrondoso, foi preso sob acusação de utilizar documentos falsos, como certificados de ações ou garantias forjadas para obter empréstimos massivos de bancos e investidores. A prisão de Hatry e a ruína de seu império foram péssimas notícias para a bolsa de Londres e para todos os mercados dominados pelos brânicos. foi como um indicador definitivo para as autoridades monetárias de que a euforia especulativa dos anos 1920 havia chegado ao seu limite insustentável.
Fontes de Londres já informavam que altos funcionários do Banco da Inglaterra diziam em conversas privadas que a bolsa norte-americana tinha arrebentado. O governador do Banco da Inglaterra, Montag Norman, preparou um aumento nas taxas de juro para atrair dinheiro de volta para Londres, retirando liquidez de Wall Street. Investidores experientes como Jess Livermore usaram essas informações de bastidores para mudar de lado, apostando na queda de gigantes como USel, DE e RCA, acumulando milhões enquanto o público ainda celebrava os recordes do início do mês.
Mas mesmo com o mercado instável, os líderes financeiros mantinham uma fachada de normalidade. Charles Mitchell, chefe do National City Bank, partiu para quatro semanas de férias na Europa em 20 de setembro, garantindo à imprensa que não havia nenhuma preocupação enquanto a situação financeira nos Estados Unidos. Thomas Lamont enviou uma carta de 18 páginas ao presidente Hoover em tom esmagadoramente positivo, afirmando que o futuro dos Estados Unidos parecia brilhante e que nenhuma ação corretiva era necessária.
Mas enquanto Hoover recebia a carta otimista de Lamont, o mercado fechava mal. No dia 19 de outubro de 1929, um sábado, 1 bilhão de dólares em ativos evaporaram em poucos dias devido a uma avalanche de chamadas de margem. Corretores começaram a exigir que os clientes entregassem 50% de garantia em vez dos habituais 10%.
Mitchell retornou de suas férias e tentou acalmar o pânico, chamando aquela queda de reação saudável. Mas o pânico se tornaria generalizado nos dias seguintes. A quinta-feira daquela semana, 24 de outubro, ficaria conhecida na história como quinta-feira negra.
Foi um momento em que a estrutura financeira de Wall Street entrou em colapso técnico e psicológico. O Ticker, a máquina que imprimia as cotações em fita de papel, não conseguia acompanhar a velocidade das vendas. Com o ticker atrasado, o grande quadro de preços na sala de transações tornou-se irremediavelmente inexato.
Ninguém sabia o preço real das ações. E diante dessa incerteza, a única decisão considerada prudente pelos corretores era vender e abandonar o mercado imediatamente. O pânico não ficou confinado dentro do edifício.
Ele transbordou para o coração do distrito financeiro. Milhares de investidores, desanimados, reciosos e irritados, correram para o Wall Street para saber se haviam perdido tudo. A segurança foi reforçada até na entrada do banco JP Morgan, onde policiais ajudavam os porteiros a conter a multidão, que crescia em agitação.
No meio do caos, rumores sobre a solvência dos bancos e sobre o fechamento da bolsa corriam rapidamente entre as pessoas aglomeradas na esquina da Wall com a Broad. Para tentar estancar o pânico, os seis maiores banqueiros de Wall Street se reuniram no escritório da JP Morgan and Cole e criaram um fundo de 250 milhões de dólares. A ideia era comprar títulos de 37 das empresas mais importantes, as Blue Ships, que estavam sem compradores no pregão, e coube a um homem colocar o plano em prática.
Richard Whitey, vice-presidente da bolsa, atravessou o salão lotado e, em voz alta despejou ordens de compras gigantes nas ações mais castigadas, começando pela US Steel. O gesto teve efeito imediato e o pânico daquela quinta-feira foi temporariamente contido. O mercado atravessou uma sexta-feira e uma meia sessão de sábado sem grandes calamidades.
O New York Times chegou a escrever que aquela situação estava firmemente controlada e que a onda de histeria financeira havia terminado de vez. Mas a calmaria durou só um fim de semana. Na segunda-feira, 28 de outubro, o pânico voltou com tudo e dessa vez nem os banqueiros seguraram.
O DA despencou 13% num único dia. No dia seguinte, a terça-feira negra, 29 de outubro, o mercado simplesmente roeu. Mais de 16 milhões de ações foram jogadas no mercado.
Um volume jamais visto e o fundo de resgate virou o pó. No começo, parecia que o pior havia passado. Nos primeiros meses de 1930, a Bussa esboçou uma recuperação e o Wall Street respirou aliviada, convencida que a tempestade tinha sido só um susto.
Era uma ilusão. A quebra de outubro tinha sido apenas o stopim de uma reação em cadeia que levaria anos para se completar. O dinheiro que evaporou na bolsa era o mesmo que sustentava bancos, fábricas e empregos.
Sem crédito, empresas fecharam. Sem emprego, as pessoas pararam de consumir. E sem consumo, mais empresas fecharam.
Os bancos começaram a cair em ondas. Cada falência arrastava confiança na seguinte e multidões corriam para sacar suas economias antes que fosse tarde. Em pouco tempo, milhares de bancos haviam desaparecido e com eles as poupanças de uma vida inteira de famílias comuns.
No fundo do poço, em 1933, cerca de um quarto dos trabalhadores americanos estavam desempregados. eram aproximadamente 13 milhões de pessoas sem trabalho. A próspera nova era tinha virado a grande depressão.
[música] E a tragédia não ficou dentro das fronteiras americanas. O mundo ainda funcionava sob o padrão ouro, um sistema que amarrava as moedas. e tirava dos países a flexibilidade para reagir.
Quando os Estados Unidos puxaram o crédito de volta, a crise se espalhou pelo planeta. Em 1930, tentando proteger a indústria local, o Congresso americano aprovou a tarifa Smulth Hley, taxando milhares de produtos importados. O tiro saiu pela culatra.
Outros países revidaram com suas próprias tarifas. O comércio internacional despencou e a depressão americana virou uma depressão global. Na Alemanha, já sufocada pelas reparações de guerra e pela retirada de crédito americano, o desemprego e a miséria criaram um terreno perfeito para o discurso extremista.
A crise, que começou num pregão de Nova York, ajudou a abrir as portas para regimes autoritários que arrastariam o mundo para uma nova guerra. Enquanto o país afundava, uma pergunta crescia nas ruas. Quem tinha feito isso?
O Congresso abriu uma investigação para destrinchar os bastidores da bolsa e o que veio à tona enterrou de vez a aura de respeitabilidade dos banqueiros. Descobriu-se que Albert Wigan, presidente do Chase, tinha apostado contra as ações do próprio banco durante o crash, lucrando enquanto seus acionistas afundavam. Charles Mitchell, o Sunshine Charlie, que vendia ações como quem vende aspirador, foi empurrado para fora do National City e acabou no banco dos Réus, acusado de sonegar impostos.
E o destino mais simbólico foi o de Richard Whney. O mesmo homem aclamado como o herói que conteve o pânico de outubro, acabou anos depois declarando-se culpado de roubo indo para uma cela de Sing Sing. Os deuses do dinheiro tinham caído.
Em 1932, os americanos elegeram Franklin Delano Roosevelt com a promessa de tirar a nação da depressão. Ao tomar a posse, em março de 1933, Roosevelt encontrou um sistema bancário em frangalhos. Sua primeira medida foi drástica.
Fechou todos os bancos do país por alguns dias, um feriado bancário, para estancar o pânico e as corridas aos saques. Aos americanos apavorados, ele diz que a única coisa que deveriam temer o próprio medo. Depois veio o Neil Deal, um conjunto gigantesco de programas de emprego, obras públicas e amparo social que rede definiu o papel do estado na economia.
E das revelações sobre os bastidores de Wall Street, nasceu uma nova arquitetura financeira. A lei Glaz Steagle separou os bancos comuns dos de investimento para que ninguém mais pudesse apostar as economias dos clientes na bolsa. E pela primeira vez, o governo passou a garantir os depósitos das pessoas para que uma corrida ao banco nunca mais varresse a poupança de uma vida inteira.
O mundo financeiro que conhecemos hoje nasceu das cinzas de 1929, mas as leis miravam os bancos e as bolsas. Ninguém conseguiu legislar contra a natureza humana. No fundo, 1929 foi uma história sobre pessoas, sobre a crença mais antiga do mundo, a de que bons tempos durariam para sempre.
Cada geração acha que descobriu algo inédito. Uma nova economia, uma nova era, regras que não valiam mais para ela. E cada geração, mais cedo ou mais tarde descobre que estava errada.
Em 2008, os nomes eram outros e os instrumentos mais sofisticados, mas o roteiro era o mesmo: crédito farto, alavancagem perigosa e a certeza absoluta de que a festa não ia acabar. A mesma Wall Street continua de pé. As telas são mais rápidas, os números maiores e em algum lugar, neste exato momento, alguém está convencido de que dessa vez é diferente.
A verdade é que nunca é. Talvez seja justamente por isso que a história de 1929 continua tão atual.