Esse vídeo não tem roteiro e isso me deixa muito desconfortável, mas é justamente por me deixar desconfortável que hoje eu tô aqui gravando um vídeo sem roteiro. Eu sou uma pessoa que precisa de roteiros e eu não tô falando só de vídeo, eu tô falando da vida mesmo. E essa é uma característica que eu tenho desde não só da adolescência, mas desde a infância mesmo.
Eu acho que eu não consigo me lembrar de uma época da minha vida em que eu não fosse assim. Quando eu precisava comprar pão na padaria, por exemplo, durante o caminho, eu já ficava imaginando o que eu faria. Eu fazia o trajeto na minha cabeça, sabe?
Eu andava ali na minha cabeça, eu ia até o balcão, eu falava: "Oi, tudo bem? Bom dia, eu gostaria de cinco pães, por favor, muito obrigada. " Na minha infância e na minha adolescência, a gente não tinha aplicativos para pedir comida, então a gente precisava ligar para um estabelecimento para pedir uma pizza.
Quando essa tarefa ficava sob minha responsabilidade, eu me trancava no meu quarto, porque eu não queria que ninguém me ouvisse falar no telefone e eu ficava uns 15 minutos ensaiando. Oi, boa noite. Eu gostaria de uma pizza grande, metade brócolis, metade marguerita.
Às vezes eu até anotava num papel, gente, o que eu precisava falar, que era para eu não ficar nervosa, para eu não me perder, para eu não me confundir. Outra ocasião social que me deixava ansiosa era aniversário, porque eu ficava pensando, como é que eu vou fazer? Eu vou chegar lá com o presente, aí eu abraço a pessoa, eu falo: "Feliz aniversário, eu dou presente.
Aí eu espero a pessoa abrir o presente ou eu dou presente e saio, vou comer um negocinho, deixa a pessoa abrir o presente sozinha. E se ela abrir o presente na minha frente, o que que eu vou falar? falar: "Ah, eu imaginei que você ia gostar.
Eu olhei isso daqui e achei a sua cara. Se fosse meu aniversário, eu acho que eu ficava ainda mais ansiosa e eu gostava do meu aniversário. Mas a questão era o que eu deveria fazer quando as pessoas chegassem.
A pessoa chega e aí eu abraço e eu falo: "Seja bem-vinda. Eu espero, eu espero que você goste da minha festa. Ou será que não digo nada?
Só doi e é isso. Recebo o presente. Gente, o presente sempre foi uma questão para mim.
Eu ficava pensando o que que eu faço com esse presente? Eu pego o presente, eu agradeço, eu abro na frente da pessoa, eu abro depois. E aí, se eu abrir na frente da pessoa, como que eu vou deixar claro que eu gostei do presente?
Será que eu vou conseguir demonstrar que eu gostei? E se eu não gostei, o que que eu faço? Como é que eu vou mentir e dizer: "Nossa, era exatamente o que eu queria?
" Enfim, era um pouco cansativo porque eu ficava pensando e planejando a minha vida na minha cabeça. E quando as coisas fugiam do meu roteiro, isso me causava um desconforto. Ainda me causa um desconforto, na verdade, mas um pouco menos.
Hoje eu já trabalhei bastante essas questões, até porque tudo saía do meu roteiro, né, gente? A vida não é um filme, as pessoas não são personagens que vivem ali dentro da minha cabeça. Agora eu desenvolvi habilidades e ferramentas sociais porque a vida obriga a gente a fazer isso.
Eu fiz faculdade, eu fiz mestrado, eu fui em vários eventos acadêmicos e apresentei trabalhos e eu tive que fazer coisas da vida adulta, né? Eu resolvi burocracias e aí vai em banco e enfim, tanta coisa que falar no telefone para pedir uma pizza se tornou muito fácil. E tem o meu trabalho na internet também.
Eu acho que esse meu trabalho me obrigou a desenvolver ferramentas de comunicação, de socialização, porque ele me tirou muito da minha zona de conforto. Eu ficava muito nervosa quando eu ia gravar um vídeo, principalmente com outras pessoas, quando eu ia fazer uma live, quando eu dava uma entrevista. Eu acho que é até bem perceptível se vocês forem dar uma olhada nos meus vídeos antigos, uma coisa que eu não recomendo, mas enfim, se vocês tiverem curiosidade, é, é perceptível.
é visível que eu tava muito nervosa naquelas situações, só que eu ainda fico muito ansiosa. Eu acho que eu só aprendi a disfarçar, masarar e eu tô mais acostumada também. Eu entrevistei a Heile Kyoko na Bienal do Livro de São Paulo em 2024 e eu tava passando mal no palco, gente.
Eu acho que não dá para perceber, mas eu achei que eu não ia conseguir passar por aquela situação. Eu ficava pensando, tá, onde é que por onde que eu posso sair aqui se eu estiver realmente passando mal? Mas eu consegui, eu eu entrevistei a Helioko do começo ao fim.
Eu já participei de podcasts, eu dei entrevistas, eu eu falei em público, eu dei palestras, sei lá, eu fiz tanta coisa que quando eu olho a lui, a criança indo pra padaria nervosa, pensando como é que ela vai pedir pão, eu nem acredito, sabe? Eu nem acredito que eu cheguei até aqui, mas eu acho que eu paguei um preço por isso, porque como todas essas situações são muito difíceis e elas me colocam num nível de estress absurdo, eu fui desenvolvendo ansiedade, fobia social, agora fobia. É mais fácil pensar o que que eu não tenho.
Mas pelo menos agora eu não fico mais pensando o que que eu vou falar quando eu for numa padaria, quando eu for num restaurante ou se eu precisar fazer uma ligação para resolver um problema. Tudo isso já é natural para mim, mas às vezes eu ainda me pego escrevendo roteiros mentais em situações que não fazem sentido. Nem eu sei porque eu tô fazendo aquilo.
Eu vou dar um exemplo recente, que foi o que me motivou a gravar esse vídeo. Inclusive, eu tenho uma grande amiga da época da faculdade ainda. Eu tinha 17 anos quando a gente se conheceu, a Rafa.
Rafa, se você tiver vendo esse vídeo, um beijo pr você. E a Rafa não mora no Brasil já faz um tempo, mas todo ano ela vem fazer uma visita. e ela veio agora no começo de 2026.
Eu me sinto extremamente confortável com a Rafa. Ela é uma das minhas melhores amigas. Eu não não fico ansiosa para encontrar a Rafa.
Mas mesmo assim eu tava no banho me arrumando pro nosso encontro e de repente eu me peguei fazendo um roteiro na minha cabeça. Eu não sei por, mas eu comecei a pensar, eu vou chegar no café, provavelmente vou chegar mais cedo porque eu moro mais perto. Aí eu vou ficar ali fora esperando.
Quando a Rafa chegar eu vou levantar, eu vou dar um abraço e vou perguntar como é que foi a viagem. Eu também posso perguntar se ela conseguiu aproveitar o mar, se ela já conseguiu matar a saudade e aí depois a gente vai subir e vai pegar uma mesa. Será que a gente pede a comida ou a gente conversa mais um pouco?
E aí eu fiquei elencando assuntos na minha cabeça que eu poderia abordar com ela na nossa conversa, o que não faz absolutamente nenhum sentido, porque a Rafa é uma das minhas melhores amigas. A gente a gente tem muito assunto. Eu eu podia simplesmente chegar e deixar a vida acontecer.
Só que escrever roteiros na minha cabeça se tornou uma atividade muito natural e eu nem acho que isso seja necessariamente um problema. Foi uma ferramenta que eu desenvolvi para viver melhor num mundo cheio de obrigações e cheio de interações sociais. E quando eu decidi falar sobre esse assunto, eu me peguei escrevendo um roteiro.
E aí eu fiquei pensando, eu realmente vou escrever um roteiro sobre a minha necessidade de escrever roteiros? Será que eu não posso simplesmente sentar e falar? Só que eu odiei essa ideia.
Eu tô aqui sentada e falando, mas eu já escrevi esse roteiro mentalmente tantas vezes que talvez eu tivesse me cansado menos se eu tivesse escrito num papel. Eu até escrevi alguns tópicos que eu queria levantar nesse vídeo, porque eu achei que eu não fosse conseguir me expressar de forma espontânea. Eu achei que ia ficar horrível.
Eu eu achei que eu ia falar nada com nada e talvez realmente eu esteja falando nada com nada. Talvez eu edite esse vídeo e eu pense que foi um erro, que que eu não vou nem postar esse vídeo. Vai que eu não posto esse vídeo.
Talvez você nunca veja esse vídeo. Ou talvez eu odeio esse vídeo, mas eu poste mesmo assim, porque a vida acontece na espontaneidade e eu quero aprender a gostar mais da minha versão espontânea. Eu não tô falando que eu vou gravar todos os meus vídeos sem roteiro, gente.
Deus me livre. Eu eu não tenho essa capacidade e eu eu nem quero fazer isso também. Até porque nesses casos eu acho que faz sentido escrever um roteiro.
Eu não teria capacidade de sentar aqui e fazer uma análise da última série que eu assisti. Quer dizer, eu até conseguiria, mas seria uma conversa muito mais espontânea, muito mais informal. Talvez.
Eu acho que eu esqueceria vários pontos importantes. Eu eu não não teria a precisão de informações que geralmente eu tenho porque eu fiz pesquisas, porque eu escrevi um roteiro. E eu acho que talvez esse seja até um ponto positivo, porque eu escrevi tanto roteiro na minha vida desde que eu sou criança, que eu me tornei uma boa roteirista.
Modéstia parte, eu acho que eu consigo escrever um roteiro. E escrever também me ajuda a organizar a minha cabeça, que é um caos, gente, mesmo escrevendo, ela é um caos. assim, eu preciso de estratégias para organizar os meus pensamentos.
Só que eu gostaria de ser mais espontânea em algumas situações, porque eu não preciso planejar a minha vida inteira. Eu não, eu não preciso ficar pensando no que que eu vou fazer, do que que eu vou falar quando eu for encontrar amigos, quando eu for para uma festa, quando, sei lá, quando eu tiver vivendo, entendeu? A vida não exige um planejamento o tempo inteiro.
Eu quero conseguir tomar uma decisão sem ficar um mês pensando sobre esse assunto, martelando aquilo ali na minha cabeça e sofrendo por antecedência. Eu quero ter mais flexibilidade para lidar com as mudanças, porque tudo bem, eu posso escrever um roteiro, isso vai me ajudar, mas nada vai sair exatamente como eu planejei. Eu acho que eu tô melhor nesse sentido.
Eu acho que hoje eu consigo viver de forma mais espontânea, mas mais importante do que isso, eu acho que eu eu consegui encontrar um equilíbrio, porque antes, apesar de ter mais necessidade de planejamento e controle, eu tinha muita dificuldade de estabelecer limites. E aí, ao longo da vida, eu me envolvi com algumas pessoas que eram oposto de mim, pelo menos nesse sentido. Eu vou dar um exemplo de algo que aconteceu há muito tempo, mas eu tinha um relacionamento e aí essa pessoa me ligou dizendo que tinha conseguido um ingresso para um show internacional que ia acontecer em São Paulo no dia seguinte e que era para eu comprar passagem, arrumar mala, porque a gente ia viajar.
Eu eu não fui, apesar de ter dificuldade de estabelecer limites, isso gera demais para mim. Eu eu preciso de uma organização financeira. Eu preciso saber como eu vou, para onde eu vou, onde eu vou ficar.
Eu preciso de um tempo para me planejar. A questão é que eu gostaria que esse tempo fosse um pouco mais curto. Um dia não, nunca vai ser.
Eu nunca vou ser a pessoa que decide algo muito importante de um dia para outro. Eu vou dar outro exemplo e eu vou continuar falando sobre show, que que é para ser um contraponto do que eu tô falando. Ano passado o Roser veio pro Brasil e eu queria muito ir nesse show, mas eu tava com problemas financeiros, gente.
Eu já eu já falei que depois do pito a minha vida ficou bem complicada, só que eu queria muito nesse show porque o Roser é um dos meus artistas preferidos. E aí eu fiquei elaborando essa ideia durante um tempo e faltando duas semanas pro show, eu decidi ir. E eu fiquei impressionada comigo, porque duas semanas é pouco para mim.
duas semanas para eu me organizar, para fazer uma viagem, para gastar um dinheiro. Eu fiquei orgulhosa de mim e eu fui e foi uma ótima experiência. Encontrar esse equilíbrio e viver de uma forma um pouco mais espontânea me deixou mais disposta, gente.
Quem diria que eu ficava muito cansada por pensar demais. Além de ser cansativo, eu percebi que a minha versão espontânea não é tão ruim assim. Antes eu só gravava com roteiro e eu escrevi absolutamente tudo que eu ia falar, desde o alô gente até o abracinho vocês.
Eu ainda faço isso em vários vídeos, mas eu comecei a gravar reacts e reaction não tem roteiro, não tem como ter roteiro porque eu eu assisto alguma coisa e eu faço comentários na hora do que eu tô assistindo. Eu percebi que as as pessoas gostaram, elas não reclamaram pelo menos e eu comecei a me divertir mais. Agora eu também tô fazendo lives.
E no começo era horrível, gente, porque eu achava que eu tinha que roteirizar essas lives. Eu tava tomando banho para me arrumar antes da live e eu ficava pensando, tá? Eu vou abrir e aí eu vou falar: "Oi, gente, tudo bem?
Como é que vocês estão nessa quarta-feira? Tá chovendo aqui em Floripa? Como é que tá na cidade de vocês?
Hoje a gente vai assistir ao quinto episódio dessa série aqui. Mas ficava horrível. Ficava horrível porque eu ficava travada e eu achava que eu precisava seguir aquela linha de raciocínio que eu tinha pré-estabelecido lá no banho e não ficava legal.
Em live você tem que ser 100% espontâneo, porque o formato exige. E eu percebi que isso me deixou menos cansada. Eu posso ficar 3, 4, 5, 6 horas numa live e eu vou ficar exausta, óbvio, mas eu não vou ficar esgotada.
Eu acho que isso acontece porque ser espontânea deixa a gente menos cansada, porque a gente não tá pensando no que que a gente tem que falar. A gente não tá medindo as nossas palavras. A gente não tá preocupada em seguir um roteiro pré-definido.
A gente também não não tá assim noiada pensando que vai falar uma palavra errada, vai gaguejar. Eu devo estar gaguejando um monte aqui. Eu nem sei o que eu falei.
Eu não sei o que eu falei nesse vídeo, mas tudo bem. Eu tô seguindo, talvez tenha uma linha de raciocínio. Eu espero que sim.
Então, o que eu tô tentando fazer agora é entender as minhas necessidades reais. Em algumas situações, eu sei que eu preciso escrever um roteiro, seja para me deixar mais segura, mais preparada emocionalmente, menos ansiosa, seja para criar um conteúdo, não é um conteúdo melhor, é um conteúdo, um conteúdo que exige um roteiro, é isso. E em outros momentos, principalmente no meu dia a dia, eu quero viver de forma espontânea.
Eu quero viver mais e pensar menos. Eu não acho que seja fácil para uma pessoa como que escreve roteiros mentais desde a infância, mas eu quero testar, eu quero desenvolver essa habilidade. E é por isso que eu tô aqui hoje gravando um vídeo sem roteiro.
Eu não sei quanto tempo deu esse vídeo, eu não sei o que eu falei, eu não sei se ficou bom. Eu não sei se eu vou gostar desse vídeo. Eu não sei nem se eu vou postar esse vídeo.
Ou talvez eu goste. Talvez eu esteja inaugurando um quadro novo aqui no canal, um pensando pensamentos sem roteiro e falando várias coisas que eu espero que façam sentido para você. Eu nem sei se fez sentido para mim, mas se fez algum sentido para você, eu fico feliz.
E a gente se vê no próximo vídeo. Abracinho vocês. Beijo.