Começou com a briga, mas deixa eu te contar do começo de verdade, que não é a briga. O começo de verdade é a vizinha. A dona Nair morava do outro lado do muro há 14 anos, quando tudo isso aconteceu. 14 anos. A gente tinha aquela relação de vizinho que é boa sem ser próxima. Sabe como é? Eu cumprimentava, ela cumprimentava. Às vezes eu jogava manga do pé que temos no quintal, por cima do muro para ela. Às vezes ela mandava bolo pelo filho. Era uma paz tranquila, daquelas que a gente nem percebe que tem até
perder. Aí meu marido Edson descobriu que o muro que dividia os dois terrenos estava meio torto. Chamou um engenheiro, o engenheiro fez a medição e daí virou o problema que virou, porque o muro estava 50 e poucos centímetros dentro do nosso terreno. Não era nada absurdo, mas era o bastante para fazer diferença. A gente ia ampliar a cozinha e aquele espaço fazia falta. Conversamos com a dona Nair. No começo foi educado, mas a dona Nair não era de recuar. Ela disse que aquele muro estava ali há mais tempo do que ela tinha memória, que o
terreno que ela comprou era aquele com aquele muro. E daí foi indo, foi crescendo e virou processo judicial. Pequenas causas, nada grandioso, mas o suficiente para transformar a relação da gente num gelo que cortava. A gente Passou o ito meses sem se falar, ito meses olhando para aquele muro [música] todo dia e sentindo o peso daquele silêncio do outro lado. Eu não sei exatamente quando a dona Nair começou a me olhar diferente, mas eu lembro de uma tarde, devia ser umas 4 horas, eu estava estendendo roupa no varal e eu vi ela me observando de
cima do muro de um jeito que não era raiva. Era diferente. Era um olhar quieto, calculado, longo demais para uma coincidência de olhares entre vizinhas. Eu desviei, terminei de estender a roupa, entrei em casa e esqueci ou tentei. Semanas depois, o Gustavo, meu filho mais novo, que tinha 8 anos na época, estava brincando no quintal de manhã cedo quando me chamou. Mãe, tem uma coisa aqui na porta. Eu pensei que era bicho, cachorro que tinha entrado, pomba, algum animal. Mas quando cheguei na porta dos fundos, a porta que dá pro quintal, viu um embrulhinho no
chão, pequenininho, cabia na palma da mão. Era feito de pano preto, amarrado com um barbante vermelho, com um nó bem apertado no meio. Olhei para aquilo por um bom tempo. Eu não sei te dizer exatamente o que eu senti naquele momento. Não foi medo, não foi aquele arrepio que as pessoas descrevem em história de terror. Foi uma coisa mais estranha que isso. Foi como se meu corpo soubesse de alguma coisa que minha cabeça ainda recusava entender. Um desconforto físico, uma leve náusea, Como quando você sente cheiro de comida estragada, mas ainda não viu o que
é. Seu organismo já reconheceu antes da sua consciência. Peguei o embrulho com dois dedos. Era pesado demais para ser só pano. Tinha alguma coisa dentro. Chamei o Edson. Ele olhou, franziu o senho, deu de ombros. Provavelmente é brincadeira de criança. Joga fora. Joguei no lixo comum. Embrulhei num saco e coloquei na calçada pro caminhão levar. Não pensei mais nisso. Devia ter pensado. O segundo embrulho apareceu quatro dias depois. Desta vez não estava na porta dos fundos, estava na soleira da porta da frente, enterrado raso na terra do vaso de samambaia, que fica do lado direito
da entrada. Eu só vi porque o Gustavo foi regar a planta e achou estranho que a terra estava mexida de uma forma diferente. Era igual ao primeiro, pano preto, barbante vermelho, o mesmo nó. Mas desta vez eu não joguei fora. Não sei porquê. Alguma coisa me segurou. Coloquei num saco zip que eu tinha na gaveta da cozinha e guardei em cima do armário do quarto. Naquela noite, o Edson não dormiu bem. Ficou virando na cama, levantou duas vezes para beber água. acordou de manhã com uma dor de cabeça que disse que nunca tinha sentido igual.
Uma pressão atrás dos olhos ele descreveu [música] como se alguém tivesse encostado um palito de dentro para fora. Tomou o remédio, foi Trabalhar. Eu fiquei olhando pro teto depois que ele saiu. Não estava relacionando ainda. Dois embrulhos, uma dor de cabeça. Não é o suficiente para ninguém sair correndo atrás de explicação sobrenatural. Mas tinha alguma coisa no ar da casa naquela manhã que eu não conseguia nomear. Um peso, como quando a casa está fechada há tempo demais e o ar fica parado. Só que eu tinha aberto as janelas bem cedo. O ar circulava normalmente, o
peso era outro. O terceiro embrulho eu mesma achei. Era uma terça-feira. Eu estava lavando o quintal com mangueira e quando estava empurrando a água em direção ao ralo que fica perto da parede dos fundos, perto do muro que dividia da dona Nair, vi um pedaço de pano preto saindo da terra. Estava enterrado ali, encostado no rodapé do muro, coberto de terra úmida, como se tivesse ali havia um bom tempo. Me abaixei, escavei com a mão, tirei com cuidado. Era o mesmo tipo de embrulho, mas quando eu o desembrulhei, e eu sei que não devia ter
desembrulhado, foi um impulso que não controlei. Encontrei o que estava dentro. Fui buscar o segundo no armário e abri os dois juntos ali mesmo no quintal, agachada no chão molhado. Dentro de cada embrulho tinha um monte de cabelo. Cabelo escuro, enrolado como um novelo pequeno. Tinha um osso. Não conseguia identificar o osso, mas era pequeno, branco, muito limpo. E tinha um papel amassado pequenininho, escrito à mão com uma letra que eu não reconhecia. O papel do segundo embrulho tinha meu nome escrito, Cristiane. Só o meu nome. O papel do terceiro embrulho tinha o nome do
Edson, mas os dois nomes estavam escritos ao contrário, como em espelho. Começando pela última letra, indo pra primeira. Eu fiquei ali agachada no quintal, com os três embrulhos nas mãos, com a mangueira ainda jogando água no chão. E pela primeira vez, desde que tudo começou, senti o medo de verdade. Não aquele desconforto vago de antes, medo mesmo. O tipo que sobe pela barriga devagar e fecha a garganta antes de você perceber que está com medo. Entrei, coloquei tudo na mesa da cozinha, sentei, fiquei olhando por um tempo que não sei dizer quanto foi. Então liguei
pra minha mãe. Minha mãe não ficou surpresa e isso me incomodou mais do que qualquer outra coisa até aquele ponto. A surpresa eu esperava, o silêncio dela do outro lado da linha. Não. Ela disse: "Filha, eu preciso te falar uma coisa sobre a dona Nair que eu devia ter falado há muito tempo. Aparentemente, minha mãe sabia há anos que a dona Nair tinha uma ligação com práticas que a gente chama de feitiçaria, macumba, bruxaria. O nome muda dependendo de quem está falando, mas a essência é a mesma. Não era segredo no bairro. Era uma dessas
coisas que todo mundo sabe, mas ninguém fala em voz alta. Porque falar em voz alta é chamar atenção pro assunto. E chamar atenção pro assunto é chamar atenção para si mesmo. Minha mãe disse que a Dona Nair tinha dado problema para pelo menos duas outras famílias da rua ao longo dos anos. Uma família que tinha brigado com ela sobre estacionamento na calçada. O filho do casal sofreu acidente de moto sem explicação um mês depois. Motoqueiro experiente numa rua reta, sem obstáculo, simplesmente perdeu o controle. Outra família que tinha denunciado o barulho à noite, a mulher
desenvolveu uma doença de pele que os médicos não conseguiam identificar, que desapareceu assim que a família se mudou de vez. eram histórias que circulavam baixinho, histórias que minha mãe tinha guardado porque achava que eu não ia querer ouvir. Ela me conhecia bem o suficiente para saber que eu ia dar de ombros e dizer que era coincidência. E você sabe de uma rezadeira? Eu perguntei. Ela ficou em silêncio um momento, depois disse um nome. Vou chamar ela de dona Lúcia porque a mulher ainda está viva e eu não vou trazer problema para ela por causa da
minha história. Minha mãe disse que dona Lúcia morava num bairro do outro lado da cidade, que ela não cobrava, que não tinha placa na porta nem nada que identificasse o que ela fazia e que você só chegava até ela se alguém de confiança te levasse. Mas filha, minha mãe acrescentou antes de desligar. Antes de ir lá, não mexe mais nesses embrulhos. Fecha num saco, não abre mais e não deixa as crianças perto. Fechei num saco, pus dentro de uma caixa de sapato, coloquei no alto do guarda-roupa do quarto de hóspedes. Naquela semana, o Gustavo parou
de falar, não foi gradual. Não foi que ele foi ficando quieto, Tímido, introspectivo. Foi que numa manhã de quinta-feira ele acordou, desceu pro café da manhã, se sentou à mesa e quando eu perguntei se queria pão com manteiga ou com requeijão, ele abriu a boca e nenhum som saiu. Ele não estava chorando, não estava com cara de susto, estava com uma expressão que me gelou o sangue porque era uma expressão que eu nunca tinha visto no rosto de uma criança. Era uma expressão vazia, como se alguém tivesse apagado alguma coisa de dentro dele enquanto ele
dormia. Levei pro médico naquele mesmo dia. O médico examinou, pediu exames, disse que não havia nada de errado com a laringe, com as cordas vocais, com absolutamente nada de físico. Pode ser algo emocional, ele disse, mutismo seletivo às vezes ocorre em crianças após algum estresse. Há algo acontecendo em casa? Eu quase ri. Não, de forma engraçada, daquele jeito que você riadequada paraa situação que é quase irônica. Marquei com psicólogo, mas enquanto a consulta não chegava, aqueles dias foram os mais longos da minha vida. O Gustavo ia pra escola, voltava, fazia tarefa, assistia a televisão, comia,
tomava banho, dormia, tudo sem emitir um único som. Ele respondia acenando com a cabeça, escrevia quando precisava comunicar alguma coisa mais complexa, Mas não falava. E aquela expressão vazia ia e vinha. Às vezes ele parecia completamente normal, olhos vivos sorrindo. Aí de repente o olhar apagava e ele ficava com aquela cara de ninguém, como se estivesse olhando para alguma coisa que só ele podia ver. Foram 11 dias assim. Tem uma coisa que aconteceu com Edson nesse período que eu preciso contar aqui. Eu tinha guardado essa parte porque é a mais íntima, mas não tem como
a história fazer sentido sem ela. O Edson começou a ter sonhos, não pesadelos no sentido clássico. Não era ele caindo, não era monstro, não era perseguição. Era um sonho que ele descrevia sempre igual, toda manhã, como se fosse um lugar que ele visitava regularmente. Ele estava em pé num quarto que não reconhecia. com as paredes de um vermelho escuro, quase marrom, e tinha uma mulher sentada de costas para ele numa cadeira de madeira. A mulher nunca virava o rosto. Ele tentava sair do quarto e não achava a porta. Tentava falar com a mulher e nenhum
som saía. E acordava todas as noites, o mesmo quarto, a mesma mulher de costas. Mas o que realmente assustava não era o sonho, era que ele acordava com arranhões. Não era toda a noite. Mas em pelo menos quatro das noites, durante aqueles 11 dias, o Edson acordou e eu vi marcas nas costas dele. Não eram ferimentos sérios, não eram cortes profundos, eram como arranhões de unha, três ou quatro linhas paralelas rosadas que iam clareando e Desapareciam ao longo do dia, mas estavam lá de manhã. Eu vi, fotografei no celular. Ele não sentia dor, não acordava
por causa das marcas, acordava por causa do sonho. Ia ao banheiro, olhava no espelho e via as marcas sem entender de onde tinham vindo. "Devo ter me coçado dormindo", ele dizia. "Mas marcas eram paralelas demais, regulares demais para serem coçadas aleatórias. No 12º dia, depois que o Gustavo parou de falar, minha mãe veio me buscar de carro bem cedo e fomos até a casa da dona Lúcia. A casa dela era pequena, pintada de amarelo desbotado, numa rua sem calçamento no fundo de um bairro que eu não conhecia. Não tinha nada na fachada que indicasse o
que ela fazia. Parecia a casa de qualquer aposentada. Tinha jardim de flores na frente, tinha um gato laranja dormindo num vaso quebrado, tinha cortina de crochê na janela. A porta estava aberta, minha mãe bateu na grade. Depois de um tempo, uma mulher apareceu pequena, magra, cabelos brancos cortados curtos, blusa de malha azul e saia comprida. Devia ter uns 70 anos, talvez mais. Ela me olhou antes de olhar para minha mãe, como se já soubesse qual das duas tinha o problema. Entra", ela disse. A sala da dona Lúcia tinha uma mesa de madeira no centro com
toalha branca. Tinha uma prateleira com santos, velas de diversas cores, plantas secas penduradas de cabeça para baixo, Garrafinhas de vidro escuro com tampas de cortiça. Cheirava a erva. Não era um cheiro ruim, era quase agradável, mais forte daquele jeito que fica impregnado na roupa. Alecrm, a ruda e algo mais amargo que eu não soube identificar. Ela me mandou sentar, perguntou meu nome, os nomes das pessoas que moravam comigo, foi anotando numa folha de papel com uma caligrafia lenta e muito regular. então perguntou o que eu tinha trazido. Tirei a caixa de sapato da sacola, coloquei
na mesa. Ela não abriu imediatamente, colocou a mão sobre a tampa da caixa. Ficou assim por um momento, de olhos fechados, com uma expressão que não era concentração nem transeite. Era simplesmente quietude, como alguém ouvindo um som muito distante, tentando distinguir as palavras sem se mover para não perder o fio. Quando abriu os olhos, não me olhou. Olhou pra caixa, abriu devagar, tirou o saco com os três embrulhos, colocou na mesa, desamarrou o saco e olhou para os embrulhos sem tocá-los, inclinando levemente a cabeça de um lado pro outro, como se estivesse lendo alguma coisa
que eu não conseguia ver. Ficou quieta por um longo tempo, um silêncio que eu não quis quebrar. Quando falou, foi baixo. Isso aqui não é serviço de gente daqui, não. Minha mãe e eu nos olhamos. Como assim? Eu perguntei. Ela não respondeu direto. Pegou um dos embrulhos com dois dedos, Virou de um lado pro outro, examinou o nó do barbante com uma atenção que me fez perceber que o nó importava de alguma forma que eu desconhecia. O nó é diferente, a maneira de amarrar. Isso é serviço de quem aprendeu fora daqui. Não é rezadeira de
Minas, não é de São Paulo também. Ela parou. é de outro lugar ou de alguém que aprendeu com alguém de muito longe. "O que tem dentro é grave?", minha mãe perguntou. Dona Lúcia demorou para responder. Ficou olhando pro embrulho do meio com aquele olhar de quem está pesando alguma coisa que não se mede em gramas. O trabalho em si não é o mais forte que eu já vi, mas é preciso. É feito com cuidado, com conhecimento. Quem fez sabe o que está fazendo. Colocou o embrulho de volta e foi feito em nome de duas pessoas,
com intenção de desfazer o que tem. Saúde, trabalho, paz de casa. E meu filho? Eu perguntei. Ele parou de falar 11 dias atrás. Ela me olhou. Criança pequena é mais fácil de afetar. Elas não têm proteção construída ainda. Não é que o trabalho foi feito para ele especificamente, foi feito para vocês dois, mas ele ficou no caminho. Senti aquela náusea de novo, mais forte do que da primeira vez. Tem solução? Tem sempre solução, ela disse de um jeito que não era reconfortante nem animador. Era apenas uma declaração de fato, neutra, como quem diz que tem
sempre outro caminho para chegar no mesmo lugar. Mas você precisa me trazer uma coisa de cada Pessoa nafetada. cabelo se tiver guardado, senão a roupa que cada um dormiu na noite antes de você vir aqui. E precisa me trazer o nome da pessoa que mandou fazer isso. Eu dei o nome da dona Nair. Dona Lúcia não demonstrou nenhuma reação ao nome. Anotou na mesma folha com a mesma caligrafia lenta. "Volta em três dias", ela disse. "Traz o que eu pedi e não passa na frente da casa dessa mulher antes de voltar aqui." Nos três dias
que se seguiram, o Edson teve mais dois sonhos com o quarto de paredes vermelhas e a mulher de costas. Acordou com marcas nas costas nas duas noites. O Gustavo continuou em silêncio. Eu fiz o que a dona Lúcia pediu e voltei com o cabelo e as roupas de dormir dos três. Ela olhou as fotos das marcas nas costas do Edson por um tempo. Então disse a coisa que ficou comigo até hoje, que eu repito para mim mesma às vezes em noites que não durmo bem. A mulher do sonho dele é real, não é criação da
cabeça dele. Alguém está mandando ela. Não perguntei mais nada. Não quis saber mais do que o necessário. O que a dona Lúcia fez naquele dia e nos dois seguintes, eu não vou descrever em detalhes. Não porque seja segredo, mas Porque eu não entendi completamente o que vi e eu não quero descrever errado. Posso dizer que envolveu os três embrulhos, as roupas, o cabelo, ervas que ela preparou numa tigela de barro, água que havia ficado do lado de fora na noite anterior e uma reza que ela fez em voz muito baixa. No final, ela embrulhou os
três embrulhos originais num pano branco e disse que ia cuidar de devolvê-los. Não perguntei o que isso significava. me deu um saquinho de pano branco com ervas para pendurar na porta da frente e outro igual para pendurar na cabeceira da cama do Gustavo. Me deu uma garrafa pequena de vidro escuro com um líquido levemente amarelado e disse para jogar na soleira da porta dos fundos uma vez por semana durante um mês. E daí? Eu perguntei. E daí está resolvido? Ela disse. O Gustavo falou no dia seguinte. Não foi dramático. Eu estava na cozinha preparando o
jantar. Ele entrou pedindo biscoito e só quando eu respondi é que percebi que ele tinha falado normalmente. Perguntei de novo, só para ter certeza. Ele falou de novo na voz dele, no tom de sempre, como se nada tivesse acontecido. Ele não lembrava ter ficado em silêncio. Quando perguntei com muito cuidado se estava bem, se alguma coisa tinha acontecido, ele me olhou com aquela cara de criança que não entende porque adulto pergunta coisa sem sentido e disse: "Tô bem, mãe. Por quê?" Não expliquei. Os sonhos do Edson pararam na mesma semana. As marcas nas costas Pararam
junto. Sobre a dona Nair, não sei o que aconteceu. Não tenho contato, não pergunto, não quero saber. O processo foi resolvido, o muro ajustado, a vida voltou. Mas tem uma coisa, uns dois meses depois de tudo, que eu não consigo tirar da cabeça. Eu estava passando de carro pela rua dela, num caminho que não tinha como evitar, e vi ela na calçada em frente à casa de costas parada. Quando meu carro passou, ela virou devagar e me olhou. Não foi olhar de raiva, não era ameaça. Era o mesmo olhar quieto e calculado de quando ela
estava em cima do muro naquela tarde no quintal. Eu acelerei, olhei pro retrovisor e ela ainda estava me olhando. Não passo mais por aquela rua. Dou volta de 10 minutos a mais no caminho e os saquinhos da dona Lúcia ainda estão nas portas. Eu troco quando as ervas secam demais. Nunca parei de trocar. Provavelmente nunca vou parar. Minha mãe me perguntou uma vez se eu acredito agora. Depois de tudo. Eu disse que eu não sei se é a palavra certa. Acreditar pressupõe que você tinha uma escolha. Eu não tive. Eu vi. Isso é diferente de
acreditar. Existe um tipo de segredo que não é guardado por escolha. É guardado porque quem sabia morreu sem passar adiante. E depois que essa pessoa morre, o segredo não desaparece. Ele só muda de forma. Vira um objeto guardado no fundo de um baú. Vira um cômodo que ninguém abre. Vira um assunto que toda a família desvia sem combinar, como água que desvia de pedra. Vira alguma coisa que está ali, que você sente que está ali, mas que ninguém nomeia. A caixinha de madeira era isso. Era o segredo da minha mãe que ela levou embora e
que nos deixou sem saber o que era, sem saber o que fazer, sem saber que ao abrir estaríamos abrindo outra coisa junto. Minha mãe se chamava Olindina. Morreu com 78 anos de insuficiência cardíaca numa manhã de inverno de 2019. Não foi morte sofrida, foi uma morte como ela seria, quieta, sem alarde, ela era assim a vida inteira, quieta, guardada, uma mulher que sabia de muitas coisas e falava de poucas. Filhos éramos quatro, eu, o Reginaldo, o Toninho e a Ângela. Nos quatro dias que se seguiram ao enterro, ficamos todos na casa dela em Diamantina, organizando
o que tinha que organizar. Uma casa de mais de 40 anos acumula muita coisa. Minha mãe não jogava fora nada. Tinha gavetas dentro de gavetas, [música] caixas dentro de caixas, guardadas em ordens que só ela entendia. Foi na tarde do terceiro dia que o Reginaldo encontrou a caixinha. Ele estava arrumando o quarto de despejo, aquele cômodo nos fundos que minha mãe usava para guardar as coisas que não tinham lugar certo, mas que ela não queria descartar. Tinha caixas de sapato com fotografias, tinha bilhetes de trem dos anos 70, tinha panelas que Ela jurava que iam
ser úteis um dia. No meio de tudo isso, no fundo de uma caixa maior de papelão, dentro de um embrulho de jornal amarelado, estava a caixinha. Era pequena, cabia nas duas mãos, feita de madeira escura, que eu depois fui descobrir que era jacarandá. Tinha uns entalhes simples nas tampas, nada elaborado, mas feitos com cuidado. Estava fechada com um pequeno trinco de metal enferrujado. Não tinha nome, não tinha identificação, não tinha nada escrito. O Reginaldo trouxe pra sala onde estávamos os quatro. A gente olhou para aquela caixinha por um tempo antes de qualquer um dizer alguma
coisa. "Nunca vi isso na vida", disse a Angela. "Nós quatro confirmamos. Ninguém lembrava de ter visto a caixinha em lugar nenhum da casa. E a casa da minha mãe a gente conhecia bem. Crescemos todos lá. Éramos em casa com frequência. A caixinha parecia ter aparecido de outro lugar, de outro tempo. O trinco estava duro, mas não travado. O Reginaldo abriu. Dentro havia um terço. Um terço velho de contas de madeira desgastadas com uma cruzinha de metal escurecido, comum daqueles que vovós de antigamente tinham aos montes. Mas o terço estava enrolado num pano vermelho bem escuro,
quase marrom, e o pano estava amarrado com linha preta. Não era amarrado de qualquer jeito, era amarrado com nós. Sete nós igualmente espaçados, cada um apertado com uma precisão que ficava claro que não era por acaso. A Ângela quis tocar. Eu puxei o braço dela sem saber porquê. Espera eu disse. Ninguém perguntou o que eu estava esperando. Ninguém perguntou porquê. A gente ficou olhando para aquilo, os quatro em volta da mesa da sala, com aquela luz de fim de tarde entrando pela janela. E eu acho que todos nós sentimos a mesma coisa ao mesmo tempo,
que aquilo não devia ser aberto, que havia uma razão pela qual minha mãe tinha guardado aquilo, embrulhado em jornal no fundo de uma caixa, num cômodo que ninguém frequentava. Então, o Reginaldo foi o primeiro a falar o que estava pensando. A mãe não deixava ninguém tocar nessa caixa porque provavelmente nem sabia o que era. Alguém deixou para ela ou ela guardou por guardar. A gente não precisa de mistério em cima de mistério. Vou desfazer os nós e ver o que é. Ele desfez. Sete nós um por um. Com a paciência que o Reginaldo sempre teve
para as coisas práticas. A linha foi cedendo, o pano vermelho abriu. Dentro do pano, junto com o terço, havia um papel dobrado. O papel era velho, frágil, com as dobras quase partindo. O Reginaldo abriu com cuidado. A letra era miúda, inclinada, de uma época em que a gente ainda escrevia de um jeito que hoje parece quase formal. eram dois nomes. O nome da minha avó materna, Domingas, e o nome de uma outra mulher que nenhum de nós reconheceu. Abaixo dos dois nomes, escrito com uma pressão de caneta mais forte, como se a pessoa tivesse querendo
que as palavras atravessassem o papel. Enquanto este Laço existir, o que foi prometido permanece. Ficamos todos quietos. O que isso significa? Perguntou o Toninho. Ninguém respondeu. Ninguém sabia. Ninguém foi dormir bem naquela noite. O mês seguinte foi o começo de tudo. Reginaldo foi o primeiro. Ele tinha uma marcenaria que tocava há 13 anos, estável, com clientela fixa, nunca tinha tido problema sério. No mês seguinte, ao enterro da mãe, num espaço de 22 dias, ele perdeu três contratos grandes que estavam fechados. Um fornecedor sumiu com metade de um pagamento adiantado e a esposa dele, Lourdes, pediu
separação depois de 19 anos de casamento. Não era um casamento perfeito, eu sei, mas não era um casamento em crise assim. De repente, a Lourdes disse que acordou um dia e simplesmente não conseguia mais. Não soube explicar melhor do que isso. O Toninho foi o segundo. Ele tinha trabalhado 16 anos numa empresa de logística em Belo Horizonte e era supervisor de setor. Era o filho que tinha dado certo em termos de carreira, como a gente diz. No mês seguinte ao enterro, sem nenhuma advertência prévia, sem nenhum problema de desempenho que ele conhecesse, foi chamado para
uma reunião e dispensado. A empresa estava Reestruturando, disseram, mas era só ele no setor dele, na equipe dele. No mesmo período, bateu o carro num muro de uma garagem, numa manobra que ele diz que já fez 1000 vezes e nunca teve problema. ficou 40 dias no hospital com fratura na clavícula, nas costelas e um traumatismo craniano leve que deixou sequela de dores de cabeça por meses. A Ângela foi a terceira. Ela começou a ser acordada toda a madrugada por uma presença que se sentava na beirada da cama dela. Não era visão, não era sonho, era
uma sensação física de peso no colchão, do lado onde o marido dela não dormia e uma sensação de ser observada de tão perto que ela sentia o calor ela descreveu. Uma vez ela acendeu o abajur rápido e não viu nada, mas o peso sumia assim que a luz acendia e voltava um tempinho depois que ela apagava. Isso por semanas. O marido dela dormia do lado e não acordava, não sentia nada. Era só para ela. Eu não fui afetada. Sou a mais velha dos quatro. Fui a única que não tocou a caixinha. Não abri os nós,
não peguei o terço na mão e eu fui a única que não foi afetada. Quando o Toninho saiu do hospital e a gente se reuniu pela primeira vez desde o enterro em torno da mesa que desta vez era na minha casa, a gente não precisou dizer em voz alta o que estava pensando. Estava na cara de todos. Tinha uma ligação. A questão era Ligação com o quê? Foi a Ângela que sugeriu procurar alguém. Ela tinha uma colega de trabalho que anos antes havia passado por uma situação parecida, não igual, mas parecida, e tinha sido ajudada
por um senhor que ela descrevia como curandeiro. Não era de Diamantina, era de uma cidade menor na região. Vou chamar ele de seu Alcindo. Fomos eu e a Ângela primeiro. Seu Alcindo era um homem de uns 60 e poucos anos, muito calmo, com uma fazenda pequena a uns 15 km da cidade. recebeu a gente na varanda com café, sem cerimônia. Ouviu tudo, não interrompeu uma só vez. Quando a Ângela terminou de contar, ele ficou em silêncio por um bom tempo, olhando pro horizonte, e então disse: "Me traz a caixinha". Voltamos dois dias depois com a
caixinha. Ele a colocou na mesa entre nós e ficou olhando para ela por um tempo sem tocá-la. Esse terço está amarrado há muitos anos ele disse, os nós não são de quem sabe [música] muito, são de quem sabe o suficiente. E o suficiente, dependendo do que foi prometido, já é muito. O que foi prometido? Eu perguntei. Ele me olhou. Isso eu não posso saber só pelos nós e pelo pano, mas o papel diz que havia um acordo. Um acordo entre duas mulheres. Ele pausou. Uma delas era sua avó. E o acordo era o quê? Acordo
desse tipo com o objeto físico como âncora, geralmente é uma das duas coisas. Ou é proteção de alguma coisa ou é servidão de alguma coisa. Proteção significa que enquanto o Laço durar, alguma coisa permanece afastada. Servidão significa que enquanto o laço durar, alguma coisa permanece presa. Fizemos as perguntas óbvias. Ele não tinha respostas definitivas. disse que para saber com mais certeza precisaria de informações sobre a avó, sobre quem era a outra mulher, sobre o período em que o acordo tinha sido feito. Começamos a cavar. Levou semanas, ligações para parentes velhos que ainda estavam vivos, viagens
a cartórios buscando registros, conversas com moradores antigos de Diamantina que conheciam a família da minha avó. A história que foi emergindo pedaço por pedaço era a seguinte. A minha avó Domingas, nos anos 40 tinha uma inimiga, uma mulher com quem tinha brigado por uma questão de terra, assim como as brigas de terra que vem se repetindo pela história de Minas como um padrão, como um fado. A outra mulher, e aqui o nome importa menos do que o que ela representava, era conhecida na região como alguém que entendia de coisas. Não era benzedeira, era outra coisa.
A briga escalou, coisas aconteceram com a família da minha avó, doenças, perdas, coisas que na época foram explicadas como azar, como destino, mas que as pessoas mais velhas da cidade associavam com a inimizade. Em algum momento, minha avó foi até alguém, um homem ou uma mulher, ninguém sabia dizer ao certo. E esse alguém fez um acordo. O que ficou claro a partir de Fragmentos de memória de pessoas muito velhas, é que o acordo envolvia um custo. Não era um favor gratuito, era uma troca. E a troca tinha natureza que ninguém conseguia ou queria especificar completamente.
Mas o pano vermelho com sete nós era a âncora física desse custo. Enquanto os nós estivessem intactos, o custo estava suspenso. Quando os nós fossem desfeitos, o custo voltava a ser cobrado. Minha avó tinha guardado aquilo com a intenção de que nunca fosse aberto. tinha passado pra minha mãe, provavelmente sem explicar completamente o que era, apenas com a instrução de guardar e nunca abrir. E minha mãe tinha guardado, talvez sem entender completamente o porquê, durante décadas até morrer. E nós, sem saber, tínhamos aberto. Seu Alcindo nos recebeu de novo quando eu trouxe tudo que tinha
descoberto. Ouviu com atenção. Ficou quieto mais tempo do que antes. Então disse que ia tentar refazer os nós. Mas refazer não é a mesma coisa que desfazer nunca foi. Ele disse: "O que foi solto foi solto. Agora o trabalho é outro. É colocar de volta o que saiu, mas de um jeito diferente, porque o original não existe mais. Não vou descrever o que seu Alcindo fez. Não porque seja segredo, mas porque eu não entendo completamente o que vi. E aquilo que não se entende completamente não se deve descrever de qualquer jeito com as palavras erradas,
como se fosse simples. O que posso dizer é que levou três sessões que envolveu o terço, o pano, a caixinha e coisas que Ele providenciou. que em cada sessão havia uma rezas em voz baixa que eu não conseguia entender as palavras, mas que tinha um ritmo que ficava dentro de você como música que você não lembra de ter ouvido, mas que está ali. O Reginaldo está reconstruindo o negócio. Leva tempo, mas está indo. A Lourdes não voltou e esse capítulo eu não sei o que dizer porque seu alcindo foi direto. Nem tudo que se perdeu
nesse período foi por causa do trabalho. Parte é vida. Parte é o que já estava vindo. A Ângela não é mais acordada à noite. O Toninho saiu do hospital, encontrou outro emprego e as dores de cabeça foram passando com o tempo. A caixinha está aqui comigo agora. Seu Alcindo disse que não devo jogar fora, não devo destruir, não devo repassar para ninguém. Disse que devo guardar do mesmo jeito que minha mãe guardou no fundo de algum lugar embrulhada e deixar estar. Às vezes eu fico olhando para ela e pensando no quanto minha mãe sabia que
não nos contou, pensando no quanto minha avó carregou em silêncio para nos proteger de alguma coisa que [música] nem sabíamos que existia. E pensando que agora eu sou a mais velha e que algum dia vai ser minha vez de guardar alguma coisa que eu não vou explicar completamente, esperando que quem vem depois tenha sabedoria suficiente para deixar os nós onde estão. Relato Z 4, o sítio do córrego fundo. Ela apontou o lugar. Semanas depois, encontramos ossos exatamente ali. Narrado por Wonders, 44 anos, Patos de Minas, MG estrutura, Cronologia invertida, começa no presente e vai recuando
até a noite do evento. Hoje, com 44 anos, eu tenho uma regra que todo mundo que me conhece considera estranha. Eu não vou à festa junina, nenhuma. Não importa quem convida, não importa a razão, não importa o lugar. As pessoas acham que é alguma fobia ou que eu não gosto de forró ou que é alguma coisa de infância que não foi boa. Eu deixo pensar. É mais fácil deixar pensar do que explicar, mas a razão real é que toda vez que eu entro num arraiá com as bandeirinhas coloridas e a fogueira no centro e as
pessoas dançando, alguma coisa acontece com o meu corpo que não consigo controlar. Minha visão vai embora. Por um segundo, às vezes dois, eu não estou mais ali. Estou no terreiro do sítio. É noite. As bandeirinhas são as mesmas, a fogueira é a mesma. E no meio das pessoas que dançam tem a minha prima Silvana, 16 anos, parada no centro, com os braços caídos e o rosto virado pro mato, falando numa voz que não era dela. Passa o segundo. A visão passa. Eu estou de volta onde estou, mas o cheiro fica. O cheiro de terra molhada
e fumaça de lenha que tinha naquela noite fica por um bom tempo depois. Presente o suficiente para eu ter que procurar um lugar para sentar e respirar. [música] É isso que acontece. E é por isso que eu não vou à festa junina. Agora eu preciso ir mais atrás. Preciso ir para 1997, Quando eu tinha 17 anos e o meu avô tinha comprado o sítio. O sítio do córrego fundo ficava a uns 15 km de Patos de Minas. Numa estrada de terra que a gente levava quase 40 minutos para percorrer mesmo com carro bom. Era terra
de pasto, área verde, nascente de água no fundo. Meu avô Benedito tinha comprado de um homem chamado Cipriano, que era do município, mas que a gente não conhecia. A negociação foi rápida e é um preço que meu avô considerou bom demais. E é o tipo de coisa que, em retrospecto, parece um sinal que ninguém soube ler na hora. Depois que tudo aconteceu, um vizinho da região nos contou que o Cipriano não tinha saído do sítio porque queria, tinha saído correndo nos termos dele. E que quando meu avô foi regularizar a papelada no cartório da cidade,
o Cipriano nem esperou para receber todo o dinheiro em mãos. Mandou um sobrinho buscar o saldo. Ninguém perguntou porquê. Devia ter perguntado. Naquele primeiro ano, a gente ia ao sítio quase todo o final de semana. Meu avô estava cheio de planos, construir um rancho maior, fazer um açude, plantar pomar. Minha família inteira foi envolvida naquele projeto com o entusiasmo que só projeto novo tem. Era bom, era saudável, era o tipo de coisa que faz família parecer família. O sítio em si não tinha nada de particularmente estranho. Não era lugar que dava aquela sensação de desconforto
Que as pessoas descrevem. Não era lugar escuro, não tinha história de assombração que circulasse. Era só um sítio, terra, mato na borda, pastagem no centro, uma casinha simples de dois cômodos que meu avô estava ampliando aos poucos. E foi lá que, em junho de 1997, a família inteira se reuniu pra festa junina. Éramos muitos. avós, filhos, netos, primos, alguns vizinhos e amigos que meu avô tinha feito na região. Devia ter umas 30 pessoas naquele terreiro. Tinha forró tocando num rádio grande, tinha comida, tinha fogueira, tinha o cheiro de milho e de quentão no ar que
eu não consigo sentir até hoje sem que meu estômago vire. Silvana era prima de segundo grau, filha da prima da minha mãe, então a gente não se via todo dia, mas nas reuniões de família a gente sempre se entendia bem. Ela tinha 16 anos naquele junho. Era uma menina normal, alegre, do tipo que puxa os primos mais novos para dançar, sem deixar eles ficarem parados no canto. Até às 10:30 da noite, tudo foi normal. Por volta das 10:30, eu estava do lado do meu avô, perto da fogueira, quando alguém disse: "Cadê a Silvana?" A gente
Olhou em volta. Ela tinha estado dançando 2 minutos antes. Naquele espaço de 2 minutos, ela tinha parado. Encontramos ela no centro do terreiro, parada, com os braços caídos ao longo do corpo, os pés juntos, a cabeça levemente inclinada, virada pro mato, que ficava no limite do terreiro, onde a luz das festas não alcançava e começava o escuro. Achamos que ela estava passando mal. Minha tia foi até ela primeiro, chamou pelo nome Silvana. não respondeu. A minha tia tocou no ombro dela. Silvana virou devagar. O rosto dela estava Eu tenho dificuldade com essa parte mesmo depois
de todos esses anos. O rosto dela estava com a expressão que eu não consigo descrever com precisão, porque não é uma expressão que eu vi antes ou depois em nenhum ser humano. Não era terror, não era transe de olhos em branco, como a gente vê em filme. Era um rosto com feições normais, olhos abertos, olhando com foco completo. Mas era como se alguém de dentro daquele rosto não fosse ela, como se houvesse outra presença dentro daquelas feições conhecidas. E então ela falou: "A voz era mais grossa, mais velha. Não era uma voz que parecia forçada.
Não era ela tentando engrossar a voz. Era diferente de um jeito que não tinha explicação mecânica, que não era afinar a garganta ou mudar o tom. Era outra voz vindo daquela boca. Uma voz cansada, lenta, Que pausava em lugares estranhos no meio das frases. O meu avô se aproximou. Ele era um homem de 60 e poucos anos, criado no interior de Minas, que tinha vivido mais coisa do que a maioria de nós ao redor. Quando ele chegou perto da Silvana, eu vi alguma coisa passar pelo rosto dele que eu nunca tinha visto no rosto do
meu avô naqueles 60 anos. reconhecimento, não susto, não confusão, [música] reconhecimento, porque ele entendeu o que ela estava falando. Mais tarde, quando eu perguntei o que era aquela língua, ele disse que era uma maneira de falar muito antiga da região, um dialeto que ele tinha ouvido de pessoas muito velhas quando era criança, que não se usava mais. Palavras misturadas com expressões que já ninguém usava, uma forma de falar que não existia mais na boca de ninguém que tivesse menos de 90 anos. E a Silvana tinha 16. Ela falou por talvez 3 4 minutos. Eu não
entendi nada do que ela disse, mas ficou em mim o ritmo daquilo, a cadência daquelas palavras que eram e não eram português, aquela voz que não tinha jogo de cintura, que não inflectes que a gente conhece. E então ela parou. No meio de uma frase, parou, ficou olhando pro mato por uns 10 segundos e então apontou com o braço esticado, o dedo indicador apontando pro chão numa área que ficava uns 5, 6 m para dentro do mato. A terra ali era plana, sem nenhuma diferença visível em relação ao resto. Ficou com o braço apontado por
talvez 30 segundos. Então, abaixou o Braço, piscou, olhou em volta e disse com a voz dela: "O que foi? O que aconteceu?" Ela não lembrava de nada. Quando a gente explicou, ela não acreditou. Ficou olhando pra gente como quem acha que estão pregando uma peça. Precisou de duas pessoas diferentes, contando o mesmo para ela, aceitar que alguma coisa tinha acontecido. A festa terminou. Ninguém tinha muito ânimo para continuar. As pessoas foram indo. Meu avô ficou quieto o resto da noite. Não quis falar sobre o que tinha acontecido. Apenas disse: "Não, menina, não. Esse sítio tem
coisa. O que a voz na Silvana tinha dito, meu avô nos contou dias depois, com relutância, pedaço por pedaço, como quem está abrindo uma caixa de dentro de outra caixa. Ela tinha dito o nome de uma mulher, tinha descrito coisas da vida dessa mulher, detalhes de uma vida rural do início do século que eram específicos demais para ser invenção. Tinha falado sobre uma casa, sobre filhos que eram criados ali. tinha falado sobre uma morte que não tinha sido correta e tinha indicado onde estava. Semanas depois, meu avô foi escavar na área da nascente para fazer
a cisterna que estava planejando. Os peões que trabalhavam com ele chamaram meu avô quando a pá bateu em alguma coisa que não era pedra. Meu avô mandou parar o Serviço, chamou os outros, cavaram com cuidado. Eram ossos humanos. O laudo do IML disse que eram de uma mulher adulta, provavelmente morta entre 50 e 100 anos. antes daquela data, com marcas no crânio compatíveis com traumatismo. Não houve investigação criminal por conta da antiguidade dos ossos. Foram coletados, encaminhados e, provavelmente descansam hoje em alguma gaveta de arquivo de ossário público. A Silvana nunca voltou ao sítio. Eu
nunca mais fui à festa junina. Meu avô vendeu o sítio dois anos depois. Não conseguia mais trabalhar naquelas terras sem pensar no que estava embaixo delas, no que tinha sido deixado ali, no que tinha precisado esperar décadas até encontrar alguém que pudesse ouvir. Tem uma coisa que o meu avô me disse pouco antes de morrer, uns 15 anos depois de tudo aquilo, que eu fico pensando até hoje. Ele disse que a voz, no final, antes de apontar o lugar, tinha dito uma frase que ele só então me contou. tinha omitido durante todos aqueles anos porque
ele não tinha certeza do que fazer com ela. A frase era traduzida daquele dialeto velho: "Eu não queria assustar, eu só queria que alguém soubesse onde eu estava. Meu avô disse isso com aquela calma de homem velho, que já colocou as coisas nos lugares certos da memória. Mas eu vi que os olhos dele estavam úmidos. Eu entendo, porque agora eu também não consigo ficar bravo com aquilo que aconteceu, com o que aquela voz fez com A Silvana. Não consigo sentir raiva, não consigo sentir medo da mesma forma. Só consigo pensar que ela ficou lá por
décadas sozinha embaixo daquela terra e que o único jeito que encontrou foi esperar alguém com 16 anos que estava dançando no arraiá numa noite de junho. E eu ainda não sei o que fazer com esse pensamento. Hoje eu tenho 44 anos e não vou à festa junina nunca mais. Não importa quem chama, não importa o motivo. As pessoas acham que é birra, que é coisa de adulto mal humorado, que eu não gosto de forró. Deixa eu pensar, é mais fácil do que explicar. A razão de verdade é que toda vez que eu entro num arraiá
com bandeirinha colorida e fogueira no centro, alguma coisa acontece com o meu corpo que não consigo controlar. A visão vai embora por um segundo, às vezes dois, eu não estou mais ali. Estou no terreiro do sítio. É noite. As bandeirinhas são as mesmas, a fogueira é a mesma. E no meio das pessoas que dançam tem minha prima Silvana, 16 anos, parada no centro com os braços caídos e o rosto virado pro mato, falando numa voz que não era dela. Passa o segundo, volto onde estou, mas o cheiro fica. cheiro de terra molhada e fumaça de
lenha que tinha naquela noite. Fica tempo depois. Presente o suficiente para eu precisar sentar em algum canto e Respirar quieto por uns minutos. Isso acontece sempre, por isso não vou mais. Mas a história começa antes daquela noite. Começa quando meu avô comprou o sítio. O sítio do córrego fundo ficava a uns 15 km de Patos de Minas, estrada de terra. Meu avô Benedito comprou de um homem chamado Cipriano em 1996. A negociação foi estranhamente rápida e o preço foi bom demais para ser completamente normal. Mas meu avô era homem que via preço bom e não
fazia pergunta. Só depois, quando um vizinho da região nos conheceu melhor e foi abrindo a guarda, é que soubemos que o Cipriano não tinha saído por escolha, tinha saído com pressa. Quando meu avô foi ao cartório regularizar a papelada, o Cipriano mandou o sobrinho buscar o restante do pagamento. Ele mesmo não quis ir. Ninguém perguntou porquê. Todo mundo devia ter perguntado. Aquele primeiro ano foi bom. Minha família inteira foi envolvida no projeto do sítio. Todo final de semana a gente ia, ajudava com o que tinha que fazer, ficava para almoço, às vezes ficava para dormir.
Meu avô estava construindo o rancho maior, planejando aude, plantando pomar. Era aquele tipo de coisa que faz família parecer família, sabe? Gente reunida em torno de alguma coisa que está sendo construída. O sítio não tinha nada de estranho que eu lembrasse. Não era lugar que passava a sensação ruim. Era só um sítio. Terra, pasto, mato nas bordas, nascente nos fundos, casinha simples que meu avô estava ampliando. Em junho de 1997, a família inteira foi pra festa junina do sítio. Devia ter umas 30 pessoas no terreiro. Forró no rádio, comida, quentão, fogueira. O cheiro de milho
e de lenha que eu não consigo sentir até hoje sem que o estômago vire. Até às 10:30 da noite foi tudo normal. Daí alguém perguntou: "Cadê a Silvana?" Ela tinha estado dançando 2 minutos antes. A gente olhou em volta e encontrou ela no centro do terreiro, parada, braços caídos ao longo do corpo, pés juntos, cabeça levemente inclinada pra frente, virada pro mato, que ficava no limite do terreiro, onde a luz das festas não alcançava. A tia dela foi primeiro pensando que ela estava passando mal. Chamou pelo nome, Silvana não respondeu. A tia tocou no ombro
e ela virou. O rosto dela tinha a expressão que eu não sei descrever adequadamente, mesmo depois de 26 anos pensando nisso. Não era transe de olhos revirados, como a gente vê em representação de possessão em filme. Era um rosto com as feições normais dela, olhos abertos olhando com foco completo. Mas não era ela olhando por dentro daquele rosto, era outro alguém, como se tivessem trocado quem estava morando ali. Aí ela falou: "A voz Era mais grossa, mais velha. Não parecia ela engrossando a voz propositalmente. Não era esse tipo de diferença. Era outra voz saindo daquela
garganta. Uma voz cansada que pausava no meio das frases em lugares que voz humana normal não pausa. Meu avô se aproximou. Ele tinha 60 e poucos anos, criado no interior de Minas. Quer dizer que ele tinha vivido muita coisa que a maioria dos presentes ali não tinha. Quando ele chegou perto da Silvana, eu vi uma coisa passar no rosto dele que eu nunca tinha visto ali. Não era susto, era reconhecimento, porque ele entendeu o que ela estava falando. Mais tarde, quando eu perguntei o que era aquela língua, ele disse que era um modo de falar
muito antigo daquela região, dialeto que ele tinha ouvido de gente muito velha quando era criança pequena, que não existia mais na boca de ninguém que tivesse menos de 90 anos. Palavras misturadas com expressões que já ninguém usava, jeito de construir frase que tinha sumido. E a Silvana tinha 16 e nunca tinha ouvido isso na vida. Ela falou por uns 4 minutos. Eu não entendi palavra nenhuma, mas o ritmo daquilo ficou em mim. A cadência, a voz sem inflexão, sem o vai e vem que as vozes normais t. Então parou no meio de uma frase, ficou
olhando pro mato por uns 10 Segundos e apontou. Braço esticado, dedo indicador apontando pro chão numa área uns 5 m para dentro do mato. Chão plano, sem nenhuma diferença visível em relação ao resto. Ficou com o braço apontado por talvez 30 segundos. Abaixou, piscou, olhou em volta, disse com a voz dela: "O que foi? O que aconteceu?" Ela não lembrava de nada. Quando a gente explicou, ela não acreditou. ficou olhando como quem acha que estão pregando peça. Precisou de três pessoas diferentes confirmando a mesma coisa para ela aceitar que alguma coisa tinha acontecido com ela.
A festa acabou. Ninguém tinha ânimo para continuar. Meu avô ficou quieto o resto da noite. Só disse uma coisa antes de dormir. Esse sítio tem coisa. O que a voz tinha dito, ele foi contando nos dias seguintes, pedaço por pedaço, com aquela relutância de homem que não quer assustar, mas também não aguenta guardar sozinho. A voz tinha dito um nome de mulher, tinha descrito detalhes de vida rural do início do século passado, tinha falado sobre uma casa, sobre filhos, sobre uma morte que não tinha sido correta e tinha apontado onde estava. Semanas depois, meu avô
foi fazer cisterna numa área próxima à nascente. Os homens que trabalhavam com ele pararam quando a pá bateu em alguma coisa que não era pedra. Meu avô mandou escavar com cuidado. Eram ossos humanos. O laudo disse que era de mulher adulta, morta há entre 50 e 100 Anos daquela data, com marca no crânio compatível com traumatismo. Não investigaram por conta da antiguidade. Os ossos foram recolhidos, encaminhados e devem estar em algum arquivo de ossário público de Minas até hoje. A Silvana nunca mais foi ao sítio depois daquilo. Meu avô vendeu dois anos depois. disse que
não conseguia mais trabalhar naquelas terras, sabendo o que tinha estado embaixo delas todos aqueles anos. Tem uma coisa que meu avô me disse pouco antes de morrer, uns 15 anos depois daquela noite. Ele tinha omitido uma parte do que a voz disse me contou, porque não sabia o que fazer com ela. A última frase, antes de a Silvana apontar, traduzida daquele dialeto antigo, eu não queria assustar. Eu só queria que alguém soubesse onde eu estava. Meu avô disse isso com a calma de homem velho, que já arrumou as coisas nos lugares certos da memória. Mas
os olhos estavam úmidos quando disse: "Eu entendo, porque eu também não consigo ficar bravo com o que aconteceu, com o que aquela voz fez com a Silvana. Não consigo sentir raiva da mesma forma que sentia antes de saber a última frase. Só consigo pensar nela ficando ali por décadas embaixo daquela terra, sozinha, esperando alguém que pudesse ouvir. E o único jeito que encontrou foi esperar uma menina de 16 anos que estava dançando num arraiá numa noite de junho de 1997. Ainda não sei o que fazer com esse pensamento, mas ele não foi embora em 26
anos. Duvido que vá agora. Eu faço essa rota faz 22 anos. BH, a Montes Claros, pelas 135, carregado na ida, carregado na volta, semana sim, semana não, às vezes semana sim, semana sim. Conheço cada pedaço daquela estrada. Conheço onde o asfalto afunda no inverno. Conheço onde a neblina fecha mais cedo. Conheço os postos que tem café bom e os que tm café de plástico. Não sou caminhoneiro de ver coisa na estrada. Caminhoneiro velho sabe distinguir cansaço de realidade. Então, não é fácil contar isso, tá? Não é fácil porque eu sei como soua. Mas aconteceu três
vezes e na terceira eu parei de tentar achar explicação. Primeira vez foi há uns se anos. Eu ia carregado, saí de BH com atraso por causa de problema no carregamento. Peguei o trecho mais pesado já depois da 1 da manhã. Aquele trecho depois do posto fechado que tem o letreiro com letra apagada, depois da descida longa e da curva onde a estrada abre numa reta de uns 4 km. É ali. Vi ele no acostamento da direita. Homem parado, de pé, virado pra pista, imóvel. Reduzir naturalmente, porque quando você vê alguém na beirada de madrugada, o
primeiro pensamento é pane, é pedestre perdido, é alguém que precisa de ajuda, é automático reduzir. Mas quando o farol alcançou ele de frente, meu pé não foi pro freio, não foi decisão, foi o corpo Decidindo antes da cabeça. Passei e no segundo em que passei, vi o rosto no feixe do farol. ouvi o que devia ser o rosto porque era apagado. Não era escuro, não estava na sombra. O farol estava em cima dele diretamente. Tinha contorno de rosto humano, tinha estrutura de rosto, mas era como foto antiga que foi clareando com o tempo e os
detalhes foram sumindo. Branco onde devia ter nariz, boca, olhos. Continuei andando. Falei para mim que era o ângulo da luz, que era cansaço, que tinha sido uma fração de segundo e meu cérebro tinha preenchido o que não conseguiu processar. Fui embora convencido disso. 8 meses depois, segunda vez, mesmo trecho, mesma hora, mais ou menos. Eu já tinha esquecido ou quase quando entrei naquele trecho e ouvi de novo, no mesmo lugar, na mesma posição, com o mesmo chapéu de aba larga, escuro e amassado que eu nem tinha percebido direito na primeira vez, eu entendi que não
era ilusão. Dessa vez reduzi mais antes de passar. Vi melhor. A roupa era escura, desbotada, de um tipo que eu não soube identificar bem, mas que parecia velha fora de época. O chapéu, como eu disse, e o rosto apagado de novo. Passei de novo. Dessa vez não me convenci de nada. Cheguei em Montes Claros, fiz a entrega, fiquei sentado na cabine no pátio da empresa, olhando pro teto por não sei quanto tempo. Não com medo, preciso deixar claro. Com aquela sensação de quem viu alguma coisa que sabe que é real, mas que não tem gaveta
para guardar. Fiz mais umas 10 viagens no Período seguinte, todas prestando atenção naquele trecho. Ele não apareceu em nenhuma. Comecei a pensar que era de fato coincidência, que era alguma pessoa da região, algum morador com hábito esquisito de ficar no acostamento à noite. Aí veio a terceira vez e na terceira eu parei. Não devia ter parado. Eu sei disso agora, sei muito bem. Mas depois de tanto tempo tentando me convencer de que era uma explicação normal, quando vi ele lá de novo parado no mesmo lugar, me ocorreu que se eu parasse, descesse, fosse ver de
perto, eu encerrava aquela história. Via quem era, via que era uma pessoa, ia embora e pronto. Parei uns 20 m na frente, motor ligado, emergência acesa, peguei a lanterna do porta-luvas, desci, virei pro acostamento. Ele não estava mais lá. Em 2 segundos de parar, ele tinha sumido. E naquele silêncio de estrada de madrugada, que é um silêncio que você consegue ouvir o capim batendo no vento, não tinha nenhum som de passos, nenhum galho quebrando, nada. O mato na beira daquele trecho é fechado. Não dá para entrar sem fazer barulho. Não tem como ter sumido sem
que eu ouvisse alguma coisa. Fui varrendo com a lanterna. Nada. Voltei pro caminhão, subi, fechei a porta, peguei a lanterna para guardar, olhei pro espelho retrovisor interno. Ele estava atrás do caminhão, encostado na carroceria de trás, de frente pro espelho, olhando direto para mim. Eu Travei. Mão no câmbio, trava. Mão no volante, trava. Pé no embreagem, trava. Fiquei assim uns 5 segundos olhando para ele pelo espelho e ele olhando para mim, o rosto apagado, os dois pontos escuros onde devia ter olhos. Larguei tudo e acelerei sem dar ré, sem olhar se vinha a carro, sem
nada. Fui em frente, não parei até Curvelo, que são uns 80 km. E eu não me lembro desses 80 km. Só me lembro de chegar no posto de Curvelo e o frentista bater na janela, perguntando se eu estava bem, porque eu tinha parado no meio do pátio com o motor ainda acelerado. Depois disso, procurei saber. Perguntei para pessoal da empresa que é da região. Ninguém soube de acidente naquele km específico. Um dos caras disse que o pai dele, que fazia a mesma rota antes, tinha mencionado uma vez um homem que ficava no acostamento daquele trecho,
mas não sabia mais do que isso. O pai tinha morrido, não tinha como perguntar mais. A parte mais estranha veio uns três meses depois. Estava num posto em Paraupeba tomando café. Entrei em papo com um caminhoneiro de Pirapora que eu não conhecia. No meio da conversa, ele perguntou: "Ah, sim, de passagem, se eu conhecia o velho do 312." Eu larguei o copo. Ele descreveu exatamente o que eu tinha visto. Chapéu de aba, rosto sem feição, acostamento da direita, naquela reta depois da curva. Ele tinha visto duas vezes. Disse que um amigo tinha parado, achando que
era pedestre. Desceu. A figura não estava mais lá. quando chegou perto. A gente ficou uma hora falando sobre aquilo. Dois homens adultos, dois caminhoneiros de rota pesada tentando entender alguma coisa que nenhum dos dois conseguia [música] encaixar em lugar nenhum. Passo por aquele trecho toda semana ainda. É meu trabalho, não tem como evitar. Ele aparece de vez em quando, sem regularidade que eu consiga identificar. Quando aparece é sempre naquele intervalo entre 2 e 3 da manhã, sempre do lado direito, sempre parado, sempre olhando pra pista. Nunca mais parei. Aprendi a olhar pro espelho logo depois
de passar, antes de ele ter chance de aparecer lá. Não sei se essa lógica faz algum sentido do ponto de vista de como as coisas funcionam, mas é o que eu faço. E enquanto eu faço isso, enquanto eu olho antes que ele possa aparecer lá, ele não aparece, ou pelo menos nunca mais apareceu. Uma coisa eu nunca contei para ninguém, nem pro caminhoneiro de Pirapora. Na terceira vez, naqueles segundos em que fiquei olhando pelo espelho e ele estava atrás do caminhão me olhando de volta, teve um momento em que eu entendi uma coisa. Não foi
pensamento formulado, não foi voz, foi uma certeza que veio de um lugar que não era minha cabeça raciocinando, a certeza de que ele estava procurando alguém, Alguém específico, e que eu não era essa pessoa. Não sei o que fazer com isso. Não sei o que significa. Só sei que naquela noite, travado naquela reta escura, com ele me olhando pelo espelho, essa certeza foi a única coisa que não deixou minha cabeça partir. Pode ser mentira que inventei para aguentar, pode ser verdade. De qualquer jeito, ela está lá e toda semana eu passo por aquele trecho. E
às vezes ele está lá também. Relato 03. A caixa da minha mãe. Minha mãe não era pessoa de muita conversa. criou quatro filhos trabalhando, sem reclamar, sem pedir ajuda, sem deixar a gente entrar em tudo que era dela. Tinha gavetas que a gente não abria, assuntos que ela desviava sem a gente perceber que ela estava desviando. Uma vida inteira antes de ser mãe, que ela nunca contou completamente. A gente respeitava isso, era o jeito dela. Quando ela morreu, no começo de 2019, a gente foi arrumar a casa dela em Diamantina. Quatro filhos, quatro dias. Ela
guardava tudo, minha mãe. Tinha a panela do tempo de minha avó que ela jurava que ia usar um dia. Tinha a carta dos anos 70 dobrada em gaveta. Tinha fotografia de gente que nenhum de nós reconhecia. No terceiro dia arrumando o quarto de despejo, o meu irmão mais velho achou a caixinha. Estava no fundo de uma caixa de papelão maior dentro de um embrulho de jornal muito amarelado, com a data de 1987 ainda legível. Caixinha de madeira Escura, pequenininha, cabia nas duas mãos. Tinha uns entalhes simples na tampa, bem feitos, fechada com um trinco de
metal enferrujado. Nenhum dos quatro tinha visto aquela caixa na vida. Em 40 anos de casa, nunca. E a gente não era de ficar longe da casa da minha mãe. A gente ia com frequência. Conhecíamos cada canto. Aquela caixa parecia ter vindo de outro lugar, de outro tempo. Meu irmão abriu. Dentro tinha um terço de madeira velha enrolado num pano vermelho escuro, quase marrom. O pano estava amarrado com linha preta, com sete nós igualmente espaçados, cada um apertado com uma precisão que era claramente intencional. Não era amarração de qualquer jeito, era feita por alguém que sabia
o que estava fazendo. Junto com o terço dobrado no pano, um pedacinho de papel velho e frágil com dois nomes escritos, o da minha avó materna a Domingas, e outro nome que nenhum de nós reconheceu. Abaixo dos dois nomes, em letra mais pressionada, como se a caneta tivesse querido atravessar o papel. Enquanto este laço existir, o que foi prometido permanece. Ninguém falou por um tempo. Meu irmão quis desfazer os nós. Ele é assim, prático. Resolve. Eu disse que esperasse, mas ele não esperou. Desfez os sete nós um por um, abriu o pano, examinou o terço,
dobrou tudo de volta, colocou na prateleira da sala da minha mãe. Eu fiquei com aquela sensação ruim o dia todo. O mês seguinte foi quando tudo começou. Meu irmão mais velho tinha Uma marcenaria que tocava há 13 anos estável. Clientela fixa nunca tinha tido problema sério. Em 22 dias depois daquilo, perdeu três contratos que estavam fechados. Um fornecedor fugiu com metade de um adiantamento e a mulher dele pediu separação depois de 19 anos de casamento. Não era casamento em crise, era casamento normal, com problemas normais, nada que justificasse a mulher acordar uma manhã e dizer
que não conseguia mais. Ela não soube explicar melhor do que isso. Só disse que tinha acordado assim. Meu irmão do meio trabalhava numa empresa de logística em BH faz 16 anos. supervisor, cargo bom, tinha construído aquilo com muito esforço. No mês seguinte, ao enterro da minha mãe, sem aviso prévio, sem nenhuma advertência de desempenho, foi chamado numa sala e dispensado. Reestruturação, disseram, mas era só ele no setor dele. No mesmo período, bateu o carro num muro de garagem, numa manobra que ele dizia que fazia há anos sem nunca ter problema. Fratura na clavícula, nas costelas,
traumatismo craniano leve. 40 dias hospitalizado. Minha irmã começou a ser acordada toda a madrugada. Não era pesadelo, era uma sensação de peso no colchão, do lado onde o marido não dormia. Uma presença sentada na beirada cama, ela descreveu, e uma sensação de ser olhada de tão perto que ela sentia calor. Uma vez ela acendeu o abajur de supetão. Não viu Nada, mas o peso sumia assim que a luz acendia e voltava um tempo depois que ela apagava. Semanas assim, o marido dela dormia do lado e não sentia nada. Eu não fui afetada. Sou a mais
velha dos quatro. Fui a única que não tocou na caixinha quando o irmão trouxe pra sala. [música] Não abri os nós, não peguei o terço, não li o papel e fui a única que ficou bem. Quando o irmão do meio saiu do hospital, a gente se reuniu pela primeira vez desde o enterro. Ninguém precisou dizer o que estava pensando. Estava escrito na cara de cada um. A minha irmã conhecia alguém, uma colega que tinha passado por situação parecida anos antes e tinha sido ajudada por um homem que ela chamava de curandeiro. Não era benzedeiro de
reza simples, era outra coisa. Ela disse, "Ficava numa cidade menor da região. Fomos eu e minha irmã primeiro. O homem tinha uns 60 e poucos anos, muito calmo, numa fazendinha pequena, longe da cidade. Recebeu a gente na varanda sem cerimônia, com café. Ouviu tudo sem interromper uma vez sequer. Quando minha irmã terminou, ficou em silêncio, olhando pro horizonte por um tempo. Então disse: "Me traz a caixinha. Voltamos dois dias depois com ela. Ele colocou na mesa entre a gente e ficou olhando sem tocar. Então disse que o terço tinha sido amarrado havia muito tempo, que
os nós não eram de alguém que sabe muito, mas de alguém que sabe o suficiente. E que o suficiente, Dependendo do que foi prometido, já é muito. Perguntei o que tinha sido prometido. Ele disse que só pelos nós e pelo pano ele não conseguia saber, mas que o papel dizia que havia um acordo, um acordo entre duas mulheres. Uma delas era minha avó. disse que acordo desse tipo com objeto físico como âncora, em geral é uma das duas coisas. Ou é proteção de alguma coisa que significa que enquanto o laço durar uma coisa fica afastada.
Ou é servidão que significa que enquanto o laço durar uma coisa fica presa. Quando os nós são desfeitos, o que estava [música] suspenso volta. A gente ficou semanas cavando, ligando para parente velho, indo a cartório atrás de documento, conversando com moradores antigos de Diamantina que conheciam a família da minha avó. O que foi saindo pedaço por pedaço era o seguinte. Minha avó Domingas tinha uma inimizade séria nos anos 40. Uma mulher com quem tinha brigado por terra, por limite de terreno, que era o tipo de briga que em Minas de antigamente podia durar gerações. A
outra mulher era conhecida na região como alguém que entendia de coisas. Não era benzedeira, era outra coisa. Coisas aconteceram com a família da minha avó naquele período, doenças, perdas. A época ficou marcada nas memórias dos mais velhos que ainda estavam vivos e que aceitavam falar. Em Algum momento, minha avó foi até alguém buscar ajuda. E esse alguém cobrou um custo que a gente nunca soube exatamente qual era, mas que estava atrelado ao pano vermelho e aos sete nós. Enquanto os nós ficassem intactos, o custo estava suspenso. Quando alguém desfizesse, o custo voltava a ser cobrado.
Minha avó tinha passado para minha mãe com instrução de guardar e nunca abrir. Minha mãe tinha guardado décadas, provavelmente sem entender completamente. só seguindo uma instrução que lhe passaram e guardou até morrer. E nós, sem saber, abrimos. O curandeiro disse que ia tentar refazer, mas que refazer não era igual a nunca ter desfeito. O que foi solto foi solto. O trabalho agora era outro, era contornar. Levou três encontros. envolveu o terço, o pano, a caixinha, ervas, água, rezas em voz baixa. Na terceira sessão, ele disse que estava feito o que era possível fazer. Meu irmão
mais velho está reconstruindo um negócio, lento, mas indo. A mulher não voltou e o curandeiro foi direto quando eu perguntei sobre isso. Nem tudo que se perdeu nesse período foi por causa do trabalho. Parte é vida, parte é o que já estava vindo de alguma forma. A caixinha acelerou, não criou. Minha irmã parou de ser acordada. Meu irmão do meio saiu do hospital, arrumou outro emprego. A caixinha está aqui comigo agora. O Curandeiro disse que não jogue fora, não destrua, não repasse para ninguém. Guarda do mesmo jeito que minha mãe guardou, no fundo de algum
lugar, embrulhada e deixa estar. Às vezes eu fico olhando para ela e pensando enquanto minha mãe sabia que não contou, enquanto minha avó carregou para nos proteger de uma coisa que nem sabíamos que existia. E pensando que agora sou a mais velha e que algum dia vai ser minha vez de guardar alguma coisa sem explicar completamente e esperar que quem vier depois tenha juízo de deixar os nós onde estão. Quando as pessoas me perguntam por eu vendi o sobrado tão rápido, eu digo que a reforma ficou mais cara do que o previsto e que não
compensou manter. É uma resposta que as pessoas aceitam porque faz sentido financeiro e porque a verdade completa é muito mais difícil de dizer sem que a pessoa na sua frente comece a te olhar de um jeito que você não gosta. Mas como você está perguntando de verdade, eu vou contar de verdade. Meu pai comprou o imóvel em 2020. Sobrado colonial antigo encerro, dois andares, janelas de guilhotina, aoalho de madeira que reclamava debaixo dos pés, o tipo de coisa que meu pai ama. Ele que respeita a história das coisas velhas. O preço estava bom, era pandemia
e ele foi em frente. A reforma começou alguns meses depois. Eu e minha irmã estávamos acompanhando de perto. Ficávamos no sobrado durante a semana para facilitar. eram obras de manutenção e modernização só no necessário, Mantendo a estrutura original. No terceiro mês, os peões abrindo uma parede do corredor do segundo andar, que era claramente posterior à construção original, encontraram um espaço vazio atrás, uns 80 cm de profundidade, sem nenhuma função prática aparente. E no fundo desse espaço estava o espelho grande, muito grande para aquele corredor, mas que cabia exatamente como se o espaço tivesse sido construído
para ele. Moldura de madeira dourada com entalhes nos cantos. Vidro levemente amarelado de coisa velha. Nenhuma rachadura, nenhuma mancha. Coberto por um pano preto. Não era pano jogado por cima, era pano costurado nas bordas, com linha grossa, ponto firme, igualmente espaçado na volta toda da moldura. Alguém tinha feito aquilo propositalmente, para que o pano não pudesse cair, não pudesse ser retirado por acidente, para que ficasse, para que ficasse sempre. Meu pai olhou aquilo, disse que era espelho lindo e que ia ficar ótimo no corredor e rasgou o pano na mão. Eu disse que não precisava
abrir naquele dia. Ele me olhou com aquela cara dele de homem prático, que não entende hesitação diante de coisa concreta, e disse que era espelho com pano, que não tinha mistério nenhum. De dia, com a luz do corredor, o espelho era realmente só um espelho. A gente ficou ali admirando a moldura. Meu pai disse que aquilo valia uma fortuna e a vida foi em frente. O que aconteceu à noite foi outro assunto. A gente dormia no primeiro andar numa das peças que já estava em condições. Naquela noite eu Acordei sem motivo aparente. Era passada à
meia-noite. Não foi sonho que me acordou, não foi barulho. Acordei e pronto. Precisei ir ao banheiro que ficava no segundo andar porque era o único que a reforma tinha chegado. Subi as escadas. Corredor do segundo andar escuro, só a claridade que entrava pelas janelas. Passei pelo espelho sem olhar ou sem querer olhar. Fiz o que precisava fazer no banheiro. Na volta, passei pelo espelho de novo e olhei. Não foi decisão. Foi aquele olhar sem querer que você dá para qualquer superfície reflexiva quando passa. Automático. O que o espelho estava mostrando não era o corredor onde
eu estava. era reconhecível como o mesmo lugar, mesma proporção, mesmas janelas, mesma estrutura, mas era o corredor de muito tempo atrás. Tinha tapete comprido no piso, tinha um aparador encostado na parede que não existia mais, tinha uma candelabra com velas acesas, aquela luz quente e inconstante que luz elétrica não imita. Era noite no espelho também, mas noite iluminada à vela. E sentada numa cadeira que não estava mais lá, havia uma mulher de costas para mim, vestida de escuro, cabelos presos no alto da cabeça do jeito antigo, postura reta, não encostada no encosto da cadeira, parada,
não fazendo nada aparente, só sentada, eu parei. O instinto era de que se eu me movesse, alguma coisa mudaria. E eu não sabia se o que mudaria ia ser melhor ou pior que aquilo ali. Então, fiquei parada por um Tempo que não sei quanto foi, olhando pelo canto do olho pro espelho, vendo ela sentada naquele corredor que não era mais o corredor. Aí olhei direto de frente pro vidro, não mais pelo canto. Só tinha o corredor vazio e meu próprio rosto olhando de volta para mim. A mulher só aparecia quando eu olhava de lado. De
frente sumia. Desci. Não dormi mais naquela noite. Contei paraa minha irmã de manhã. Ela me ouviu com aquela expressão dela de quem está sendo racional. Disse que era espelho velho que distorce, que era madrugada, que o cérebro cansado fabrica coisa. No mesmo dia mais tarde, ela estava sozinha no segundo andar, medindo o corredor, e me chamou com uma voz estranha. Quando fui ver, ela estava de frente pro espelho, com uma expressão que eu nunca tinha visto no rosto da minha irmã. que é a mais racional das duas. Ela disse devagar, sem tirar os olhos do
vidro. O meu reflexo estava com a cabeça virada pro lado antes de eu mover a cabeça, só por um segundo, mas estava. Ela não mais falou que era distorção de espelho velho depois daquilo. Meu pai foi ao cartório de cerro buscar documentação histórica do imóvel, como faz com toda a propriedade que compra. Leu os registros que remontavam ao século XIX. veio pro jantar quieto daquele jeito que ele fica quando está processando alguma coisa que Não consegue encaixar. Eu perguntei, ele demorou para responder. Depois disse que tinha encontrado numa enciclopédia de história local que estava na
prateleira do cartório uma fotografia da família que tinha habitado o sobrado no final do século XIX e início do XX. A matriarca da família estava sentada numa cadeira na fotografia, de costas retas, cabelos presos no alto da cabeça do jeito antigo, exatamente como no espelho. Meu pai não disse mais nada sobre isso e eu não perguntei mais nada. Um pesquisador que estudava a história de serro apareceu, soube que tínhamos comprado o sobrado, pediu para visitar, a gente deixou. Homem educado interessado na reforma. Quando chegou no corredor do segundo andar e viu o espelho, ele parou.
ficou olhando por um tempo. [música] Então disse que conhecia aquele espelho por referência em cartas da família que tinha vivido ali. Havia uma correspondência preservada num arquivo da cidade em que a matriarca escrevia para uma irmã e numa das cartas mencionava o espelho. Dizia que tinha mandado colocá-lo em 1891, que tinha custado muito e que depois de um certo evento, que ela não detalhava na carta, tinha mandado cobrir porque tinha visto no espelho o que não deveria ser visto. Uma filha que herdou a casa décadas depois escreveu também perguntando à irmã o que havia naquele
espelho, dizendo que tinha tentado manter coberto como a mãe mandava, mas que o pano original tinha sumido numa reforma e ela não conseguia localizar. O pesquisador olhou pro espelho Descoberto, olhou para nós e disse com muito cuidado que achava que deveríamos cobri-lo de volta. Perguntamos por quê. Ele ficou em silêncio por um momento, escolhendo as palavras como quem não quer ser impreciso. Disse que a família que morou ali tinha histórico de eventos incomuns, sempre ligados ao corredor do segundo andar, sempre ligados ao espelho e que quando o espelho estava coberto, os eventos cessavam. Não soube
dizer mais do que isso. Depois que ele foi embora, meu pai mandou colocar a iluminação direta forte no corredor do segundo andar, sem sombra, sem nenhum canto de escuro. A reforma terminou. O sobrado ficou lindo. Ficamos três meses tentando usá-lo normalmente, mas toda noite que a gente dormia ali, aquele corredor do segundo andar ficava lá em cima e a gente sabia que estava. E nenhum de nós ia ao segundo andar depois das 10 da noite, sem uma razão muito concreta e urgente. E mesmo com a iluminação forte que meu pai tinha colocado exatamente para isso,
o espelho continuava lá. E mesmo com a luz direta, havia um jeito de passar por ele sem olhar de frente, um jeito de andar levemente virado pro outro lado, que a gente começou a fazer automaticamente, sem combinar, sem falar. A gente simplesmente foi adotando aquele jeito de passar pelo corredor levemente de lado, sem olhar diretamente pro vidro. Meu pai vendeu seis meses depois da reforma terminar. Quando o comprador veio visitar, no segundo andar, parou Diante do espelho e disse que era magnífico, que era peça rara, que não dava para imaginar retirar aquilo do lugar. Meu
pai concordou e não disse nada. O sobrado foi vendido com o espelho incluído. Estava no contrato, estava no inventário. Espelho de moldura dourada, século XIX, localizado no corredor do segundo andar. Não sei o que aconteceu com o comprador depois. Não perguntei. Não quero saber. Só sei que a única coisa que eu precisaria dizer a ele, se eu pudesse, é uma coisa simples, curta, que vai soar ridícula até o momento em que não vai mais. Nunca olhe pro espelho pelo canto do olho. Olhe de frente, sempre de frente. Ou não olhe. Não deixe ela ver que
você está olhando de lado.